Reaprendendo a Amar
6 Capítulo 6
Notas iniciais
Estava quase terminando de contar à Kristen todas as coisas estranhas que havia sentido durante o dia e como fora a seção, ela me olhava com uma das sobrancelhas erguidas e com uma expressão de quem se concentrava muito para manter a expressão séria.
– Então quando, finalmente, acabou eu comecei a andar, minhas pernas estavam me matando. – Pausei para tomar mais um gole do suco. – Ai um carro escuro começou a parar do meu lado, eu fiquei muito assustada e comecei a acelerar o passo, mas o carro continuava ao meu lado.
Nesse momento Kristen fez uma expressão preocupada e sua boca se abriu, ela estava prestes a me interromper para me perguntar se alguma coisa tinha acontecido ou por que eu não tinha ligado, mas eu balancei a cabeça irritada e isso pareceu detê-la.
– Era o Kellan. – Falei derrotada e franzi o cenho para minha amiga que apertou os lábios para conter o riso. – E ele ficou me irritando até eu aceitar a carona, então ele me deixou aqui.
– E? – Incentivou Kristen quando notou que eu havia terminado.
– E o quê? – Perguntei sem querer comentar mais nada.
– Ora! O que aconteceu? Como foi o caminho? Anda! Fala logo!
Ergui o copo mais uma vez tomando longos goles como pretexto para editar mentalmente a história e não dar mais motivos do que já tinha dado para ela me provocar depois.
– Ele achou que eu tinha um namorado quando me ouviu no telefone com você e foi... Estranho... Tinha horas que estávamos conversando normalmente e tinha horas que ficava esquisito, não sei... Mas agora acabou. Eu não vou mais ter que vê-lo, certo? – Esvaziei meu copo e me levantei para lavar a louça, me virei quando ouvi Kristen bufar.
– Você é inacreditável! Não consegue ver que o cara estava bobo por você? E sinto lhe informar que você também não está muito atrás...
Eu ofeguei incrédula. O que ela queria dizer com aquilo? Ela só podia ter endoidado... Era a única explicação plausível. Eu não estava nem perto de gostar dele, isso era irracional, eu nem o conhecia e, de qualquer forma, não podíamos ter nada em comum.
– Como assim Kristen? Endoidou? Não gosto dele.
– Ah! Vamos lá garota! Admita... Pulso disparado, borboletas no estômago, sensações estranhas, corando toda hora... – Ela foi contando nos dedos enquanto listava. – Junte tudo querida: você está apaixonada. – Ela falou como se fosse algo óbvio.
Fiquei sem fala por um instante, agora eu não tinha dúvidas, ela tinha endoidado completamente, eu não estava apaixonada por aquele homem, não podia estar. Eu não me permitia estar. Balancei a cabeça para Kristen.
– Você endoidou. Eu não gosto dele, nem um pouco, quanto mais estar apaixonada. – Argumentei enquanto ensaboava os talheres. – E ele também não gosta de mim Kristen, não tem motivos pra isso, sem contar que deve ter uma namorada. – Quando proferi essas palavras senti alguma coisa incômoda dentro de mim.
– Mais cedo ou mais tarde você vai cair na real. – Ela afirmou. – Mas tenha certeza de uma coisa querida: Kellan está bem interessado em você, mais do que imagina e, até onde sei, ele não tem namorada.
– O que quer dizer com isso Kristen? – Perguntei intrigada parando de ensaboar o prato que estava em minha mão sem compreender absolutamente nada. O que essa garota tinha bebido?
– São só umas coisinhas que o Robert me disse... – Ela começou e, mesmo estando curiosa a interrompi, era minha chance de desviar o assunto de mim.
– Hum... Por falar em Robert, como estão as coisas entre vocês?
– Nem vem! Não vai me fazer mudar de assunto, espertinha.
Expirei derrotada. Aquele assunto estava me dando dores de cabeça.
– Ok então... O que seu querido Robert te disse?
Ela revirou os olhos, mas continuou a falar, senti meu estômago se torcer em expectativa, porém baixei os olhos para a louça enquanto a enxaguava para que Kristen não notasse.
– Bem... – Ela começou lentamente, parecendo tentar decidir por onde começar. – Alguns dias antes do dia em que assinamos os contratos, pouco depois que você chegou, Robert me ligou... Não se anime. – Ela me cortou antes que eu pudesse interromper. – Ele não queria falar sobre mim, ele queria falar de você.
– De mim? Como assim? – Ok, agora eu decididamente não estava entendendo nada.
– Ele queria minha opinião se devia te dizer para conhecer o Kellan. – Explicou. – Lembra que ele perguntou? – Assenti tentando encaixar as coisas enquanto secava minhas mãos e as apoiava no balcão, tentando me sustentar. – Ele me disse que Kellan queria te conhecer e me perguntou se eu achava que você iria aceitar conhecê-lo ou não, eu disse para tentar, tinha esperança de que você deixaria de ser tão cabeça dura e...
– Espera ai. – Disse finalmente assimilando algumas de suas palavras, minha mente trabalhava numa lentidão exasperante. – Você... Você disse que ele queria me conhecer? – Ela assentiu lentamente. – Explica isso direito, por favor. – Implorei apertando as têmporas que latejavam.
– Ok, ok, muita calma.
Kristen se levantou, apanhando duas taças nos armários e uma garrafa de alguma coisa que não me preocupei muito em saber do que, apenas segurei a taça quando ela me ofereceu e acenei com as mãos para que ela continuasse, aflita para entender de uma vez o que estava acontecendo.
– Respira Ashley, não quero que tenha um infarto nem nada do tipo. – Me forcei a respirar fundo e beber alguns goles da taça que identifiquei conter vinho. – Tudo bem, se acalme, não é nada demais, pare de ser tão exagerada.
– Estou calma Kristen, não vou ter um infarto nem vou te enforcar se você começar a falar. – Ironicamente minha voz estava grave e saia entre meus dentes cerrados.
– Lembra que Robert te disse que tinha mostrado suas fotos para alguém e conseguiu te colocar na campanha da Gucci? – Assenti. – Na verdade... Kellan viu suas fotos no escritório de Robert e gostou do que viu, acho que se encantou – falou dando de ombros – e ele sabia que estavam precisando de uma modelo para a campanha e fez questão de usar a influência dele pra poder trabalhar com você.
E foi ai que tudo ficou ainda pior: afinal eu não tinha conseguido entrar naquela campanha por mérito meu, eu havia entrado porque um homem que nem me conhecia decidiu que queria me conhecer. E por que ele fez tanta questão de fotografar comigo?
Eu respirei fundo mais uma vez, tentando me acalmar e ser racional, mas minha mente estava uma completa bagunça e ao mesmo tempo que estava completamente irritada aquela sensação de borboletas voltou... Como assim ele gostava de mim? O que ele havia visto em mim?
Isso não podia estar acontecendo, não! Eu não podia permitir que alguém se aproximasse de mim... Eu não podia... Eu não podia aguentar ser trocada mais uma vez... Eu não podia aguentar a dor de uma desilusão mais uma vez...
Mas eu não devia estar tão preocupada com o fato de ele gostar de mim, afinal, eu não gostava dele, eu não me sentia eu mesma perto dele. Era isso... Eu devia parar de parecer uma adolescente desesperada e agir como a mulher adulta que sou e deixar claro que eu não ia deixar isso me abalar.
– Bem, vocês deveriam ter me dito, assim eu não teria aceitado um trabalho que não mereci. – Falei séria, mas contida. – Mas está tudo bem, agora já foi e espero que da próxima vez que consiga algo aqui seja pela minha competência.
– Ashley! – Ofegou uma Kristen boquiaberta. – Você está sendo ridícula... Você acha que conseguiria mesmo fotografar se não fosse incrível? Por favor, querida! É a Gucci! Eles não te aceitariam se não fosse boa!
Balancei a cabeça. Eu esperava por esses argumentos, mas não podia acreditar neles.
– Como você mesma disse eu consegui por influencia de alguém que provavelmente tem alguns parafusos a menos na cabeça e, por algum motivo que eu desconheço, resolveu me conhecer. – Falei antes de virar o restante do conteúdo da taça e voltar a enchê-la.
– Você é absurda. – Resmungou esvaziando seu próprio copo e me lançando um olhar inconformado. – Não importa o que diga você mereceu sim isso, talvez eu tenha escolhido as palavras erradas. Você é incrível e conseguiria isso com ou sem ajuda de ninguém.
– Vai ter que me desculpar, mas acho que não acredito nisso.
– Não seja ridícula. Não importa se acredita ou não. É a verdade, isso não vai mudar. – Ela falou com a sobrancelha erguida como se me desafiasse a contrariá-la. – Você é bonita, tem talento, fotografa bem, é esperta, não tem por que não conseguir seja lá o que for.
– Eu vou fingir que acredito se trocar de assunto, pode ser? – Perguntei esvaziando mais uma vez a taça. – Como eu te disse umas mil vezes nos últimos minutos: não importa mais, já passou e, provavelmente, não vou voltar a vê-lo tão cedo.
Eu fazia força para acreditar nessas palavras, para acreditar que realmente não importava e que eu não o veria – mesmo que esse último fato tivesse um efeito desagradável e completamente fora de contexto para mim.
– Certo... Certo... Mas mais cedo ou mais tarde você vai mudar de ideia e você sabe que qualquer coisa você pode me dizer que eu vou estar aqui. – Ela falou sorrindo.
Mesmo que ainda estivesse um pouco irritada ou confusa um sorriso se formou no meu rosto e eu assenti. Era bom saber que eu não estava sozinha, era bom ter a Kristen. Notei que ela não havia falado nada sobre o dia dela, havíamos ocupado todo o tempo falando do meu dia.
– E o seu dia? Como foi? – Perguntei olhando-a enquanto pousava a taça vazia no balcão.
Ela mordeu o lábio por um segundo, olhando para o balcão e eu tive certeza de que ela estava editando a história. Fiquei imediatamente curiosa para saber o que estava se passando na cabeça de minha amiga, mas esperei que ela começasse a falar.
Sem dúvida alguma arrumaria um jeito de descobrir o que ela estava escondendo depois e, infelizmente, eu sabia que o mesmo aconteceria com relação a mim. Éramos próximas o bastante para saber como extrair as coisas uma da outra e entender quando não estávamos prontas para dizer algo.
Continuei a observando até que ela erguesse o rosto e começasse a falar com os olhos brilhando de animação e alguma coisa que eu não reconheci:
– Aquele lugar é simplesmente incrível! Tudo lá é lindo e perfeito... Você precisa ver o tipo de gente que anda lá, todos são simplesmente impecáveis. – Senti algo diferente em sua voz, mas permiti que ela continuasse sem interrupções. – As roupas são fabulosas, você não tem noção! Vou usar três trocas, cada uma mais perfeita que a outra.
– Estou louca para ver, devem ser realmente lindas. – Comentei sorrindo com sua animação, mesmo que ainda estivesse curiosa. – Vai ter que voltar que dia?
– Daqui a dez dias para a segunda prova. – Ela falou sorrindo e eu ergui uma sobrancelha com a expressão dela. – Quê? – Falou parecendo assustada ao notar minha expressão.
– Nada... Nada... – Balancei a cabeça. – Já sabe quando vai ser o desfile? – Tentei mudar de assunto... Por enquanto.
– Daqui a um ou dois meses mais ou menos, não lembro exatamente do dia.
– Se tivesse lido o contrato saberia. – Murmurei antes que pudesse me conter.
Instantaneamente cobri a boca com uma das mãos e notei que seus olhos formaram fendas, ela parecia a ponto de me jogar alguma coisa.
– Foi sem querer, desculpa. – Falei por entre meus dedos.
Ela revirou os olhos. Logo superamos esse pequeno momento e voltamos a conversar animadamente, compartindo de detalhes do dia, claro que eu evitava falar do meu dia, principalmente no que tangia Kellan, então eu a incentivava a falar mais do dia dela.
– Mas e as fotos? Já sabe quando vão ser publicadas? – Ela me perguntou após alguns minutos de conversa.
– Inicialmente estavam previstas para o meio do mês que vem, mas sinceramente eu nem sei se quero ver, tenho até medo. – Resmunguei fazendo careta. – Sabe como é... Dessa vez ele agarrou a câmera tão rápido que não tive como tirar nem uma única foto no disparo automático.
Isso disparou em nós uma onda de risos que fez meus olhos lacrimejarem e minhas costelas doerem. Depois que nos acalmamos um pensamento passou por minha cabeça: será que eu estava com medo de ver aquelas fotos porque elas seriam horrendas ou era porque eu estava com medo de rever aqueles intensos olhos claros que pareciam desvendar toda a minha alma?
Um arrepio percorreu minha espinha, eu estava com medo e eu não gostava dessa sensação, o que eu tinha que esperar daqui pra frente? Essas incertezas de meus sentimentos, pensamentos, sensações e ações estavam me assustando. Eu havia ido a Londres justamente para ter uma vida mais calma e sem medos ou sentimentos, principalmente os que podiam me causar dor ou confusão.
Minha amiga se distraiu por um momento com o celular nos segundos em que ficamos em silêncio e eu tornei a encher a taça que estava esquecida no balcão e tomei o líquido escuro rapidamente enquanto observava as poucas estrelas que pontilhavam o céu de Londres, tentando competir com as inúmeras luzes que iluminavam a cidade.
– Quer conversar sobre alguma coisa Ash? – A voz de Kristen soou um pouco baixa e eu balancei a cabeça em resposta. – Tudo bem então. Olha, está ficando um pouco tarde, eu estou cansada e tenho certeza de que também está... Eu vou para casa e você vai tomar um banho relaxante e vai dormir. Qualquer coisa pode me ligar, a qualquer hora ok?
– Obrigada Kris. – Sorri e a abracei quando ela veio em minha direção para se despedir.
– Vai ficar tudo bem ok? Não importa o que esteja passando pela sua cabeça. – Ela sussurrou no meu ouvido e eu assenti.
Era tão bom ter alguém para me dizer isso, para dizer que tudo ficaria bem, como se não houvesse dúvidas de que isso fosse acontecer. Guardei bem aquelas palavras, repetindo-as em minha mente e me esforçando para acreditar nelas, eu tinha que acreditar que eu entenderia tudo isso e que eu ficaria bem.
Depois que minha amiga foi embora enchi a taça mais uma vez antes de fechar a garrafa e guardá-la – eu já havia bebido demais e isso não parecia bom – Peguei a taça cheia e subi as escadas para seguir o conselho de minha amiga. Enchi minha banheira e permiti que meus músculos relaxassem o estresse do dia.
...
Os dias que se seguiram foram mais calmos, o inverno estava se aproximando e estava começando a esfriar, eu passava grande parte do tempo em minha biblioteca para manter afastados os pensamentos que tentavam me perseguir.
Kristen aparecia todos os dias e passávamos algum tempo juntas em meu apartamento e algumas vezes no dela, não tínhamos muita vontade de ir a lugar algum com o vento que começava a varrer as ruas de Londres, além disso minha amiga andava mais atenta ao celular e não tirava a atenção dele por nada.
Não havíamos falado muito naquele dia da sessão de fotos e da primeira prova de Kristen, em partes porque eu preferia não lembrar para não atiçar novamente aqueles sentimentos desconhecidos e controversos e em partes porque Kristen ainda desviava o assunto sempre que eu chegava perto de descobrir o que ela havia editado em nossa conversa naquela noite.
O clima estava cada vez mais frio e chuvoso com a aproximação do inverno. Estávamos a três dias do retorno de Kristen à Prada para a segunda prova, ela estava completamente eufórica, mais do que no primeiro dia e parecia ainda mais animada do que no dia em que nos encontramos com Robert em seu escritório nos meus primeiros dias em Londres, aquilo me deixava curiosa demais para o meu próprio bem e para deixar minha amiga em paz.
– Ok, chega disso, pode começar a falar. – Exigi atraindo um olhar confuso de Kristen.
Nós estávamos em minha sala de TV, minha amiga estava mordendo os lábios e não parecia prestar atenção alguma ao filme que pretendíamos assistir. Peguei o controle, pausando o filme e me virando para a minha amiga.
– Do que está falando? – Ela perguntou com um ar de falsa inocência. Ela, com certeza, não tinha aprendido a mentir ainda.
– Você sabe muito bem do que estou falando Kristen... O que está evitando falar faz uma semana.
Ela suspirou pesadamente e se virou um pouco relutante para mim, ela torcia suas mãos em seu colo enquanto as encarava.
– Ok. Acho que preciso mesmo conversar. – Ela murmurou mais para si mesma do que para mim.
Então após respirar profundamente como se inspirasse alguma coragem ergueu os olhos para mim, notei que ela ainda estava um pouco hesitante, então sorri para ela a incentivando.
– Só quero saber se posso ajudar em alguma coisa, você anda um pouco distraída e eu estou preocupada e admito que também estou um pouquinho curiosa. – Falei e ela sorriu um pouco antes de começar a falar.
– É que eu estou tão confusa. – Declarou passando a mão no cabelo. – É complicado, mas ao mesmo tempo não parece ser.
– Quer me falar? Talvez eu possa ajudar um pouquinho. – Falei suavemente segurando suas mãos para que ela parasse de mexê-las.
– Sim, eu acho que sim. – Ela respondeu mordendo os lábios por um instante, provavelmente decidindo por onde começar. – É que...
Mas então fomos interrompidas pelo meu celular tocando e vibrando da mesinha de centro, eu lancei um olhar feio para ele antes de pegá-lo. Que senso de oportunidade não? Ninguém nunca me ligava e agora isso.
– Só um minuto ok? – Murmurei para Kristen antes de atender, o identificador de chamadas indicava o nome de Robert, o que será que ele queria? Logo apertei o botão para atender, levando o celular à orelha. – Alô?
Fale com o autor