Reaprendendo a amar
5 Capítulo 4.
Notas iniciais
Scott e Yasmin se conheceram no curso de Pedagogia Bruxa. Era um curso intensivo de seis meses e o resto do certificado seria tirado no estágio supervisionado durante mais seis meses.
Eles se tornaram amigos logo de cara. Scott era muito engraçado e Yasmin gostava disso nele. Nunca havia tempo ruim para o menino.
Scott era moreno, alto, com um porte físico grande por malhar bastante e tinha olhos pretos feitos jabuticaba. Yasmin o considerava lindo e desde o primeiro dia que o viu sentiu-se atraída por ele. Antes Yas só tinha se relacionado com outros dois caras em Hogwarts, mas não duraram mais que duas semanas.
Já com o moreno, eles estavam se conhecendo há mais de dois meses. Primeiro era somente amizade, mas depois evoluiu e sentiram atração mutua. Porém, Yasmin tinha um pé atrás por Scott estar sempre rodeado de garotas. Isso trazia insegurança para ela.
Os dois acabaram cedendo aos encantos um do outro e se beijaram no dia primeiro de agosto, após um dia de curso exaustivo em um parque onde foram fazer um trabalho. Após o beijo Yasmin se apaixonou ainda mais e Scott também.
— O que você quer, Yasmin? – Scott perguntou colocando o cabelo da menina atrás da orelha.
— Hum... Várias coisas – ela respondeu se inclinando para ele suavemente.
Scott enlaçou sua cintura e ela deslizou um pouco no banco para sentar-se mais perto dele.
— Diga-me, Yas – ele pediu sorrindo.
— Você – ela sussurrou.
Após o primeiro beijo o namoro engatou firmemente. Eles se viam após o curso todos os dias, passavam muito tempo em uma sorveteria perto do parque e sempre andavam de mãos dadas pelas ruas de Londres.
Tudo estava indo muito bem até eles completarem um mês de namoro.
Com as visitas frequentes de ambas as partes era natural acontecer um beijo mais empolgante. Mas Yasmin sempre o cortara dizendo que não estava pronta, pois era sua primeira vez e queria se sentir segura.
Com um mês e quinze dias Scott começou a irritar-se.
— Scott – Yasmin o chamou já que ele estava descendo sua boca do pescoço. – Scott.
— O que foi, Yasmin? – Ele se afastou com a expressão dura.
— Eu quero ir com mais calma – ela pediu abraçando-o.
O moreno se afastou dela e começou a andar pelo apartamento em círculos.
— Você não confia em mim, não é? – ele perguntou nervoso. – Mesmo após eu ter tentado te provar de todas as formas você não consegue confiar em mim, parece que eu... Que eu quero te machucar, Yasmin... Não sei o que pensar.
Yasmin continha lágrimas nos olhos e não disse nada. Após três minutos em silêncio, Scott saiu do apartamento batendo a porta com força.
E aquilo foi só o começo de uma longa temporada de brigas. Porém elas começaram a se agravar. Scott irava-se com pequenas coisas e isso assustava Yasmin. Seus ataques súbitos de raiva e falta de controle.
Certa vez estavam passeando pelas ruas quando Scott lhe contou que teriam uma festa de uma amiga do curso no sábado. Yasmin ficou quieta porque ela não se dava muito bem com aquela menina. Então uma discussão começou em plena avenida.
— Eu não quero ir, Scott – ela falou com a voz suave. – Eu não vou me sentir bem...
— Ah, você não se sente bem com nada, Yasmin – Scott já irritou-se. – Nós vamos, sim.
— Scott, não! – ela exclamou.
O menino, porém, era mais forte a segurou com força pelo pulso. Algumas pessoas no meio da rua pararam para observar o showzinho.
— Pelo amor de Deus, Yasmin, você vai parar agora com sua frescura. Olha só, todos estão olhando.
Uma lágrima rolou de seus olhos por Scott estar segurando seu pulso com força excessiva. Aquilo não era um relacionamento saudável que Yasmin queria. Não era nem de longe. Uma mágoa passou pelos olhos da garota e ela puxou seu braço com força.
— Scott... Por favor, eu não quero.
— Se não parar agora nós vamos terminar.
Aquilo soou como uma ameaça. Mas Yasmin não conseguiu enxergar aquilo naquele momento, por isso parou de chorar e seguiu Scott, mesmo que seu coração dissesse que não.
Um relacionamento ditatorial se instalou naquele namoro que começara tão inocente. Scott se achava dono de Yasmin e ao mesmo tempo era muito ciumento. Começou a proibi-la de conversar com pessoas do sexo oposto, e por medo de Scott terminar com ela, Yasmin obedecia.
Várias vezes Scott a segurava com força abusiva. Certa vez Yasmin ficara até com marca roxa nos braços. Mas ela não percebia naqueles momentos o quanto estava errado Scott agir daquela maneira.
Tudo piorou naquela grande briga.
Os dois se beijavam ardentemente após uma discussão. Yasmin já até tinha se acostumado com o fato dele ser meio agressivo durante o beijo, mas naquele dia estava muito mais. Ele a jogou na parede e traçava beijos por toda a extensão de sua pele à mostra. Yasmin não gostava, mas estava cansada de pedir para Scott parar. Por isso foi um pouco mais longe naquele dia.
Scott desabotoou sua blusa e começou a beijar seu colo. Yasmin estremeceu de medo porque não queria avançar o sinal antes de se sentir preparada, mas ele não parecia ligar para o que ela sentia.
— Scott... – ela o chamou.
— Que foi? – ele perguntou não desgrudando de seu corpo.
— E-eu... – Yasmin encheu seus olhos de lágrimas.
— Você o quê? – ele praticamente gritou e jogou as mãos para cima. – Estou indo longe demais? Fala sério, nós namoramos há dois meses quase. Para de ser mimada.
A loira abaixou o olhar e se sentiu perdida. Ela não queria, mas Scott a pressionava de todos os modos.
— Eu quero ir mais devagar, Scott. Que tal nós...
— É o seguinte, Yasmin – Scott falou diretamente. – Eu estou cansado. Se você não ceder nós iremos terminar porque eu sou homem, eu tenho as minhas necessidades e eu não sou mais virgem. É difícil para mim. Então faça sua decisão.
Ele cruzou os braços em frente ao peito e esperou pela resposta da menina. Yasmin, porém, deixou lágrimas escorrerem livremente pelo seu rosto.
— Por favor, Scott, não faz isso...
— Eu estou esperando por você para tomar minha decisão – ele respondeu carrancudo.
Yasmin refletiu por alguns instantes. Apesar de não querer aquilo várias pessoas diziam que não era um bicho de sete cabeças. E ela gostava de Scott. Ela queria um futuro com ele e se ela não cedesse naquele momento ele iria embora. E Yasmin não queria que ele fosse embora, por isso sussurrou.
— T-tudo bem.
Então Scott virou-se violentamente para ela para onde eles tinham parado e era como se não tivesse havido nenhuma discussão e nenhum empecilho.
Ele foi violento com Yasmin. Scott “se esquecera” de que era a primeira vez da menina e fez aquilo ser proveitoso apenas para ele. A loira por várias vezes pediu para ele parar porque doía, mas Scott apenas sussurrava para ela:
— Fica quieta que já está acabando.
Ela então obedeceu e continuou com a dor que agora se apoderara dela por inteiro. Não estava sendo romântico como ela sempre sonhava, pelo contrário, parecia mais um pesadelo. Yasmin tentou empurrar Scott quando ela pensou que não ia mais aguentar de dor, mas Scott era mais forte que ela e segurou fortemente seus dois braços.
Ao final de tudo Scott apenas virou-se para o lado e dormiu. Yasmin continha lágrimas nos olhos e uma dor imensurável em seu coração. Olhou para o lençol e viu sangue. Aquilo não estava certo.
Acabou adormecendo também.
No dia seguinte esperava que Scott fosse romântico e a mimasse um pouco como todas as suas amigas contavam a ela sua primeira vez, porém ele se mostrou mais egoísta que nunca ao vê-la acordada e já começar a tirar sua camisa outra vez.
— Scott, são nove da manhã... – O menino parecia não ouvir. – Scott, pelo amor de Deus!
— O que foi, Yasmin? – ele gritou. – Já foi sua primeira vez, qual a merda da diferença de agora?
Ela ponderou e decidiu que ele tinha razão.
E mais uma vez Yasmin sentiu dor, mas ele não parecia se importar com o que ela dizia.
Aquilo foi só o começo. Por mais longas duas semanas Yasmin se submetia à tudo aquilo por medo de Scott deixa-la. Principalmente agora que ele tinha sido o único a quem ela tinha se entregado.
Porém, após duas semanas Scott ficava ausente repentinamente. Sumia por quinze dias e quando aparecia queria ir à casa da menina. Esses incidentes duraram apenas dois sumiços, porque após isso, sem aviso prévio, Scott apareceu namorando a menina do curso que Yasmin não gostava.
Mesmo assim algumas marcas demoraram para passar. As marcas roxas em sua pele ficaram bem fortes por alguns dias e ela teve que passar maquiagem no pescoço e nos braços. Porém a cicatriz maior ficou no coração dela que teria sempre sua vida marcada por aquele cara a quem ela confiou seu corpo e ele o tratou da pior forma possível.
Depois que tudo isso se passou Yasmin percebera o quanto tinha sido ingenua em aceitar aquelas situações, em concordar com tudo aquilo em se submeter a Scott como se ele fosse o único menino do mundo que pudesse fazê-la feliz. Como se fosse seu dono. Yasmin, por um período de quase três meses só sabia colocar sua cabeça no travesseiro e chorar.
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Yasmin contou tudo para sua mãe que mantinha a expressão séria no rosto. Ambas estavam sentadas na cama de Lívia e a mesma sentia que nada do que dissesse poderia amenizar a dor de sua filha. Ela queria dar colo para Yasmin e ao mesmo tempo gritar com ela, pois tinha feito tudo que ela e Jorge sempre disseram para não fazer.
— Y-yasmin, querida... Eu sempre te disse que você é dona do seu corpo, mais ninguém. Por que você aceitou? Isso é uma barbaridade, filha. Não é apenas uma “pisada na bola” do cara, é uma forma de abuso. Você cedeu por pressão desse tiranossauro, Yas... Não consigo acreditar ainda... E você não me falou – Liv estava inconstante. Não tinha uma reação exata para os sentimentos que se seguiam.
Yasmin bufou já se arrependendo de ter feito aquilo. Ela queria conselhos e não mais broncas. A própria Yasmin já se culpava o suficiente, não precisava de sua mãe lhe dizendo isso.
— Por favor, mãe... – ela pediu.
— Seu pai vai saber disso agora!
E se levantou.
Yasmin arregalou os olhos no mesmo instante.
— Não! Ele vai me matar! E depois vai atrás do Scott! – a mais nova implorou. – Por favor, mãe. Eu estou péssima e eu aprendi a lição!
Liv ia retrucar, mas a porta do quarto se abriu e um Jorge vermelho se revelou deixando Yasmin pálida.
— Eu ouvi tudo, Yasmin – ele falou em um tom de voz baixo. – Como... Como... Como isso foi acontecer? – Jorge estava morrendo por dentro após ouvir cada palavra pronunciada pela boca de sua filha tão amada. – Você deveria ter largado aquele... Você poderia ter me contado, minha querida!
Yasmin deixou uma lágrima rolar de seu rosto.
— Eu me arrependo, papai – ela respondeu. – E eu não preciso de mais broncas. – Olhou para sua mãe de maneira sugestiva. – Eu estou aqui porque quero começar um relacionamento com o Leo e se eu não contasse o que me aconteceu eu nunca ia conseguir seguir em frente e tentar passar uma borracha no meu passado.
Jorge deu dois passos e abraçou a filha deixando Lívia surpresa.
— Você não merece broncas, minha filhinha. A culpa é toda dele! A pressão é uma forma de coagir, de assediar. Ele que deveria saber tratar a minha princesa!
Yasmin soluçou após o que seu pai dissera. Ele era realmente seu super-herói, sabia fazer com que ela fosse a menina mais sortuda do mundo. Assim como a mais protegida também. Aquele abraço foi um divisor de águas para Yasmin. A partir daquele momento ninguém mais controlaria seu corpo além dela mesma.
Liv, por mais que estivesse triste e com raiva, se juntou ao abraço.
Yasmin acabou cochilando no colo de seu pai naquela noite. Ela estava exausta por tantas emoções a tomarem em um dia só. O ruivo ficou ao seu lado o tempo inteiro acariciando seus cabelos e zelando por seu sono, mesmo que ela tivesse que ir embora em pouco tempo.
Após aquelas revelações, Jorge se sentiu péssimo por não ter conseguido protege-la. Por não poder ir atrás de Scott e lhe dar uma lição. Por se sentir tão impotente. Por não querer nem mesmo que o tal de Leo se aproximasse dela. Qualquer um era uma ameaça para Jorge. E Yasmin era sua protegida.
Liv apareceu no quarto após um tempo e disse suspirando:
— Eu também não queria que isso tivesse acontecido, amor. Mas agora ela cresceu e amadureceu. Também tenho certeza de que agora ela vai procurar o garoto certo...
Jorge estreitou os olhos.
— Depois disso queria que ela ficasse solteira para sempre.
Liv riu e se sentou ao lado do marido.
— Isso não vai acontecer – ela riu. – Yasmin é uma menina incrível, alguém vai dar o valor que ela merece, querido. Fique tranquilo.
Yasmin dormira aquela noite na mais perfeita paz. Havia se aberto por completo para seus pais, tinha se livrado do peso daquele namoro que carregava somente para si, tinha se libertado das raízes do passado e ainda conseguira um pouco de colo do seu ruivo preferido. Quando se deitou na cama conseguiu pegar no sono sem demora.
Porém o dia seguinte não foi dos melhores.
Tudo começou perfeitamente bem. Yasmin e Leo se encontraram para tomar café da manhã, como usualmente faziam. A conversa fluiu perfeitamente, a troca de olhares mais intensa após o jantar do dia anterior, as risadas faziam um se perder na imensidão de mistérios do outro.
Mas tudo piorou quando chegou na escola.
Assim que entrou no pátio, várias professoras a olhavam com desprezo ou pena. Yasmin decidiu ignorar aquilo e começar a sua aula com as crianças do jardim da infância.
Um menino chamado Benjamin a olhava de maneira estranha. Ele nunca fora receptivo com Yasmin, mas a loira tentava usar da didática para conseguir ter um relacionamento saudável com ele.
Estava cantando uma música infantil dentro da sala de aula quando alguém bateu na porta e a abriu. Era uma assistente que logo falou para Yas:
— O Rogério quer falar com você, professora. Eu fico com as crianças.
Yasmin franziu o cenho achando aquela situação bem incomum. Não se lembrava de ter feito nada errado, mas mesmo assim ficou apreensiva. Sabia que coisa boa não era.
Ao abrir a porta da sala do diretor se deparou com um homem e uma mulher com as expressões sérias, até mesmo raivosas. A loira sentiu um frio percorrer a espinha e cumprimentou-os nervosamente:
— B-bom dia.
Rogério então a encarou e explicou a situação:
— Professora Yasmin, o Benjamin, da sua sala, chegou à casa dele ontem dizendo que você o ameaçou dizendo que se ele não ficasse quieto a senhora iria bater nele. E após isso segurou o rosto dele com força obrigando-o a te encarar.
Yasmin arregalou os olhos assustada com a revelação e tentou relembrar o dia anterior.
A sala estava um caos. Havia muitas atividades para serem feitas, os alunos precisavam se arrumar para a hora da saída, várias papeladas ainda estavam em cima da mesa e Yasmin estava começando a se irritar com a bagunça de vinte alunos de quatro anos.
— Pessoal! – ela bateu palmas tentando atrair a atenção de todos. – Vamos ajudar a professora? – A sala respondeu um coral de “sim”. – Então sentem-se e guardem o estojinho dentro da mochila em silêncio, por favor.
Porém, a loira percebeu que Benjamin estava muito resistente às regras e não parava de compará-la com a antiga professora. Ele sempre soltava uma frase do tipo:
— A prô Claudia não dá esse tipo de brincadeira para a gente.
— A prô Claudia descia com a gente para o parque depois do lanche.
— Você não pode entregar a massinha antes do lanche.
Yasmin então foi até o menino que continuava gritando e se locomovendo pela sala. Abaixou-se para ficar no nível dele e disse com a voz serena:
— Ben, se você não colaborar não teremos tempo para ir ao parque ainda hoje. Daqui a pouco vocês vão embora, lembra? Preciso da sua ajuda. – E dizendo isso colocou a mão na lateral de sua cabeça. – Por favor, Ben, eu quero ser sua amiga.
O garoto moreno então tirou a mão de Yasmin de seu rosto e voltou a brincar da mesma maneira de antes.
— E-eu? – Yasmin perguntou assustada. – Eu não falei nada disso... Eu n-não...
— Por favor, professora – o pai começou com desprezo ao pronunciar “professora”. – Não se faça de desentendida. Você acha que é modo de abordar uma criança de 4 anos? Não, você acha que é modo de abordar qualquer pessoa? Ele é meu filho e eu não aceito uma atitude inadequada como essa!
A loira ficou sem reação ao ver o pai tão agressivo e falando tantas barbaridades. Mas não podia simplesmente chamar Benjamin de mentiroso.
— Sinceramente, eu acho que você não tem postura de professora de um colégio desse porte – a mãe continuou de maneira arrogante. – Meu filho está aqui pagando o seu salário, acho que você deveria se portar de um jeito adequado.
Yas não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— Mas, senhores, eu não disse isso para o filho de vocês... Eu nunca disse isso para o Ben. Eu o trato da melhor maneira possível, sempre tentei ser o mais didática possível. Nunca que eu ameaçaria uma criança!
— Não tente nos fazer ficar contra nosso filho – o pai falou a encarando. – Se você tem coragem para ameaça-lo eu também tenho para ameaçar a senhora. Se eu te vir perto do meu filho eu te ponho em Azkaban. Eu sou auror, sei muito bem meus direitos e deveres e posso colocar um inquérito no Ministério. Rogério, eu quero pedir transferência do Benjamin da classe 2 para a classe 4, com a professora Anna Vitória.
Aquilo foi um baque para Yasmin que não pode fazer nada além de ficar quieta e ser humilhada por pais de aluno. Rogério apenas atendeu ao pedido dos pais e após eles saírem satisfeitos, o diretor se levantou e foi até Yasmin:
— Não estou falando que você é mentirosa, senhorita Weasley – ele começou ajeitando os óculos no nariz. – Mas você está aqui há menos de duas semanas e eu não tenho motivos para colocar minha mão no fogo pela senhorita nem para acusa-la. Porém, mais uma reclamação a senhorita será afastada. Espero que ganhe a minha confiança, Yasmin.
A loira assentiu totalmente constrangida e Rogério a liberou para continuar seu trabalho. Quando chegou à classe Benjamin já tinha ido para a sala da professora Anna Vitória, por isso nem cruzou no caminho com ele.
Ao ver tanta criança gritando se sentiu muito impotente. Sua visão embaçou e sentiu vontade de sair correndo e largar aquela profissão que um dia foi tão apaixonada. Mas o descaso, a humilhação que sentira e principalmente a falta de confiança a desanimou muito.
— Plô Yasmin – Akiná entrou em sua sala sorrindo e Yasmin rapidamente tratou de dissipar as lágrimas. – Voxê tem uma tesoula para empestar pá mim?
A japonesinha sorriu mostrando as covinhas e a loira se derreteu. Pegou uma tesoura sem ponta de seu estojo e respondeu:
— Claro, anjo, só fala para sua professora me devolver quando terminar. Tudo bem?
Ela assentiu e foi em direção a sua sala.
Yasmin suspirou antes de começar a aula.
— Vamos pegar os estojos, amores?
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Aquele dia tinha sido estressante. Muito estressante.
Yasmin passou seu dia inteiro relembrando as palavras do seu diretor e dos pais de Benjamin. Sentiu-se muito mal por ser colocada na posição de incompetente e agressiva, coisa que nunca tinha sido. Nem em um bilhão de anos.
Por isso, antes de ir para casa naquele dia ela se dirigiu para a praça perto da escola onde trabalha. Sentou-se em um banco e fechou os olhos somente apreciando o vento batendo em seus cabelos loiros. Queria esquecer-se momentaneamente daquele dia atormentador.
Reabriu os olhos e observou o movimento da praça. As pessoas andavam de um lado para o outro sem hesitar. Porém, avisou uma cabeleira conhecida: Leonardo. Ele não a viu, pois estava longe dela, mas ela nunca poderia não reconhecer aquele que fazia seu coração bater mais forte.
Naquele momento Yasmin percebeu que não poderia estar menos encantada pelo moreno atrapalhado que esbarrou nela sem querer começando a história de um jeito bem aleatório e até mesmo inacreditável. A loira queria muito construir memórias ao lado dele. Leo era diferente e ela sabia disso, pois mesmo com o dia dela tendo sido ruim seu coração se esquentou só em vê-lo ao longe.
Decidiu ir para casa e tomar um banho após aquele terrível dia.
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— Leo! Acorda, meu amigo! – Steve o chacoalhou.
O moreno abriu os olhos preguiçosamente.
— Foi um cochilo de só quinze minutos, Steve! Eu estou no meu horário vago! – o moreno reclamou voltando a deitar na cama do dormitório especial dos plantonistas.
— Não foram quinze minutos, foram trinta! Você foi escalado para a emergência a semana inteira no seu último horário, amigão. Sinto muito.
Estar na emergência no último horário significava que Leo sairia mais tarde todos os dias da semana porque sempre apareciam mais pacientes e ele não poderia deixa-los nas mãos de outras pessoas se já tivesse os atendido. Por isso teria que fazer uma hora extra não remunerada.
— Ah, não! – ele praguejou e se levantou para colocar o jaleco. – Falta muito para eu ficar rico e me aposentar?
Steve riu e se levantou também.
— O Daniel vai ficar uma fera se você não se apressar!
Daniel era o residente supervisor dos residentes mais novos. E também era amigo de longa data de Jorge e Lívia tornando-se também quase um tio de Yasmin. Daniel era bem exigente, não tolerava atrasos muito menos negligências.
Leo se espreguiçou e foi atender a emergência.
Naquele dia as emergências estavam tranquilas. Teve que suturar dois ou três cortes e colocar alguns pacientes em observação apenas. Fez tudo com calma, mas não parava de pensar em Yasmin. Leo queria ver Yasmin de novo, não só pela manhã do dia seguinte. Ele queria mais tempo, ele queria mais proximidade.
Decidiu que iria agir naquela mesma noite. Iria surpreender Yasmin, a menina dos olhos de criança e que mais parecia um anjo.
Conseguiu sair no horário certo e pegou seus pertences que estavam na sala dos residentes. Quando atravessou a porta deparou-se com Rachel. Ela estava distraída mexendo em sua bolsa, mas assim que o viu paralisou. O moreno passou reto e foi em direção ao armário, mas a menina saiu do transe, se levantou e começou:
— Leo, nós somos colegas de profissão. Fica um clima péssimo nós nem nos olharmos na cara, mas às vezes entrarmos em cirurgias juntos.
O moreno suspirou triste e respondeu:
— Você fez tudo isso se tornar doloroso para mim, Rachel. Então, por favor, não tente uma reaproximação.
— Não finja que você não me conhece mais, Leonardo – a ruiva pediu gesticulando. – Nós íamos noivar! Eu não sou uma desconhecida. Não deu certo, tudo bem, mas nem por isso tudo que nós construímos em três anos vai desaparecer das nossas histórias.
O moreno se assustou com o tom de voz dela e baixou a guarda. Não sabia como responder nem como lidar com aquela delicada situação.
— Rachel, por favor, só vai piorar a situação entre nós dois.
E dizendo isso saiu rapidamente da sala. Naquele momento mais do que nunca ele precisava de Yasmin. Precisava vê-la. Ela era uma das únicas pessoas que ele confiava em suas palavras. E mais do que tudo, precisava sentir o toque da loira.
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