Rebeldes Sem Causa
14 Uma vida de memes

Marianella Rinaldi
O dia começou relativamente muito quieto, o que me fez levantar com a sensação de estranheza, não sei por que, mas eu acho que vai dar muita merda. Agora neste momento, a Jade está quieta mexendo em um caderno aparentemente de música, a Pardo está ouvindo música enquanto digita algo no celular e a Messi está dormindo de novo. O mais estranho é que hoje foi o último dia de prova e bem, depois que terminamos só retornamos ao quarto e ficamos quieta. Não ganhamos detenção essa semana, e como prometido, estamos cumprindo o que o diretor nos exigiu, civilidade. Não que não sejamos civilizadas, mas vocês entenderam.
A paz reina, ou reinava até a Tori invadir o nosso quarto com a Trina e a Cat se debatendo uma na outra. E aqui vamos nós.
— Jade – Tori chama exasperada enquanto a Cat tentava cortar o cabelo da Trina, arregalo meus olhos diante da cena, isso tá mesmo acontecendo?
— O que deseja princesa? – Jade pergunta tirando sua atenção do caderno e depositando sobre a castanha que parecia exasperada em arrancar a tesoura das mãos da Cat.
— Cabeleileila Leila – Messi cita o meme fazendo eu e a Pardo rirmos feito hiena, ela não tava dormindo?
— Parece que a Cat aprendeu a arte dos cortes – Jade sorri orgulhosa e bate na cama – vem aqui minha pupila.
Cat larga a Trina e vai correndo até a outra, se aconchegando sobre a cama, deixando a Tori incrédula e a Trina aliviada e livre para correr quarto a fora.
— Eu passei o caminho todo gritando a Cat e impedindo ela de cortar o cabelo da Trina pra você só chamar e ela te atender? – Tori parecia furiosa.
Jade dá de ombros entediada, enquanto a Cat se ocupava em ler algum livro, totalmente desinteressada na conversa alheia. Agora eu preciso admitir, acho que Loki anda passeando pela terra.
Tori se deita na minha cama e eu lhe faço carinho no cabelo, estranhamente nosso quarto está silencioso hoje, o que não é tão ruim, mas o universo decidiu se moldar as necessidades de caos hoje então, mais uma vez o quarto é invadido, dessa vez pela Mia e Alice.
— Já lhe disse – Mia falava exasperada – cale a boca e pegue meu dinheiro.
Nossos olhares miram a porta a ponto de ver a Mia enfiar algumas moedas dentro do porquinho de vidro que a Alice segurava.
— Impressão minha ou todo mundo decidiu citar um meme hoje? – Pardo pergunta tirando sua atenção das meninas para olhar a mim e a Messi, que já se ocupava do celular.
— A vida é um meme né minha filha – Messi fala rindo e nós rimos juntas.
— O que as legalmente loiras estão fazendo? – pergunto em dúvida, para as duas ainda paradas próxima a porta.
— Estamos fazendo uma vaquinha para comprar uma vaca – Alice explica e eu franzo o cenho na dúvida do que eu ouvi, acho que estou ficando louca.
— Como é? – pergunto novamente, só para confirmar.
— Uma vaca mecânica para o rodeio – explica detalhadamente me deixando mais confusa ainda, para que infernos teríamos uma vaca mecânica e um rodeio?
Sacudo a cabeça em negação e decido ignorar, é o melhor no momento. Porque seja lá o que deu nesse povo hoje, tenho certeza de que amanhã eles voltam ao normal, ou não, quem sabe né.
— Cause we don’t need permission to dance – Vale entra cantando, coço os olhos na dúvida do que estou enxergando, acho que sou eu quem tá ficando louca agora.
— E desde quando você canta K-Pop? – Alice pergunta para a outra loira que dá de ombros e se joga em cima da Tori em minha cama.
— Isso aqui virou o que agora, reunião? Festa do pijama? – Messi pergunta, confusa com a invasão repentina.
— Só ignora meu amor, perguntar é pior.
— Ah não Carla, não vem com essa – Lupita entra no quarto aos gritos, com a morena que sacudia fios de cabelos na mão? – eu te disse que não ia te ajudar nessa.
Todas as encaramos confusas, afinal, o que está havendo aqui?
— Carla raspou a cabeça da Sol – Lupita avisa se jogando na cama da Messi e cruzando as pernas.
— Enfim a hipocrisia – ouço a Jade falar sem tirar sua atenção do caderno, ela tá muito quieta hoje, não acham?
— Já acabou Jessica? – Carla põe a mão livre na cintura e encara a Lupita com os olhos semicerrados.
— Princípios de uma rebelde é contagioso, mude minha opinião – Lupita descruza as pernas e deita, encarando a morena de pé.
Enquanto as outras se mantém em silêncio apenas observando aquela cena sinistra, uma troca de memes, é isso que eu estou vendo?
— Vai responder não puta? – Lupita grita com Carla que sai correndo do quarto arrastando a Alice com o tal porquinho que quase quebra com a pressa da morena.
— O universo alterou a posição dos astros e foram elas que ficaram rebeldes foi? – Pardo pergunta e eu dou de ombros, eu literalmente só vou fingir que esse dia é mais um como qualquer outro.
…
Uma semana se passou, e enquanto as rebeldes continuaram quietas, as outras fizeram questão de tocar o terror pelos corredores, vimos gente amarrada com a técnica de Shibari, sim, é uma técnica de BDSM, não me perguntem. Também vimos arbustos com formato de coelho e esquilos. As coisas começaram a ficar estranha no último dia da semana que vimos a Alice pintar o quadro do diretor com canetinha vermelha, um chifre e um rabo, que na minha opinião nunca caíram tão bem nele. Rimos muito, elas pegaram detenção.
— Well, that escalated quickly – Jade resmunga enquanto andávamos pelo corredor.
— Acho que elas estão sentindo falta da gente – falo e as outras concordam.
— Eu até gostei de ver as legalmente loiras ganhando detenção – Pardo ri com gosto, realmente tinha sido hilário a Mia e a Alice sendo expulsas da sala para ir à detenção. Nunca pensei que o colégio fosse ficar tão surtado assim.
— O que acha de mantermos as rebeldes fora de órbita para ver até onde isso vai? – Messi sugere nos fazendo pensar bem na situação.
— Interessante – Jade fala e põe os livros dela no armário, logo pegando a agenda e o estojo – sinto falta de aprontar, mas adoro ver a bagunça que as outras podem fazer sem nós.
— Mais uma semana? – sugiro e elas assentem, mais uma semana.
Resultado, a Cat passou a andar de triciclo nos corredores, com o boneco do Robbie sendo arrastado por uma corda no pescoço enquanto o garoto gritava para ela parar, vimos uma paródia de meninas malvadas criada pela Celina, Josy, Lupita e Mia. Também tivemos um show de Stand up, esse eu adorei, ri horrores com o Beck e o Pedro fazendo piada sobre o diretor. Resultado, outra detenção.
Aquela situação durou por mais uma semana, sem nenhuma das rebeldes aprontar nem um pouquinho. O que deixou uma confusão no colégio, não, vocês não estão em um universo alternativo, não, ninguém aqui ingeriu drogas, e não me lembro de sermos tão terríveis assim.
— Okay – o diretor fala parado na nossa frente.
Deixa-me lhes contar o barraco que se deu aqui, eu e as meninas fomos chamadas na direção, mesmo sem ter aprontado nada ou ter algo a ver com os eventos recentes.
— É o seguinte, eu não aguento mais a confusão que se deu nesse colégio e acredito que as senhoritas podem me ajudar – diz o diretor Gandia parecendo aflito, ainda não entendemos o motivo do desespero dele – então preciso que...
Franzo o cenho e olho para as meninas que não pareciam diferente de mim.
— Preciso que vocês – ele pigarreia e sussurra a próxima frase – voltem a aprontar por aí.
— Desculpe, acho que eu não ouvi direito – Pardo fala confusa, e sim, a gente ouviu, mas precisamos ouvir de novo para ter certeza de que isso não é uma ilusão.
— Preciso que vocês voltem a aprontar por aí – ele quase grita nos pegando de surpresa – pelo menos vocês são quatro, sabe quantos alunos eu já mandei pra detenção essa semana? Ou na semana passada?
Negamos em silêncio, quem diria que um diretor ia pedir uma coisas dessa? Eu certamente não.
— O que a gente ganha com isso? – Jade pergunta com interesse na resposta dele.
— Sem mais detenção – ele propõe.
— Muito pouco, queremos outra coisa – sou eu quem digo, estamos abusando da sorte? Sim, mas esse é o preço da vida meus caros.
— Libero a piscina por uma semana.
— Duas semanas e uma noite de karaokê.
— Fechado – ele estende a mão e apertamos uma a uma – controlem os seus colegas, por favor.
— Pode deixar – Messi assente.
Nos levantamos para sair prontas para retomar nosso lugar na cadeia alimentar. Coloquem Cherry Bomb., para tocar, porque aqui vamos nós, restaurar a paz no universo, ou pelo menos no colégio. Forças Ícone.
Fale com o autor