Reason
24 Hold on
Notas iniciais
Apertem o play!
https://www.youtube.com/watch?v=qi1D3i3iadk
Estava ali, em meus braços a mulher que havia me mostrado que ainda existia motivos para ser feliz, motivos para amar novamente, motivos para sonhar mais uma vez. Porém, como nem tudo nessa vida são alegrias, o motivo que me fazia acordar e ter vontade de sorrir permanecia inerte aos meus chamados, aos meus toques, as minhas lágrimas.
De repente, tudo passou em minha mente como em flashs rápidos e nublados terminando com a ultima cena, onde eu presenciei o tiro que tiraria a vida da minha doce, alegre e bela Luiza. Eu não consigo entender como alguém possui a capacidade de fazer algo tão cruel com uma mulher tão incrível como essa que amparo em meus braços. Definitivamente, não há nada que possa justificar tamanha violência. Naturalmente, nós homens, somos mais fortes do que as mulheres, de modo que não há como elas se defenderem corporalmente com o mesmo nível de força, com exceção, obviamente, daquelas que treinam pesado e fazem uso de componentes químicos para aumento de musculatura. Isso, é, sem dúvida alguma, a maior das covardias entre um casal.
Olhei para o meu lado esquerdo, ainda com Luiza desacordada e sangrando em meu colo, para o imbecil que havia disparado poucos minutos atrás. Ele se mantinha ajoelhado e rodeado por policiais que o haviam rendido, seu ombro direito sangrava pelo tiro de raspão que tinha levado por conta do reflexo imediato de um dos policiais que agiu de ímpeto ao ver e ouvir a vítima sendo atingida. Simplesmente, não tinha mais nada em minha cabeça além da vontade de ensinar ao cafajeste do Thiago qual era o seu devido lugar. Então, sem pensar duas vezes, eu posicionei delicadamente a cabeça de Luiza no chão e avancei como um animal para cima dele, não sei bem como consegui driblar um dos policiais a minha frente e abrir espaço para socar a cara do homem que mais odiava na vida, mas eu consegui. Eu o soquei duas vezes até dois policiais me tirarem de perto daquele abrute, contudo o que me acertou em cheio foi o seu olhar debochado e vitorioso.
Sem demora, ouvimos um barulho forte de sirene se aproximando. Agradeci profundamente a Deus por ouvir aquele som, muito provavelmente, minha Luiza teria uma chance. “Calma, muito provavelmente, não. Ela, com toda certeza, sobreviverá.” Era o que eu tentava fixar em mim mesmo a cada segundo que se passava.
Luiza não tinha um semblante sereno como a maioria das vitimas ficam no estado em que ela se encontrava, muito pelo contrário, dentro dela parecia que havia um furacão. Ela mantinha uma expressão de quem estava sentindo muita dor, seus olhos não se abriam para que eu pudesse me perder neles mais uma vez, mas eu pude notar alguns espasmos em suas pálpebras, algo estava acontecendo. Logo, antes mesmo que eu pudesse respirar mais profundamente e ligar para Júlia, ouvi uma das paramédicas avisar que o pulso de Luiza caíra drasticamente, eu não pude acreditar que o amor da minha vida estava realmente indo embora.
—Hey, me ouça! Luiza, meu amor, você não pode me deixar aqui sozinho. Eu preciso de você, preciso de você, meu bem. -Marcelo estava completamente desesperado sentado ao lado da maca de Luiza dentro da ambulância que a levava a toda velocidade para o hospital mais próximo.
—Senhor, por favor, dê-nos espaço para cuidarmos dela corretamente. Afaste-se! -pediu uma paramédica com seu semblante inexpressivo.
Vários procedimentos começaram a ser feitos com destreza e agilidade. Um tubo de respiração foi instalado na loira que lutava para sobreviver após ter sido atingida na barriga, depois de muito sofrer nas mãos do seu ex-namorado num sequestro que durou horas e horas.
O celular de Marcelo vibrava repetidamente em seu bolso, era Júlia quem o ligava incansavelmente afim de saber se tudo havia ocorrido como o esperado, não sabia ela que sua amiga estava entre a vida e a morte.
—Marcelo, como vocês estão? Conseguiram? -perguntou Júlia com a voz embargada e exasperada do outro lado da linha.
Alguns muitos segundos se passaram até Júlia ouvir alguma resposta de Marcelo. Ela, logo, percebeu que algo estava muito errado. Seu coração começou a bater mais descompensadamente, uma dor profunda a tomou completamente. Júlia não se conteu e deixou que grossas lágrimas rolassem por seu rosto, fazendo com que Lavinha, ao ver aquela cena, também se debulhasse em lágrimas.
—Júlia, eu preciso que você fique calma, ok? -pediu Marcelo, notando o quanto a moça já estava com a respiração alterada.
—Tu...Tudo bem. Só me diga que ela está bem, Marcelo. -sua voz saiu mais vacilante do que ela esperava.
—A Luiza foi atingida por um tiro que o Thiago disparou quando viu os policiais. O estado dela não é estável, Júlia, pois pelo o que me disseram, o tiro deve ter acertado algum dos órgãos. O pulso dela está fraco e já perdeu muito sangue. -Marcelo falou tudo de uma vez só, como se quisesse que com a mesma velocidade que suas palavras eram proferidas Luiza se recuperasse.
—Meu Deus, Marcelo! -foi só o que a morena conseguiu dizer antes de ficar completamente paralisada com uma das mãos no peito, tentando respirar corretamente mais uma vez. Rapidamente, Lavinha pegou o telefone da mão da moça e começou a tentar acalmar seu filho.
—Querido, por favor, me ouça. -Lavinha também estava imensamente afetada pelo o que estava acontecendo com seu filho e com sua atual nora. Sim, nora, pois tudo dentro dela já decretara que o futuro do seu filho seria ao lado da linda mulher que era Luiza.
—Tudo bem, mãe, pode falar. -Marcelo não sabia se estava realmente ouvindo alguma coisa, mas, com toda certeza, precisa escutar a voz gentil de sua mãe para lhe acalmar um pouco o coração. Se tinha alguém no mundo que poderia fazer aquilo por ele, era a forte e determinada Lavinha.
—Marcelo, meu filho, você precisa ser forte neste momento. Estamos todos com você, mas tenho certeza que tudo melhorará o mais rápido possível. Deus não há de nos abandonar nesse momento de sofrimento, meu bem. Porém, jamais esqueça que o brilho do sol será sempre mais bonito depois de uma noite de tormenta. Você é forte, é capaz de segurar essa por seu filho e por Luiza. Não duvide jamais da força do amor de vocês três, filho. Será isso que fará com que a Luiza se recupere e os abrace novamente. -Lavinha falava com uma doçura que só as mães eram capazes de ter.
—Certo, mãe. Eu não sei o que seria de mim nesse momento sem você. Por favor, tente acalmar a Júlia e peça para ela levar para o Centro de Saúde Fronteira alguns pertences de Luiza. Eu vou ficar com ela o máximo de tempo que a mim for permitido. -pediu tentando controlar ao máximo as lágrimas que insistiam em cair.
—Ok, meu bem, farei isso. Por favor, não deixe de nos dar notícias.
—Mãe, espere só mais um pouco. – pediu Marcelo como num sobressalto.
—Por favor, cuide do meu filho. Eu amo vocês! -falou já com a voz embargada demais para continuar naquela ligação.
Com as mãos tremulas ao presenciar Luiza respirando com a ajuda de um tubo de ar, Marcelo deteu-se a segurar sua mão esquerda. Segundo a equipe responsável por ela na ambulância, Luiza estava num quadro de risco, porém conseguiriam chegar até o centro de saúde mais próximo em segurança, mas muito possivelmente, ela precisaria de uma intervenção cirúrgica o mais rápido possível. Marcelo processava as ultimas notícias com uma certa dificuldade, pois tudo o que ele pensava era totalmente vinculado a morte prematura de Verônica. Ele não podia perder Luiza tão cedo também. Ele não aguentaria mais esse baque.
Em cerca de quarenta minutos de viagem, a ambulância entrou por sua entrada reservada de emergência no centro de saúde localizado na fronteira entre Rio de janeiro e Florianópolis. Cidade essa que seria o destino final de Thiago, uma vez que, em sua cabeça, a ideia havia sido muito inteligente, pois na maioria dos casos o comum seria se esconder fora da cidade, mas para ele, quanto mais perto menos dúvidas ele levantaria sobre o seu paradeiro e o de Luiza, sem falar que o chalé escolhido era bastante afastado de tudo e de todos.
Marcelo desceu da ambulância e acompanhou às pressas a maca da sua namorada até onde pôde, pois, logo, fora contido pelos enfermeiros que o informaram sobre sua falta de permissão para continuar ao lado da loira. Desesperado e com lágrimas nos olhos ele prometeu que estaria orando pela vida da moça incessantemente e que jamais a abandonaria. Meio sem rumo, o jovem pai caminhou até a sala de espera da ala cirúrgica do hospital e sentou-se em uma das cadeiras de plástico que ali haviam. Ele não sabia quanto tempo tinha se passado, mas quando abriu os olhos após uma longa conversa com Deus, ele viu Júlia pedindo alertadamente informações sobre sua melhor amiga. Elas, definitivamente, eram mais que melhores amigas, eram irmãs de alma. Marcelo muito admirava aquela bela amizade e sabia que Júlia estava sofrendo tanto quanto ele com aquela situação.
—Júlia, que bom que chegou! – Marcelo se aproximou da jovem e a abraçou apertado, de algum modo, ele precisava passar algum tipo de conforto para ela.
—Demorei por conta da distância, Marcelo, queria muito ter conseguido chegar antes. Como ela está? Posso vê-la? -sua voz era urgente e o olhar permanecia atônito em busca de uma resposta positiva.
—Infelizmente, não podemos vê-la ainda. Os médicos estão operando-a. Tenho certeza que ela conseguirá sair dessa ilesa, Júlia. A Luiza é forte o suficiente. -Disse com um pequeno sorriso contido nos lábios ao lembrar do rosto sorridente da mulher que o arrebatou o coração.
—Tudo bem. Podemos sentar e aguardar? Eu trouxe escova de dentes, algumas peças intimas e pijama. Mas se precisar, eu volto para buscar mais alguma coisa. Será que ela vai ficar muito tempo aqui? O Hospital não aparenta ser muito bom. Acho que vou voltar em casa para pegar alguns cobertores. Talvez, eu possa trazer, também, um travesseiro, algumas coisas que ela gosta de comer, ou quem sabe um livro para que ela possa se distrair... -Júlia não parava de falar, ela atropelava algumas palavras no meio da sua fala desesperada. Então, rapidamente, Marcelo a abraçou novamente e deixou que ela chorasse em seus ombros, fazendo apenas movimentos circulares em suas costas com a mão, numa tentativa de acalmá-la.
—Ela precisa ficar bem, Marcelo. Ainda precisamos muito daquele sorriso. -falou em meio aos soluços que não conseguia conter.
—Calma, ok? Ela vai ficar, eu tenho certeza que a Luiza não irá embora dessa forma. Você ainda será a madrinha mais chata que já existiu dos nossos filhos. -falou tentando trazer algum alivio para a morena que o olhou com um sorriso de lado.
—Tudo bem. Bom, o Pedro ligou e disse que estava vindo para cá. Creio que ele foi a ultima pessoa que viu a Luiza antes do sequestro. Ele disse ter ido lá no apartamento para conversar com ela e pedir desculpas pelo papelão que havia aprontado. -explicou Júlia para surpresa de Marcelo.
—Certo. Não é o momento, mas acho que devo me entender com ele o mais rápido possível, é o correto a ser feito. – disse encostando a cabeça na parede ao lado de Júlia que acabou por fazer o mesmo e soltar uma respiração profunda e sôfrega.
Júlia e Marcelo ficaram apenas em silêncio por muito tempo, já estava amanhecendo quando um dos médicos saiu da sala de cirurgia e foi até a recepção com um semblante esgotado depois da longa cirurgia de emergência que havia protagonizado. Sem esperar nem um segundo, Marcelo levantou-se e foi até ao encontro do médico que virou-se para encarar o olhar aflito do namorado de sua paciente.
—Por favor, doutor, diga-me que ela está fora de perigo. -pediu completamente angustiado.
—Por um milagre, a paciente não se encontra num estado de risco, mas terá sequelas irreparáveis, uma vez que a bala perfurou o rim direito e tivemos que retirá-lo, de modo que ela viverá apenas com um e isso requererá muitos cuidados ao longo de sua vida. Eu sinto muito! -disse simplesmente sem transparecer nenhuma emoção.
—Dos males o menor. Graças a Deus! Eu não sei nem como te agradecer, doutor. Então, ela ficará bem, não é? -falou Marcelo rapidamente olhando diretamente para o homem a sua frente.
—Cremos que sim, mas o quadro ainda é delicado, então esperemos para ver como ela reage ao pós operatório. Não criemos falsas expectativas, senhor. -pediu cuidadosamente.
—Tudo bem. -limitou-se, sabendo que é típico dos médicos darem respostas como aquela.
—Quando poderemos vê-la? -perguntou Júlia já ao lado de Marcelo.
—Assim que ela acordar e os efeitos da anestesia passarem. Por enquanto, recomendo que voltem para casa e descansem. Qualquer coisa, podemos ligar para avisá-los. Mas no momento, ela irá dormir até umas 10h da manhã. -alegou já assinando um caderno na recepção para voltar ao seus afazeres.
—Não, doutor, ficaremos aqui até que ela acorde. Mas muito obrigada por tudo. -disse Júlia com um meio sorriso e um ar de alivio.
—Tudo bem, até mais. -despediu-se e deu as costas aos dois.
Marcelo não cabia em si de tanta felicidade por ter recebido uma noticia positiva do quadro de Luiza. Obviamente, eles teriam um longo caminho a percorrer após todo o trauma que a jovem havia passado, mas ele sabia que juntos conseguiriam enfrentar qualquer dificuldade que estivesse por vir. O amor que ambos sentiam um pelo outro era maior do que qualquer barreira que pudesse se levantar.
O casal voltou para os seus lugares nas cadeiras da sala de espera e se deteram a ligar para os entes mais próximos e avisar sobre o desfecho da cirurgia. Júlia ligou para o seu quase namorado, assim como Luiza costumava chama-lo e Marcelo ligou para sua mãe.
—Oi, querido, dê-me boas notícias, por favor. -disse Lavinha assim que atendeu a ligação do seu filho.
—Mãe, ela está fora de risco. Infelizmente, perdeu um dos rins, mas está fora de perigo. -disse sorrindo ao telefone com uma voz muito mais tranquila do que a que sua mãe ouviu na ultima ligação.
—Ahhh, meu bem... Você não sabe o quanto estou alegre em saber disso. Eu te falei!? Ela é muito forte e ainda tem muito para viver ao nosso lado. -falou não conseguindo conter as lágrimas que já haviam se formado em seus olhos.
—Sim, mãe, ela é. O amor da minha vida é a mulher mais guerreira desse mundo. -declarou sem sombra de dúvidas.
Marcelo ainda ficou por algum momento conversando com sua mãe sobre Joaquim e Luiza, mas, de repente, algo tirou sua atenção do telefonema. Era Pedro quem havia chegado ao hospital e se encontrava completamente desesperado ao falar com a atendente da recepção. Sem pensar muito, Marcelo pediu a sua mãe para que ligasse depois e levantou-se para ir ao encontro do seu grande e antigo amigo.
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