Reaprendendo a Amar
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Naquela noite Kristen não foi ao meu apartamento, mas telefonou-me para saber se eu estava bem, eu não comentei do meu dia, porém confirmei que estava bem e convidei-a e Megan para irem ao meu apartamento no dia seguinte.
Ela disse-me que conversaria com Megan e combinariam a que hora iriam. Alguns minutos mais tarde ela enviou-me uma mensagem dizendo que iriam à noite, uma vez que Megan precisava trabalhar no dia seguinte. Respondi-a e, depois de me trocar, adormeci.
Tive uma noite agradável, com sonhos repletos de sorrisos e olhos azuis, eu sonhava com momentos com Kellan e Julie, tanto aqueles que haviam acontecido durante o dia quanto com momentos que foram fruto de minha imaginação.
Em algum momento surgiu em meu sonho outra figura, uma figura familiar: era a minha mãe. Ela exibia um sorriso radiante.
– Está quase lá querida, não tenha medo. – Aconselhou-me piscando.
Depois disso eu acordei, estranhamente tranquila, como se as palavras de minha mãe tivessem um efeito imediato sobre minha mente e corpo, deixando-me tranquila, mesmo que eu não entendesse conscientemente nada do que ela queria dizer parecia que meu íntimo, o meu subconsciente, entendia.
Passei o dia empenhada em arrumar a casa, dando uma pausa quando meu estômago começou a protestar perto da hora do almoço. Preparei algo simples para comer e me sentei na bancada, uma vez que estava sozinha, e comecei a comer, olhando para o celular pela primeira vez no dia.
Surpreendi-me ao encontrar uma mensagem de Kellan.
Você conseguiu conquistar toda a minha família, Julie estava falando de você desde a hora que acordou até ir para a escola, ficou perguntando a todo o instante quando brincará com você de novo e provavelmente vai continuar de onde parou quando voltar.
Espero que esteja bem, tenha uma boa tarde.
Um sorriso involuntário se apoderou de minhas expressões, o tempo que havia passado com ele e sua família no dia anterior e meus sonhos chegando à minha mente. Era estranho para mim como havia me sentido confortável com eles, aquela sensação de família que me proporcionaram, tão boa e ao mesmo tempo tão irreal para mim.
Antes que eu pudesse pensar duas vezes larguei o garfo que ainda segurava e comecei a digitar uma resposta para a mensagem.
O dia ontem foi incrível, obrigada por me apresentar sua família.
Eu adoraria rever Julie, podemos combinar alguma coisa.
Boa tarde.
Enviei e voltei a pegar os talheres, todavia eu já havia perdido o apetite, mas, como eu sabia que isso envolvia mais meus nervos do que meu estômago, eu me forcei a comer mais um pouco, jogando o resto no lixo depois que senti que não podia aguentar mais nada.
Lavei a louça que havia sujado, secando as mãos apressadamente para checar o celular, constatando que não havia nada voltei para meus afazeres, parando de vez em quando para conferir se havia algo novo.
Foi após uma hora mais ou menos que eu recebi uma resposta:
Desculpe-me a demora, Julie chegou da escola e me alugou, como sempre e, como eu suspeitei, ela continuou exatamente de onde havia parado.
Tenho certeza de que ela adoraria, é só me dizer quando puder.
Sorri com sua resposta, o questionamento de se o que eu estava fazendo era certo me ocorreu, mas alguma coisa em mim, provavelmente meu lado emotivo e fascinado, o varreu para longe, me permitindo responder.
O que acha de virem à minha casa?
Enviei a mensagem e alguns minutos depois o celular vibrou com a resposta.
Eu acho que os gritos da Julie significam que ela quer, acho até que fiquei meio surdo, mas não vai te atrapalhar em nada?
A imagem de Julie em toda a sua fofice e animação me veio à mente e balancei a cabeça, rindo... O que eu não daria para ter toda essa felicidade me cercando...
Claro que não, podem vir nesse sábado? Julie ainda está em aulas não é?
Respondi e voltei ao trabalho, dando-o por pronto alguns minutos depois. Guardei todos os utensílios e produtos que eu havia usado e estava começando a andar na direção do meu quarto quando a resposta de Kellan chegou.
Sim, ela está. Podemos sim, a dona Elizabeth permitiu, se você puder jantar conosco depois.
Eu sorri, sentindo-me ansiosa por poder reviver aquela áurea familiar, de paz, convivência e felicidade.
É claro, eu adoraria.
Estava entrando em meu quarto quando a resposta chegou.
Certo, estaremos aí à 13h00, tudo bem?
Tratei de mandar uma resposta rápida, dizendo que estaria a espera deles e, logo depois, comecei a procurar algo confortável para vestir, pois precisava começar a preparar o jantar, uma vez que logo Kristen e Megan estariam chegando.
Tomei um banho rápido, vesti-me e desci as escadas aos saltos, ainda com os cabelos molhados, indo para a cozinha. Decidi preparar algo que não fosse tão elaborado, assim, comecei preparando uma salada, assando frango com batata, alguns acompanhamentos e, para a sobremesa, torta de maçã.
Não demorou muito para que eu pudesse ouvir o barulho da porta se abrindo, passos e vozes animadas ressoando pela casa até a cozinha. Assim que ambas chegaram à cozinha recebi-as com um sorriso. A voz elogiosa de Megan soou.
– Hm. Isso está com um cheiro tão bom. – Agradeci sorridente.
– Trouxemos vinho. – Kristen informou colocando a garrafa sobre a bancada. – O que temos para hoje? – Perguntou como se o fizesse todo dia o que, realmente, era possível.
– Temos salada, frango assado e, por último, mas não menos importante, torta de maçã. – Informei.
– Parece bom. – Kristen respondeu chegando perto da travessa onde estava o frango, já pronto.
– Vamos comer na sala de jantar? – Sugeri.
Ambas concordaram e começamos a por à mesa, levando os pratos, talheres, travessas, taças e a garrafa de vinho. A essa altura a torta estava pronta e eu tirei-a do forno, deixando-a sobre a bancada para esfriar enquanto íamos para a mesa.
Começamos a jantar, começando uma conversa agradável e bem humorada, regada à risadas e, para a minha própria surpresa, eu mesma estava muito contente e fazendo graça, o que não vinha acontecendo tanto na presença delas nos últimos dias.
Eu sabia por que estava assim: eram os sentimentos recém descobertos de como era a convivência em família e a minha animação e ansiedade por poder reencontrar Julie dentro de alguns dias. Mas, para minha infelicidade elas também pareceram notar e as palavras seguintes pareceram confirmar isso.
– Por que está tão contente? – Sondou Kristen.
– Por nada, não posso estar feliz? – Questionei me fazendo de desentendida.
Kristen ergueu uma sobrancelha e trocou um longo olhar com Megan que fazia uma expressão semelhante, ambas sem parecerem dar muito crédito ao meu argumento.
– Desembucha. – Ordenou Megan quando elas voltaram a me olhar.
– Ok, querem saber a verdade? – Perguntei seriamente. Ambas assentiram.
– Arrumei uma amiga melhor que as duas, ela é muito mais divertida. – Falei tentando segurar o riso que se formou em minha garganta ao ver a expressão de choque das duas, Megan parecendo surpresa e Kristen indignada. – E também deve ter uns vinte anos a menos que vocês.
Observei enquanto Kristen revirava os olhos e Megan balançava a cabeça.
– Você devia parar de ser tão estúpida Ashley. – Kristen sugeriu.
– Quem é ela afinal? – Megan perguntou já sorrindo um pouquinho.
– Uma garotinha que eu conheci ontem. – Respondi com meia verdade.
– Ontem? Como a conheceu? O que fez ontem depois que saímos daqui? – Kristen disparou a perguntar.
– Bem. – Comecei decidida a responder à apenas uma das perguntas. – Depois que vocês saíram eu notei que estava agitada demais para ficar parada, então fui correr naquele parque a algumas quadras daqui. – Relatei dando de ombros.
– E...? – Incentivou Megan.
– E nada, passei um tempo com ela, ela é um amor... – Fiz-me de dissimulada.
– E a família dela? – Persistiu Kristen.
– São boa gente, muito simpáticos. – Respondi sucintamente antes de encher a boca de comida como desculpa para não falar mais.
– Isso não explica o porquê de toda essa felicidade. – Kristen parecia desconfiada.
Mastiguei lentamente e depois de, finalmente, engolir, tomei um longo gole de vinho, tentando ganhar tempo, mas as duas continuavam me encarando, impassíveis, mesmo que ainda comessem e bebessem seus olhos não saíam de mim.
– Eu sempre gostei de crianças e fazia muito tempo que não passava algum tempo com uma. – Dei de ombros, tentando parecer indiferente. – Estava sentindo falta... – Isso era verdade, mas não toda, eu realmente sentia falta, mas não era só de passar o tempo com alguma criança.
– Hum. – Kristen resmungou ainda sem parecer convencida.
– Awn, que amor. – Felizmente, Megan parecia fascinada com minha história. – Como é o nome dela?
– Julie. – Respondi sem ver razões para mentir.
Sorri para Megan que pareceu engolir a história, começando uma conversa agradável sobre meu amor por crianças enquanto Kristen absteve-se da conversa, pegando seu celular, o cenho franzido.
Após alguns minutos terminamos de comer e começamos a tirar à mesa. Estávamos levando as últimas travessas quando Kristen parou de repente no meio do caminho e explodiu em uma sonora gargalhada, alternando o olhar entre o celular e eu.
– O que foi? – Perguntei sem entender nada.
Kristen se dobrava de tanto rir, puxando a respiração entre arquejos. Ela conseguiu esticar o braço para Megan, estendendo-lhe o celular que ela logo aceitou, olhando o conteúdo da tela. Seus lábios começaram a se contrair enquanto ela lutava para segurar o riso.
– Eu sabia que isso ia acontecer. – Falou sorrindo e balançando a cabeça.
– Do que vocês estão falando? – Perguntei confusa e indignada.
Kristen abanou uma das mãos indicando para Megan que ela podia mostrar-me seja lá o que fosse, a outra mão comprimindo as costelas enquanto ela tentava recuperar o fôlego, seu rosto corado de tanto rir.
Megan, por sua vez, estava escondendo a boca com uma das mãos, seu corpo se sacudindo em risadas silenciosas, enquanto a outra mão estendia o celular para mim.
Revirei os olhos para as duas enquanto pegava o celular da mão de Megan, mas assim que olhei para a tela do mesmo entendi o porquê delas estarem rindo.
Na tela do celular estava uma foto de Kellan, segurando Julie no colo, a foto estava numa rede social de Robert que Kristen acessara. Senti minha boca cair um pouco com a incredulidade. Olhei para Kristen, uma pergunta muda em meu olhar que ela logo notou.
– O nome não me era estranho. – Falou em arquejos, tentando recuperar o fôlego. – Robert me falou dela uma vez, fiz a associação e tinha que me certificar. – Ela deu de ombros. – Pelo que parece...
– Pelo que parece nada Kristen. – Interrompi. – Isso não significa nada.
– Urrum. – Fez Megan gingando ao meu redor. – Conta pra gente, de verdade, o que aconteceu ontem.
– Não vão me deixar em paz até eu contar, não é?
– Não.
– Nem pensar.
Expirei, exacerbada, revirando os olhos. Ignorei-as, indo até a cozinha e depositando o restante da louça que eu carregava na pia. Elas continuaram me seguindo, às risadinhas, enquanto eu apanhei uma faca, indo até a bancada, onde estava a torta e começando a cortá-la.
– Podem fazer alguma coisa útil e pegar talheres e pratos limpos? – Pedi indignada olhando para elas pelo canto do olho.
Elas trocaram um olhar, seus corpos se sacudindo em uma nova onda de risadas antes delas se separarem e seguirem em direções opostas, Kristen apanhando os pratos e Megan os talheres, enquanto eu voltava a cortar.
– Prontinho. – Kristen anunciou do lado oposto da bancada enquanto distribuía três pratos para sobremesa à minha frente.
Megan chegou ao lado dela, com três garfos na mão e ambas se debruçaram, encarando-me enquanto eu servia um pedaço de torta em cada um dos pratos.
– Obrigada. – Megan murmurou quando empurrei dois dos pratos na direção delas, que ainda me observavam.
Peguei meu prato, dando as costas para elas e seguindo até a sala de TV, onde me afundei no sofá, segundos depois elas também se acomodaram, cada uma de um lado meu.
Comecei a comer meu pedaço, mas elas permaneciam com os seus próprios intocados e eu sabia que elas não parariam de me encarar até que eu dissesse algo que saciasse sua curiosidade.
– Arg. Ok... Ok... – Comecei indignada. – Mas não se animem muito, não foi nada.
Comecei a contar-lhes sobre como havia encontrado Kellan, omitindo o fato de que estávamos trocando mensagens. Apenas contei-lhes que esbarrei nele enquanto caminhava no parque e que ele havia me convidado para conhecer sua sobrinha e, assim, conheci Julie e os pais de Kellan.
– Viu? Foi só. Não aconteceu nada, só não quis ser mal educada e recusar o convite. – Contei a meia verdade, dando por concluída a história.
– E quando pretendem se ver de novo? – Megan perguntou depois de trocar um longo olhar malicioso com Kristen.
Dei de ombros, sem querer dar ainda mais motivos para elas zombarem, mas testei para ver se nossa ideia daria certo:
– Somos amigos agora, decidimos assim, para vocês pararem com esses planos malucos e não passará disso, por isso podemos nos ver de novo e isso não vai significar nada além de dois amigos se encontrando.
Elas trocaram longos olhares, segurando risadas, eu revirei os olhos e evitei tocar outra vez naquele assunto, porém elas sempre achavam uma forma de chegarem a ele ou olhavam-me e riam de mim.
Elas foram embora tarde e, nos dias seguintes, apareceram quase todos os dias. Nesse intervalo cuidei de ir ao mercado, comprando alguns mantimentos e algumas coisas para Julie.
Na sexta feira Kellan enviou-me uma mensagem confirmando a visita do dia seguinte, não demorei a responder, afirmando. Após isso trocamos algumas palavras, mas Julie não tardou a chegar da escola e Kellan, como o tio dedicado que era, foi dar atenção a ela.
E, enfim, o sábado chegou. Naquele dia acordei cedo e fui àquela mesma padaria que havia ido dias atrás com Kellan e comprei aqueles mesmos biscoitos.
De volta à minha casa preparei alguns doces e aperitivos, certifiquei-me de que os sucos estavam na geladeira e a casa arrumada. Depois disso, por volta do meio dia, almocei algo simples, lavando a louça que havia sujado.
Estava ansiosa por receber meus convidados, eu tinha certeza de que teria um dia agradável e, por isso, fiz Megan e Kristen jurarem que não fariam graça e apareceriam para me encabular.
Apressei-me até meu quarto, tomando um banho rápido e vestindo algo simples, maquiando-me e perfumando-me. Desci a escada aos saltos, cantarolando, era estranho como esse estado de animação, que antes me era tão incomum, agora me ocorria com tanta facilidade.
De volta ao andar inferior voltei à cozinha. Incapaz de ficar quieta, eu comecei a andar de um lado para o outro, checando tudo várias e várias vezes até que o interfone tocou, para que eu autorizasse a subida dos dois e, alguns minutos depois a campainha, finalmente, soou.
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