Reason
16 Just a dream?
Notas iniciais
Continuar, palavra essa que significa dar ou ter seguimento após interrupção. Esse verbo permeava toda a mente de Luiza, era tudo o que ela precisava fazer, seguir em frente sem olhar para trás. Mas o único problema era que, talvez, ela não quisesse fazer o que sua razão lhe mandava. Não queria ter que abandonar o sonho de viver ao lado da pessoa por quem estava apaixonada, entretanto não lhe sobrara escolhas. O círculo vicioso de decidir não dar bola para Marcelo, continuar com o Pedro, mas no final do dia ir dormir chorando por que não havia cumprido o que havia prometido para si mesma no início do dia estava lhe matando aos poucos, sem falar que já estava mais do que na hora de colocar um ponto final na história que aparentemente ela escrevera sozinha. Talvez, nada tenha passado de um sonho.
Quase um mês havia passado desde o resultado da biopsia do Sr. Marcos, ele estava se recuperando bem, respondera tranquilamente ao tratamento e sua família não escondia o quanto estavam felizes com o rumo que a sua saúde tomava. Marcelo passou a trabalhar ainda mais, já não ia almoçar em casa, ele e Luiza só se esbarravam quando ele chegava do trabalho ao anoitecer. Luiza sabia que o motivo para a ausência de Marcelo era a tentativa de evitar vê-la com mais frequência. Dessa forma, ela também estava se esforçando para cumprir com o combinado desde o dia em que eles tiveram aquela última conversa na varanda da casa dele. O grande beneficiado com tudo isso era o relacionamento da moça com Pedro, que prestes a completar dois meses estava estável e tranquilo.
— Tem certeza que você vai conseguir dar o ponto certo nesse brigadeiro, moço? –Luiza observava Pedro mexer o leite condensado com achocolatado. Era domingo à tarde e ela revelou que estava sentindo uma vontade imensa de comer brigadeiro.
—Hey, essa não é a primeira vez que faço isso, senhorita! Será que você poderia ir lá escolher o filme e me deixar cuidar disso aqui em paz, por favor? –sua voz era brincalhona, sorrindo, Luiza respondeu:
—Okay, mas se você queimar meu brigadeiro pode ter certeza que se arrependerá do momento em que insistiu prepara-lo.
—Certo, mas e se eu não queimar? O que eu ganho com isso?
— bom, primeiro vamos ver se essa coisa ai ficará comestível, depois resolveremos o seu prêmio. –com um sorriso sugestivo, Luiza voltou para a sala do apartamento que dividia com Júlia.
Um sorriso leve pairava no rosto de Pedro, ele estava cada vez mais apaixonado por Luiza, entretanto ele sempre soube que a reciproca não estava nivelada. Luiza jamais demonstrara estar realmente apaixonada por ele, porém com o tempo ele também sabia que as coisas poderiam mudar. Toda via Pedro, por vezes, divagava numa lembrança recente, uma lembrança doce, tentadora e extremamente intrigante. Isabela era o nome da linda jovem que Pedro havia conhecido em Petrópolis, despretensiosa ela o envolveu de um jeito avassalador em uma festinha de rua numa dança que ele mal conhecia. Sorrisos foram trocados, conversas simples embalaram a noite, mas tudo chegara ao fim com o anuncio do tempo que cruel não era nada flexível. As 03:40 da manhã Pedro se despediu da moça, com um pouco de peso na consciência e com a certeza de que aquilo jamais deveria voltar a acontecer.
—Qual vai ser o filme? –perguntou o rapaz ao chegar a sala sentando ao lado de Luiza no sofá.
—Insurgente da trilogia divergente, pode ser? –sorriu largo demonstrando que queria assistir exatamente a aquele filme.
—Certo. Agora prove o melhor brigadeiro do mundo, por favor. –pediu Pedro olhando para a garota.
Luiza comeu um pouco do brigadeiro fazendo uma expressão de satisfação e contentamento, fechando os olhos rapidamente ela gemeu baixinho aprovando totalmente o sabor perfeito do doce.
—Sabe o que você está merecendo agora? –perguntou a moça com um sorriso sugestivo.
— Acho que faço alguma ideia...
Luiza não esperou Pedro falar mais nada, apenas deu um celinho rápido em seus lábios e levantou pegando seu iPhone para conectá-lo ao som. A música escolhida fora Give me love do Ed Sheeran. Enquanto o violão introduzia a canção, Luiza virou-se ficando de frente para Pedro, logo ela começou a se movimentar sorrateiramente, com movimentos lentos e sensuais, a moça passou a fazê-lo enlouquecer. Ela se deixou levar pela voz rouca de Ed e pela verdade que aquela música lhe transmitia. Com os olhos fechados, ela o seduzia em todos os sentidos, em um certo momento da música Luiza passou as mãos nos cabelos e logo após as desceu até a barra de sua blusa como se fosse tirá-la, mas quando a música estava caminhando para a segunda parte ela caminhou de forma atraente até ele e sentou em seu colo. Colocando seus braços nos ombros do rapaz, ela começou a lhe beijar de maneira provocativa, ora os beijos pairavam no espaço abaixo da orelha, ora ela devorava seus lábios carnudos. Rapidamente, ele a empurrou de modo que ela acabou deitando no sofá e assim quem assumira o controle da situação fora Pedro. Com movimentos naturais o rapaz beijava Luiza, fazendo-a arfar com o calor que se apoderara do seu corpo, os sentidos da moça estavam aguçados, seus pensamentos confusos e tudo o que ela queria era se entregar de uma vez e sentir-se amada.
—Oi, aconteceu alguma coisa? –Luiza atendeu o telefone um pouco ofegante e frustrada. Mas ao ver o nome de Marcelo na tela, ela sabia que precisava atender, afinal poderia ter acontecido alguma coisa com o Joaquim.
—Sim! Sei que é domingo e tudo o mais, mas acabei de receber um e-mail com o horário da publicação do seu livro. – falou Marcelo sem delongas.
—Certo. E quando será? –perguntou sem entender ao certo o porquê dele ter ligado apenas para aquilo.
—Amanhã as 20:00Hrs, num hotel bem conceituado em São Paulo. Por isso que estou te ligando agora. –explicou rapidamente.
—Como assim amanhã em São Paulo? Não havíamos combinado que seria por aqui mesmo? –perguntou endireitando-se no sofá.
—Eu sei, mas o pessoal do Marketing organizou dessa forma por achar melhor não só para você com relação a seu público alvo, como também para editora. Tentei intervir, mas não há condições para adiar tudo. Mesmo sendo dono da editora existem coisas que não posso mudar, entende? –falou passando as mãos pelos cabelos um pouco agitado.
—Mas como faremos para comprar as passagens? Que absurdo, Marcelo! Creio que deve ter ocorrido algum erro, não? –falou exasperada.
—Talvez. Mas o que importa é que já está tudo reservado e as passagens já foram compradas. Tudo indica que o erro ocorrido foi com relação a pessoa responsável em me avisar a data, mas assim que voltarmos vou averiguar melhor, e tomar as medidas cabíveis. Por favor, arrume sua mala, não precisa levar muita coisa, passarei ai por volta das 19:00 para que possamos chegar a tempo ao aeroporto.
—Mas já passam das 17:00Hrs. –disse ficando de pé, notando que Pedro fez o mesmo olhando para ela com uma expressão de desentendimento.
—Eu sei, Luiza, mas infelizmente não há muito o que fazer. Por favor, se apresse. Vou apenas terminar de colocar algumas coisas em minha mala para deixar o Joaquim na casa da minha mãe. –avisou rapidamente.
—Tudo bem, Marcelo, eu já vou começar a arrumar tudo. Obrigada! –disse despedindo-se.
Luiza passou as mãos nos cabelos rapidamente, ela tinha menos de duas horas para arrumar tudo o que precisava. Pedro a seguiu até o quarto sem entender o que de fato estava acontecendo.
—O que houve? –perguntou sem conseguir se manter esperando calado por mais tempo.
— Foi o Marcelo, meu livro será lançado amanhã as 20:00Hrs em São Paulo, dá para acreditar?
—Como assim amanhã? Por que você só foi avisada agora? –perguntou sentando na beirada da cama da moça enquanto ela abria sua única mala.
—Eu não sei ao certo, mas tudo indica que houve um erro de comunicação. O que importa é que vou ter que viajar daqui a algumas horas para o evento mais importante da minha vida. Tem como você me acompanhar? –perguntou sorrindo largo.
—Eu não sei, Lú, com o Marcelo fora, provavelmente terei que ficar por aqui. –respondeu com pesar.
—Tudo bem, se Deus quiser esse não será o único livro que publicarei. Será que a Júlia já sabe? –falou enquanto caminhava com algumas peças de roupas nas mãos.
—Não sei, mas vou avisá-la. Você quer alguma ajuda? –perguntou olhando para a loira que naquele momento estava estonteante em alegria.
—Não, apenas avise a Jú, por favor.
Pedro voltou para a sala afim de enviar uma mensagem para Júlia. Logo as horas passaram e quando o relógio marcara 18:30, Júlia chegou em seu apartamento afim de ir até o aeroporto com Luiza.
— Oi, dona escritora! Tudo pronto por aqui? –perguntou sorrindo largamente ao entrar no quarto da moça.
—Júuuu! Ainda bem que você chegou. Preciso saber se essa roupa está boa! O que você acha? –perguntou segurando uma calça Jeans e uma blusa meio social num tom de azul escuro.
—Espera, já respondo! –falou abraçando a loira fortemente, Luiza correspondeu ao abraço de bom grado dando alguns pulinhos ao se soltar em comemoração. _ Estou tão feliz por você, Lú, sempre soube que você conseguiria!
—Obrigada, amiga, obrigada mesmo! –respondeu com os olhos marejados.
—Então, acho que essa roupa ficará perfeita se você usar aquele meu salto preto maravilhoso que comprei no mês passado. Ah, e também, posso fazer uma maquiagem rápida!
—Acho que o sapato vou aceitar, mas creio que não dará tempo de fazer nenhuma maquiagem, daqui a pouco o Marcelo estoura por ai! –falou olhando para a amiga.
—Você vai sozinha com ele? –perguntou fazendo uma careta em desaprovação.
—sim, não há outro jeito. Bem que você poderia ir amanhã. Pede uma licença lá na editora, se precisar falo com o Marcelo. Vamos lá, por favor! –pediu fazendo uma carinha de choro que deixaria o gatinho do filme Sherek com inveja.
—Eu vou tentar, tá bom!? Mas infelizmente não posso garantir nada, está muito em cima da hora. –disse sinceramente.
—Tudo bem, eu entendo. Bom, deixa eu ir lá tomar um banho rápido. Enquanto isso, vai, por favor, fazer companhia ao Pedro lá na sala, o coitado está lá a mais de uma hora enquanto eu enlouqueço aqui dentro. –pediu sorrindo amigavelmente.
—Okay, mas se apressa. –disse saindo do quarto.
Pedro e Júlia estavam na sala conversando sobre o livro de Luiza quando a mesma entrou na sala quase pronta, ela estava linda. A sugestão que Júlia lhe dera fora essencial para a composição do look.
—Amiga, já que o Marcelo ainda não chegou vem me ajudar aqui rapidinho, por favor!? –pediu rapidamente olhando para Júlia.
De volta ao quarto, Júlia maquiava Luiza com movimentos rápidos. Preparou a pele de forma básica e aplicou um pouco de delineador e rímel com uma sombra clarinha para finalizar os olhos. O blush e o batom vermelho deram um toque especial realçando a beleza da jovem.
—Você está tão linda! Mas acho que há alguma coisa diferente lhe perturbando, coisa essa que não percebi quando cheguei.
—Eu vou sozinha com ele, Jú! Eu não queria ter que passar por uma situação dessas tão rápido... está tudo indo tão bem com o Pedro... sabe que antes do Marcelo ligar ainda há pouco, quase que rolava tudo entre nós? –falou sorrindo suave.
—Sério!? Tudo? Tipo, tudo mesmo? –surpresa, Júlia prendia os cabelos de Luiza num rabo de cavalo um pouco alto.
—Sim. Mas acabou que o Marcelo interrompeu o momento mais uma vez.
—Mas que droga em, Lú!? Fala sério! Bom, eu já terminei, olha lá como ficou... –Júlia mantinha um sorriso imenso no rosto por trás de Luiza, enquanto ela admirava seu reflexo no espelho maravilhada.
—Eu estou linda! Obrigada, amiga, obrigada de coração! –Luiza ainda sorria ao espelho quando ouviu seu telefone tocar. Era o Marcelo.
Com Pedro segurando sua mala e Júlia ao seu lado, Luiza desceu até a portaria. Marcelo estava encostado ao seu carro rente a calçada do seu prédio, quando viu todos se aproximando, ele foi até Luiza rapidamente.
—Boa noite, pessoal! Já está com tudo pronto, Luiza? – Marcelo estava arrumado casualmente, porém sua beleza era evidente.
Todos entraram no carro em que Marcelo estava rumo ao aeroporto Santos Dumont. Luiza que estava sentada ao lado de Pedro e Júlia no banco traseiro do carro, mal conseguia conter a imensa alegria e ansiedade que estava sentindo. Jamais passara por sua cabeça realizar um dos maiores sonhos de sua vida tão rápido. Ao se posicionarem próximos ao portão de embarque, Marcelo perguntou para a jovem escritora um tanto impaciente:
—Podemos ir, Luiza?
—Sim, deixa só eu me despedir. –falou abraçando Júlia carinhosamente.
—Vai dar tudo certo, apenas mantenha aquela distância segura que conversamos no outro dia, ok? –falou Júlia baixinho ao pé do ouvido da amiga.
—Certo. Vou tentar ao máximo manter o combinado.
Pedro conversava alguma coisa com Marcelo enquanto Luiza se despedia de Júlia, mas assim que Marcelo notou Luiza se aproximar de Pedro, ele pegou a mala da loira e levou até mais próximo do portão, afim de proporcionar uma boa distância dos dois. Ao olhar de lado discretamente, Marcelo pôde ver os dois se abraçando de maneira amorosa e terna. Quando o Pedro se aproximou o suficiente para beijar Luiza, Marcelo desviou o olhar. Algo dentro dele ainda não conseguia encarar aquela realidade de forma tranquila e impessoal.
A viagem estava passando rápida e tranquilamente silenciosa, por vezes, Marcelo olhava para Luiza, e numa dessas olhadas sorrateiras ele conseguiu perceber o quanto ela estava bonita.
Marcelo sentou numa poltrona ao lado da moça, logo ela resolveu quebrar o silêncio, afinal não poderia viajar com ele para outro estado sem lhe dirigir uma única palavra. Sorrindo, ela logo pronunciou:
—Muito obrigada por tudo isso! Se não fosse por você eu acho que a realização desse sonho seria muito improvável. Devo muito a você, Marcelo! –a sinceridade exalava em seu olhar, sua gratidão era imensa.
—Não há o que agradecer, Luiza. Você é uma escritora incrível e seu livro merece ser publicado; Mais dias menos dias alguém iria descobrir o tesouro, e graças a Deus eu e minha editora o encontramos primeiro. – Marcelo olhava diretamente em seus olhos com um sorriso contido nos lábios.
—Você fez muito! Bom, voltaremos amanhã mesmo, não é!? –perguntou rapidamente voltando seu olhar para a pequena janela ao seu lado tentando disfarçar sua apreensão, pois logo o avião pousaria.
—Sim, amanhã de madrugada, às 02:00 da manhã estaremos embarcando de volta! Essa será uma viagem cansativa, mas prefiro assim, não quero ficar muito tempo longe do Joaquim.
—Eu também não. Mas não tem problema, numa próxima vez eu viajo com mais calma para conhecer a cidade. Woll! –Luiza segurou firme a mão de Marcelo que estava posicionada no encosto para mãos ao seu lado. A aeromoça anunciou o final do vôo e tudo o que Luiza sentia era medo.
—Você nunca viajou de avião antes? –Marcelo estava um pouco surpreso com a reação da moça que sempre demonstrara ser destemida.
—Não, essa é a primeira vez! Tem certeza que está tudo bem? Por que faz tanto barulho? Eu acho que o pouso está sendo mais complicado do que a decolagem, ou será que estou muito nervosa? Meu Deus, eu vou publicar meu primeiro livro em grande estilo!Acho que minha mão está suando demais, Desculpe! Acho que estou falando demais também! –ela atropelava as palavras exasperadamente, seus olhos estavam assustados e engraçados ao mesmo tempo.
—Está tudo bem sim, fica calma! Daqui a pouco estaremos em terra firme, falta pouco! Olha aí, já passou, está vendo só!? –falou suavemente, mas a moça ainda segurava firmemente sua mão.
—Desculpe! –pediu olhando para ele ainda assustada.
—Não tem problema, está mais calma? Quer alguma coisa? Temos que desafivelar o cinto e ficar de pé agora. — sorriu olhando o rosto corado da loira ao seu lado, com toda certeza, ela mexia com seus sentimentos mais profundos.
—Não, estou bem! –falou sorrindo levemente tentando disfarçar seu amedrontamento.
—Hey, não há o que temer. Estou aqui bem ao seu lado, não vou deixar que nada ruim te aconteça. Fica tranquila! Vem, vamos lá! –Luiza assentiu, sentindo que as palavras de Marcelo lhe acalmaram sobremaneira.
Marcelo caminhou logo atrás da moça, ele não estava esgotado fisicamente mas sim mentalmente. Além de vir trabalhando demais, os acontecimentos que antecederam aquela viagem o tiraram do sério. Marcelo jamais pensou que Rafaela seria capaz de uma atitude tão inesperada como aquela, o que ele achou que seria apenas uma tarde tranquila ao lado de uma velha amiga e do seu filho se tornou num verdadeiro pesadelo.
Entretanto tudo o que ele queria era esquecer o que havia ocorrido, e simplesmente fazer daquela viagem algo especial e memorável, pois ele tinha certeza de que aquela seria a primeira de muitas outras viagens para o lançamento dos próximos livros da bela e talentosa jovem a sua frente.
Fale com o autor