— 182 DIAS —

Sentei na cama de um só vez.

O coração pulando em meu peito e a sensação de estar sufocada ainda presente.

— Foi um sonho, foi só um sonho... — Sussurrei para mim mesma tentando me forçar a acreditar nas palavras. As imagens ainda vívidas na memória dificultavam o trabalho.

Batidas na porta me fizeram reprimir um grito assustado.

— Quinn, acorde, querida. Não se atrase para o primeiro dia de aula. — A voz da minha mãe passou abafada pela porta.

Fechei os olhos e respirei fundo algumas vezes tentando desacelerar meu coração. Funcionou depois de alguns minutos.

Fios do meu cabelo estavam grudados em minha testa, senti o suor gelado ao tentar tirá-los e levantei para tomar um banho. De preferência quente. Bem quente, já tive frio demais para uma só noite.

xXx

— Bom dia, filha. Achei que fosse ter que tirá-la da cama à força. — Minha mãe estava sentada na pequena mesa redonda da cozinha, posta com frutas, sucos e cereais. ‘Nada é melhor do que começar o dia com um café da manhã saudável e nutritivo, Quinnie. Vai me agradecer no futuro.’, era o que Judy dizia sempre que eu tentava ganhar pão ou bacon de manhã.

— Bom dia, mãe. — Sentei-me ao lado dela e me servi enquanto ela lia uma revista distraidamente.

— Quinn, está um pouco frio para ir à escola de vestido.

— Eu não to com frio. Acho até que está meio quente. — Disse rapidamente, sem encará-la. A verdade é que não queria usar nada parecido com o que estava no sonho. Ainda estava assustada. — Alguma notícia de Frannie? — Mudança de assunto bem sutil, Quinn. Continue assim.

Judy me olhou como se perguntasse se eu estaria doente antes de responder. — Sua irmã ligou ontem a noite. Disse que está adorando Nova York e NYU. Te mandou um beijo.

— Só? — Frannie não era conhecida por falar tão pouco.

— Bom... Disse que Russell ligou alguns atrás para parabenizá-la pela faculdade. — Mamãe me olhou com cuidado. Meu pai era um assunto delicado. Jamais o perdoaria pela forma como me tratou quando contei da gravidez. Minha mãe tentou me fazer voltar para casa duas semanas depois de ser expulsa, com somente uma maleta de roupas, dizendo que ele tinha se acalmado e pensado melhor sobre tudo o que me disse. Me recusei a sair da casa dos Jones, que haviam me acolhido, até poucos dias antes do parto, quando ela me contou do divórcio e da saída dele de casa.

— Hm. Estou indo, não quero me atrasar. — Levantei as pressas e deixei um beijo na cabeça da minha mãe antes de voltar para o quarto buscar minhas coisas.

— Tchau Quinn, não se esqueça que vou sair com os Johnson hoje. — Ouvi ela gritar quando passei correndo até a porta.

xXx

Já fazia cerca de quinze minutos que estava parada no estacionamento do McKinley. Estava com medo de entrar.

Por Deus.

Eu tenho sangue dos Fabray. ‘Um Fabray não teme, é temido’, ouvi essa frase a vida inteira e pela primeira vez não tinha tanta certeza sobre ela.

— Vamos lá Fabray, você não se acovardou nem quando estava passeando por esses corredores com uma barriga enorme. Você consegue.

Fechei os olhos e respirei fundo uma ultima vez. Era agora.

— Ei Juno, está fazendo o que ai dentro, falando sozinha? Além burra, é esquizofrênica? — Uma Santana Lopez nada feliz dava pancadas na janela ao meu lado.

Estaria encolhida no banco do carona se o cinto de segurança não tivesse me mantido no lugar.

— Você. Está. Tentando. Me. Matar? — Vociferei entredentes.

— Se eu quisesse você morta, já estaria, Barbie. Acredite. Anda, sai logo dessa carroça que chama de carro. — Ela se afastou da porta para que eu a abrisse.

— Eu deveria te dar uma surra. — Rosnei no rosto dela quando saí. Ela sequer piscou. Me olhava com cara de tédio.

— Mas não vai porque sabe que apanharia, como em todas as outras vezes. E se afasta da minha cara, seu bafo vai me fazer vomitar. — Me empurrou para longe abanando o ar a sua frente.

— Você é inacreditável. — Murmurei abriu a porta de trás do carro para pegar o fichário e um sobretudo vermelho.

— Inacreditável é isso. Eu já não mandei você jogar esse couro velho fora!? — Ela tomou o casaco da minha mão o segurando na frente do corpo com a ponta dos dedos. A cara de nojo dela poderia fazer qualquer um pensar que Santana estava segurando um cadáver. Ou algum objeto do JBI.

— Já disse que não é couro velho. É vintage. — Puxei o casaco de volta e sai andando na frente com passos duros, vestindo a peça. Um ‘Dá no mesmo’ se fez ouvir atrás de mim e levantei o braço, dando dedo para ela sem me virar.

— Credo, Crazy Queen. Que bicho te mordeu? Você está muito tensa para o meu gosto e o dia nem começou. — Santana apressou o passo para me alcançar e parecia ligeiramente preocupada.

Suspirei em resposta.

— Nada, Santana. Eu tive um sonho esquisito ontem a noite e não me recuperei totalmente.

— E o que era, o Ken te largando no altar?

— Argh...

Eu tentei me afastar da latina às gargalhadas, mas ela me segurou pelo braço tentando sufocar o riso. Que explodiu novamente quando a olhei de cara feia.

— Ai, ai. Desculpe, Quinn, é mais forte do que eu. Agora, sério, o que era? — Santana perguntou limpando a lágrima que tinha escorrido. O sorriso zombeteiro brincando no canto dos lábios vermelhos.

— Eu não sei direito. Só sei que estava frio, e eu estava desaparecendo, ninguém parecia notar, nem você. E tinha o Finn, mas não era o Finn, o anjo, a Berry. Eu não conseguia respirar. — Entramos no McKinley assim que terminei de contar, algumas pessoas olharam em nossa direção e outras desviavam enquanto andávamos, abrindo caminho para as duas garotas mais temidas que já estudaram ali.

Soltei o fôlego que não sabia ter prendido. Tudo normal.

— Você sonhou com o Fat Hudson e com o Degrau de Escada!? Isso não é um sonho, é um pesadelo enorme. Tem razão em estar desse jeito.

— É sério que foi só isso que você ouviu? — Santana as vezes era frustante. — Alias o que você tava fazendo do lado de fora. Não deveria estar no treino? — Olhei em sua direção, Santana estava com o uniforme de frio das Cheerios.

— Acabou já tem uns minutos, eu fui buscar o fichário. Esqueci no carro. — Ela balançou o objeto, que eu não havia notado antes, no meu rosto.

— Achei que não fosse ter por causa dos trovões.

— Também achei, mas o tempo estava quase normal está manhã, então Becky enviou uma mensagem da treinadora confirmando o horário.

Becky Jackson era a única Cheerio que jamais tomou uma dura da treinadora. É claro, todos sabiam que o verdadeiro motivo para a menina com Down pertencer ao time perfeito de líderes perfeitas de Sue Sylvester era porque Becky se parecia muito com sua irmã caçula. Honestamente, ninguém se importava com isso.

E, claro, sob a proteção e ensinamentos de Sue, a Cheerio Assistente era o terror de muita gente.

— Onde está Brittany? — Perguntei assim que chegamos ao nossos armários que, graças a Santana, ficavam lado a lado. Incluindo o de Brittany.

— Eu deixei ela na sala estudando. Ano passado ela passou por muito pouco e decidimos que não vai acontecer novamente. — Ela respondeu antes de enfiar a cara no armário procurando sabe-se lá o que. Talvez aquele cadáver.

— Fico feliz em ajudar se precisarem.

Porra, Quinn. — Santana gritou quando abri meu armário. — Já disse para avisar quando for abrir essa coisa. — Soltei uma risada baixa, aliviada, ao notar que Santana não era a única com as mãos nos ouvidos.

Vi a porta do meu lado se fechar e Santana se recostar nela. — Já pegou seus horários?

— Já. Semana passada. — Puxei o papel do imã no fundo do armário e o entreguei a ela.

— O que você tem hoje? — Ouvi ela perguntar baixinho. — Inglês, história, literatura, química avançada, matemática avançada e física... Nerd. — Ela jogou o papel no meu armário.

— Não tenho culpa de ser inteligente. — Disse presunçosa enquanto ela rolava os olhos. — Primeiro tempo juntas? — Ela assentiu com a cabeça.

Finalmente estava tranquila.

Os eventos da noite passada guardados no fundo da minha memória.

Fechei o armário sorrindo para Santana.

Ao me virar não pude evitar que o grito aterrorizado que se formou em minha garganta saísse quando o vi na minha frente.

xXxCONTINUAxXx

Notas finais
E ai, quem achava que a Q era um fantasminha?