Rebirth
4 O ataque a caminho do vilarejo.
Notas iniciais
Duas semanas haviam se passado praticamente, desde a minha transformação. O sol estava se pondo no horizonte, de olhos fechados, eu aguçava a minha audição sobrenatural, atento a qualquer movimento suspeito. Um zumbido através do ar eu consegui escutar com clareza, meus dedos frios envolveram-se em algo longo e cilíndrico, antes que me atingisse.
— Você está ficando bom nisso, Ab. – disse Diane orgulhosa.
Minhas pálpebras se abriram, em uma das mãos, eu segurava uma estaca feita de madeira. Esbocei em seguida, um sorriso nos lábios ao ouvir o elogio de Diane. A mesma estaria com a mão erguida, pois, lançara a estaca em minha direção com um feitiço.
Nós nos encontrávamos próximos ao campo com aquela planta misteriosa, que eu não sabia o nome ainda. Curioso, resolvi perguntar.
— Di, esta plantação... Seria do que? Não teve uma reação muito boa ao entrar em contato com a pele da vampira que me atacou, há duas semanas atrás.
— Pode tocá-la, Ab. E ao descobrir, falarei o que é esta erva.– respondeu-me ela com um sorriso malicioso nos lábios.
— Erva? – indaguei confuso.
Sem hesitar, andei até o campo das plantas e ajoelhei-me contra as mesmas. Com o dedo indicador, toquei-a levemente. Pensei que nada me aconteceria mas, fui surpreendido por uma dor terrível, a planta inofensiva me queimou como fogo. Frustrado, recolhi meu dedo, a dor sumia instantaneamente. Sim, esse era um dos meus novos dons, eu me curava rapidamente.
— O que diabos é isso?
— Isto, meu caro caçador... Se chama Verbena. – começou ela. – Esta erva é letal para vampiros, ela os queima e os enfraquece, mas você pode se tornar resistente a ela.
— Como? – Eu quis saber.
— Você terá de descobrir com o tempo, meu caro. – respondeu ela secamente.
Atravessei o campo de verbena, adentrei a cabana da mesma, já que não estava mais com as tábuas pregadas nas janelas e nas portas. Eu meio que comecei a frequentar mais a cabana de Diane, pois, ela que me proporcionou esta nova vida, e nós éramos grandes amigos.
A mesma veio atrás de mim em seguida, com um leve movimento da mão, a porta se fechou. Eu adorava quando ela demonstrava o seu dom. Mas, ela devia tomar cuidado, pois foi avisado há uma semana atrás, que aquele que praticasse bruxaria, seria executado brutalmente. A bruxa retirou sua adaga do cinto, apanhou uma taça de latão, e com a lâmina realizou um pequeno corte em seu pulso.
O sangue que escorria do ferimento da mesma, encheu menos da metade da taça. Ao sentir o cheiro familiar do fluído avermelhado, minhas escleras escureciam, tornando-se avermelhadas, juntamente do par de veias abaixo dos olhos. Sinto minhas presas longas e afiadas retraírem involuntariamente. Com um pano, a jovem moça enrolou seu pulso, com o intuito de estancar o sangramento.
Em seguida, descruzei meus braços, afastei-me da parede, e andei em direção a taça que estaria em cima da mesa. Prometi a mim mesmo que eu não machucaria ninguém, ao menos que fosse necessário, por exemplo me defender e etc. Envolvi meus dedos na taça, elevando-a até meus lábios entreabrindo-os. Ao sentir o sangue descendo pela minha garganta, juntamente do gosto, sinto cada parte do meu corpo revigorando-se, e meu rosto normalizou-se e minhas presas reduziram-se.
— Sabe... Você me prometeu, antes de me transformar, que iria me contar sobre a sua origem. – falei ao depositar a taça vazia em cima da mesa.
Diane terminou de amarrar o pano ensanguentado no pulso, fitou-me com seus olhos esverdeados e concordou com a cabeça. Ela respirou profundamente, andou em direção a uma das cadeiras de madeira, e logo se acomodou.
— Há muitos e muitos anos atrás... – começou a bruxa.
No decorrer da história que ela contava, em meu subconsciente eu via uma garotinha de seus seis anos de idade, seus cabelos eram castanhos claros e desciam até os ombros. Ela tinhas os mesmos olhos desafiadores de Diane, suas maçãs do rosto eram bastante coradas e ao seu redor, um pequeno vilarejo se estendia. Seguidamente, uma mulher similar a Diane, deduzi que fosse sua mãe, apareceu à porta de uma das cabanas.
A menininha ao ver sua mãe, correu para os braços dela. Ambas pareciam muito felizes, até que chegou um homem de cabelos longos e loiros, ele fitou as duas e sorriu junto delas. Próximo de ambos, um incêndio se iniciou. O pai de Diane, ao ver, ordenou para que elas fugissem, mas sua mãe negou e pediu para Diane fugir, a mesma começou a chorar, e a mãe pediu para ela ser forte.
Sem hesitar, a pequenina começou a correr para longe, mas ao olhar pra trás viu que o fogo estava se alastrando, e continuou a correr. Após alguns instantes em movimento, Diane parou para recuperar o fôlego e se deu conta de que havia chegado em uma floresta, e no local encontrava-se uma cabana, familiar. Os olhos da menininha estavam assustados, até que uma mulher de cabelos grisalhos saiu da cabana, e foi de encontro a garotinha.
Ao vê-la, Diane começou a chorar intensamente, a mulher pegou-a no colo em forma de consolá-la e a acalmou. A voz de Diane foi cessando, informando que a história sobre a sua origem estava chegando ao fim. Voltei a realidade, minhas íris azuladas focalizaram a jovem Diane, eu me sentia atordoado por conta da história que eu havia escutado.
— Sinto muito por seus pais... – foi a única coisa que eu consegui dizer.
— Tudo bem... Eles morreram tentando me proteger, e conseguiram. – respondeu ela.
— Quem... Quem era aquela mulher de cabelos grisalhos que você encontrou? – eu perguntei ainda atordoado.
— Aquela, foi uma mulher chamada Abigail. E ela me tratou como sua filha... – disse Diane suavemente.
Eu me sentia exausto, e não precisava mais dormir, mas fazia me sentir um pouco humano. No chão próximo a cama dela, encontrava-se um amontoado de peles de animais, que servia como uma cama improvisada. Não tinha para onde eu ir, minha família havia sido morta brutalmente. Então, Diane me ofereceu para morar com ela, até tudo se resolver, e eu arranjar algo para fazer.
Ajoelhei no amontoado de peles, me acomodei, era macio pelo menos. Depositei minha cabeça em um travesseiro improvisado e fechei meus olhos. Minha respiração manteve-se tranquila. Com a minha audição aguçada, eu conseguia escutar a respiração também tranquila da bruxa Diane. Seu rosto era angelical, seus olhos moviam-se contra as pálpebras, ela devia estar sonhando.
Levantei-me um pouco da minha “cama”, estendi minha mão sestra e depositei-a na da mesma e fechei meus olhos. Descobri então, que eu podia entrar na mente das pessoas, e ver os seus sonhos. E lá estava a jovem Diane, junto de seus pais, porém vivos. Não pude deixar de conter um sorriso ao vê-la feliz. A moça gargalhava enquanto corria pelo antigo vilarejo onde crescera, atrás dela seus pais a perseguiam.
Ela estava feliz no sonho e eu não podia estragar aquilo, retirei minha mão em seguida. Deitei-me novamente, e o que eu tinha que fazer era esperar o dia amanhecer.
***
Os pássaros cantavam alegremente, informando-me que o dia estava amanhecendo. Afastei o cobertor de peles para o lado. Impulsionei minhas mãos contra os tecidos, levantando-me. Notei que a moça dormia tranquilamente. Como cavalheiro, eu achei que devia preparar algo para ela comer ao acordar. Com cuidado, empurrei a porta e saí. Inspirei e expirei o ar matinal.
— Ab? – chamou a voz de Diane próxima de mim.
Girei nos calcanhares posicionando-me de frente para ela. Sorri ao vê-la.
— Onde você vai? – perguntou ela interessada.
— Eu ia comprar algo para comermos. – respondi apressadamente.
— Vou com você, espere um segundo. – e voltou para o interior da cabana.
Depois de alguns segundos ela voltou. Diane usava um vestido azulado com detalhes dourados, seus cabelos castanhos claros estavam amarrados em uma trança que descia pelas costas. Um suspiro eu dei ao vê-la, ela estava muito bonita.
— Mi lady... – falei ao estender meu braço para ela.
A mesma sorriu levemente ao ver a minha ação. Envolveu sua mão em meu bíceps, e juntos seguimos pela trilha que levava ao vilarejo do reino. Quase no final da trilha, um grito alto era escutado. Retirei meu braço da mão de Diane, parei-me e utilizei minha audição aguçada. Consegui então, ouvir uma voz feminina e ela suplicava.
— P-por favor, me deixe em paz... – dizia a voz apavorada.
— Ab? Tudo bem? – perguntou Diane ao ver meu cenho franzido.
Movimentei-me para o lado usufruindo da minha velocidade anormal, tudo ao meu redor passava depressa em apenas um borrão esverdeado. Eu continuava a escutar a mulher suplicando, até que finalmente cheguei ao local de origem dos gritos.
Dois homens estavam de frente para uma moça, ela devia ter seus dezessete anos de idade. Um dos agressores empunhava uma a adaga de bronze, e havia sangue em sua lâmina. O cheiro familiar do sangue adentrou em minhas narinas, em seguida, minha escleras tornaram-se escarlates, veias abaixo dos olhos saltavam.
— Deixem ela em paz! – gritei em plenos pulmões.
Os dois agressores viraram-se para mim, e ao ver o meu rosto vampírico, arregalaram os olhos assustados. Com a minha velocidade anormal, parti para cima do mesmo em apenas um borrão negro. Elevei minhas mãos ao ar, logo agarrando suas vestimentas. Com minhas presas longas e afiadas cravei-as em seu pescoço, o mesmo soltara um grito de dor. Com um movimento brusco, e ao utilizar minha força anormal, a cabeça do mesmo era arrancada do pescoço.
A moça soltou um grito de pavor ao ver tudo aquilo. Larguei o corpo do mesmo no chão, sua cabeça rolara para o lado. Com meus sentidos aguçados, escutei o outro vindo em minha direção, fui em direção ao mesmo com a minha velocidade superior a dele. Cerrei meu punho, com a minha força vampírica, perfurei seu peito violentamente. Meus dedos frios tocaram em algo viscoso, logo percebi que se tratava de seu coração.
O homem me fitava com os olhos arregalados de medo. Com um movimento rápido, o órgão vital do mesmo era arrancado de seu peito, levando-o a óbito. O coração dele pulsava em minha mão, porém logo parou. Larguei-o no chão e fui de encontro a moça. O cheiro do fluído avermelhado que eu sentira, era dela. Um corte profundo na sua barriga via-se.
— M-me ajude... – falou ela me agarrando pela camisa de algodão, sujando-a de sangue.
Eu não fazia a mínima ideia de como eu poderia salvá-la. Em pleno desespero, escutei passos que se aproximavam, virei-me para a pessoa que se aproximara, meu rosto ainda estava totalmente vampírico, mas normalizou-se ao ver que era a Diane.
— Dê o seu sangue a ela, Ab... – falou a bruxa com calma.
Sem hesitar, elevei meu pulso aos lábios entreabrindo-os, cravei meus dentes do mesmo mordendo-o com força. Meu sangue começou a sair, depositei o ferimento na boca da mesma, para que ela bebesse. A moça começou a beber o sangue mágico que saía do meu pulso. Retirei-o da boca dela, esperando que algo acontecesse, mas ela estava muito fraca, seus lábios estavam arroxeados ao redor.
A mesma encontrava-se em meus braços, uma ultima lágrima escorreu de seus olhos, até que sua mão pendeu para o lado, e seus olhos tornaram-se apagados.
— Mi lady? – chamei com voz de choro.
Peguei-a no colo, avisei para Diane que a levaria para nossa cabana, a bruxa confirmou com a cabeça. Sumi em apenas um borrão, seguindo para o local dito.
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