Reaprendendo a Amar
11 Capítulo 11
Notas iniciais
– Eu não tinha razão? – Comentou Kellan quando estávamos terminando de comer a sobremesa.
Ao nosso redor nossos colegas e amigos comiam e conversavam – ainda nos excluindo. Diga-se de passagem, que eu ainda pretendia descobrir se aquilo era armação e de quem era, mesmo que tivesse uma vaga (ou não tão vaga assim) ideia.
– Sobre o que? – Perguntei depois de ter engolido mais uma colherada de minha sobremesa.
– A comida. – Falou indicando os pratos quase vazios à nossa frente.
– Ah sim, tinha, estava ótimo. – Falei olhando para ele pelo canto do olho enquanto afastava meu prato.
– Qual a sua comida favorita? – Ele perguntou parecendo interessado.
Não resisti ao impulso de olhar para ele, eu nunca havia respondido aquela pergunta, ninguém nunca havia perguntado aquilo para mim. Parei por um momento, pensando.
– Só comida? Ou doce conta? – Questionei e um sorriso torto surgiu em seu rosto.
– Que tal me contar os dois?
– Gosto de mousse de maracujá com chocolate. – Respondi. – E comida... Hum... Sinceramente, nunca parei pra pensar nisso.
– Nunca? – Perguntou ainda sorrindo. Eu balancei a cabeça, negando. – Por quê?
– Ninguém nunca perguntou. – Dei de ombros. – E não me preocupei em saber.
Observei uma de suas sobrancelhas se erguer enquanto ele continuava me observando, passamos alguns segundos em silêncio, um estudando o outro, eu me perguntando o que ele tanto buscava e por que me fizera aquela pergunta e, além disso, imaginando o que ele estava pensando.
– E... E você? Do que gosta? – Perguntei um pouco tímida com seu olhar que parecia ser intensificado pelo silêncio.
– Vo... Er... Ravioli de frango. – Respondeu desistindo de sua resposta impulsiva. – Gosta? – Perguntou interessado, notando meu sorriso tímido.
– Sim. – Assenti. – Minha mãe costumava fazer desde que era criança. – Expliquei saudosamente.
– Ela... – Ele começou em um tom de pergunta, mas suas palavras morreram, mesmo assim eu entendi o que ele quis dizer, por isso assenti com a cabeça. – Eu sinto muito.
Ergui o rosto para olhá-lo, ele parecia preocupado, ele realmente parecia lamentar minha perda e aquilo me fez bem, saber que ele se importava. Dei um sorriso tristonho para ele.
– Está tudo bem, ela não podia mais ser feliz aqui. – Eu expliquei.
– O que isso quer dizer? – Perguntou em um tom cauteloso.
– Ela sentia falta do meu pai. – Respondi com a voz trêmula.
Eu evitava pensar neles para não deixar que a dor me tomasse, mas eles pareciam tão vivos em minha memória quando eu o fazia, doía pensar que eles não estavam em casa, esperando que eu voltasse para me abraçar e explicar tudo o que eu não entendia.
– Oh, me desculpe, eu não devia ter perguntado. – Ele parecia preocupado com minha expressão.
Eu estava encarando minhas mãos, sem saber o que dizer, pensando nos meus pais, no quanto eu sentia falta deles, mas também me veio à mente o sonho que tive deles, no qual eles pareciam tão felizes, mesmo que as palavras deles parecessem tão confusas para mim elas serviram para me dizer que eles ainda estavam olhando por mim e aquilo me dava forças.
– Ashley. – Aquela voz rouca soou em meus ouvidos mais uma vez, parecendo preocupada. – Você está bem?
Quando ele perguntou isso uma de suas mãos segurou minha mão direita e aquilo pareceu me reconfortar, parecia me dizer que eu não estava sozinha, que eu não precisava passar por tudo aquilo sozinha, mas eu não podia me enganar com isso, o último homem que me passou essa sensação apenas abriu mais esse buraco.
– Estou. – Respondi me controlando. – Me desculpe.
– Não tem pelo que se desculpar.
Assenti, ainda olhando para minhas mãos, sendo que uma delas ainda estava coberta pela sua, aquilo parecia tão errado na minha mente, mas meu coração queria tanto me enganar que aquilo estava me deixando perdida: o calor de sua mão, a segurança que ela transmitia, aquela corrente elétrica que emanava de seu toque, eu não conseguia entender.
– Ashley! – Uma voz animada me chamou.
Imediatamente ergui o olhar, procurando quem me chamara, aliviada por ser poupada de precisar responder e de tentar entender o que se passava comigo. Notei que as conversas na mesa baixaram de tom, como se todos pretendessem escutar o que viria a seguir. Aquilo me deixou desconfiada e a repentina ausência do calor do toque de Kellan me deixou um pouco temerosa.
– A Kris me falou que não vai poder te levar na sessão, quer ir com a gente? Deve ter espaço em algum dos carros. – Megan começou a falar.
– Ah, obrigada Megan. – Respondi sorrindo, aliviada que fosse isso e não alguém comentando minha interação com Kellan. – Mas não precisa se preocupar, posso pegar um táxi, não quero incomodar ninguém. – Conclui.
– Ora, não vai incomodar ninguém garota, tenho certeza que alguém passa perto de sua casa no caminho.
Vários murmúrios de concordância se seguiram ao argumento de Megan que, eu notei, tinha o cuidado de não desviar o olhar de mim, como se estivesse com medo de que a mínima distração a fizesse deixar escapar alguma coisa, e não me restaram opções além de olhar desconfiada para ela e concordar, ainda um pouco relutante.
– Certo, me passe seu número, quando tivermos certeza do horário que sairemos eu te aviso. – Ela sentenciou me estendendo o celular.
Tive o cuidado de lançar outro olhar desconfiado para ela enquanto pegava o celular de sua mão. Digitei rapidamente o meu número e devolvi o celular, Megan me olhava com um sorriso radiante e levado. Ergui uma sobrancelha para ela, me questionando do porquê de haver tanta animação em sua expressão.
Direcionei meu olhar à Kristen, que deu de ombros, sorrindo discretamente, mas eu notei em seu olhar uma expressão conspiradora, não pude evitar que meus olhos se apertassem na direção dela, notando isso ela riu, como se esperasse exatamente isso, e sem mais voltou a conversar com Megan.
Balancei minha cabeça enquanto murmurava comigo mesma, me questionando o que aquelas garotas estavam tramando, porque, no momento, eu tinha certeza de que estavam, e prometendo a mim mesma que mataria quem quer que estivesse envolvido no planejamento disso.
– Eu juro que não tenho nada a ver com seja lá o que ela estiver inventando. – A voz de Kellan soou bem humorada, mas sincera.
Virei um pouco a cabeça para olhá-lo, ele olhava para mim, parecendo encantado com minha maluquice, o que era impossível, ele devia estar morrendo de rir de mim por dentro, mas devia ser um mentiroso bem melhor do que Kristen, porque eu não notei isso nos seus olhos ou na sua expressão.
– Tem certeza? – Perguntei erguendo uma sobrancelha, tentando segurar o sorriso que eu quis dar ao notar o sorriso dele.
– Absoluta. – Ele certificou abrindo ainda mais seu sorriso, deixando suas covinhas mais evidentes.
– Eu acredito em você.
Eu pude sentir a verdade por trás dessas palavras, não podia deixar de acreditar naqueles olhos, eu soube que ele era tão vítima quanto eu de minhas amigas e sabe-se lá quem mais que elas tivessem envolvido, por isso eu olhei-o e, finalmente, me permiti sorrir.
A expressão dele me fez esquecer todo o resto, ele tinha a expressão deslumbrada e contente e fiquei satisfeita por saber que eu havia posto aquela expressão em seu rosto. Sacudi-me mentalmente, tentando me livrar daqueles pensamentos e sensações esquisitas e novas para mim.
Eu sabia que se eu continuasse muito tempo ali acabaria com minha sanidade. Desviei meu olhar dele e comecei a olhar em volta, procurando uma forma de chamar a atenção de Kristen para chamá-la para irmos embora.
Remexi-me na cadeira, tentando fazer algum barulho, pigarreei, porém todos pareciam alheios à minhas tentativas de chamar atenção, menos Kellan, é claro, que me observava, e que me esforcei muito para ignorar.
Voltei a ficar quieta, buscando quase desesperadamente uma forma mais eficaz de atrair o olhar de Kristen. Ao baixar meus olhos para a mesa vi guardanapos de papel e, sem pensar muito peguei um deles, amassando-o em uma de minhas mãos.
Pela visão periférica notei Kellan olhando-me curioso e, mais uma vez, tive o cuidado de ignorá-lo, por algum motivo não queria que ele pensasse que eu estava querendo me livrar dele, mesmo que estivesse desesperada para conseguir pensar coerentemente, o que era impossível perto dele.
Com o guardanapo de papel formando uma pequena bolinha ergui minha mão, recuando-a um pouco antes de jogá-la de forma certeira no rosto de Kristen. Enquanto ela se virava, incrédula, a risada dele voltou a soar, me fazendo sorrir.
– Qual o seu problema garota? – Perguntou Kristen olhando-me pelos olhos apertados antes de jogar a bolinha de volta em mim.
Desviei-me, fazendo com que o guardanapo passasse por cima de meu ombro. E sorri para Kristen, que revirou os olhos.
– Vamos para casa, estou cansada. – Pedi fazendo bico.
– Certeza? – Ela perguntou erguendo uma sobrancelha e vi seu olhar vacilar minimamente para o assento ao meu lado antes de voltar a mim.
– Sim, se você vai me arrastar para fazer compras amanhã eu vou precisar dormir muito hoje. – Soltei a primeira desculpa que encontrei.
– Credo, até parece que eu vou te fazer dar a volta no mundo de joelhos. – Resmungou.
– Eu não duvido de nada vindo de você. – Contrapus.
Ela me encarou, aparentemente irritada. Eu ri e lhe soprei um beijo, que arrancou mais algumas risadas ao redor da mesa, todavia eu não ouvi aquela que me fazia querer sorrir.
Olhei para o lado, Kellan me observava mais uma vez, uma pequena ruga marcando sua testa. Perguntei-me o que ele estava pensando, porém eu sabia que tinha a ver com minha repentina decisão de ir embora.
– Desculpe, eu preciso mesmo descansar. – Justifiquei-me.
Não era mentira, eu realmente precisava descansar minha mente, aquilo estava sendo demais para mim, eu não sabia mais como agir, eu não queria dar a entender que eu estava disposta a me aproximar dele, porque eu não estava pronta para isso e, provavelmente, nunca estaria.
– Tudo bem, não tem que se desculpar. – Ele sorriu educadamente, mas seus olhos permaneciam curiosos e quase tristonhos.
– Kellan, querido, por que não leva a Ash em casa? Eu e a Melody – Ela apontou para a garota ao seu lado – queremos mostrar uma lojinha nova que abriu perto da minha casa que é linda, ela pode levar uma parte de nós já que é caminho e como a Ash está cansada acho que podemos poupá-la disso, o que acha? – Megan sorria com um ar diabólico.
– Tudo bem para você? – Kellan me perguntou com a voz baixa, me analisando, seus olhos um pouco mais animados e banhados em expectativa.
– C-c-claro. – Gaguejei vergonhosamente, incapaz de decepcioná-lo, por mais que ele fosse o motivo de eu querer sair dali.
– Perfeito! – Explodiu Megan batendo palmas do outro lado da mesa. – Garçom! – Chamou acenando.
Logo pedimos a conta e cada um pagou a sua parte, notei que Kellan fez menção de pagar a minha, mas olhei para ele, fazendo cara feia e ele imediatamente desistiu, fazendo uma expressão contrariada.
Em poucos minutos estávamos todos nos levantando e nos espalhando pelos carros, despedi-me de Megan e Kristen com uma carranca e parei ao lado do carro enquanto Kellan e seus colegas se despediam ruidosamente, aquelas borboletas soltas em meu estômago outra vez com a expectativa de ficar sozinha com ele. Eu com certeza mataria aquelas “amigas da onça”.
– Está tudo bem mesmo? Posso fazê-las desistir. – Ele perguntou parecendo preocupado enquanto se aproximava.
– Duvido que consiga. – Uma buzina soou, junto com despedidas. – Viu? – Falei apontando para o carro que já se distanciava. – Está tudo bem, de verdade, obrigada por se preocupar. – Conclui sorrindo para ele.
– Não tem que agradecer. – Ele sorriu enquanto destrancava o carro e abria a porta para mim.
Ele me deu a mão para me ajudar a entrar e esperou que eu me acomodasse para fechar a porta, dando a volta rapidamente para o lado do motorista.
– Seus amigos vão ficar bem com isso? Não queria incomodar ninguém. – Comentei enquanto ele dava a partida.
– Não se preocupe, eles vão ficar bem sim, se eu tentasse fazer eles virem eles provavelmente me chutariam. – Comentou bem humorado.
– Por quê? – Perguntei curiosa e feliz que o assunto pudesse se focar em algo que não fosse eu.
– Eles acham que eu devia sair mais. Curtir a vida sabe? – Ele comentou olhando-me pelo canto dos olhos.
– E por que eles dizem isso? – Perguntei numa tentativa de mantê-lo falando.
Estávamos parados no trânsito de Londres, aguardando os carros a frente se moverem com o sinal que acabara de abrir. Kellan se remexeu em seu assento, parecendo desconfortável e decidido a manter-se olhando para frente.
– Não precisa falar se não quiser. – Avisei.
– Não, não tem problema... – Ele falou me olhando e sorrindo um pouco. – Eles dizem isso porque não saio com ninguém há muito tempo e evito sair com eles a qualquer custo.
– Por quê? – Questionei, não sabia o motivo, mas me pendurava em cada palavra que ele dizia.
– Eles são impossíveis. – Reclamou balançando a cabeça. – Estão sempre tentando me empurrar pra sair com alguém. – Explicou.
Não pude evitar lançar um olhar curioso em sua direção, afinal, ele era um homem bonito, parecia muito educado e simpático, tinha tudo para conseguir sair com quem quisesse, para que ele precisava que os amigos o obrigassem a sair com alguém? E por que ele não queria? Abri a boca para começar a falar, mas ele foi mais rápido.
– Espera ai, me deixe adivinhar. – Ele me interrompeu sorrindo marotamente – Por que eu não quero sair com ninguém, certo? – Arriscou me lançando um rápido olhar.
– Sou tão previsível assim? – Perguntei sorrindo.
– Não mesmo. – Eu ia perguntar o que ele quis dizer com aquilo, mas ele sorriu e voltou ao assunto anterior. – Eu não quero sair com ninguém porque estive esperando por alguém especial. – Ele sorriu. – Eu não quero estar com pessoas que gostem apenas da minha aparência ou da minha profissão entende? – Explicou e eu assenti, eu realmente entendia. – Me cansei de pessoas assim.
Notei uma pontada de mágoa em sua voz ao pronunciar a última frase, todavia decidi não direcionar a conversa para aquele assunto, eu tinha a impressão de que não suportaria ver aquela mágoa que tocara sua voz tingir suas expressões e seu olhar.
– E como vai descobrir se alguém gosta de você por quem você é se não conhecer ninguém? – Perguntei tentando fazer graça, mas ele pareceu ter levado a pergunta mais seriamente do que eu pretendi, pois ficou reflexivo.
– Eu quero acreditar que o destino vai se encarregar disso, que a pessoa certa vai aparecer na hora certa e vai aprender a gostar de mim como eu sou.
Eu não sabia como responder àquilo, por isso calei-me, olhando para a janela que emoldurava as ruas de Londres, lavada por uma chuva que eu não vira cair. Mesmo sem que eu cogitasse isso minha mente começou a pensar naquilo que ele disse.
Será que algum dia eu encontraria alguém que gostasse assim de mim? Alguém que me amasse? Ou eu já teria encontrado isso em Jackson e havia deixado escapar? Jackson... Fazia tanto tempo que não pensava nele, apenas as cicatrizes ficaram para traz e me lembravam de que eu devia evitar me machucar outra vez.
Mas aquele pensamento era tão tentador: encontrar alguém que me amasse por quem eu sou e que não cansasse de mim, que estaria comigo sempre, que estaria ao meu lado quando eu precisasse de um abraço ou quando quisesse companhia, alguém que me fizesse feliz.
Aquele pensamento fez meu coração pulsar mais forte. Será que o destino realmente era capaz de fazer aquilo? Eu devia acreditar no destino? Porém todas aquelas decepções e a solidão pareciam tão mais reais. Tudo ficou tão confuso em minha mente que eu a senti latejar.
Se eu não precisava antes agora eu realmente precisava esvaziá-la, talvez fosse uma boa ideia ter ido embora, pensar no conforto do meu lar era tentador e eu estava feliz por estar chegando, mas ao mesmo tempo algo em mim não queria que aquele momento acabasse, não quando eu havia descoberto a possibilidade de encontrar um pensamento diferente.
Eu tinha certeza de que quando estivesse longe de Kellan eu não conseguiria mais pensar novamente na possibilidade de haver uma dimensão em que eu pudesse ser feliz. Sua positividade era contagiante, sua presença não permitia que meu cérebro funcionasse direito, eu não conseguia pensar na solidão, não conseguia pensar na tristeza, eu não conseguia entender nada.
À medida que nos deslocávamos pelas ruas elas se tornavam mais familiares para mim, e eu sabia que agora faltava pouco para chegarmos à minha casa, todavia, eu continuava sem saber o que dizer à Kellan, porém, ao contrário do que deveria parecer, o silêncio no carro era confortável.
Era um sentimento estranho, eram poucas as pessoas com quem eu conseguia ficar em silêncio sem me sentir incomodada, era de se contar nos dedos: Kristen, minha mãe, meu pai e... Bem, e Kellan agora, e isso era no mínimo estranho.
Olhei para Kellan, tentando entender por que me sentia assim, por que me sentia tão confusa, mas ao mesmo tempo tão confortável na presença dele, tão tímida, mas como se estivesse no meu lugar. Nesse ponto nem eu estava mais me entendendo...
– O que foi? – Perguntou ele sorrindo e me olhando pelo canto dos olhos.
– Só estou pensando. – Respondi.
– Você faz muito isso. – Não foi uma pergunta, mas mesmo assim respondi.
– Sim. – Dei de ombros. – Tem coisas que preciso entender. – Expliquei, mesmo que não houvesse necessidade, eu tinha a impressão de que falava demais quando estava com ele.
– Entendo. – Uma pausa. – Se precisar de ajuda, eu posso ser um ótimo ouvinte. – Gabou-se.
Eu não pude evitar a pequena risada que escapou de meus lábios, ele me olhou, sorrindo.
– O que foi? Está duvidando? – Questionou bem humorado.
Balancei a cabeça, retribuindo seu sorriso, e eu realmente não duvidava. Neste momento notei de relance que estávamos estacionados em frente ao meu prédio, sendo que eu nem havia notado que havíamos parado.
– Ótimo, acho bom que não. – Respondeu ainda sorrindo. – Me empreste seu celular, por favor?
Mesmo não entendendo o pedido peguei o celular, o desbloqueei e estendi-o para ele, sua mão roçou levemente na minha quando ele apanhou o celular de mim e eu me esforcei para não deixar minha expressão denunciar a corrente elétrica que voltara a perpassar-me.
Ele digitou algo no meu celular e depois esticou um pouco o braço, sorriu e bateu uma foto, apenas ergui a sobrancelha e aguardei. Ele pressionou mais algumas vezes a tela e depois me devolveu o celular. Tive o cuidado de não tocá-lo e olhei para a tela, ele havia adicionado seu telefone.
– A foto é só para não se esquecer de quem é. – Ele deu de ombros. – Se precisar de alguém para te escutar é só me ligar. – Abri a boca para falar, mas ele me interrompeu. – Não é obrigada a nada, é só para o caso de precisar, e também não precisa me passar seu número, está tudo bem.
Ele sorriu simpático e eu assenti timidamente, um pouco impressionada, eu realmente achava que ele iria usar aquilo como uma desculpa para conseguir meu número, mas ele parecia verdadeiramente preocupado apenas com o fato de que eu tivesse como contatá-lo se precisasse.
– Obrigada. – Sussurrei bloqueando o celular. – Hum, acho melhor eu subir, v-você quer...
– Não, não se incomode. – Me interrompeu.
– Não iria incomodar... – Iria convidá-lo, por educação, ou talvez porque não quisesse que aquela sensação de solidão voltasse, para que subisse, mas ele me interrompeu, balançando a cabeça.
– Vou te deixar descansar, você disse que estava cansada. – Ele falou baixo e sua mão hesitou, porém se ergueu e acariciou meu cabelo, ajeitando-o.
– Ah, obrigada. Então nos vemos em alguns dias, certo? – Ergui o olhar para ele.
– Certo. – Ele assentiu.
Num ato impensado me estiquei um pouco e beijei seu rosto e, antes que ele pudesse dizer algo ou que eu me arrependesse abri a porta e sai, andando rapidamente para a portaria.
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