Reaprendendo a Amar
4 Conflitos, Calmaria e Tempestade
Notas iniciais
A mesma enfermeira que havia trazido meu café da manhã entrou dizendo que precisavam de Sakura numa cirurgia de emergência, e então saíram às pressas.
Eu olhava para a porta por onde acabaram de sair completamente embasbacado.
Mais um misto confuso de emoções me tomou. Só com um simples toque na testa.
Qualquer dúvida da veracidade do nosso casamento se dissipou. Se eu a ensinei isso, foi porque eu tinha sentimentos por ela. Não há outra possibilidade.
Levantei de súbito, derrubando o álbum de fotos no chão. Fechei meus olhos e levei minhas mão à cabeça, como se eu pudesse parar o turbilhão de pensamentos que me invadem com tal ato. Meu coração batia descompassado, como se tentasse sair do meu peito. Chegava a doer. De repente, um filme com todas as minhas lembranças de infância com Itachi passa em minha mente.
E eu choro.
Lágrimas de tristeza, desespero, impotência, raiva, frustração e, principalmente, arrependimento.
Eu matei meu irmão.
A pessoa que mais me amou, me protegeu.
Ele salvou minha vida, e eu tirei a dele.
Pensar que ele planejou tudo, até sua própria morte por minhas mãos, me dói mais.
Dói muito mais.
E então, pela primeira vez desde que acordei nesse lugar, nessa loucura, eu lamento.
Lamento, pois nas fotos em que apareço, até nas que não estou sorrindo, eu pareço feliz.
Eu quero essa felicidade.
Eu preciso dessa felicidade.
Não consigo mais suportar essa angústia, que sinto desde o massacre do meu clã e que se potencializou imensuravelmente depois que descobri a maldita verdade.
Esse pensamento, essa ânsia por um alívio, também me faz sentir mal. Me mostra que sou um egoísta de merda. Mas eu só não consigo mais.
O ar me falta, devido ao choro, mas não me importo realmente. Quero chorar. Quero gritar.
Parece que só agora que fui entender a gravidade da situação: Perdi a felicidade que conquistei, depois de tanto tempo.
Ou pior, nem me lembro de tê-la.
Puxo meus cabelos, como se fosse arrancá-los, como se pudesse aplacar uma dor com outra. Mas sou frustrado de novo.
Já era pra eu ter superado minha angústia.
Essa escuridão que me rodeia, eu já consegui dissipa-la, não era pra eu senti-la de novo.
Mas eu sinto, o que me dá mais raiva.
Eu quero chorar.
Quero gritar.
Quero lembrar.
— SAKURAA! SAKURAAA! — Fico berrando feito um louco. Não que eu não seja. Pode ser que eu tenha perdido a sanidade de vez.
Meu Sharingan — e agora também Rinnegan — está ativado no último nível, consigo sentir melhor o poder do meu kekkei genkai.
Me sinto invencível. Isso é magnífico. Tanto poder. Posso fazer o que quiser.
Um grupo de enfermeiros entra logo após meus berros.
Não são eles quem eu quero.
Sinto todo meu ódio fluir e se sobrepor à minha consciência. O Chakra roxo do Susano'o me rodeia. Está tão mais forte que sorrio de prazer.
A cama foi jogada na parede, atravessando-a, assim como um armário que estava próximo demais. O álbum estava perdido, não sei pra onde mandei. O teto está rachando, ameaçando desabar. Os vidros da grande janela se quebram num barulho sinistro. Sinto que só a energia que eu emitia seria suficiente pra por esse hospital abaixo a qualquer momento.
Estava tudo um caos. E eu estava adorando.
Esses ratos ficam me olhando assustados, não avançam, estão em choque, como se vissem a própria morte.
De fato, eu era.
Poderia queimá-los com facilidade, só com um olhar, nem usaria força.
E era o que eu estava prestes a fazer, quando sinto o Chakra conhecido se aproximando.
Meu sorriso perverso some.
Como uma chuva forte apagando um incêndio, sinto meu ódio se esvaindo.
E então ela chega, olha nos meus olhos.
Pura dor, tanto no meu olhar quanto no dela.
Corre em minha direção e, novamente, pula agarrada ao meu pescoço
— Por favor, Sasuke-kun, pare. Por favor. — Soluçava entre as lágrimas — E-eu sinto muito, não devia ter feito aquilo e te deixado, foi minha culpa. Me desculpe.
Abracei sua cintura fina e afundei meu rosto em seu pescoço. Me condenando por fazê-la chorar, de novo. Por fazê-la se culpar.
Ela não tem culpa de nada.
Ela é minha felicidade. Agora é tão claro pra mim.
— Sakura, me ajuda. — Pelos meus sussurros entrecortados, percebo que chorava também — Eu não suporto mais. Por favor. Me ajuda...
Logo depois, a escuridão me toma.
*****
Tudo branco.
De novo.
Só que agora já sei onde estou, ou pelo menos tenho idéia.
Dessa vez acordei vestido, constatei.
Sinto minha garganta seca e meus olhos inchados, e então me lembro de tudo.
Do choro, do ódio, da dor.
De Sakura.
Minha cabeça dói e num impulso levo uma mão até ela. Me sinto fraco, zonzo. A sensação piora assim que consigo me sentar.
— Até que enfim, Bela Adormecida.
Imediatamente olho para frente e vejo um homem loiro, com três riscos em cada lado do rosto, que mostrava um sorriso triste.
— Naruto?!
— Desculpe não ter vindo antes, Teme. Deveria ter vindo assim que a Sakura-chan me contou que tinha acordado. Nunca vou me desculpar por ter te deixado de lado, principalmente agora, no seu estad...
— Cala a boca. Estou com dor de cabeça — Era só o que me faltava: Naruto com pena de mim — Você é o Hokage, não é?, nem deveria estar aqui.
Notei que usava o manto branco, esse Dobe devia usá-lo até pra dormir. Tsc.
Ele suspirou pesadamente e se aproximou da cama onde eu estava, que parecia ser louco maior que a anterior.
— Na verdade, estou aqui não só como seu amigo, mas também como Hokage. — Mal conseguia reconhecer Naruto, estava completamente mudado. Estava sério, não parecia o idiota perdedor que era meu colega de time.
— Como assim?
— Sua crise assustou muita gente, Sasuke.
Claro, agora faz sentido. Eu poderia ter destruído aquele hospital, e pelo poder que senti, poderia destruir essa vila sozinho com facilidade.
Não era o Naruto falando comigo, era o Hokage, lidando com uma ameaça a sua vila, de forma civilizada.
— Entendo. Eu feri alguém? — Naruto pareceu momentaneamente surpreso com minha pergunta.
— Não, mas destruiu um ala inteira do hospital. Os enfermeiros disseram que, de algum modo, sentiram que iriam morrer quando te viram. Até os moradores que estavam numa boa distância do hospital disseram a mesma coisa, que sentiram a morte. E eu acredito, Sasuke, porque também senti, e eu estava na minha sala. — Seu olhar era sério, acusador. Somando com seus braços cruzados, parecia até estar me ameaçando — Se não fosse a Sakura-chan aparecer, teria acontecido uma tragédia. — Não deixo de me surpreender, não sabia que havia causado essa reação. Estava entorpecido demais pelo ódio pra saber de qualquer coisa ao meu redor — E isso foi há dois dias, as notícias correm. Por sorte, os enfermeiros aceitaram não revelar a ninguém o que realmente aconteceu. Os civis acham que foi apenas algum tipo de mal presságio, então estão com medo de qualquer forma. Portanto, não posso ignorar o fato de que você se tornou um perigo.
— Certo. — Suspiro — Já sabe quais serão as providências?
— Sim, e já foram tomadas. Seu Chakra está selado por tempo indeterminado e você foi afastado do posto de Chefe da ANBU.
Isso explica minha fraqueza.
— Os velhos não sabem que fui eu? Imagino que se soubessem já teriam pedido minha cabeça.
— Que velhos?
— Os anciãos.
— Tsunade-baa-chan e Kakashi-sensei? Tá maluco, Teme?
Sakura não havia me contado esse detalhe, por isso eu não vi aquela velha ainda, mesmo eu morando no hospital.
— O que aconteceu com os antigos anciãos?
— Ah, tá. Você não lembra. Esqueci — Naruto me encarava daquele jeito idiota com um mão na nuca. Rolei os olhos em resposta — Morreram todos, na cadeia. Menos o Danzou, aquele lá se explodiu depois de uma luta entre vocês dois.
Outra novidade, dessa vez interessante.
— E Sakura e as crianças?
— Ela ficou muito fragilizada , principalmente depois de você ter apagado, não me lembro de vê-la daquele jeito desde o fim da guerra, fica se culpando pelo o que aconteceu. Agora está em casa com seus filhos, resolveu tirar alguns dias de folga. Conseguiu contornar as crianças dizendo que você precisa descansar mais um pouco, que não pode vê-los agora. Não é seguro reapresentá-los ainda.
Aquela última informação foi a que mais doeu
— Tsc. Sou um risco para meus próprios filhos, Dobe, e eu nem os conheço. — Suspirei derrotado — Será que ela vai me odiar agora?
Naruto gargalhou com a minha pergunta. Ficou quase cômico o contraste entre o sério Hokage com quem eu conversava há segundos atrás e o perdedor que estava rindo igual a uma hiena agora.
— Você é mesmo um idiota, Sasuke, acabei de dizer que seu Chakra foi selado! O risco é de você ter outra crise, não dá pra saber o quanto pode te afetar ver as crianças. É mais seguro pra você que evitem contato agora! — Naruto limpava os olhos, que chegaram a lacrimejar de tanto rir. Tsc. Dobe — E quanto à Sakura-chan, te mataria sem pensar duas vezes se você ameaçasse um fio de cabelo daqueles pirralhos, mas ainda assim ela não deixaria de te amar.
Naruto foi embora depois de anoitecer. Me explicou melhor sobre o selamento e revelou que ele é o portador da chave, me mostrou a marca no meu abdômen e me tranquilizou dizendo que o selo não teria nenhuma sequela quando aberto.
Então, quando eu me mostrasse confiável, ele abriria o selo e tudo voltaria ao normal.
Ingênuo.
Nada voltaria ao normal.
Quando disse isso a ele, o idiota simplesmente sorriu e me deu boa noite.
Assim que fiquei sozinho de novo, fui tomar banho — dessa vez tinha roupas no armário, sinal de que eu não sairia daqui tão cedo.
Vesti uma bermuda de tecido fino e uma camiseta, ambas num tom claro de cinza, a luz fraca da Lua era a única presente, não me permitindo ter certeza.
Havia dormido mais de 50 horas direto, mas ainda me sinto exausto.
Todo esse tempo só deitado me deixou sedentário.
Decidi caminhar pelo quarto, depois de um alongamento que me fez sentir uma leve dor por conta dos dias que fiquei inanimado. Sei que pareço um idiota, mas preciso me exercitar, mesmo que pouco. Fazer meu sangue circular melhor.
Enquanto eu andava, de costas para a janela, senti o tão familiar Chakra se aproximando.
Minha chuva particular.
Parei, esperando ela entrar, e assim que ouvi o janela se fechando me virei para vê-la.
Linda.
Minha.
Reconheço que Sakura sempre teve uma influência sobre mim, sobre minhas ações, e por isso a maltratava. Seu jeito me irritava. Eu me sentia fraco ao seu lado.
Tudo porque ela afastava meu ódio.
Eu achava que ódio era sinônimo de força. Quanto mais ódio eu tinha, mais forte ficava.
Um tolo.
Mas agora, vendo-a com a respiração descompassada e os cabelos soltos desalinhados — provavelmente por conta de uma corrida — eu percebo que preciso dela.
Pois agora eu sei que ódio é sinônimo de dor.
Sei que só seus sentimentos podem me salvar.
Então vou mergulhar de cabeça neles.
Até me afogar.
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