Rebirth

1 Episódio 1: Pallor Mortis


Notas iniciais
Pallor Mortis é o primeiro dos seis estágios da morte. Consiste no empalidecimento da pele logo após o óbito do indivíduo. - Fonte: Wikipédia (adaptado)

Estados Unidos, dias atuais.

Já era tarde da noite quando o jovem Elliot Turner saiu da faculdade. Havia ficado até àquela hora devido a um trabalho cujo ele preferira concluir na biblioteca da instituição. Após vagar por alguns minutos pelo estacionamento escuro daquele local, finalmente achou sua velha moto. Tão logo ele fez o capacete cobrir seus cabelos ruivos e o seu corpo magro e esguio subir no veículo. Enquanto lutava, enterrando o seu pé naquele pedal imundo para que o motor funcionasse, Elliot começou a sentir os primeiros respingos vindos do céu. Como previu sua mãe ao olhar as nuvens na manhã daquele mesmo dia, choveria forte.

†

Perto dali, um caminhoneiro lutava bravamente contra o seu sono. Já havia muito tempo que ele não grudava os olhos e dormir, naquele momento, para ele, seria um dos maiores luxos que ele poderia ter na sua vida.

Mas ele não podia.

Tinha uma carga para entregar, e precisava ser naquela noite. E naquela noite ele desejava a Deus, queria regressar, voltar para sua casa. Seu lar, ao lado de sua família, que era apenas sua esposa grávida que precisava de toda atenção e assistência do marido.

Ele, porém, precisava se ausentar, trabalhar e ganhar algum dinheiro.

O jovem caminhoneiro já sonhava que o filho que ainda se encontrava no ventre de sua esposa fosse um grande advogado, médico ou engenheiro. E o trabalho árduo, somente, poderia trazer um futuro tão promissor ao seu tão amado primogênito que estava a caminho.

Os olhos dele estavam pesados. Ele via a estrada como se fosse cordas de violão, que quando dedilhadas estremeciam. Ela, fruto da sua renda, agora parecia ser a sua inimiga naquele momento e era como se cada quilômetro rodado gerasse mais cinco a sua frente.

Ele viu uma imagem estranha. Era um homem no meio da estrada, estendendo a mão, pedindo ajuda. Magro, careca, franzino. Roupas de mendigo. Parecia ter fome. Parecia que se um vento forte fizesse, o quebraria em duas partes. E que Deus lhe perdoasse, mas não pararia o caminhão por nada.

Mas o mendigo se jogou na frente do caminhão e o motorista freou rispidamente. Por pouco não atropelava aquele que parecia um trapo de gente.

— Tá maluco, moço? Quer morrer?! — exclamou o caminhoneiro, após apertar a buzina.

O mendigo careca por fim levantou a cabeça, com dificuldades. Sua pele era pálida e a luz dos faróis do veículo a sua frente dava um grande destaque aquela palidez. Ele realmente estava fraco, pois mexeu a boca, balbuciando algumas palavras soltas antes de falar:

— Estou com frio. Me ajude!

Desmaiou.

O jovem caminhoneiro, sem ter o que fazer, desceu do seu veículo, pegou o homem que outrora estivera jogado no chão e o arrastou até o banco do carona. A vida daquele mendigo faminto e sedento estava em suas mãos.

Trovejava.

Ameaçava chover.

Os primeiros respingos começaram a cair.

E as desgraças, normalmente, acontecem em noites de chuva.

†

Elliot Turner enterrou o pé mais uma vez no pedal da moto e finalmente o motor pegou. Tentou se apressar um pouco para não pegar a pista molhada, mas foi em vão. A chuva engrossava a cada segundo, mas o rapaz resolveu mesmo assim acelerar, pois tinha um compromisso muito importante naquela noite: pediria Jessica, sua namorada, em casamento. O rapaz sentia claramente os pneus de sua moto deslizar sobre o asfalto molhado, sendo que, em meio àquela verdadeira tempestade que acabava de se formar, era quase impossível um indivíduo trafegar por ali. Viu então os faróis de um caminhão vindo na contramão quando tentou fazer uma curva e sua moto simplesmente caiu na pista, deslizando e fazendo com que ele saltasse dela, por um impulso. O caminhão continuou vindo e a última coisa que o rapaz se lembra a partir dali foi o grande choque que sentiu na hora do atropelamento.

†

Quando Elliot Turner abriu os olhos, sentiu que estava deitado em uma espécie de maca de hospital e com um lençol branco cobrindo todo o seu corpo e o seu rosto. Tentou mexer o braço direito para tirar aquele pano de cima de si mesmo, mas simplesmente não conseguiu. Virou o rosto com dificuldade para o lado direito e se assustou quando viu que simplesmente seu braço não estava ali. “O que está acontecendo? Onde eu estou?”, pensou quando usou o braço esquerdo – o único que lhe sobrara — para finalmente se livrar do lençol. Sentou-se em cima da maca e percebeu que estava sem as suas roupas. Olhou para o lado e viu que seu braço direito, que outrora havia sido mutilado de seu corpo, estava em uma bandeja em cima de uma mesa. Ao seu lado, também havia dois corpos: um homem de meia idade de aparência humilde e outro homem, que estava acabado, não por causa do acidente, mas talvez pela vida. Era um corpo magro, careca, talvez fraco em vida.

Ainda aturdido, Elliot desceu da maca e foi de encontro ao seu braço. Enquanto andava, estalou rapidamente os ossos, colocando todos de volta em suas devidas posições. Percebia-se também que alguns ferimentos seus que antes estavam abertos começavam a fechar feito mágica. Com a mão esquerda, o rapaz segurou o braço mutilado e o levou de encontro ao lugar que sempre pertencia: seu corpo. Em poucos segundos Elliot estava novo em folha, como se nada tivesse acontecido. Era como se fosse um boneco, que havia sido desmontado e apenas bastava recolocar seus membros nos devidos lugares.

Ele não sabia como conseguira fazer aquilo. Era como um instinto. Um instinto misterioso.

Virou-se de frente para os outros dois corpos que outrora estavam lhe fazendo companhia. O corpo do mendigo lhe dava pena, enquanto o do caminhoneiro lhe passava um pouco de ternura. Enquanto um, de certa, teve uma vida um pouco mais feliz, o outro teve, com certeza uma vida sofrida e naquele instante ele não tinha mais nenhuma chance pra viver.

Elliot encostou suas duas mãos no tórax desnudo e desnutrido do cadáver do mendigo e fechou os olhos. Ele rezava por aquela alma condenada. Ele rezava para que tudo aquilo não passasse de um sonho.

E Elliot Turner achava mesmo que tudo era um sonho.

E ele estava agindo como se estivesse sonhando.

De repente um pulsar sob suas mãos. Ele sentiu que um sopro de vida se formava debaixo daquelas palmas que horas antes apenas serviam para rodear uma caneta para fazer cálculos ou segurar uma pilha de livros. Suas mãos curavam!

— Hã? — foi aquele suspiro a sua única fala quando por ventura o corpo do pobre mendigo condenado a morte se levantou da maca como o próprio Elliot fez minutos atrás. E estava vivo. Seu coração pulsava dentro de suas entranhas.

O mendigo então, como se esperasse que aquilo acontecesse, apenas sorriu, andou até a porta sem dizer nada, pegou um dos jalecos pendurados ali, cobriu-se, abriu a porta e saiu. Já não parecia mais aquele raquítico de beira de estrada.

Elliot ficou parado alguns segundos. Viu a porta abrir-se novamente. O mendigo, antes morto e pálido, agora corado e mais vivo do que nunca, pôs o rosto para dentro do necrotério e perguntou:

— Não vem comigo?

Estava muito frio. Ele precisava sair dali. Elliot Turner também se cobriu com um jaleco e foi de encontro à porta do necrotério, seguindo aquele que até então era seu amigo e que parecia conhecer os corredores do hospital como a palma de sua mão. Ele sabia ser discreto.

Mas a pergunta pairava no ar enquanto ele seguia seus passos era: “nós estávamos realmente mortos?”

Notas finais
Se por acaso vc clicou aqui e não gostou da história, abandonando por ventura, me avisa. Preciso saber se tá legal.Se gostou, deixa um review, pra eu saber que posso continuar.Até mais!