Reaprendendo a Amar
17 Confie na Mentira, Não Acredite na Verdade.
Notas iniciais
Monster
How should I feel?
Creatures lie here
Looking through the window
O breu começa a me tomar e minha visão fica turva, o que me deixa ainda mais irado.
Naruto é um desgraçado por tentar tirar minha vingança de mim.
Encontro-me num lugar escuro, onde o chão parece ser apenas água.
—Criança idiota! — a Kyuubi grita com fúria. — Naruto devia tê-lo matado! Você só vai trazer mais desgraça!
Rio da ironia. Uma Besta de Caudas falando sobre desgraças.
—Devia mesmo. — respondo, enquanto corto a garganta da grande raposa.
(...)
Acordo em um quarto estranho, amarelado pela pouca luz.
Sinto-me fraco e cansado. Exausto na verdade. Tento me levantar, mas nem me mexer eu consigo. Parece que toda minha força foi drenada de mim.
Só depois de um tempo percebo que estou totalmente atado a uma cama de solteiro, mas nem tenho forças para tentar me soltar.
Apenas relaxo meu corpo e tento imaginar o que pode estar acontecendo.
Dessa vez não estou no hospital, constato, sem ter certeza se isso é um bom ou não sinal.
Tento me recordar como vim parar aqui, ou onde é aqui, mas a última coisa da qual me lembro é do gosto de geleia de tomate.
Reparei agora na fome que estou. E sede, muita sede.
Vejo ao lado um criado mudo com uma jarra de água em cima.
A porta se abre devagar e sinto o cheiro dela.
Que merda eu fiz agora?
Ela se aproxima devagar.
—Querido? — ela me olha, buscando uma resposta.
Fico sem entender, afinal, é claro que sou eu.
—Sakura.
Ela finalmente sorri e tenta não chorar.
—Oh, finalmente! — ela aperta minha mão e acaricia meu rosto, beijando-o também. — finalmente!
—Sakura, pode me soltar?
Ela pareceu hesitar por meio segundo, mas já a começa e desatar os nós. Percebo que os nós estavam selados.
O que quer que eu tenha feito, não foi pouca coisa.
Retiro o lençol que me cobria e percebo que estava nu mais uma vez, porém não dou importância.
Sem conseguir esperar, vou ao jarro e tomo toda a água de uma vez.
—Como está se sentindo, querido?
—Fraco. Preciso de mais. — entrego a jarra.
—Claro. Já volto. — e ela sai a passos apressados.
Quase tomo um susto quando vejo Naruto na porta, de braços cruzados.
Ele estava com suas roupas rasgadas e tinha leves cortes no rosto e no braço.
Ele estava me observando.
—Fui eu? — perguntei, referindo-me ao seu estado.
Ele não me responde.
Ele me encarava de um jeito que eu nunca tinha visto. Naruto não tinha esse olhar.
—Você está simplesmente fodendo com tudo. — ele finalmente fala. — Vai me dizer que não se lembra? Sério?
—Não enche.
—“Não enche”!?. Você tem noção do que você fez!?
—Cala a boca. Eu não me importo.
Quando eu percebi, estava no chão. Naruto me socou no rosto e eu simplesmente desabei.
—Que porra!?
—Se não fosse por Sakura, você apodreceria numa cela. Saiba disso. Então, daqui para frente, finja que se importa.
E desapareceu.
Tento me recompor, me ajoelho no chão, totalmente nu. Nunca fui tão humilhado.
Meu cansaço vai se transformando em impaciência e se desenvolvendo em pura raiva. Respiro fundo, totalmente perdido.
—Naruto já foi? Ele falou algo? — Sakura retorna com a água, parecia apreensiva. — levanto assim que chega — o que estava fazendo no chão?
Tomo a água da jarra num gole só.
—O que aconteceu? — pergunto, deixando claro que não vou responder nada.
—Um… acidente…
—Acidente?
—Hoje cedo… você teve um lapso.
—Um lapso?
—Sim… durante seu treino, Naruto liberou seu chakra. Foi um erro. Ele não poderia ter liberado assim, de uma vez…
—O que aconteceu, Sakura?
—Você teve um lapso de memória…
—Para de enrolar!
—Três ANBUS morreram.
—Como?
—Você… você os matou…
Encaro desconfiado. Ela me olha com uma mistura de pena e apreensão.
Por que ela me olha assim? Eu sou a porra de um assassino, não preciso de sua pena.
—Eu… o que?
—Você estava delirando. Suas memórias se embaralharam. Você gritava e chamava um deles de… de Danzo… — ela me dizia calma e devagar, como se eu fosse surtar a qualquer momento.
O selo na minha barriga tinha mais pontas, indicando que agora estava mais reforçado. Não sei se fico tranquilo ou preocupado.
—Naruto tentou impedir, mas ele havia esquecido do quão forte você pode ser…
Sinto o mundo cair sobre mim quando vejo seu pescoço. Havia hematomas roxos e amarelos, e marcas de dedos, como se alguém estivesse tentado quebrá-lo.
Não consigo acreditar.
Eu sou um merda desprezível.
—O que foi que eu fiz…? — Tento tocá-la, porém ela se afasta, levando a mão ao pescoço.
—Ah, achei que… achei que já tivesse dado um jeito nisso… — ela comenta mais para si mesma. Sua mão toma aquela luz esverdeada e seus hematomas desaparecem rapidamente.
Como se não fossem nada.
—Sakura…
—Está tudo bem, querido. — ela sorri sem graça.
Mas nós dois sabemos que é mentira.
(...)
Voltei para casa no mesmo dia, pelo menos.
Sakura me fez uma sopa de legumes que comi no quarto, concordamos que evitar perguntas das crianças era o mais sensato, então ela os disse que eu deveria repousar pois ainda estava muito fraco. Saber que devo me afastar de meus filhos me pesa tanto que mal consigo tomar a sopa, mesmo com fome, me esforço para engolir cada colher.
Depois de comer, tomei um banho gelado. Meu ombro direito doía sem parar, desde a hora em que acordei naquela casa amarelada. A dor é semelhante à que senti quando desloquei o ombro um vez, só que essa é mais aguda. Meus músculos pareciam dormentes, mas imagino que seja pelo esforço exagerado de hoje.
Ainda não sei que casa era aquela, nem porque eu estava lá. Suponho que seja perigoso eu voltar ao hospital e ter outra crise, tem muitas pessoas que podem ser afetadas.
Mas é só uma suposição.
Eu ainda não sei de nada.
Perdi a memória mais uma vez. Não estou evoluindo.
E ainda tem o três cadáveres que deixei para trás. Não que eu realmente me importe com essas pessoas, mas eu não devia tê-las matado, não mesmo. O que indica que eu perco o controle com facilidade, assim como a memória.
Sakura entra no banheiro e para perto de mim, encostada com os braços cruzados. Seus cabelos embaraçados num coque e suas olheiras profundas evidenciam seu cansaço. A água fria do chuveiro caía sobre mim e respinga um pouco sobre ela, mas não parece se importar.
Pela primeira vez, desde quando a conheço, não consigo decifrar seus olhos, tampouco sua expressão. Ficamos encarando um ao outro por um tempo que não consigo contar, até ela falar:
—Aa crianças sentiram sua falta. Dê um beijo neles quando terminar.
—Darei. Porque eu os matei? — Sakura parece se assustar com a pergunta — Os ANBU, não tem lógica eu simplesmente matá-los.
Quando ela entendeu, suspirou, e eu não entendi o porquê, e se aproximou ainda mais.
—Eu não sei, Sasuke. Você sempre foi uma incógnita pra mim.
—O que há de errado comigo?
Talvez, eu penso, tudo isso é um indício. Eu estar aqui é errado, eu sou impuro, amaldiçoado. Eu levo caos para onde vou.
Essa é a única resposta plausível.
Eu não sou merecedor de felicidade.
—Minha teoria — Sakura recomeça, pegando minha mão — é que seu chakra, de alguma forma, parece ter perdido a memória também. Desencadeando em você alguns sentimentos ruins, como os que você tinha há doze anos… se é que isso é possível…
Acaricio seu rosto e sinto meus olhos arderem. A simples idéia de que eu possa machucá-la me parece uma lâmina descendo pela garganta, me cortando por inteiro por dentro.
Eu faria qualquer coisa para proteger minha família, mesmo que seja de mim mesmo
(...)
Todos os projetos que eu tinha com Kakashi e Suigetsu foram cancelados, eu estava oficialmente aposentado do meu posto.
Os dois me faziam visitas de vez em quando, embora eu não fizesse questão. Juugo também vinha, mas sozinho, e conversava comigo também. Na verdade não conversamos muito, o que eu considero um alívio, Juugo sempre foi meu favorito por isso. Ele vinha, conversava mais com minha esposa e brincava com meus filhos. Fiquei apreensivo com esse detalhe de início, mas me foi revelado que Sakura conseguiu curá-lo de sua maldição.
Naruto nunca mais me deu sinal, o que eu acho curioso. Afinal me lembro de ele correndo atrás de mim, me pedindo pra voltar pra casa, quando já quase o matei.
O que eu posso ter feito de tão imperdoável, que vale mais que sua vida? Sempre me pergunto isso entre um livro e outro.
Depois de alguns dias sozinho, consegui ler vários livros de nossa biblioteca.
Sakura está no hospital. Mesmo afastada, ela não pode simplesmente deixar seus pacientes de lado; Sarada está na academia e Raijin está com a mãe. Tento não pensar que Sakura no fundo tenha medo de me deixar sozinho com nosso filho. E o pior é que essa ideia é insuportavelmente racional.
No começo eu lia sobre história, guerras e estratégias, até que um dia resolvi vasculhar sobre aqueles livros pretos no sótão.
Uma mistura de alívio e curiosidade me tomou assim que vi que aqueles livros eram na verdade diários e anotações. Todos datados e assinados por mim. Meu diários e minhas anotações!
Aquilo era perfeito!
Por que Sakura não havia me dito antes?
Olho para aquele leque de informações cheio de expectativas.
Aqui eu vou me encontrar. Finalmente eu tenho esperanças.
(...)
Três dias se passaram.
Não consegui nenhuma informação pessoal.
Há apenas trajetos, notas, nomes de cidades e de algumas pessoas. Há também listas e faturas, mas não consigo entender. São apenas letras e preços. Me pergunto o porquê de estas informações ficarem aqui, na minha residência, e não no meu escritório oficial.
Alguns outros tinham todas as estratégias de missões, detalhando a quantidade de Shinobis e civis envolvidos, armas e custos..
Pelo o que pude perceber, o que eu mais combatia era corrupção.
Não havia nenhum grande ninja como oponente mencionado em algum desses livros. Apenas políticos charlatões, falsos profetas e grandes ladrões, a maioria tinha os três atributos em uma única pessoa.
Havia alguns rabiscos em algumas páginas, mas nada sério, fotos rabiscadas de suspeitos, fichas criminais…
Sakura ou meu filhos nunca eram mencionados. Nada disso aqui é pessoal.
Há um intervalo nas datas da anotações de cerca de três anos, nenhum único rabisco durante esse tempo. Tento pensar se isso pode significar alguma coisa.
Ouço a porta bater lá embaixo e deixo os livros todos bagunçados para ir atender.
Sem pressa, desço as escadas e atravesso a sala.
Surpreendo-me ao ver aquele homem magro e pálido mais uma vez.
—Ohayo, Sasuke! Posso entrar? — O que esse homem quer agora? Dou caminho para ele passar e fecho a porta. — Onde está Sakura?
—O que quer? — corto, sem interesse.
—Sem rodeios, como sempre.
Apenas o encaro, inexpressivo.
—Sabe, eu não sou a favor dessa idéia de te proteger… — ele começa, num tom despretensioso — quem quase quebra o pescoço da própria esposa não precisa de proteção.
Cresce em mim uma vontade de socá-lo, porém permaneço imóvel.Afinal, ele tem razão.
—Proteção de quê? — pergunto como se não me importasse. Talvez ele me revele algo útil.
—De si mesmo.
—Do que está falando?
—Estou falando de Sakura, que quebrou seu ombro e sua clavícula, para te impedir que a matasse… por que você ia matá-la. Você tirou a vida de três pobres coitados, quase me deixou paralítico e literalmente enterrou Naruto tão fundo que ele levou algumas horas para cavar até a superfície. Até que, finalmente, Sakura te nocauteasse…
Ele me contava aquilo como se fosse alguma história corriqueira. E eu só pensava naquela minha dor no ombro, agora mais branda.
—Aquela sombra, aquele homem, no hospital…
—Era eu. — ele sorri cinicamente. — mas, pelo visto, você não me levou muito a sério naquele dia.
—O que você quer…? — pergunto irritado. Ele só pode estar mentindo.
—A pergunta certa, Sasuke, é o que você quer?
—Só quero a verdade.
—A verdade? A verdade é que você sempre foi um psicopata manipulador. Naruto e Sakura sempre te amaram demais pra perceber isso.
Ele fica apenas tentando me ofender, mas não me revela nada.
—Achei que você me seria útil. Mas visto que não, vá embora. — digo com desprezo e voltando à escada.
—Eu sei que você era um traidor. Quase morreu por isso. — Paro no primeiro degrau quando ele começa a falar. — Aposto que te protegeram desse detalhe.
De fato.
Volto a encará-lo, esperando mais Informações
—Um merda de amigo e um merda de marido… — essas ofensas estão começando a me irritar de verdade — Diga-me, você fode Sakura de manhã e aquela ruiva a noite ou o inverso?
Pego aquele desgraçado pelo pescoço, mas ele se transforma em tinta preta antes que eu pudesse pensar.
—Que merda é essa?
—Suas aberrações de estimação te trouxeram quase morto depois de uma missão secreta. Tão secreta que nem Naruto tinha conhecimento. — ouvia aquela maldita voz aveludada, mas não conseguia captar sua origem — O Hokage estava cada vez mais impaciente com suas “missões secretas”, mas é claro que ele não fazia nada. No entanto, eu sei que lá no fundo, ele sabia que algo estava errado. Claro que ele sabia.
—O que você quer!?
—Você se lembra, Sasuke? Daquela noite…? Do seu filhinho…? Pobrezinho…
Uma dor forte e aguda atinge minha cabeça e quase perco o equilíbrio de dor.
Imagens e sons aleatórios invadem meus sentidos.
Esse maldito não cala a boca!
Aquele tão familiar gosto amargo retorna, forte, e sinto meu interior implodir.
Vou estourar a cabeça desse desgraçado!
—Eu próprio bebezinho… como consegue dormir daquela noite…?
Mais imagens invadem minha mente, me cegando. Eu sinto pânico e não sei o porquê, sinto cheiro forte de sangue. Lembranças da minha vida desconhecida.
—Cala essa boca! — grito com ódio. A dor é insuportável.
Aperto os olhos ao sentir meu selo quase ser rompido outra vez, como se meu chakra tentasse se libertar. A segunda barreira se mantém firme, mas não acho que aguentará muito.
Estou perdendo o controle de novo, posso sentir.
Concentro todas minhas forças para que eu não apague mais uma vez. Abro os olhos e olho fixamente para uma fotografia dos meus filhos.
Por eles… eu não posso ceder.
—Eu sei a verdade… é que você cansou de fingir ser bonzinho…
Tiro forças não sei de onde para ignorar essa maldita voz. Isso não pode ser verdade. Já nem consigo respirar mais.
Meu filhos…
Por eles…
—Você deveria aprodrec…!
Viro de costas e surpreendo o estranho, vejo-o arregalar os olhos de desespero e então quebro seu pescoço. Esse imbecil achou mesmo que poderia se esconder de mim?
Ainda trêmulo e coberto de preto, vejo-o mais uma vez se desmanchar em tinta. Outro clone, é claro.
Com a vista escura, caminho cambaleante até o pé da escada e me sento. Controlo minha respiração e sinto minhas forças voltarem ao normal. Tento me concentrar nessas sensações que me atormentam, tento entendê-las, mas são aleatórias e desconexas demais, e cada vez minha dor na cabeça se intensifica, me fazendo grunhir. Por favor, que eu morra logo.
A imagem dos meus pais mortos… o medo e o vazio; Sarada está chorando no colo de Hinata, minha filha sempre foi esperta demais para seu próprio bem; me deparo com um espelho e me vejo coberto com sangue, da mesma cor do meu olho direito.
O gosto amargo não diminui.
O mesmo gosto amargo que sinto desde que descobri a verdade sobre Itachi.
—Sasuke!?
Sinto Sakura me puxar a me abraçar com força.
Sem nem pensar, afundo meu rosto em seu pescoço, envolvendo-me em seus cabelos e abraço forte sua cintura. O mais forte que consigo.
O alívio de tê-la é como o de tomar um banho gelado num dia muito quente.
Como uma chuva num tempo seco.
Eu a amo tanto.
E a fiz tanto mal…
—Querido, estou aqui. Está tudo bem… — ela fica repetindo baixo. — eu amo você.
“Não se preocupe com bobagens…”
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