Reason
18 Flashlight
Notas iniciais
O dia mal começara e Luiza já estava de pé. Sentada numa poltrona próxima a grande janela do quarto de hotel ela observava a beleza de São Paulo. As ruas ainda estavam um pouco desertas, alguns carros passavam aqui e ali, mas nada comparado ao amanhecer da sua cidade natal. Uma felicidade borbulhante lhe tomara as emoções, nada parecia estar de fato acontecendo. A jovem escritora, por mais que não se comparasse a uma, conseguira finalmente realizar um dos seus grandes sonhos de infância. Todas as vezes que ela lia alguma história infantil, ou um conto de fadas, mergulhava de cabeça na trama e muitas vezes, já com a leitura amadurecida um pouco mais, ela pegava-se imaginando como aquele tipo de ideia brotara na cabeça de quem escreveu.
Sorrindo, ela lembrou da primeira vez que teve uma ideia e começou a rabiscar um resumo no seu próprio caderno que usava para os assuntos escolares, depois disso, não conseguiu mais parar; eram contos, poemas e muitas crônicas, até que chegou a vez do romance propriamente dito. Jamais imaginou que conseguiria levar seu livro a conhecimento publico tão cedo.
Marcelo acordou pouco depois de Luiza, mas não deixou que ela percebesse. Sutilmente, ele se pôs a observá-la de longe e ainda deitado. Marcelo sempre admirou o jeito determinado e doce da jovem, ele havia se encantado rapidamente por ela. Mas só ali, naquele exato momento, mais ou menos às 05:30 da manhã, ele percebeu que o que sentia era muito mais que apenas um simples deslumbramento. Intrigado, ele passou as mãos pelos cabelos e virou-se para o lado oposto o que fez Luiza desviar o olhar em sua direção.
—Desculpe se lhe acordei! –falou aproximando-se para sentar na beirada da cama.
—Não se preocupe. Está tudo bem? Por que levantou tão cedo? –Marcelo se perdeu no olhar recém desperto da moça, como uma mulher poderia ser tão linda assim ao acordar?” pensou consigo mesmo.
—Não sei, acho que estou muito ansiosa, sempre sonhei com esse momento e agora tudo parece tão irreal, parece mesmo que voltei ao meu sonho de infância só que agora eu estou mais velha e ... –sorriu rapidamente olhando para cima, levando as mãos a cabeça fazendo um leve sinal negativo de incredulidade.
— E?
—Nada. Só sei que vou aproveitar ao máximo essa oportunidade, e dar o meu melhor para que ela se repita outras vezes, Marcelo!
—Entendo sua ansiedade, mas não há motivos para preocupações. Você, Luiza, é incrivelmente talentosa, mesmo que não acredite, dentre todos os romances em que já pus as mãos, o seu de longe é um dos mais intrigantes e bem escritos.
—Bom, de fato, não tenho tanta certeza quanto a isso, mas já que aqui estou pretendo realmente doar tudo de mim nesse momento. Precisamos sempre aproveitar as oportunidades que a vida nos aponta, entende!? –a voz da moça soou sugestiva, entretanto ela não se dera conta de que assim procedera.
—Sim. Precisamos. Bom, já que estamos de pé, e ainda é tão cedo, que tal darmos uma volta pelo jardim do hotel? Infelizmente, não teremos tempo para aproveitar a cidade. Então, o que achas?
—Hamm... Claro! Podemos. Vou só tomar um banho rápido e já estarei pronta. Quando entrarmos, tomaremos nosso café da manhã.
Marcelo apenas meneou a cabeça em concordância, pois ele já estava longe; os movimentos da doce Luiza haviam invadido a mente do jovem pai, ele passou a prestar atenção no quanto aquela manhã estava sendo natural, como se já estivesse tudo predestinado, como se já fossem um casal, como se fosse ela quem sempre morou em seu coração desde que perdera a mãe do Joaquim.
Luiza, rapidamente, assim como havia prometido, arrumou-se. Colocou um shorts jeans não muito curto, uma batinha leve branca e deixou os cabelos louros secarem naturalmente. Porém, antes de sair do banheiro, ela olhou-se no espelho e sorriu com sua imagem estranhamente feliz, fazia tempo que ela não sentira tamanha felicidade de uma só vez, e ali, naquele quarto de hotel, ela compreendeu que não era com absolutamente mais ninguém que gostaria de estar além de Marcelo. Não se culpou por isso, apenas deixou-se maravilhar-se com o sentimento tão sincero que se instaurara e propagara-se em seu âmago. Ela o amava.
Assim que a loira saiu do banheiro, Marcelo pediu um momento e nele entrou. Luiza logo notou o quanto ele também parecia compartilhar daquele doce e novo sentimento com ela, contudo, graças a todos os seus discursos anteriores, ela não se permitiu acreditar por inteiro naquela percepção. Marcelo insistia em tentar evitá-la por mais que parecesse mais afetuoso.
O dia ainda não estava abafado, Marcelo caminhava ao lado da moça com um sorriso contido nos lábios, volta e meia seu olhar pairava sobre ela, observava cada detalhe, desde seus cabelos dançando em suas costas com o vento leve que ali soprava até seu andar suave e feminino. Ela era bonita demais para não ser notada, ele bem sabia o quanto seus amigos a admiravam e até mesmo desejavam.
—Luiza, eu realmente gostaria de entender melhor a protagonista do seu livro, sinto que a conheço, mas você sempre fez um mistério tão grande quanto a inspiração de “Despertar” que resolvi não te perguntar mais, no entanto, além da minha curiosidade, haverá a curiosidade da mídia e dos leitores. Você já sabe o que vai responder? – Marcelo, realmente estava preocupado, entretanto, no fundo, ele já sabia de onde havia brotado a inspiração de Luiza, e aquilo doía mais do que tudo.
—Bom, eu sei de onde brotou, e falarei se me indagarem. Marcelo, minha inspiração proveio de todas as mulheres que já sofreram por um amor que achavam ser verdadeiro, de todas aquelas que já foram violentadas física e verbalmente. Não é tão difícil escrever sobre, ouvimos todos os dias relatos desse tipo nos jornais e revistas, infelizmente. –falou rapidamente tentando fazer o máximo para sua voz soar tranqüila e sincera, porém ela já sabia que não adiantaria se esforçar tanto, pois desde o dia em que ela chegou com o braço machucado na casa dele pouco antes das 00:00Hrs, ela entendera que Marcelo percebeu quem de fato estampava cada página daquele livro. Era ela.
—Tudo bem. Mas confie em mim, eu jamais diria a alguém algo tão seu. Sei que quem ali está é uma mulher real, que sofreu tudo aquilo na vida real e que continua fugindo e disfarçando seu sofrimento, com medo de sofrer algo mais. –falou olhando em seus olhos após sentarem num banquinho que ali havia de frente para diversas variedades de flores muito bem cuidadas.
—Talvez ela tenha sido real, talvez não. Então não tem muito que lhe falar. –disse apenas desviando o olhar para a imensidão a beleza a sua frente.
—Pensei que você confiava em mim, pensei que independentemente de qualquer coisa, fossemos amigos... –a voz de Marcelo saiu num fio de som, mas foi o suficiente para Luiza perceber que suas palavras poderiam machucá-lo.
—Desculpe. Claro que somos amigos! Olha pra mim! –pediu e o Homem ao seu lado fez o que ela pediu, quando os olhares se encontraram, já não era mais Marcelo e Luiza, o patrão e uma babá, mas sim dois jovens adultos que se amavam profundamente. _ Eu não quis te machucar, mas prefiro guardar certas coisas só pra mim. É complicado demais, Marcelo. Desculpe!
—Tudo bem, eu é quem tenho de pedir perdão, as vezes minha curiosidade ultrapassa alguns limites. Lógico que você tem o direito de guardar o que você quiser só para você, mas saiba que sempre estarei aqui para você, digo, para o que você precisar. –ele sorriu largamente notando sua confusão adolescente e reclamou consigo mesmo mentalmente.
—Eu sei e digo o mesmo, pra sempre. Bom, acho que deveríamos voltar, antes da conferencia preciso ir até o salão de beleza e talvez comprar algo para vestir. –disse levantando-se e sorrindo largamente para Marcelo.
—Não precisa comprar nada para vestir, tenho uma surpresa para você. –falou seu conseguir guardar por muito seu segredo e de sua mãe.
—Você comprou uma roupa para eu vestir na conferencia? –perguntou um pouco incrédula.
—Sim, na verdade, eu e a mamãe. Espero que você goste. Vem, se não acabaremos atrasados! –disse levantando e segurando a mão da moça afim de que ela o acompanhasse.
Marcelo ficou no hotel tomando café e conversando com alguns organizadores da conferencia para publicação do livro enquanto Luiza foi direto para o salão de beleza do próprio hotel, agradecendo a Deus por não ter de ir ao shopping. Quando a moça voltou foi direto para o quarto, ela estava observando os detalhes da produção no espelho do banheiro que estava com a porta entreaberta. O jovem pai, assim que entrou no quarto, paralisou com a imagem a sua frente. Luiza estava apenas de roupão, sua maquiagem era simples, porém marcante; seus cabelos estavam escovados e presos num rabo de cavalo um pouco alto. Mas o que realmente lhe chamou atenção fora seus lábios que estavam num tom de malva matte, ela sorria levemente mostrando os dentes brancos e incrivelmente alinhados. “Como ela é linda!”pensou e pronunciou, apenas, a ultima palavra em voz alta. Assim que Luiza ouviu, virou-se levemente para ele e o encarou longamente, nada precisava ser dito, pois ambos estavam travando um diálogo que só entende aqueles que já provaram de uma forte paixão.
Como se estivesse saindo de um transe, Luiza sorriu mais uma vez olhando para Marcelo e saiu do banheiro, ele respondeu ao sorriso e caminhou até sua mala, afim de achar o presente da moça.
— E então escolhemos com muito cuidado, espero sinceramente que sirva e que você goste. –disse entregando um embrulho grande para a moça, que sorriu assustadamente quando viu o nome da loja na embalagem.
—Vou colocar, preciso descer as 09:00 e já passa das 08:30. Só um instante. –falou com o embrulho nas mãos parada na frente de Marcelo e ele só conseguia pensar no que estaria por trás daquele roupão branco.
Marcelo não se repudiou por ter pensado exatamente no que havia acabado de passar por sua mente, era perfeitamente normal desejá-la, ela estava ali, apenas de roupão e incrivelmente linda, não existiam possibilidades de não pensar. Entretanto o respeito e a admiração que ele sentia por aquela mulher eram muito maiores do que qualquer desejo, talvez fosse precisamente por isso que ele jamais havia beijado-a novamente.
—E ai? O que achou? Eu simplesmente amei, Marcelo. Muito obrigada, do fundo do meu coração! –disse a moça assim que saiu do banheiro trajando o belo vestido nude que ia até acima dos joelhos, um pouco colado ao corpo e de uma só manga.
—Você está... Ual! Você está maravilhosamente linda, Luiza! –disse tentando conter sua reação ao máximo. Ela não precisava saber o que se passava em sua mente naquele exato minuto.
—Ah, obrigada! Obrigada mesmo, eu jamais escolheria um melhor ou mais bonito. Esse é perfeito! –disse sinceramente olhando de Marcelo para o vestido em seu corpo.
—Você merece, agora eu acho melhor você ir andando, se não daqui a pouco o Erick liga procurando por você! – Marcelo já havia separado sua roupa e estava a fim de se arrumar o mais rápido possível para poder estar por perto.
—Tudo bem, deixa só eu colocar um pouco de perfume e os brincos. Ainda bem que trouxe esse scarpin preto que a Júlia me emprestou, combinará perfeitamente com o vestido. –ela caminhou novamente em direção ao banheiro e ele se pôs a, apenas, observá-la pela milésima vez.
A moça já estava sentada numa poltrona por trás de uma bela mesa com cadeiras a sua frente que, até então, estavam vazias. Exemplares do seu livro foram bem colocados em cima da mesa e espalhados numa estante. Ela sorriu largamente ao olhar tudo ao seu redor e uma lágrima de alegria escorreu por seu rosto, logo ela limpou e sorriu ainda mais largamente; seu coração estava em festa, sua mente voltada a Deus por tudo o que lhe estava acontecendo.
Já passavam das 09:40min quando Marcelo entrou no salão onde ela estava, ele estava lindo, uma calça jeans, uma blusa preta de botão e um Blazer compunham o look do moreno. Ela sorriu ao vê-lo ali, feliz, plena.
—Falta pouco! –Disse próximo ao seu ouvido direito sentando ao seu lado já que era seu editor e padrinho de lançamento.
—Sim. Meu coração daqui a pouco pula do meu peito. –sua voz estava tensa, porém alegre ao mesmo tempo.
Sem mais demora, a conferencia começou, alguns jornalistas a entrevistavam enquanto o publico era organizado numa fila indiana do lado de fora do salão. Quando a pergunta que não queria calar chegou, ela respondeu friamente do mesmo jeito que havia feito com Marcelo, aquele era um segredo que só pertencia ao seu passado. Os jornalistas aparentaram darem-se por convencidos e satisfeitos por volta das 11:00Hrs. De repente, Luiza se viu autografando e tirando fotos, ela estava radiante, seu sorriso tudo iluminava.
Uma jovem moça, beirando seus 20 anos, aproximou-se de Luiza e perguntou se poderia abraçá-la. Prontamente a loira ficou de pé e a abraçou, por um longo momento Luiza se ateve a sentir o turbilhão de emoções que aquela jovem mulher estava sentindo. Quando as duas se olharam os olhos da leitora estavam marejados e então, ela sorriu levemente, sem nada dizer, disse muito. Algumas lágrimas escorreram por seu rosto.
—Obrigada! Você não tem idéia do quanto esse livro foi importante para mim. Eu te admiro muito! –Foi só o que a ruiva conseguiu pronunciar, rapidamente ela entregou o livro para a escritora autografar, essa que o recebeu com muito carinho e gratidão.
Luiza continuou a receber livros até depois das 12:00, quando já passavam das 12:45min, ela levantou sorrindo e abraçou Marcelo fortemente. Já não havia mais ninguém ali além do pessoal da equipe organizadora. quando se soltaram, e ela olhou em seus olhos precisamente e disse:
—Se não fosse por você nada disso teria acontecido, saiba que serei eternamente grata. Muito, muito obrigada por existir em minha vida, Marcelo. –voltaram a se abraçar depois do que foi dito e, em seus ouvidos, só para que ela pudesse ouvir, ele disse:
—Sou eu quem deve agradecer, Luiza. Eu estava afundando numa escuridão profunda, mas o seu sorriso me trouxe à tona novamente. Você é muito importante pra mim! –ela sorriu e chorou ao mesmo tempo ainda em seus braços, ele a apertou um pouco mais forte, como se fosse um sinal para que ela entendesse o quanto ele a amava.
Sorriram e caminharam juntos para a saída rumo ao quarto. O vôo de volta estava marcado para as 16:00Hrs. Marcelo não queria passar muito tempo longe do Joaquim. Logo, eles foram almoçar com um acessor que dali para frente gerenciaria a carreira da escritora. Ao embarcarem, Luiza passou a sentir uma paz que jamais havia sentido. Seu coração batia ordenadamente, calma e feliz. Ela que estava vivendo um verdadeiro inferno antes de conhecer o homem ao seu lado, não acreditara que tudo aquilo realmente estava lhe acontecendo. E se pra ele fora ela quem o trouxera de volta a luz, ele fora como uma lanterna, iluminando vários pontos de sua vida que ela já não mais enxergava.
Fale com o autor