Reason
21 Let me go home
Notas iniciais
Luiza subiu para o apartamento que dividia com Júlia extremamente pensativa com o que acabara de ocorrer no hall do prédio, ela não imaginara que Pedro iria pedir desculpas tão sinceras num período tão curto de tempo. Ao entrar no apartamento, a loira percebeu que iria passar mais uma noite sozinha, pois sua amiga não estava. Sem demora, ela ascendeu as luzes e foi até a cozinha a fim de preparar algo para comer.
Por volta das 00:30min, Luiza, que já estava completamente exausta do dia que havia tido, foi para seu quarto sonolenta desligando todas as luzes durante o percurso. Logo, ela caíra num sono profundo, não sentindo a presença de um corpo de quase dois metros de altura do seu lado da cama observando-a atentamente.
Continua...
Thiago não se aguentava de raiva e ansiedade por ainda não ter colocado seu plano em prática, contudo finalmente o dia havia chegado. Luiza seria sua de um jeito ou de outro. Entrar no prédio pouco antes da moça chegar, não fora nenhum problema exorbitante. Disfarçado de eletricista, ele comunicou que havia recebido um chamado de um dos apartamentos. Sem lhe dar muita atenção, o porteiro deixou que ele subisse sem nem mesmo olhar para o seu rosto, pois o jogo de futebol que estava passando na pequena tv abaixo do balcão da recepção era mais importante do que a entrada de um eletricista no prédio as 21:00Hrs da noite.
Prontamente, Thiago destrancou a fechadura do apartamento com uma de suas ferramentas, uma vez que havia visto algumas formas de aquilo fazer com um dos vendedores das ferramentas. Para ele, o que foi mais difícil de conseguir fora o número do apartamento das duas amigas. Ao lembrar que teve que levar uma das moradoras até um bar e paquera-la para ter o que queria lhe fez sorrir maliciosamente, pois aquela noite havia rendido uns bons resultados.
Já faziam mais de 15min que o homem estava a olhar a loira dormir, ele sorriu de lado e deu uma risadinha abafada e sarcástica ao pegar o frasco do bolso que continha um liquido banhado em clorofórmio para fazê-la cheirar. Ele se ajoelhou ao lado da jovem e ela se mexeu para o lado dele, Thiago ainda deu um tempo para que Luiza abrisse os olhos, pois ele jamais perderia a chance de presenciar seu desespero.
—Mas o que você está fazendo aqui? — absurdamente assustada, luiza sentou-se na cama, uma vez que com a pouca luz da janela, ela conseguiu focalizar com certa dificuldade o rosto do homem ao seu lado.
—Vim te buscar, amor. -respondeu, agarrando e fazendo com que ela inalasse o cheiro forte do produto químico. Luiza debateu-se com todas as forças que ainda tinha, mas rapidamente tudo se apagou e a ultima coisa que ela sentiu fora a pressão dos lábios molhados de Thiago contra sua bochecha.
Tudo havia sido planejado minunciosamente, mas ele não contara com a demora para Luiza ir dormir, "Ela não costumava se deitar tão tarde quando eles namoravam" pensou consigo mesmo. Sua sorte fora a displicência e imperícia do porteiro que não se deu conta da quantidade de tempo que o suposto eletricista passara dentro do prédio. Contudo nada daria errado, pois se ele notasse algum movimento contrário do porteiro, estaria pronto para abordar a moça ainda acordada, levando-a desmaiada até um carro que a aguardava com um motorista na garagem para leva-la embora, dando a Thiago a oportunidade de sair normalmente como se nada estivesse acontecendo.
Thiago colocou a jovem no porta-malas do carro que havia alugado e que já não possuía nenhum motorista, visto que por ordem dele, o homem havia ido embora as 22:30min. Ao constatar que sua ex-namorada estava razoavelmente “bem acomodada”, ele correu até a porta esquerda frontal e se posicionou ao volante. O ex-namorado de Luiza estava maquiavelicamente radiante, ele havia conseguido, ela estava em seu poder.
Gotas de suor escorriam pelas têmporas de Thiago, um sorriso astucioso brincava em seus lábios, excitado, ele virou numa rua deserta rumo a uma propriedade abandonada depois de quase 40 min de estrada. Em contato com a estreita rua de barro, o carro começou a balançar, e logo ele passou a escutar batidas no capô do porta-malas.
—Calma, amorzinho. Já estamos chegando! -Disse com a voz mais elevada, afim de que Luiza ouvisse o que ele dizia. – Você não sabe o futuro maravilhoso que nos aguarda, está tudo meticulosamente preparado. -ele riu alto ao pensar em tudo o que faria com a loira. "Ela vai se arrepender de ter me trocado por um idiota qualquer." Era o que se repetia em sua mente, como se fosse um letreiro fosforescente.
Luiza acordou sonolenta e um pouco desnorteada. Ao abrir os olhos, sentiu de ímpeto uma ardência em sua bochecha; Thiago acabara de lhe dar uma tapa com força em seu rosto para que ela acordasse. Com a visão embaçada pelas lágrimas, ela percebeu que ainda estava com seu pijama, amarrada numa cadeira tendo seus pés juntos presos por algemas de aço com duas correntes que ligavam a uma outra algema responsável por manter as mãos da jovem detidas. Um desespero profundo a tomou, ela começou a se debater e gritar, mesmo estando amordaçada. Thiago chegou bem próximo ao seu rosto, tirou os fios de cabelo que estavam ali colados pelo suor e colocou atrás de sua orelha.
—Não tente se libertar, querida. Estamos juntos para sempre dessa vez, isso tudo aqui é provisório. Logo estaremos num lugar muito bonito, onde eu não precisarei usar nada disso, pois você vai implorar para conseguir me abraçar e beijar e... -Thiago gargalhou alto, olhando diretamente para os olhos assustados e nervosos de Luiza. Sem pensar duas vezes, a moça lhe golpeou fortemente com os joelhos no meio de suas pernas, fazendo com que Thiago caísse no chão contorcendo-se em dor.
—Sua vadia, filha da Pu#$%! -disse em murmúrios, enquanto Luiza continuava a se debater com todas as suas energias. “Eu preciso sair daqui”, repetia para si mesma inúmeras vezes. Contudo só sentiu a força de Thiago em seu rosto e o virou com o impacto, logo, um gosto de sangue tomou sua boca. _Quem você pensa que é, Luizinha? Está ficando louca? Será que ainda não percebeu que acabou, que está na hora de se comportar comigo e fazer exatamente o que eu quero? Acho que se você for um pouquinho mais inteligente, entenderá que precisa me obedecer, meu amor. -o hálito de Thiago fazia com que o estômago da moça embrulhasse em náuseas, ele a causava nojo, repulsa.
Sorrindo, ele se afastou da cadeira onde Luiza estava e foi até uma bancada afim de tomar um pouco de água. Luiza aproveitou o momento e passou a olhar em todas as direções em busca de uma saída. Tudo o que viu fora uma pequena janela de vidro acima da privada que havia num canto do cômodo e uma porta trancada com um grande cadeado de ferro e correntes. Ao notar que seria quase impossível escapar dali sem que seu sequestrador percebesse, lágrimas caíram, molhando o rosto amedrontado da moça.
Uma dor fina e incomoda se espalhara pela coluna e pernas de Luiza, pelas suas contas, e de acordo com a cor do céu visto através da pequena janela, ela notara que já estava amanhecendo, ou seja já haviam passado mais de 4Hrs sentada na mesma posição. A sua frente, estava Thiago mexendo num notebook deitado numa cama de casal improvisada. “Mas o que será que ele está fazendo?” perguntou-se. E então, um lampejo de esperança passou em sua mente, pois se ela conseguisse que ele, ao menos, a colocasse deitada, ela conseguiria ter acesso ao computador e quem sabe contatar a Júlia ou o Marcelo.
Rapidamente, Luiza começou a se debater mais uma vez afim de chamar a atenção de Thiago, quando conseguiu que ele se aproximasse, ela parou e o olhou nos olhos, fez um ar romântico arrependido. “Isso teria que funcionar. Esse idiota precisa achar que entrei no joguinho dele.”
—Você quer me dizer alguma coisa, meu amor? -a voz de Thiago a fez respirar profundamente, ela o odiava.
O moreno ponderou olhando-a profundamente, sorrindo com o canto dos lábios, ele passou a mão direita no rosto dela e depois segurou o seu queixo.
—Se eu tirar essa amarra, você promete não gritar, docinho? Olhe, que se você não se comportar, esse corpinho aqui sofrerá péssimas consequências.
A jovem apenas meneou a cabeça positivamente sustentando o olhar e o ar de submissão. Ela estava apavorada, até inspirar e expirar estava difícil, como se a qualquer momento ela fosse parar de fazer aquilo. Thiago rodeou Luiza, parando a suas costas e desamarrou lentamente a faixa que a
impedia de pronunciar qualquer palavra.
—Thiago, por que você está fazendo isso comigo? Eu não te denunciei, te deixei em paz. Eu sumi da sua vida. Por que isso? -a voz era completamente embargada, seu corpo tremia e sua cabeça latejava. Ela só queria sair dali o mais rápido possível.
—Como assim porquê? Não é possível que uma escritora tão incrível como você não tenha percebido ainda o quanto eu te amo... ficaremos juntos para sempre, meu amor. E como você estava um pouco relapsa quanto a essa questão, resolvi te resgatar só pra mim. Você não está gostando? Está muito apertado? -indagou com um suposto ar preocupado.
—Mas é claro que está apertado e doendo, você me prendeu como se eu fosse um animal. Como pode me amar tanto tratando-me dessa maneira? -no fundo, ela queria entender o que poderia levar um ser humano a agir daquela forma.
— Amor, qual é? Como eu poderia te tratar diferente? Vamos lá, você bem sabe que se eu te abordasse com um jeitinho mais amigável, jamais te teria aqui como tenho agora. Você estava toda caidinha por aquele imbecil... Aquele merdinha! Então não vi outra maneira, entende? Mas tudo isso aqui é passageiro. Como eu já disse, seremos muito felizes juntos. -sorriu largamente notando o rosto de Luiza ganhar um pequeno sorriso.
—Sim, é verdade. Mas sabe de uma coisa, Thiago? Te olhando assim, aqui tão pertinho de mim, eu consigo lembrar do quanto já fomos felizes juntos. Éramos tão amigos, parceiros, cúmplices. -obrigou-se a sorrir um pouco mais, contudo seu coração estava extremamente acelerado.
—Tá vendo só? Eu sabia que você ainda me amava, só precisava acordar do transe em que aquele idiota te meteu. Como é bom saber que estamos nos entendendo novamente, meu amor. -seus olhos brilhavam em excitação enquanto acariciava o rosto da moça.
— Então fico feliz com isso. Muitas vezes, durante a noite eu senti sua falta, Thiago. Ninguém nunca me fez tão feliz como você. -disse tentando parecer o mais sincera possível.
—Ai, ai... -suspirou em alívio. _Se assim continuarmos, logo estaremos embarcando para o nosso ninho de amor, minha escritora linda. – ficou de pé, afastando-se para a cama novamente. _ Escritora... Isso me leva a pensar em quem você se inspirou para escrever seu livro. Sabe que ele é o meu livro de cabeceira? Eu quase ia à conferência de lançamento pegar meu autógrafo, mas pra quê me despencar até São Paulo só para conseguir sua assinatura se logo eu teria a própria autora aqui ao meu lado? -sentou-se na cama e pegou o notebook novamente, voltando a fazer o que havia parado.
Luiza deixou algumas lágrimas escaparem ao ouvir a pergunta de Thiago. “Como assim quem havia me inspirado?” A única vontade que ela sentia era a de gritar na cara dele o quanto sentia nojo da sua presença, o quanto ele havia lhe machucado, o quanto seu toque e sua voz eram repugnantes. Mas ela se conteve. Precisava conseguir chegar até o notebook.
— Ninguém, especialmente, me inspirou, Thiago. Eu escrevi norteada pelos vários relatos que ouvimos por aí. -disse apenas.
—Pois é. Achei que tinha sido algo mais pessoal, fiquei até preocupado em você ter sofrido algo nas mãos do seu namoradinho, quer dizer ex-namorado, por que a essa altura, você não voltará nunca mais a vê-lo. -sorriu desviando o olhar da tela para encarar a moça que apenas o encarou sorrindo levemente.
Luiza não conseguiu disfarçar por completo seu horror ao ouvir as palavras de Thiago. Jamais Marcelo encostaria um único dedo nela para agredi-la ou sem o seu consentimento. Um turbilhão de memórias viera a mente da loira, ao relembrar todas as vezes que sentira o peso da mão de Thiago em seu corpo. Ela o odiava de todo o seu coração.
— Não, não. Foram só relatos mesmo, Thiago. Não há com o que se preocupar. -Limitou-se a dizer, seu coração estava despedaçado, ela não sabia até quando iria aguentar aquela tortura física e psicológica, no caso muito mais psicológica do que física.
Thiago não deu muita importância para a resposta de Luiza, apenas voltou a ficar em seu trabalho. A jovem passou a encarar um ponto fixo do cômodo, ela não conseguia mais maquinar o que dizer, já estava sentada ali a mais de 8Hrs. Tudo o que lhe vinha à mente era se Marcelo já estava procurando por ela, se Júlia já havia notado sua falta. Como se desperta-se de um transe, ela lembrou de seu plano. “Eu preciso sair daqui.”
—Thiago, por favor, será que eu poderia me deitar aí pertinho de você? Minhas costas e pernas estão doendo demais. -pediu com uma voz chorosa olhando para o homem sentado a sua frente.
—Mas ainda nem anoiteceu, meu amor? Você está com tanta saudade assim? – sorriu levantando-se para ficar mais próximo a ela.
—Por favor, Thiago. Eu estou me comportando. – alegou sorrindo com o canto dos lábios.
—Só por que eu te amo muito, Luiza. E também, obviamente, quero ter seu corpo junto ao meu. Já faz tanto tempo, não é mesmo!? – falou já soltando as correntes que prendiam as algemas.
Thiago, rapidamente, pegou Luiza nos braços e caminhou poucos passos com ela até a cama, ao posicioná-la, ele sorriu e se aproximou do rosto da moça para lhe beijar, mas como de ímpeto, ela virou o rosto e sorriu um pouco com um ar de timidez, sentindo novamente o estalar dos lábios dele em sua bochecha.
—Fica aí quietinha, eu ainda preciso trabalhar numas coisas. Você está com fome? Eu tenho algumas coisas aqui para nós dois. Não é nada perto dos pratos que você prepara, mas dá para quebrar o nosso galho.
—Sim, por favor. -disse tentando se acomodar da melhor maneira possível. As suas mãos estavam doendo muito atrás de suas costas, aquilo estava se tornando insuportável.
Com lágrimas nos olhos, Luiza ficou observando cada passo de Thiago ao esquentar algum prato congelado no pequeno micro-ondas que ali havia. Ela sentiu seu peito bater forte ao ver que o notebook estava tão próximo no modo bloqueado. Logo, ela se aproximou da máquina, tentando não fazer nenhum movimento brusco, mas ao perceber que não iria conseguir trazer seus pés até o computador, ela decidiu que teria que fazer mais alguma coisa para que Thiago a soltasse, e tudo o que ela pediu a Deus fora não precisar humilhar-se tão baixo ao ponto de deixar o ser a sua frente tocá-la.
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