Reaprendendo a Amar
14 A Sombra do Mal
Notas iniciais
Eu sou o desgraçado mais sortudo desse mundo.
Não estou brincando.
Todos os dias infernais que passei sozinho foram trocados por tardes alegres com meus filhos.
E todas as malditas noites frias de antes foram trocadas por madrugadas quentes com minha deliciosa e fogosa esposa.
Na verdade, nem sei da onde encontro energia para comê-la, com excelência, de manhã, treinar com Naruto toda a tarde e ainda conseguir permanecer firme e forte para poder ceder à libido da minha rosada novamente. Acredito que são aqueles bolinhos de cor e gosto duvidosos que ela me deu.
Pois é, já estou treinando com aquele dobe.
E sim, deixei meu passado de lado. Por hora.
Aquele dia, Sakura realmente me assustou. Por ela, resolvi não tocar mais nesse assunto, mas seria ingenuidade demais achar que eu simplesmente o esqueceria.
Então decidi focar no meu treinamento primeiro, assim poderei buscar meus próprios meios de chegar aos fatos. — Kabuto não foi preterido nem por um segundo sequer, ele será minha primeira pista.
Mas voltando à minha sorte, estou neste exato momento sentado à mesa, jantando com minha barulhenta família.
Sakura e Sarada tagarelavam sobre os mais diversos assuntos: controle de chakra, roupas, o novo senhor feudal, sapatos, a nova aliança entre o país do fogo com o país do chá, esmaltes…
Por um momento eu tentei acompanhar, mas quando eu começava a pegar um assunto elas já mudavam para outro. Desisti.
Raijin apenas remexia a comida, fazendo um barulho irritante com os hashis. Ele estava quase debruçado sobre a cadeirinha, emburrado porque a mãe tirou seu ursinho para lavar.
Quase fiquei com dó, mas aquilo lá estava mesmo nojento.
Apenas jantei em silêncio, ouvindo a barulheira.
Depois da refeição, Raijin correu feito um raio tentando escapar do banho mas dessa vez eu, que já estou mais esperto com esse moleque, não demorei para achá-lo, ironicamente, no banheiro do corredor.
Segundo a sua lógica, aquele era o último lugar onde poderíamos procurá-lo.
Válido.
Sakura, que esteve particularmente de bom humor o dia inteiro, se ofereceu para dar banho nas crianças enquanto eu cuido da louça.
Depois de lavar cada prato, copo, talher e panela, subo para os quartos e já encontro um corredor completamente silencioso. Abro devagar a porta dos meus filhos e vejo Sarada se virar para mim.
—Papai? — Pergunta já grogue de sono.
—Sou eu. Pode voltar a dormir.
—Boa noite. — Ela tenta dizer antes de voltar a apagar.
Olho para meu caçula e o vejo deitado de bruços. Volto a fechar a porta e vou para meu quarto.
No caminho, fico preocupado se vou conseguir hoje. Estou tão exausto que se eu deitar, eu durmo.
Só queria um banho agora…
Entro no quarto, já preparado para dizer à minha mulher que hoje não vai rolar, mas o encontro vazio. Estranho, pois geralmente já estaríamos nus a essa hora.
Olho de volta para o corredor, sentindo uma mistura de curiosidade e desapontamento por não encontrá-la.
Percebo que a porta do nosso banheiro está fechada, então abro. A primeira coisa que vejo é o espelho embaçado, até me virar para o lado e encontrá-la.
—Você demorou. — Reclama.
Está nua na banheira, a água ainda não subiu muito, estava na altura perfeita para eu ver seus seios com os bicos enrubescidos.
Puta merda!
—Feliz aniversário de namoro, querido… -Sorria com as bochechas coradas pela água quente.
Esquecendo todo o cansaço de agora há pouco, tiro sem pressa minhas roupas e me junto a ela.
Trocamos alguns beijos antes de eu me afastar e olhá-la mais uma vez.
Com um sorriso maldoso, ordeno:
—Senta aqui.
E ela, sem hesitar, obedeceu.
Eu sou mesmo o desgraçado mais sortudo desse mundo.
(...)
Depois do nosso “banho”, Sakura viu que eu estava num estado deplorável de esgotamento e se dispôs a me fazer uma massagem com chakra.
Já sabem qual frase cabe aqui, não é?
A energia quente que minha mulher emanava relaxava todos os meus músculos. Poderia ficar assim, de bruços, por meses seguidos, com toda certeza.
—Está melhor, querido? — Sakura pergunta ao meu lado, depois de acabar.
Bem mais relaxado e um pouco frustrado pelo fim do toque, me viro pra ela.
—Sim. Obrigado.
Ela me dar um beijo rápido e começa a alongar os músculos, na certa é por ter ficado tanto tempo na mesma posição.
Por conta de um quase acidente com nossos filhos, eu e Sakura concordamos que deveríamos dormir vestidos; outro dia acordamos com os meninos tentando nos descobrir, para levantarmos logo da cama.
A sorte é que Sakura, com sua autoridade suprema, a de mãe, mandou-os descer e nos esperar, ou aqueles dois teriam a pior visão que qualquer filho podem ter.
—Como está indo com Naruto? Não tivemos tempo de conversar sobre isso…
—Bem. Acredito que mais dois meses no máximo já estarei preparado para retirar o selo.
—Que bom. — Ela se ajeita sobre mim.
—Suigetsu e Kakashi estão me auxiliando na ANBU. Por enquanto o capitão continuará sendo um outro cara, terei que ir para missões para reaprender na prática…
Desconfiado com o silêncio, olho para ela e constato que ela já dormia tranquilamente.
Retiro uma mecha rosa do seu rosto e beijo sua testa.
Me lembro da promessa que fiz, de que iria mudar, de que voltaríamos a ser uma família e concluo tranquilo que estou cumprindo.
Está tudo dando certo.
(...)
Domingo chegou, e Sakura pensou que seria uma boa ideia fazermos todos um piquenique naquele parque. Não vendo motivos para negar, aceitei.
As crianças andavam mais a frente, outra vez ganhavam doces dos lojistas que trabalham hoje.
—Sasuke-sama! — Uma senhora animada chamou. Fui com minha esposa até ela. — Olhem! Recebemos mais tomates! Separei os mais suculentos para sua família!
—Muito obrigada, Seyko-san! — Até Sakura pareceu um pouco surpresa por tamanha gentileza. — Querido, pode ir vê-los? Preciso ir antes que o mercado feche.
—Sim. Pode ir.
—Tudo bem, estarei esperando lá fora. — E sai.
Depois de escolher as frutas — e insistir em pagá-las — saio da pequena quitanda procurando por minha família.
Logo encontro as crianças olhando a vitrina de uma loja de bugigangas, enquanto conversavam com uma menina loura. Procurando mais um pouco, encontro minha esposa, e sinto uma sensação amarga ao vê-la conversando com outro homem.
Eles pareciam conversar sobre algo divertido, riam como dois idiotas.
Que porra está acontecendo aqui?
Me aproximo de cara fechada e seguro a fina cintura com firmeza. O outro sorri pra mim como se não tivesse acabado de dar em cima da minha mulher bem na minha frente.
Eu poderia esmagá-lo aqui e agora.
—Querido, você demorou! Onde estão os tomates.
—Hm. Não poderia trazer comigo, dei nosso endereço. — Respondi rude.
—Está tudo bem?
Não respondo, apenas continuo encarando esse imbecil na minha frente, que agora desfazia o sorriso.
—Querido lembra-se de Okamoto? A filha dele está na mesma sala de Sarada.
—Como vai, Sasuke? — Ele me cumprimentar educado.
Eu não respondo a princípio, e sinto Sakura retesar.
—Bem. — Digo enfim. — Vamos.
Puxei minha mulher sem me despedir e chamei meus filhos.
—Sasuke, que droga está pensando?
—Quieta.
—O que?! — Agora ela também está irritada.
—Que droga você está pensando?
—O que aconteceu?! — Seu cinismo começa a me irritar de verdade. — Sasuke, a filha daquele homem vai à nossa casa brincar com os meninos, eles já jantaram conosco diversas vezes. Por que o tratou daquele jeito?
—Hm. Eu não quero mais aquele homem na nossa casa.
—Está brincando!?
Seu eu estou brincando? Ela só pode estar delirando se acha vou permitir aquele cara entrar na minha casa. Francamente, duvido até se eu teria mesmo deixando antes.
Começo a me perguntar que tipo de mulher Sakura teria se tornado.
—Esse assunto acaba aqui. — Finalizo imperante, mais grave, e a solto.
Seguimos em silêncio até o parque, falamos apenas quando as crianças pedem ou perguntam algo.
Assim que chegamos, Sakura estende a toalha e nos sentamos. Ela abre a cesta e distribui os sanduíches, frutas e sucos.
—Mamãe, o que foi fazer no mercado? — Sarada pergunta.
—Fui pegar copos descartáveis, não havia em casa. — Responde sorrindo para para a filha enquanto entregava o suco.
Depois de comermos, ficamos conversando sobre trivialidades. O que me acalmou bastante.
Raijin começou a reclamar por ainda não ir na academia e Sarada por não dominar ainda o Katon. Eu e Sakura tentamos dizer para terem paciência, mas não deu muito certo.
São meus filhos, afinal.
Ao correr uma lembrança na minha mente, sugeri que fossemos dar uma caminhada. Os três, intrigados, aceitaram.
Os levei até o outro lado do que era o final da vila e percebi que Sakura logo se lembrou onde estávamos.
É o lago onde meu pai me levou para treinar.
Eu já devo ter contado a ela o quanto esse lugar é especial para mim, pois os olhos verdes e brilhantes me encararam calorosamente. Ela não sorria, mas eu podia quase sentir suas emoções.
—Venham aqui. — Chamei meus filhos até o deck e fui seguido.
—Aqui é onde meu pai me trouxe para treinar pela primeira vez. Onde eu aprendi meu primeiro jutsu. — Olhei para os pequenos e vi que seus olhinhos brilhavam.
—Vai me ensinar papai? — Rai me perguntou, borbulhando de expectativa.
—Sim. — E ele me mostrou todos os dentinhos num sorriso enorme.
—Mas e eu, papai?
—Vamos treinar também. Vou te ajudar a maximizar seus jutsus. — Sarada dá um sorriso meigo que a deixa totalmente a cara da mãe. Chega a ser engraçado de tão parecida.
Quando procuro por Sakura, vejo-a sentada logo à frente, as crianças estão de costas para ela.
—Mas papai, e se eu não for bom com o Katon. — Rai me pergunta assustado.
—Você é um Uchiha. É claro que você é bom com o estilo fogo. — Eu respondo automaticamente e na mesma hora me arrependo. Meu filho fica ainda mais apreensivo. Sakura me olha com sangue nos olhos. — Mas se não for, tudo bem. — Me abaixo para ficar mais próximo da sua altura. — Nós vamos treinar de tudo até você achar seu talento, okay?
—Okay. — Fala apenas. Ainda cabisbaixo.
—Rai, não se preocupa tá? Eu também não dominei o Katon. — Sarada tenta encorajá-lo.
—Tá bem. — O menor dá de ombros. É incrível como seu humor é volátil.
—Vocês já sabem como é o sinal de mãos? -Pergunto, e Sarada a acena sim enquanto Rai não. -Tudo bem, é assim…
Mostro os seis sinais mais fáceis para aprender a fazer o jutsu.
—Carneiro, Cão, Coelho, Cobra, Pássaro, Javali, Cavalo — Mostro as posições e meu filho as imita com exatidão.
—Katon: Goukakyuu no Jutsu. — A bola de fogo de Sarada é lançada, mas as chamas começam a falhar e logo se apagam.
—Primeiro, ative o Sharingan. — Vou ao seu auxílio.
—Mas, papai …!
—Confie em mim. E antes de expelir, respire fundo, ou seu fôlego acabará logo. Tenha confiança, você é muito talentosa, não precisa ficar insegura.
Minhas palavras deixaram-na mais determinada. E então, depois de se concentrar por um momento, ativa o Sharingan e repete:
—Katon: Goukakyuu no Jutsu. — Agora sim!
A bola já tem o dobro de tamanho e as chamas são mais precisas. Até depois de ela acabar, o ar continua queimando.
Minha filha começa a pular de felicidade. Igualzinho alguém que conheço.
—Você viu, mamãe?! — Pergunta animada.
Sakura já batia palmas com eloquência e chegou a assobiar para a filha, que deu um gritinho de felicidade.
Eu e Raijin nos entreolhamos e rolamos os olhos pelo escândalo.
—Mas, papai, achei que por o Sharingan usar chakra, acabaria atrapalhando… — Sarada volta pra mim.
—Pelo contrário. O Sharingan pode usar seu chakra, mas você fica mais fluída com ele, potencializa todos os seus golpes, seja taijutsu, ninjutsu ou genjutsu…
—Agora é minha vez! — Rai entra na frente da irmã, quase caindo no lago.
Eu o ajudo a lembrar dos sinais e então ele tenta, ainda incerto.
—Katon: Goukakyuu no Jutsu!
Demorou pra sair alguma chama, e assim que saiu ele acabou se assustando e parou de repente. Alerta para o perigo, puxei meu filho para longe do fogo, que se inflamou no ar exatamente onde menino estava.
—Que droga, Sasuke! Filho, você se machucou? — Sakura apareceu ao nosso lado rapidamente, caçando algum ferimento.
—Noooossaa!! — Rai exclamou olhando o fogo se apagar de repente.
—Isso é normal, já me queimei muito por parar um jutsu no meio.
—Não é desculpa! O treino acabou por aqui!
—Ah, não, mamãe! ‘Pufavor! Só uma última vez!
Ela olhou para o menino e se viu obrigada a ceder.
—Uma única vez!
—Bigado! — Ele a abraçou e não pude deixar de sorrir com sua felicidade.
—Rai, faz o que o papai me falou!
—Mas eu não tenho Sharingan.
—Não isso… é pra ser confiante. Olha só quanto fogo você acendeu!
—Não se assuste com o fogo, ele não vai tocar você. — Concluí.
Raijin então tomou coragem e foi até a ponta do deck de novo.
—Katon: Goukakyuu no Jutsu!
E então uma imensa bola de fogo surgiu, talvez maior que a da irmã. O que era muito para aquela idade.
Nós três ficamos em silêncio olhando a performance de Raijin.
Quando acabou, as chamas logo se dissiparam e apagaram.
Ele ficou mais um tempo de costas para nós até se virar com um sorriso enorme de orgulho. Sarada e Sakura logo vão até ele e começam a beijá-lo e abraçá-lo, dizendo no quão incrível ele foi. E ele, esperto como é, pareceu aproveitar cada carinho.
À noite, depois de às crianças capotarem, eu e Sakura ficamos à sós pela primeira vez desde a nossa “briga”. E eu não estava gostando nada.
Ela não parecia triste ou irritada, parecia na verdade não se importar. O que me deixa ainda mais fodido.
Eu fui tomar banho e ela estava lá embaixo assistindo TV, não trocamos sequer uma palavra. Assim que acabei, deitei na cama e tentei ignorar a falta dela.
Tentei.
Ouço a porta abrir, para minha tranquilidade, e então ouço o chuveiro. Alguns minutos depois, ela volta para o quarto de toalha e acende a luz, caminha até o guarda roupa e se veste.
Quando ela vai até seu lado da cama, estendo meu braço em convite. Ela hesita, encarando o espaço e a mim. Volta a apagar a luz e aceita se deitar.
Eu a puxo para mais perto e dou um beijo em sua testa.
—Me desculpe por hoje. — Ela ficou em silêncio, porém eu podia ouvir seu coração se acelerar. — Eu não devia ter falado daquele jeito com você.
—Não. Não devia. — Sua voz é séria e controlada. — Você me constrangeu.
—Tentarei não fazer de novo.
—É melhor que consiga. Não vou ceder às suas histerias só porque falou grosso comigo. — Me surpreendeu com essas palavras, principalmente por ela não estar brava, mas sim me “avisando”.
Sinceramente, agora eu sei que minha reação foi incorreta, mas não consigo suportar a idéia de outro homem perto dela, não consigo suportar a idéia de ela sorrir para alguém que não seja eu.
É inexplicável esse sentimento.
É um medo que nunca havia sentido.
Medo de perder tudo o que tenho agora, medo de acordar e descobrir que isso foi um sonho, um delírio de uma criança solitária.
Ou de que tudo isso seja mesmo real e ela se canse de mim, da minha amargura, da minha falta de tato, e me deixe.
Tento imaginar o que eu poderia ter feito para que ela queira se esquecer do passado, e fico apavorado com as alternativas.
“Eu não vou te deixar escapar! Não vou!”— grito internamente.
—Eu não vou te deixar escapar… — Solto sem querer antes de dormir.
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