Rebeldia Amor Materno?
1 O amor cega como botões
BELDAM
Beldam...
Foi esse o nome que o garotinho me deu. Ele era tão adorável, uh.
Seu gosto também era adorável.
No seu século, nomenclaturas como aquelas eram bem comuns.
O folclore inglês é muito rico em monstros.
Tão lindo!
Beldam¹:
Sub. Fem.: Fadas ou bruxas malignas que enganam as pessoas e se alimentam de suas carnes e aprisionam suas almas — principalmente criancinhas.
Que beleza!
Porém, nem sei o que eu sou.
Que importância tem o que eu sou ou minha idade?
Eu sou o que eu faço, sou o que causo.
Eu era a força, o pilar regulador do mundo. O terror puro.
Eu não detestava crianças...Só sabia que precisava da alma delas. Era tão saboroso ver seus rostinhos confusos depois da inebriante alegria passar!
Mas elas são realmente adoráveis, as crianças.
Pobres crianças.
Tudo o que elas ganham em seu mundinho é a negligência e o descuido de seus pais.
Posso chamar aquilo de pais?
O que custa comprar um par de luvas coloridas para a menina, ou fazer um jantar decente?
Uma boa mãe tem de saber cozinhar.
Tadinhas delas. Entediadas, tristes…negligenciadas.
Como era bom cuidar delas daquele jeito, amar, como uma mãe faz!
Nós sempre fomos boas no que fazemos. Cuidamos delas, damos amor, carinho, damos sonhos.
Abraços quentinhos…
...Em troca, só queremos uma coisa: costurar no lugar de seus olhos, os botões pretos.
Elas ficam tão lindinhas assim, dá vontade de apertar!
Pelo menos, as últimas três.
Oh...
Coraline Jones...
Ela era nossa bonequinha, minha e do outro Charles…do melhor Charles.
Primeiro, vamos às costuras.
Acho que isso era uma coisa que eu adorava fazer em vida…
Se é que tenha vivido uma.
Não que lembre.
Corta, corta, corta.
Desmancha, desmancha, desmancha.
Seca, seca, seca.
Enche, enche, enche.
Costura, costura, costura, costura.
Colocar cuidadosamente os fiozinhos de cabelo, que daquela vez tinham que ser curtinhos num azul escuro, um a um, com amor.
Prender os botões e…
Vestir as roupinhas, inclusive a capa de chuva amarela e as galochas.
A belezinha tinha até sardas! Tão perfeita! Nem imagino que gosto tinha.
Era só esperar.
Depois de todo o trabalho...
Observar...
Construir...
Oh!
Eu estava cansada.
Mas valeria a pena.
Cada segundo, cada partícula de meus tesouros usados, cada transformação, cada ilusão.
Qualquer voz, qualquer trejeito.
Insetos?
Esconde-esconde debaixo da tempestade?
Um trenzinho de molho no jantar?
Sim, eu faço, querida! Tudo por você.
Coraline Jones seria minha. Meu amor era tudo de que ela precisava.
Absolutamente tudo...
Talvez…
Talvez agora, eu…
Teria companhia de alguém
Vivo.
Com sentimentos!
Principalmente, amor.
Afinal, não havia nada melhor, nada mais saboroso do que um coraçãozinho. Pequeno, cheio de amor!
Fiz tudo que estava ao meu alcance.
Cozinhei, lhe dei um quarto dos sonhos, luvas coloridas, beijo de boa noite.
Um pai extraordinário, alegria no dia-a-dia...
Meu máximo.
Mas tinha de surgir um rebelde. Minhas criaturinhas até tentaram ir contra mim, aquelas tolinhas...
Acreditam que o moleque Lovat fez uma careta para mim? Para mim, que o fiz? Que o criei do pó?
Indignação.
...Sabia que quando amanhecia, Coraline ficava louca para vir para cá.
Porém. atrás da porta só havia tijolos, tijolinhos antigos e alaranjados, já envelhecidos!
Não era a hora.
Depois de um tempo, quando a senti totalmente envolvida, não querendo voltar para a outra mãe — Claro, pois a mãe verdadeira era eu.
Eu fiz a proposta. Até lhe deixei escolher a cor dos botões, vejam, rosa, pink! Ela iria me deixar com inveja!
Porém, eu sugeri também os botões na cor preta, afinal, o que faz algo tão lindo como a tradicionalidade, o padrão?
...A caixa, o par de objetos circulares escuros, a agulha com a linha…
Adorável!
Mas ela foi uma criança rebelde, não aceitou os botões, por quê?
Iríamos ser tão felizes juntas! Quer dizer… ela iria ser preenchida pelo meu amor. Ela se assustou, desconversou…
Eu só queria o melhor para ela.
Como assim, meu modo de ver as coisas não era o melhor?
Absurdo!
Eu fiz TUDO por ela!
Como ela podia me retribuir daquela maneira?
Eu estava cansada, exaurida, faminta!
Como ela pôde?
NÃO!
Ela...ela não podia ter pensado nisso tudo sozinha. Certeza que foi culpa daquele gato maldito, que mordeu o pescoço dos meus lindos camundongos.
Por que os do outro mundo não queriam que ela passasse pela porta?
O bobo, o verdadeiro Bobinsky deu o recado.
Mas ela nem ligou não é? Ótimo!
E ainda chamaram- na pelo nome errado! Caroline! Absurdo! As atrizes e seus caramelos arcaicos, seus chás de boldo e jasmim. Oh!
O circo, o moleque tagarela com a boca costurada…ele ousou fazer expressão triste! Quando lembro, a podre raiva me sobe. Tudo se foi...
Eu gesticulei. Ordenei.
"Sorria!"
O jardim vivo. Tudo para ela, tudo para a minha filha, tudo para o meu amor, Coraline!
Qualquer figura, qualquer voz. Qualquer coisa.
Qualquer coisa por Coraline Jones.
Eu morreria de fome! Não, como assim?
Companhia, cuidado, comida…
Ainda podia manter sua alma juntinho de mim, para sempre.
Como minha garotinha iria ser feliz! Nunca mais iria se queixar de nada, nem de carência, nem de tédio!
Como sua mãe, eu atenderia a cada um de seus desejos de criança.
Adorável.
Mas ela não veio, ela não quis, não quis os botões…
Então, eu não tinha outra escolha, a não ser me mostrar para ela.
Mesmo que ela ficasse com medo, agisse ferozmente para comigo, eu precisava dela.
Precisava costurar os botões, seja de qual cor eles fossem, rosa, azul, amarelo ou até verde, o que importa é que ela permitisse os botões.
Me permitisse prendê-la, sem olhos, no nosso mundo.
Mas ela não quis. Como ela ousou recusar?
Logo vieram meus dedos de agulha, meu corpo esquelético e dentes afiados, sangue negro feito os botões.
Até que fizemos uma aposta! Meus olhos reluziam.
Eu a deixaria ir se encontrasse os olhos das outras criancinhas, todas minhas filhas um dia. Qualquer voz, qualquer forma, qualquer mimo.
Mas é claro que ela não iria encontrar!
Será que elas não enxergavam o meu amor? Eu dava tudo para elas!
Eu era tudo de maravilhoso que elas tinham. Eu as amava de verdade.
Eu era sua mãe. Sua melhor mãe.
Eu até jurei pelo túmulo de minha mãezinha a verdade (falsamente, quem sabe?)...
Sim! Eu tive uma mãe. Eu mesma a coloquei em sua cova, não é formidável? Pobrezinha, até tentou sair de lá!
Mas eu, como a boa e amorosa filha que era, a pus de volta. Afinal, esse era o lugar de todos os seres humanos.
A terra.
Mas aquela pestinha os achou! Ela achou os olhos dos meus filinhos...mas não achou seus pais!
— Eu sei que eles estão aí! — disse Coraline apontando para a portinhola…
Eu estava exultante porque sabia que ela estava errada. Mas ela viu, ela os viu, no globo de neve…!
Menina rebelde! Menina rebelde!
Eu ainda a adverti sobre superfícies de vidro refletivas.
— Por que você não aparece no espelho?— ela me perguntou um dia.
— Os espelhos não são confiáveis...
E não são. Como ele iria saber que forma eu tinha? De verdade, do avesso?
Oh, Coraline!
Garota rebelde.
Ela me prendeu.
— Não me deixe, não me deixe! Sem você eu vou MORRER! — eu lhe supliquei aos gritos com a voz arranhada.
Mas ela não me ouviu.
Fechou a porta com tanta força…
Não ligou para a minha mão presa, para mim, sua dedicada mãe.
STLEARK!
Minha mão direita.
Coraline a quebrou.
E me deixou.
Me abandonou.
No vazio.
Por quê, Coraline?
Por quê?
Sem você…
Sem você, minha bonequinha…
Sem você, meu amor…
Eu fico sem alguém para amar…
E fico sem amar…
A oportunidade de ter alguém para comer.
Oh, doce e rebelde Jones…
Por quê você não deixou que eu costurasse os botões pretos?
Fale com o autor