Reaprendendo a Amar
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Sorria largamente enquanto corria pela casa. Parei por alguns segundos em frente à porta, a mão na maçaneta, me recompondo por um instante antes de abri-la em um gesto largo.
– Que bom que vieram! – Exclamei ao encontrá-los do outro lado da porta.
Meus olhos pousaram primeiro em Kellan, sorri para ele e desviei o olhar, antes que seus olhos pudessem me hipnotizar e depois olhei para Julie, que estava sorridente, uma pequena mochila nas costas, sua boneca em um dos braços e um buquê de flores coloridas na outra.
– Tia Ash! – Saldou-me animadamente abrindo os bracinhos.
Abaixei-me para acolhê-la em meus braços, apertando-a gentilmente por alguns instantes, beijando seu rosto e recebendo um beijo estalado na bochecha antes de soltá-la, olhando-a.
– Você está linda. – Elogiei.
Ela usava uma calça jeans, um casaco rosa chiclete e botinhas pretas. Seus cachos soltos balançavam, emoldurando seu rostinho corado pelo frio e seu sorriso animado.
– Obrigada tia, você também. – Sorri.
– Obrigada meu anjo. – Agradeci acariciando seu rosto. – Oh! Vocês trouxeram a Beth também, que bom! Olá Beth! – Saldei a boneca que estava nos braços de Julie que sorriu largamente.
– Ela não queria ficar sozinha. – Explicou.
– Ah! Entendo... Vem, entrem, não querem ficar na porta a tarde inteira não é? – Convidei me levantando e deixando-os passar.
– São para você. – Informou Julie estendendo-me o buquê que trazia nas mãos.
– Oh, não precisava querida. – Falei enquanto apanhava as flores e as levava ao rosto, aspirando o cheiro agradável que exalavam.
– Você gostou? – Ela perguntou, os olhinhos apreensivos.
– Eu adorei, elas são lindas, obrigada. – Falei e ela sorriu.
Virei-me na direção de Kellan para, enfim, saudá-lo. Inspirei profundamente para tomar coragem antes de encontrar seus olhos.
– Elas são realmente lindas, obrigada. – Murmurei para ele em agradecimento.
– A ideia foi toda dela, de verdade. – Ele assegurou sorrindo orgulhoso.
Ergui uma sobrancelha, ainda desconfiada, mas balancei a cabeça sorrindo.
– Você está linda. – Elogiou-me e senti minhas bochechas corarem imediatamente.
– O-obrigada, você também está. – Falei baixando os olhos.
– Ah, eu sei. – Ele falou me fazendo rir. – E, a propósito, você não precisa agradecer, esqueceu? – Revirei os olhos para ele, ainda sorrindo.
– Tio Kellan! – Nos viramos para Julie. – Você não disse oi direito para a tia Ash, você tem que abraçá-la. – Ordenou fazendo uma careta séria que era adorável.
Eu dei risada.
– Oras, mas que cabeça a minha. – Disse Kellan teatralmente batendo em sua própria testa fazendo eu e Julie rimos.
Ele abriu seus braços para me acolher e eu, sem me dar muito tempo para pensar, envolvi-o em um abraço, meu rosto em seu peito. Seus braços se fecharam em minha cintura e aquela sensação de calor e eletricidade reacenderam-se, fazendo meu estômago encher-se de borboletas e meu coração disparar.
– Oi. – Ele murmurou e eu senti uma corrente elétrica que fez os pelos de minha nuca se levantarem.
– Oi. – Respondi, minha voz quase inexistente.
Ele me apertou suavemente antes de me soltar, mas uma de suas mãos permaneceu em minha cintura enquanto ele olhava para Julie mais uma vez.
– Satisfeita agora mocinha?
Ela assentiu, a expressão sapeca. Eu dei risada.
– Bem, eu vou até a cozinha encontrar um vaso para minhas flores, querem vir comigo? – Chamei.
Julie balançou a cabeça e eu sorri. Kellan soltou minha cintura, ainda mantendo-se perto enquanto eu fechava a porta e logo depois seguimos para a cozinha, Kellan falava da ansiedade de Julie para que a hora de ir à minha casa chegasse, nos fazendo rir.
Uma vez na cozinha eu peguei um vaso do armário, enchendo-o de água e ajeitando as flores nele, deixando-o sobre o balcão.
– Vocês almoçaram? – Perguntei aos dois.
Julie estava colada na janela, olhando para baixo, parecendo impressionada enquanto Kellan estava sentado em um dos bancos que ficavam em frente ao balcão.
– Sim, dona Elizabeth quase teve que amarrar Julie na cadeira para fazê-la comer, mas sim, nós almoçamos.
Eu sorri enquanto secava minhas mãos.
– Certo, mas eu espero que tenham guardado um espacinho para comer um pouquinho de besteiras.
– Pode apostar que sim. – Ele confirmou sorrindo para mim.
Corei, olhando para Julie como desculpa para desviar do olhar de Kellan.
– Querem ver o resto da casa?
Julie virou imediatamente, assentindo entusiasticamente, olhei para Kellan que também assentiu, sorrindo.
– Seria um prazer. – Sua voz rouca soou.
– Ótimo, vamos então. – Chamei e Julie correu até mim, segurando minha mão. – Querem tirar os casacos? Podem deixá-los onde quiserem. – Perguntei enquanto saíamos da cozinha.
Julie entregou-me a boneca, pedindo que eu a segurasse enquanto Kellan a ajudava a tirar sua mochilinha e seu casaco. Depois de ajudá-la Kellan tirou seu próprio casaco e eu tomei o cuidado de não ficar o encarando enquanto ele deixava tudo no sofá que ficava próximo à porta da cozinha.
Ele usava uma blusa de mangas compridas, cinza, que colava-se ao seu corpo, marcando seu peitoral largo, seus braços e abdômen bem definidos, jeans e tênis casuais e sua simplicidade de alguma forma o deixava elegante.
Desviei os olhos antes que ele se virasse, olhando para Julie que olhava em volta, sorrindo.
– Quer levar a Beth ou ela pode ir comigo? – Perguntei apontando a boneca que ainda estava em meus braços.
– Ela gosta de você, se quiser pode ir com ela. – Ela falou e eu sorri.
– Certo. Estão mais à vontade agora?
Julie assentiu vigorosamente e depois, relutantemente, olhei para Kellan, ainda com medo de encará-lo, e ele sorriu assentindo com um leve movimento.
– Então vamos lá. – Chamei-os e começamos o tour pelo meu apartamento.
Como eles já conheciam a cozinha e a sala de jantar que ficava à vista da entrada mostrei-lhes a sala de tv, logo depois apontei o banheiro social e o apresentei-os o quarto de hóspedes.
Subimos o primeiro lance de escadas conversando amenidades, apontando os enfeites de natal espalhados por todo canto, rindo e sorrindo e, uma vez no topo do mesmo mostrei-lhes minha biblioteca, onde Julie se surpreendeu com a quantidade de livros, já em Kellan notei uma expressão de interesse que fingi não perceber, indicando o próximo cômodo.
– Bem, aqui é meu quarto. – Anunciei enquanto abria a porta.
– Uau, ele é lindo... Acho que dá para pular bem alto na sua cama. – Julie comentou inocente, seus olhinhos brilhando. – Você já testou?
– Julie... –Kellan começou a repreendê-la, mas eu o interrompi.
– Não, ainda não, mas é uma boa ideia. – Disse piscando um olho para ela, que sorriu. – Quem sabe não testamos isso mais tarde se o chato ali não ficar dando broncas. – Falei apontando para Kellan, que estreitou os olhos.
Julie e eu demos risada e eu a puxei mais para dentro do quarto.
– Venha, quero te mostrar o meu closet.
– Nossa, é maior que o da vovó... – Ela comentou olhando para os grandes espelhos. – Suas roupas estão atrás desses espelhos? – Perguntou apontando.
Assenti arrastando uma das portas. Sua boca se abriu em um pequeno “o” e ela virou para o tio.
– Quando eu crescer posso ter um desses?
– Se você trabalhar bastante. – Ele deu de ombros e se aproximou de mim enquanto Julie fechava a porta que havia aberto e olhava as outras. – Você acabou de criar um monstrinho. – Sussurrou para que apenas eu ouvisse, alguns pelos de meu braço se arrepiaram com seu sussurro e sua proximidade, mas eu disfarcei com uma gargalhada.
– Boa sorte com isso.
– Olha tio! Ela tem uma banheira igual a da vovó! – Julie exclamou distraindo-o de sua resposta.
Alguns segundos se passaram para conseguirmos convencer Julie a deixar meu closet, depois de ter prometido que ela poderia voltar depois e que eu ainda tinha um lugar especial para mostrá-los. Desta forma guiei-os até o próximo lance de escadas.
– Este é o meu lugar preferido da casa. – Comentei quando estávamos quase no topo da escada.
Julie foi a primeira a alcançar o patamar superior e eu observei sorrindo enquanto ela dava alguns passos mais para o meio do terraço, girando em seu próprio eixo, seus olhos parecendo animados.
Depois que me juntei à Julie olhei para Kellan, que se aproximava, seus olhos esquadrinhando à sua volta antes de repousarem em mim.
– Lindo! – Exclamou sem desviar os olhos de mim.
Ele provavelmente estava falando do lugar ou da vista, mas não pude refrear o rubor que me corou as faces. Com algum esforço desviei o olhar dele, observando Julie.
– E então, o que achou Julie?
– É tão bonito tia, podemos brincar aqui? – Perguntou, suas pestanas batendo.
– Não acho que é uma boa ideia querida, está frio hoje. – Observei sua expressão decepcionada, seu lábio se projetando levemente para a frente. – Mas quando o tempo estiver melhor pode me visitar outra vez e brincamos aqui, o que acha? – Ela olhou esperançosa para Kellan.
– Nós podemos tio? – Ela batia as pestanas outra vez, as mãozinhas juntas à sua frente. Kellan olhou para mim.
– Vocês são sempre bem vindos aqui. – Assegurei.
Notei uma chama diferente nos olhos de Kellan enquanto observava a sua covinha se formar mais uma vez em uma de suas bochechas e, não sei por que motivo, isso fez meu coração disparar.
– Podemos, mas não exagera, e só quando a sua vó deixar, certo?
Julie assentiu e se virou mais uma vez para observar os prédios ao redor, correndo de um lado por outro. Eu sentia o olhar de Kellan queimando em mim, mas não me atrevi a encará-lo de volta.
Senti uma brisa gelada varrer o terraço, soprando meus cabelos, porém nada fez para aplacar a sensação que era tê-lo me observando, mas serviu como desculpa para sair de sua mira.
– Julie! Vamos descer, não quero que fique doente, está frio aqui. – Chamei.
Mesmo parecendo um pouco decepcionada ela veio imediatamente em nossa direção e descemos as escadas.
– O que acham de um chocolate quente para esquentar? – Perguntei sentindo as pontas dos dedos geladas.
Eles concordaram, por isso voltamos à cozinha, onde preparei o chocolate quente, colocando algumas das coisas que havia preparado sobre o balcão, os sucos, alguns dos doces e salgados.
– Você sabe que não precisava fazer nada disso não é? – Kellan murmurou para que apenas eu ouvisse enquanto Julie namorava as guloseimas sobre o balcão, empoleirada na banqueta.
– Sim, eu sei, mas eu quis fazer. – Concluí sorrindo e me virando para um dos armários. – Já estava me esquecendo disso.
Apanhei um saco de papel pardo que havia guardado ali mais cedo e me virei para Julie, ficando do lado oposto do balcão e estendendo-o para ela.
– Eu achei que ia gostar.
Ela apanhou a embalagem que eu estendia e abriu-a, seus olhinhos brilhando como fizeram dias atrás quando Kellan levou esses mesmos doces para ela.
– Obrigada tia. – Ela falou com um lindo sorriso.
– Por nada querida.
Depois disso começamos a comer, rindo, sorrindo e brincando e depois que nos demos por satisfeitos Julie apanhou sua mochilinha e fomos até a sala de TV, onde ela abriu a bolsa, tirando vários brinquedos de lá e começamos a brincar.
Algum tempo passou e desci até a cozinha para apanhar alguns doces e sucos para deixar na sala e, enquanto descia eu tinha cada vez mais certeza de que poderia me acostumar facilmente àquela sensação de plenitude, paz e felicidade.
E ao mesmo tempo em que aquilo me encantava me assustava, porque eu tinha medo de que aquilo acabasse, de que aquela sensação repentinamente se esvaísse e eu voltasse ao vácuo.
Eu me recusava a acreditar que estava criando alguma relação sentimental com Julie ou Kellan, eu só me sentia bem com eles, eu só me divertia com eles, apenas isso e nada mais, tinha que ser isso ou eu acabaria me machucando outra vez e eu não estava pronta para isso.
Forcei-me a parar de pensar nisso enquanto voltava para a sala e me surpreendi com a facilidade com que consegui fazer isso ao voltar a brincar e conversar com os dois.
Eu não podia saber quantas horas haviam se passado, mas tinha uma vaga noção de que a tarde estava avançando, porque a luz do sol entrava pela parede de vidro.
Foi quando essa luz começou a alaranjar-se que o celular de Kellan tocou. Continuei brincando com Julie, estávamos desenhando em minha mesa de centro, mas observei Kellan, discretamente.
Ele largou o lápis que estava usando para colorir e quando olhou o visor do celular revirou os olhos, com um sorriso nos lábios antes de atender com a voz divertida.
– Estava demorando, até estranhei.
Quando ele olhou em minha direção baixei os olhos para meu desenho, mas contrariando a educação que recebi continuei ouvindo sua conversa.
– Sim, está. – Respondeu a uma pergunta que não ouvi. – Está desenhando... Claro, claro, vou ver com elas aqui... Tudo bem, também te amo, mãe. – Eu sorri com o tom carinhoso que ele assumiu. – Até logo.
Ele desligou e eu me dediquei ao meu desenho, fingindo que não havia escutado nada.
– Era a vovó? – Julie perguntou baixando seu lápis.
– Era, era sim. Acho que está com saudade da gente. – Disse com a voz divertida. – Ela perguntou se já estamos indo... O que acha Ashley? Quer ir agora ou prefere ir mais tarde?
Ergui os olhos do desenho, encontrando os olhos de Kellan, que esperava minha resposta.
– Podemos ir se quiserem. – Respondi. – O que acha Julie quer ir ou quer ficar aqui mais um pouco?
Ela concordou em ir depois de se certificar que poderia voltar quantas vezes quisesse, assim, depois de arrumarmos seus brinquedos e pendurarmos nossos desenhos em minha geladeira chamei-a para ir ao meu quarto para apanhar um casaco.
Passamos um tempo maior do que o necessário no closet, porque fiz questão de que ela me ajudasse a escolher o casaco e ela se divertiu vasculhando cada armário.
Quando descemos encontramos Kellan próximo à porta, já vestia seu próprio casaco, mas tinha nos braços o agasalho de Julie, sua mochila e sua boneca. Ele estava escorado na parede, com uma aparência de quem estava esperando há um bom tempo.
– Desculpe a demora. – Pedi quando nos aproximamos.
– Tio, tio, eu ajudei a escolher, ela não ficou linda? – Julie falou animada com as mãozinhas juntas próximas ao rosto, olhando-me.
Eu sorri para ela, piscando um olho.
– Ficou sim princesa, bom trabalho. – Ele falou bagunçando levemente os cabelos dela, mas seus olhos estavam presos em mim. Eu corei imediatamente. – Agora ponha o seu casaco que a vovó está esperando.
Ele ajudou-a a vestir o casaco e entregou a ela suas coisas enquanto eu pegava meu celular e minhas chaves. Com tudo pronto saímos, indo em direção ao elevador.
Com Julie conosco aquela eletricidade e atração que ele parecia exercer sobre mim que me atravessavam quando estávamos confinados naquele pequeno espaço pareceu ser mais tênue, embora ainda existisse, e eu me permiti respirar aliviada.
Sorri quando Julie segurou minha mão enquanto atravessávamos o saguão na direção do carro e notei que Kellan também sorriu enquanto seguia ao nosso lado, ainda conversando e fazendo graças.
A viagem de carro não demorou muito. Felizmente, o trânsito estava melhor do que o habitual. Em poucos minutos chegamos à casa de Elizabeth, onde ajudei Julie a se desvencilhar do cinto antes que ela corresse à nossa frente até a porta, só para esperar impacientemente enquanto Kellan e eu a alcançávamos.
Kellan abriu a porta e Julie saiu em disparada, gritando pelos avós, a mochila batendo nas costas e a boneca sendo sacudida entre seus braços. Kellan e eu rimos. Ele se ofereceu para pendurar meu casaco antes que a seguíssemos a passos mais lentos.
Quando a encontramos, na cozinha, ela já estava no colo do avô, relatando animadamente nosso dia, enquanto a avó ria e sorria cortando alguns legumes.
– Como assim? Vai contar tudo? E o que eu vou contar? – Brincou Kellan assim que passamos pelos batentes da porta da cozinha.
Julie apenas deu uma risadinha, cobrindo a boca com as mãos, o olhar sapeca e divertido. Elizabeth e Peter riram deles e eu sorri, absorvendo mais uma vez aquela áurea familiar, leve, pacífica e contente.
– Olá querida, que bom que chegaram. – Elizabeth exclamou quando me viu.
Andei até ela, cumprimentando-a e lhe dando um rápido abraço antes de fazer o mesmo com Peter. Observei enquanto Kellan ia até sua mãe, a abraçando longamente.
– Kellan, se controle! Eu sei que me ama, mas se você quiser comer pode parar.
– Solte minha mulher garoto! – Peter exclamou.
Todos nós rimos e Kellan soltou sua mãe, deixando bem claro que era só porque queria comer, não por causa da reclamação de seu pai. Ofereci-me para ajudar Elizabeth e depois de alguma insistência ela me deixou ajudar a cortas os legumes enquanto ela remexia as panelas, entre outras tarefas.
Enquanto estávamos na cozinha mantínhamos uma conversa agradável com Peter, uma vez que Elizabeth mandou Kellan e Julie subirem para tomar banho antes do jantar.
Julie desceu primeiro, os cabelos molhados, vestindo um moletom lilás e alguns minutos depois Kellan desceu, um agradável cheiro de perfume seguindo-o, ele vestia jeans e uma camisa azul escura que contrastava com sua pele.
Poucos minutos depois o jantar ficou pronto e cada um levou uma travessa ou panela à mesa, uma vez que ela já estava posta e começamos a comer, ainda envoltos naquela mesma aura.
– Vovó, da casa da tia Ash dá pra ver tudo sabia? Um monte de prédios e os carros ficam beeeem pequenininhos. – Ela falou gesticulando.
– Mesmo? Parece bem legal. – Elizabeth falou com um sorriso.
– Ela disse que eu posso voltar para brincar lá se você deixar.
– E vocês são muito bem vindos se quiserem me fazer uma visita também. – Acrescentei.
– Obrigado. – Peter sorriu.
Retribuí o sorriso e voltamos à conversa. Julie contou de meu closet, fazendo Elizabeth rir quando ela repetiu o pedido que havia feito à Kellan quando viu meu closet.
Depois do jantar ajudei Elizabeth a recolher a louça suja, e a levar até a mesa pratos para sobremesa e talheres limpos, enquanto ela levava uma torta de amoras que cheirava maravilhosamente bem.
– Mãe, desse jeito você vai arruinar minha carreira... – Kellan choramingou teatralmente com a mão sobre a barriga.
– Ora, não seja tão dramático, você come como um dragão sempre, não é o jantar de hoje que vai fazer isso. – Elizabeth retrucou.
– Mamãe! Assim você me ofende. – Kellan fingiu uma expressão escandalizada.
– Não estou dizendo nenhuma mentira, mas se não quiser arruinar sua carreira eu não te dou torta. – Ela deu de ombros.
– Nem brinque com isso! – Kellan falou apanhando um garfo e estendendo a mão para o prato que estava na mão de Elizabeth.
– O que? – Elizabeth perguntou erguendo uma sobrancelha.
– Meu pedaço de torta mãe. – Pediu.
Peter ria controladamente, balançando a cabeça, provavelmente acostumado a cenas como aquelas, Julie não parecia prestar muita atenção de tão absorta que estava em seu próprio pedaço de torta, já eu apertava um lábio contra o outro, tentando não rir.
– Mas e a sua carreira filho? – Ela argumentou sorrindo.
– Ah mãe, por favor.
Kellan tentou imitar a expressão de Julie: uniu as mãos, ainda segurando o garfo entre elas e bateu as pestanas. Aquela expressão fez com que minha tentativa de segurar o riso falhasse miseravelmente, fazendo-me gargalhar.
– Que cara é essa, tio? – Julie perguntou, seu corpinho se sacudindo com as risadas.
– Você deveria saber. – Resmungou Kellan.
– Eu não sei... Mas ficou engraçado. – Falou rindo enquanto Kellan estreitava os olhos para ela.
– Sabe que isso não funciona para você não é, filho? – Peter falou.
– Ah pai, coopere... – Reclamou antes de voltar a olhar para Elizabeth. – Por favor, mãe.
Elizabeth ria, mas revirou os olhos.
– Só se me prometer que não vai fazer essa cara de novo. – Negociou.
– Feito.
Kellan sorriu largamente quando Elizabeth estendeu-lhe o pedaço de torta, lembrando-me muito da expressão de Julie com os biscoitos preferidos.
Depois disso começamos a comer – Julie ficou falando já que havia acabado seu pedaço – e eu pude entender. Aquela torta era realmente divina, capaz de acabar com a dieta de qualquer um.
Quando acabamos de comer ajudei Elizabeth a tirar à mesa e lavar a louça, mesmo com todos os protestos dela. Depois nos juntamos à Peter, Kellan e Julie na sala, onde brincamos com um jogo de tabuleiro até que Julie começou a bocejar.
– Certo, acho que é hora de alguém aqui ir para a cama. – Elizabeth falou. – Vamos minha princesa, está na hora de dormir. – Chamou acariciando os cabelos de Julie.
Julie sussurrou no ouvido da avó, que me olhou.
– Está ficando mal acostumada mocinha. – Murmurou, depois olhou para mim. – Ela quer sua companhia.
– É claro... – Sorri. – Vamos pequena. – Chamei pegando sua mão enquanto ela coçava os olhos.
Kellan nos seguiu até o quarto de Julie, ajudando-a a se trocar e depois encostou-se no batente enquanto eu me sentava ao lado dela e ajeitava as cobertas ao seu redor.
Dessa vez ela não me pediu uma história, parecia cansada demais para tanto, então apenas acariciei seu cabelo, cantarolando uma velha cantiga de ninar até que ela adormecesse.
Quando tive certeza de que ela não acordaria levantei-me cuidadosamente e sai do quarto pela porta que Kellan segurava aberta. Sorri para ele e sem dizer mais descemos as escadas, nossos braços roçando enquanto andávamos de volta para a sala.
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