Notas iniciais
Nossa, quantos erros no capítulo anterior. Isso que dá postar sem revisar. Bom, já consertei. Eu prometi para algumas pessoas que ia postar segunda. Eu ainda não dormi, então para mim ainda é segunda. Viram? Eu cumpro minhas promessas.

— 160 DIAS — 30/9/11, sexta feira

O clube do coral parecia uma panela de pressão.

As Seccionais seriam dali à exatamente um mês e só estaríamos decidindo o repertório hoje. Rachel estava cuspindo facas afiadas para cada palavra do professor Schuester sobre quão irresponsável ele estava sendo — comentários perfeitamente ignorados pelo homem.

Os últimos dias tinham sido no mínimo interessantes.

Rachel e eu estávamos em um estranho tipo de amizade. Não nos tornamos exatamente amigas, mas ela não andava mais na direção oposta ao me ver no corredor e eu não via nenhum mal em cumprimentá-la com um ‘Bom dia’ quando estávamos perto o suficiente — não que agora parássemos para conversar nos corredores . Existia um mútuo e silencioso acordo de não conversar sobre o que realmente deveríamos. Fingir que nada tinha acontecido era mais fácil. Falar só traria sofrimento.

O relacionamento com Finn trancado no fundo de nossas mentes quando nos encontrávamos no auditório algumas vezes por semana, nosso novo local de almoço.

Sam estava se mostrando um ótimo rapaz e às vezes penso notar um clima de flerte quando conversamos. Quem sabe

— Muito bem, crianças. Acho que temos oficialmente nossa playlist para as Seccionais no próximo mês. — Schuester bateu palmas animado. Estávamos tentando escolher as musicas à quase uma hora e parece que finalmente ouve um consenso geral da turma.

Se ele ouviu o resmungo de ‘já estava mais do que na hora’ de Rachel — obviamente -, não se deixou abater. Algo na forma como o professor sempre dava um jeito de ignorá-la me faz sentir um pouco de desprezo por ele. A cada dia mais.

— Agora é só continuarmos treinando mais e mais para estarmos preparados na competição. Temos um mês, pessoal. Brittany, Mike, Santana, quero que fiquem um pouco mais aqui hoje para discutirmos a coreografia que iremos ensaiar na próxima aula. O resto de vocês estudem as músicas e não se esqueçam de que a tutoria que Kurt, Rachel e Mercedes ofereceram ainda está de pé e pode ser usada. Até semana que vem meninos, dispensados.

Em questão de segundos as sala estava praticamente vazia. Exceto pelo professor, Mike, Britt, Santana, Rachel e eu.

Enquanto os três requisitados estavam reunidos com Schuester próximos ao piano, eu enrolava para guardar minhas coisas e sair da sala. Rachel parecia fazer o mesmo.

— Está bem, Berry? — Parei ao lado dela.

Rachel brincava com a alça da mochila e respondeu sem levar os olhos para mim.

— Sim, estou apenas fazendo uma imagem mental de todas as maneiras possíveis de sairmos humilhados das Seccionais porque o nosso treinador é um irresponsável e acha que pode preparar um bando de alunos desinteressados para uma competição desse porte em um mês. Um mês.

— Rachel só porque os outros tem coisas além para pensar não significa que eles são se interessem pelo coral ou que não se importam.

— Eles não se importam. — Ela finalmente me encarou e apesar do rosto duro e da voz zangada seus olhos lacrimejavam. — Eles não se importam como eu. O coral é tudo o que eu tenho. Minha única chance. Competições de corais, mesmo que amadoras, recebem olheiros das melhores faculdades de todo o país. Os que mais se destacam são convidados a entrar e essa é a minha única chance de sair dessa cidade. E vai ser arruinada de novo porque nosso professor não se importa que estejamos despreparados. Que todo mundo nessa sala se odeie. Não. Que todo mundo me odeie. Schuester, você, Finn, ninguém entende porque isso é tão importante para mim. Para vocês eu sou a louca psicótica com necessidade de chamar atenção. Mas ninguém se interessa. Porque para vocês isso é só um passatempo. Um hobby vergonhoso que se tornará uma história engraçada no futuro. Para mim… É toda a minha vida até agora e tudo o que ela será no futuro. E ninguém se dá conta.

Rachel disse cada palavra com calma e tranquilidade assustadoras. Como se estivesse fazendo um comentário sobre o tempo. Ela não vacilou, não desviou o olhar, não chorou, apesar de ser evidente sua vontade de fazê-lo, nem levantou a voz. E de alguma maneira essa atitude fez suas palavras terem um peso ainda maior.

Ela tinha razão, todos que estavam no coral, incluindo Schuester, só ficaram porque acharam no clube um bom lugar para relaxar, se divertir e passar um tempo de qualidade — às vezes-, mas era só isso. Rachel era, de fato, a única pessoa que realmente fazia das tripas coração pelo clube e ninguém lhe dava crédito por isso. Não que ela estivesse procurando algum reconhecimento para começar. Ela sempre deu o seu melhor em tudo, no coral não poderia ser diferente.

Fui tirada dos meus pensamentos quando ela se moveu, colocando a mochila nas costas e murmurando uma despedida antes de sair pela porta. De cabeça erguida, sem nenhum show. Nenhum drama. Nada que a Rachel Berry de algumas semanas atrás faria. Essa Rachel teria feito um discurso escandaloso e acusatório enquanto todos ainda estavam na sala em uma tentativa de fazê-los se sentirem culpados e se dedicarem um pouco mais, pelo menos naquele momento.

Analisando todo o contato que tive com ela desde que o ano levito começou foi ainda mais assustador me dar conta de que essa Rachel vinha sumindo há algum tempo.

Aquele buraco que sangrava em meu peito sempre que eu lembrava todas as coisas ruins que já tinha feito a ela pareceu se abrir ainda mais a vendo sair desse jeito.

Dentre todas as coisas que eu ainda queria fazer, todas as coisas que eu tinha que fazer, no caminho para casa, parei, talvez pela primeira vez, para pensar em minha real situação. Meu tempo estava se esgotando. Todos os meus amigos se formariam, iriam para a faculdade, talvez saíssem de Lima. Arrumariam empregos, formariam famílias, se tornariam adultos. Acresceriam.

Era o destino deles. Destino que me foi negado.

Me pergunto se eu deveria estar com raiva. Raiva de Deus por me tirar a vida antes do tempo. Mas quem sabe o que seria de mim se eu tivesse mais tempo? Talvez me tornasse uma pessoa melhor. Talvez me tornasse amarga depois de passar por tantas dores. Talvez me transformasse em Russell.

Talvez eu não mereça viver.

Afinal, o que de bom eu tinha feito na minha vida? Nada. Tudo o que fiz foi prejudicar as pessoas. Humilhá-las, feri-las.

Talvez esse seja meu castigo. Minha salvação é ser condenada à nunca viver realmente.

Eu não estaria aqui para ver meus amigos crescerem. Mas dentre todas as coisas que eu tinha que fazer, tomei uma decisão.

Daria à Rachel Berry a garantia de seu futuro.