Reaprendendo a Amar
10 Dependente
Notas iniciais
Eu estava numa praia, sentado nos pedregulhos, onde a água podia me alcançar vez ou outra.
Sarada estava mais à frente, em pé, brincando na água rasa.
Sakura estava mais distante, à minha direita, em cima de uma grande rocha. Sua barriga estava enorme, esperando nosso segundo filho. Linda, com os cabelos na altura do quadril voando com a brisa. Ela chamava a filha, dizendo para não se afastar mais.
E então ela me olhou. E sorriu.
Daquele jeito que eu descobri que mais amo.
Vê-la assim me fez perceber o quanto eu tenho sorte por tê-la, o quanto ela me faz me sentir bem.
Céus. Eu a amo tanto que chega ser insuportável.
Ela desceu da pedra e veio até mim, ofereci minha mão e ela aceitou, sentando-se entre minhas pernas.
—Estou tão feliz… — Sussurrou no meu ouvido quando me abraçou.
Apenas a abracei de volta e concordei em pensamento.
Meu rosto estava enterrado na curva de seu pescoço e eu apenas respirava seu cheiro, totalmente absorto.
De repente, o calor do sol foi substituído por um vento frio e agourento, me fazendo arrepiar. O céu foi cada vez mais tomado por nuvens negras, os sons dos trovões retumbavam, como se tudo aquilo estivesse vivo, feroz, pronto pra nos engolir.
Um medo sem precedentes me prendeu.
Olhei pra frente, procurando Sarada para irmos embora, mas me assustei ao ver a Sakura em pé à frente, com a água batendo nos joelhos.
Ela estava com o mesmo vestido e cabelos compridos, mas estava bem mais magra e branca, com olheiras profundas, destoando com a grande barriga que ostentava.
Reparando agora, vi sangue escorrendo de suas pernas, deixando a água azul com uma mancha avermelhada.
Queria gritar, apavorado, para ela fazer alguma coisa, que estava perdendo nosso bebê, mas minha voz não saía.
Eu estava em pânico. Não conseguia me mover.
Senti que ainda estava abraçado em alguém, quando afasto vejo o corpo da Sakura genin de doze anos, gelado, duro, com uma enorme mancha de sangue na área do coração.
—Você a matou. Você estraçalhou o coraçãozinho dela… — Ouvi a mulher falar, numa voz que parecia uma versão macabra da de Sakura.
O-o que?!
Olhava atônito de uma Sakura para outra.
Eu… eu não fiz isso! Jamais faria!
Desesperado, completamente, tentei reanimar a menina.
“-Ela está viva! Ainda há pulso!” — Eu tentava gritar, mas nenhum som saía.
Consegui me levantar com muito esforço e me virei para trás, para retornar à areia, com a jovem Sakura em meus braços. No entanto sou impedido pela figura de Itachi, usando a roupa ANBU, com a máscara ao lado do rosto, assim como naquela maldita noite.
—Meu irmãozinho tolo… Se quiser me matar, me despreze, me odeie e viva uma vida miserável… fuja, fuja… e agarre-se à vida. — Sua voz ressoava grave, parecia vir de todos os lados. Não. Não. Não. Aquela mesma dor me invade. A dor de descobrir que meus pais foram tirados de mim, pelo meu próprio irmão. A dor de estar sozinho. — Então um dia, quando você tiver os mesmos olhos que eu, venha até mim…
Eu tentava correr para qualquer direção, mas não conseguia, não saía do lugar.
Abraçava o frágil corpo inerte, desesperado.
Fechei os olhos, apavorado.
—Você a matou. Seu monstro… ela só queria amá-lo… — Sakura ressurgiu à minha frente, sangrando ainda mais, sobre a areia branca.
Me deixei desabar, exausto.
—Você é fraco… porque te falta ódio… — A voz do meu irmão ainda era presente.
Parem de falar! Parem de falar! Calem essas malditas bocas!
—Covarde… canalha… você não merece ser amado… — Sakura se aproximava.
Eu não fiz nada! Não fui eu!
Como num estalo, me lembrei de minha filha e olhei para a água. Meu pavor se potencializou imensuravelmente quando vi algo boiando.
“-SARADA!” tentei gritar, novamente em vão.
Corri em direção à minha filha o mais depressa que pude, mas ainda estava lento, como se o próprio tempo se divertisse em me torturar.
Quando chego até o corpo, viro, e, pelo enorme susto, cambaleio para trás.
Sou eu.
Meu corpo. De quando eu tinha doze anos. Também tinha uma enorme mancha de sangue no coração.
Só agora eu reconheci esse ferimento.
Não pode ser…
Completamente trêmulo, olhei para minha mão direita, as correntes elétricas do Chidori a envolvia.
Eu não posso ter feito isso…
Não fui eu…
Novamente tentei correr, e novamente fui interrompido por Itachi.
—Você se mostrou uma decepção, irmãozinho… devia ter te matado naquela noite… — Queria tirá-lo da minha frente, para parar de ouví-lo, mas não conseguia. — Você que devia ter morrido no meu lugar… você não merece ser amado… você não merece nada de bom… você me matou… fuja, fuja… estarão todos melhor sem você…
Sem saber mais o que fazer, chorei.
Chorei, pois não conseguia deixar de concordar com tais palavras.
Eu quero merecer o que eu tenho, mas sinto que não, não devo…
A água começa a subir rapidamente, e não tenho forças para levantar, então apenas deixo a maré me puxar.
Me sinto sendo levado para as profundezas, para a escuridão, mas permaneço tranquilo. Pois eu sei, é lá onde pertenço.
Abro os olhos assustado.
Me sento para poder me nortear.
O quarto azul escuro.
Coloco os pés no chão, fora da cama, como se para ‘sentir’ minha realidade, e fecho os olhos tentando me acalmar.
Ainda estou totalmente trêmulo, suando frio. Foi tudo macabro demais. Real demais.
Sinto minha pele competente molhada pelo suor, e me recordo de estar me afogando, sem ter vontade de lutar.
Eu estava realmente morrendo.
—Querido? O que foi? — Me assusto com a voz de Sakura atrás de mim. Ela tenta me tocar, mas me afasto. As imagens estão todas nítidas demais ainda. — Sasuke? Está me assustando!
Olho para a mulher em cima da cama e acendo a luz, suspiro abrandecido por vê-la corada e saudável. Avalio seu corpo nu, procurando qualquer cicatriz suspeita.
Parcialmente satisfeito por não ter encontrado nada, visto minha calça que estava no chão — pois também estava nu — e vou até o quando dos meus filhos. Com a maior delicadeza possível, apesar da minha tremedeira, levanto a blusa de cada um, fazendo a mesmo procura.
Aliviado por não ter encontrado nada, encosto na parede mais próxima e desliso, sentando-me no chão.
Essa é a minha realidade.
Aquilo foi só um sonho.
Não era nada.
Sakura aparece, vestida com um roupão e se ajoelha em minha frente, segurando carinhosamente minhas mãos. Infelizmente, estou inerte demais para aproveitar.
—Querido, por Kami, me fala o que está acontecendo…
—Eu tive o pior pesadelo da minha vida… — Minha voz sai rouca demais, fraca. — Foi muito real…
—Quer me contar? Quem sabe não ajuda falar? — Ela me olhava, visivelmente preocupada.
—Eu… nós estávamos numa praia… você estava grávida… Sarada estava brincando na água… de repente o céu fica carregado… — Fechei os olhos para me acalmar. Só de lembrar… — De repente eu vejo nossos corpos, meu e seu… — Sinto Sakura retezar — De quando éramos genins… Itachi estava lá… eu… eu os matei…
Começo a tremer de novo ao me lembrar.
Fui eu…
Eu sei. Não há como negar.
—Ssshh… Calma… foi só um sonho… — Ela se aconchega entre minhas pernas e deita a cabeça sobre meus ombros, sem nem pensar, a abraço o mais forte que posso. — Estamos aqui… você não nos fez mal… estamos aqui com você… nós te amamos, querido…
Permaneço em silêncio, deixando que a voz de minha esposa me acalme.
Me concentro em sua fala, no seu cheiro e em seu calor e sinto meu corpo relaxar aos poucos…
Pareço uma estúpida criança assustada.
Estou irrevogavelmente dependente dessa mulher.
Tsc. Foda-se.
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