Reapers
1 Capítulo 1: Dias Lembrados
Notas iniciais
“21 de março de 1985.
— Ei, seu pivete! Acha que pode passar aqui sem pagar pedágio?
— Eu só quero ir pra casa, não da pra facilitar pra mim?
— Você acha mesmo que eu facilito?
Mais uma vez eu tentei dar uma de esperto e o tiro saiu pela culatra. Aquele valentão estava “barrando” a calçada cobrando pedágio no caminho da escola pra minha casa, o nome dele era Victor, ele tinha 13 anos era loiro com os cabelos lisos estilo franjinha com uma cara quadrada meio norueguesa, o cara era um brutamonte, do lado dele tinha outros dois meninos que eram mais novos do que ele, eram também muito fortes e também descendiam de escandinavos, os dois não eram da escola, então deveriam ser primos de Victor ou sei lá.
— Ta bom, então. Quanto é?
— 10 dólares!
— O que?! 10 dólares, com esse dinheiro eu posso pagar 4 pedágios de verdade!
— É pagar ou sofrer...
— Quer saber, eu vou da a volta no quarteirão e tentar pegar outro caminho, e talvez dar uma passadinha na delegacia!
— Ah não, ou você paga ou você morre, não tem volta!
Eu e minha boca grande... Os meninos do lado dele estavam estalando os dedos e o Victor estava com as mãos nas costas e começaram a vir em cima de mim. Eu, como um jovem nerd franzino de óculos de 9 anos com o tornozelo quebrado e de muletas, fiz algo totalmente imprevisível: corri!
Eu me lembro bem de correr com aquela calça social e aquela camisa de botão de volta pra escola com a mochila batendo em minhas costas a cada grande pisada de muleta! Não demorou muito para eu olhar para trás e ver que eles estavam chegando muito perto, e nesse movimento de cabeça, deixei meus óculos caírem do rosto e continuei correndo até ouvir o som de alguém pisando neles... Daí eu parei de costas para os meus agressores e fiquei totalmente estático. Nisso um dos meninos fez uma derrubada de futebol americano nas minhas costas que poderia ter quebrado o meu pescoço, mas eu senti mais dor quando aquele lunático caiu em cima do meu tornozelo. Eu gritava de dor, um dos moleques estava sentado na minha cabeça e ou outro travando meus braços, enquanto isso o Victor esvaziava minha mochila. Eles riam e eu chorava, não por estar sendo torturado, era mais por causa dos meus óculos que eu pude ver quebrados no chão. Logo depois pude ver uma pessoa caminhando em nossa direção pelo mesmo caminho que eu tinha corrido. Ele soltou a bolsa no chão e deu um grito para o Victor. Era o meu irmão!
— Ei seu nazista de merda!
Todos se levantam e olham para Rick. Ele não era muito forte pra alguém de 11 anos, mas ele era muito corajoso e muito imponente. Ele não se importava se ganhava ou não uma briga, com tanto que ele lutasse!
— Uhm? E aí, Rick?! Veio pegar o seu irmãozinho? – Ele diz isso segurando minha cabeça pelos cabelos e mostrando pra ele. – Seria uma pena se eu não quisesse que ele fosse embora agora, sabe, estamos nos divertindo tanto!
Rick pode ver com clareza minha cara de choro, por causa do meu tornozelo quebrado e de um leve arranhão na bochecha.
— Você vai deixar ele ir, agora!
— Não... Se não ninguém vai poder ficar pra eu e meus primos nos divertimos... Você pode vir conosco depois que eu destruir esse menininho.
Tinha acertado! Eram primos! Como eu odiava o jeito que Victor falava, era tão perturbador quando ele era sarcástico. Meu irmão fechou os punhos e caminhou calmamente com uma cara de ódio e vingança e inesperadamente quando estava a 2 metros de distancia de Victor ele disparou em passos largos e deu um soco na têmpora de Victor! Ele caiu no chão e Rick ficou parado, assim como os dois garotos e eu no chão!
— Corre...
Foi a última palavra que ele disse pra mim a semana inteira... Eu obedeci. Peguei minha mochila e meu óculos quebrado e corri mancando, corri mais rápido que qualquer nerd manco podia correr, corri loucamente até o horizonte, e não sei por que, não sei mesmo, olhei para trás. Os dois meninos seguravam os braços do Rick no chão e Victor efetuava um golpe de luta livre com o cotovelo na barriga do meu irmão.
Tinha chegado em casa e colocado um band-aid na bochecha, contei o que tinha acontecido e mostrei o óculos para a mamãe, mas não contei que haviam batido no Rick, ele apareceu lá em casa 1 hora depois e estava com esfoliações, arranhões e hematomas. Lembro de eu estar sentado na sala e ter visto ele chegando exausto, se esforçando para subir as escadas com a bolsa rasgada na mão. Mamãe disse:
— Querido, o Shane ligou, por que demorou tant...
Nunca vou esquecer a cara de espanto da mãe ao ver seu filho gravemente ferido, e não seria pela primeira vez...
31 de dezembro de 1993
— Ta animado pra hoje a noite?
Perguntei para Rick, enquanto eu pegava água na geladeira e ele lavava a louça da janta.
— Claro!
Ele respondeu. Quando eu ia continuar a conversa nosso pai aparece na cozinha chamando pela nossa atenção:
— Ei, meninos!
— Ei, pai.
Dizemos juntos.
— Garotos, eu tenho uma notícia não tão boa pra vocês. Não vou poder ir a festa.
— Como?! Você mesmo preparou ela, como quer deixar de ir assim do nada?
Rick pergunta espantado, enquanto eu fico debruçado no balcão com um copo de água na mão, como se eu não estivesse na conversa. O pai concordou em financiar grande parte da festa da faculdade do Rick por ele ter tido um ótimo 2º ano em Administração Policial. A faculdade fez a divulgação e convidou alunos, funcionários e familiares daqueles que financiaram, como eu. Mas quem pagou por boa parte da festa foram os pais dos estudantes.
— Desculpe, filho vai ter que se divertir sem mim e sua mãe. Temos que ir à festa da companhia, esse ano não foi muito bom, então se eu for eles vão ver que eu ainda estou apoiando a empresa, eu sei que parece meio tolo eu deixar de ir por causa de uma superstição no trabalho, mas é pra pagar a sua faculdade e juntar dinheiro para a do seu irmão. – Nessa hora ele apontou pra mim como seu eu fosse parte do assunto agora. – Mas ainda poderemos levar vocês antes de ir se quiserem.
— Relaxa, Rick leva a gente de carro, pai.
Eu tive que falar isso, afinal, Rick tinha ficado chateado e era capaz dele falar alguma besteira...
— Então tá, comecem a se arrumar.
Ele saiu da cozinha, Rick enxugou as mão e eu lavei o copo. Rick estava meio triste por não poder passar o ano novo com os pais. Eu sei que não era hora exata depois de ouvir uma notícia dessa, mas eu precisava fazer uma pergunta que não dava mais pra adiar:
— Rick... Eu convidei uma garota da minha sala do colégio pra ir na festa também, ela disse que toparia se eu levasse ela... Tem como você passar na casa dela quando a gente estiver indo?
Rick deu uma olhada pra mim com um sorriso de lado e disse:
— E ela, é sua namorada?
— Não, ela é só minha amiga... – Fiz um ar de desânimo. – Mas queria que fosse mais que isso.
Eu comecei a limpar as unhas e ele se encostou de costas no balcão olhando pro chão com os braços cruzados e com um leve sorriso, como se tivesse o controle da situação, como se um servo estivesse pedindo um favor ao rei. Daí ele olhou para mim e disse:
— Olha... Eu vou ter que chegar lá mais cedo, pra encontrar com o Shane e dar uns toques finais na recepção pra ajudar a Paula. – Já esperava o pior. Era capaz de eu ter que cancelar com a garota e o Rick ter que me arrastar pra festa antes dela começar pra ajudar os amigos de infância dele. – Mas... Eu posso te levar e quando eu chegar lá, eu fico na festa e você vai pegar sua garota no meu carro e aparece lá na festa depois. O que acha?
Eu poderia abraçar e beijar o meu irmão, mas em vez disso, eu só dei um forte aperto de mão nele e depois bati no seu ombro.
— Valeu, mano!
Fui o primeiro a tomar banho depois do nosso pai. Eu já não tinha mais aquela carinha de nerd fedelho, não, agora eu era mais popular. Tinha um jeitão descolado, mas ainda era muito culto e inteligente, tanto que eu ia tentar fazer uma faculdade de engenharia. Meu rosto ficou definido e meu cabelo ficou meio curto e escuro, estilo lambido pra trás, só faltava os olhos azuis que meu irmão e minha mãe tinham e eu não. Mas, fora isso tudo OK.
Nossos pais e meu já tinham ido e eu vesti uma camisa polo branca e uma calça verde bem claro, usei o perfume mais caro que a gente tinha, e esperei o Rick na sala. Eu estava muito ansioso, muito mesmo, hoje poderia ser o dia que eu e ela deixaríamos de ser amigos e nos tornaríamos mais que isso! Rick ficou pronto alguns minutos depois e estava todo de branco, apesar de sua camisa social ter umas finas linhas vermelhas, que dava a crer que de longe ela era levemente rosa.
Entramos no Ford Contour azul quatro portas do Rick, e fomos em direção a faculdade. Não demorou muito, Cynthiana é uma cidade pequena, chegamos lá e eu e o Rick saímos do carro. Eu troco de lugar com o motorista, abro o vidro e ele bate no meu ombro dizendo:
— Vai lá, quando você chegar deixa o carro no estacionamento de trás, eu vou ter separado uma mesa pra mim, você, pro Shane, pra Paula e pra sua amiga. Aí a gente senta todo mundo junto. Falou?
— Pode ser. Valeu de novo, mano!
E eu fui! Era mais ou menos 20:30. Saí com o carro e pude ver Rick acenando e entrando na faculdade, que estava bem enfeitada por sinal, um investimento que valeu a pena e nossos pais estavam perdendo. Dei uma enrolada no tempo pra deixar a festa começar pra depois chegar. Depois eu fui pra casa da garota, dei duas buzinadas e um vulto apareceu na janela, alguns minutos depois, ela saiu de casa. O cabelo liso preto dela ia até as costas, seus brincos brilhavam tanto quanto seus olhos azuis e seu vestido branco que ia até a canela ficava muito bonito com o cinto roxo na cintura, ela estava linda! Ela saí de casa e eu saio do carro, abro a porta do passageiro e a cumprimento:
— Boa noite, Lori.
— Boa noite, Jeff.
Ela entra no carro e eu fecho a porta do passageiro e logo sento no assento do motorista e dou a ignição.
— Você ficou muito bem com esse vestido.
— Obrigada, você também está muito fofo com essa roupa.
— Hmm, fofo...
Suspiro bem baixinho no meu ombro esquerdo. Já vi que conquistar ela seria mais difícil do que eu esperava, eu estava tentando quebrar o gelo antes mesmo de chegar na festa, não podia continuar assim, não queria parecer desesperado ou ansioso. Daí ela pergunta simpaticamente:
— Bonito carro. Ele é seu?
— De vez em quando eu uso... – Menti, meu irmão raramente deixa eu usar o carro dele, foi mesmo muita sorte dele ter deixado eu usar ele hoje.
— Ah é? Nunca vi você com ele.
— É que ele é do meu irmão, eu não costumo a ir com ele pro colégio.
— Percebi.
— É...
O silêncio tinha reinado, isso era uma das coisas que eu não queria que tivessem acontecido. Faltava pouco pra chegar na faculdade e eu tive que improvisar, liguei o rádio, e eu tive a sorte de estar tocando “I Believe” do Bon Jovi e eu aumentei o volume. Estava no começo da música e eu, com meu jeitão bem extrovertido, comecei a dançar de um jeito bem engraçado, balançando a cabeça, pulando no assento e fazendo play-back da música. Serviu bem pra quebrar o gelo. Ela deu umas risadas e eu também, logo depois disso a gente chegou na faculdade. Isso era cerca de 21:10.
Estacionei o carro, andamos um do lado do outro sem nenhum contato físico ou conversa. Chegamos na entrada e tinha uma fila curta. E quem era o segurança da entrada? Victor! Ele não estava muito diferente, fora a idade e o tamanho. Ele me encarou e eu encarei ele, mostramos os convites e Lori estava percebendo a tensão no ar e me puxou pelo braço até eu não poder mais ver o Victor e rapidinho conseguimos entrar. A festa estava incrível! Muito decorada, ótimas músicas de Rock n’ Roll e Pop, um globo espelhado com um iluminação muito bacana bastante bebida, comida e bastante gente, mais do que eu esperava, realmente, financiar uma festa vale a pena. Peguei na mão dela e a guiei pelo ginásio, procurando a nossa mesa. E de longe pude ver Shane e Paula sentados conversando, com 3 lugares vagos, assim como o Rick disse.
— Ei, Shane!
Fui puxando Lori para perto da mesa, para cumprimentar eles. Um gesto não tão romântico. Cheguei perto da mesa e cumprimentei o Shane, ele tinha a minha idade e a de Lori, mas já tinha começado o 1º ano na mesma faculdade que Rick, esses caras são bons amigos desde criança, ele estava com uma camisa de botão e um paletó com uma calça social, todo de branco.
— Fala ai cara, tudo certo?
— Claro, brother! Ei, Paula! – Paula era uma das amigas mais chegadas do meu irmão, fui lá e a abracei, ela estava com uma camisa de manga comprida e uma saia, também, toda de branco. Depois trouxe Lori pra perto da mesa e a apresentei – Pessoal, essa é a Lori, ela estuda comigo. Lori, eles são Shane e Paula. – Paula da um abraço amigável e Shane a cumprimenta com um aperto de mão e depois beija sua mão. Eu olhei com pro gesto com desgosto.
Eu puxei um cadeira pra Lori e antes que ela possa sentar, Rick apareceu do meu lado e o abracei, não sei por que, acho que eu estava feliz.
— Rick, essa é a Lori. Lori, esse é meu irmão, Rick.
Ela arregalou os olhos e o meu irmão também, como um possível sinal de admiração mutua e ficaram nisso até se cumprimentarem com um aperto de mão e depois um abraço, e ela disse:
— Nossa que prazer conhecer você, seu irmão fala bastante de você.
— Que legal saber disso, ele também fala de você, vocês são bem chegados, não é?
— Oh, sim, mas somos grandes amigos, só isso.
Ah... Essa doeu muito...
Rick desviou levemente o olhar pra mim por 2 segundos e fez uma cara do tipo como se falasse: “Hummm, essa deve ter doído, eu lamento...”
Nessa hora Rick, ficou meio sem reação, mas só conseguiu dizer:
— Ahm... Por favor, sente-se.
— Ah, claro. – Eles ficaram um de frente pro outro. – O Jeffrey me disse antes que foi por sua causa que eles estão fazendo essa festa!
— Ele não pode ter dito isso, não foi só por minha causa, os pais dos estudantes queriam uma boa festa de ano novo, então fizeram uma vaquinha e ajudaram a faculdade com as compras, apesar de terem sido nossos pais que pagaram a maior parte.
— Mas, o que você fez para eles ajudarem tanto?
— Eu só fui o melhor na turma de Administração Policial.
— Nossa, um policial, que bacana.
— Não é tão legal assim, aposto que qualquer faculdade que uma moça divertida como você for fazer vai ser mais interessante do que ficar estudando uma lista de códigos penais...
— Tá brincando?! Isso parece ser tão simples!
Os dois riem...
‘O que o Rick, Pensa que ta fazendo!! Ela era minha convidada!! Essa conversa durou mais que a nossa no carro, e foi bem mais interessante!!’ Pensei.
Do nada Shane se debruça na mesa e dirige à Lori:
— Eu também vou ser policial!
— Que legal, Shane!
Eu não podia mais ver isso... De repente, o DJ começou a tocar “U Can’t Touch This” e várias pessoas foram para a pista de dança, até a Paula, então eu agi rapidamente:
— Ei, Lori! Vamos dançar!
— Pode ir você, Jeff. Estou conversando com o Rick.
'É! Estou vendo a conversa! Vejo como ele olha pra você! Vejo como você retribui o olhar. Quer saber, dane-se! Eu vou arrumar outra coisa ou pessoa pra me entreter.’ Tinha ficado cabisbaixo, e quando fui sentar Shane deve ter percebido meu desânimo, e disse:
— Ei Jeff! Vamos lá na pista?!
‘O que? E deixar esses dois juntos? Isso deve ser a pior ideia do mundo!’
— Vamos, cara...
Não tive outra escolha... Fui lá com ele e mais um monte de gente, dançando ao som do MC Hammer, menos eu, no máximo eu balançava os braços enquanto Shane ficava dançando footlose. Eu não tirava os olhos da mesa e só via os dois conversando, Rick contava piadas e Lori ria. Eu nunca, nunca mesmo, odiei tanto o meu irmão quanto nessa hora! Shane me empurrava pro meio da multidão, como se fosse para eu não ver a mesa, que bom que ele conseguiu. Já era mais ou menos 23:00 horas. Fomos mais para a mesa de bebidas, e nessa hora o DJ mudou a música para “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana. Shane travou e disse:
— Cara! Essa é a minha música! Faz um favor pra mim?
— Claro, mano!
— Por favor, pega ponche pra mim e me procura no meio da multidão! Ok?
— Tá, cara.
— Valeu!
E lá se foi ele no meio da multidão balançado as mãos e a cabeça assim como todos os outros alucinados na direção do DJ. E eu fiquei ali segurando um copo vazio encarando um tigela de ponche. Sem brincadeira, devo ter ficado olhando a concha e o suco durante 2 minutos enquanto a música tocava. Estava claramente deprimido. Mas não podia ficar assim, peguei logo o ponche e fui procurar Shane. E mais uma vez o DJ muda a música, agora ele põe “Enter Sandman” do Metallica. Esse DJ era bom, deve ter valido cada moeda gasta do meu pai...
Eu estava totalmente nervoso, e chateado, claro. Passando no meio de uma multidão dançante vestida de branco com um copo de ponche vermelho na mão, o que de pior podia acontecer?
Mas adivinha? Aconteceu! Uma pessoa desatenta (que se eu soubesse quem era encheria de porrada) esbarrou nas minhas costas, me fazendo projetar pra frente e o copo também e o líquido do copo mais pra frente ainda. E o ponche foi voando até acertar o peito em cheio, do único cara que estava de preto na festa, Victor!
— Seu pivete!
Ok, a voz dele também tinha engrossado mais.
— Ei cara, desculpa, aquele cara lá esbarrou em mim!
— Para de falar besteira!!
Ele estava realmente furioso!
— Calma, desculpa mesmo, eu não quero confusão, sério! Eu te ajudo a limpar, tá? Facilita pra mim.
— Você acha mesmo que eu facilito?
Eu não aprendo mesmo... Nessa hora ele me pega pela blusa com as duas mãos e me ergue, abrindo espaço entre as pessoas em direção a saída, pude ver Shane e Paula atravessando a multidão e tentando seguir o Victor. Ele me joga pra fora da festa como se fosse um saco de areia sendo jogado no chão. Eu caio de barriga e me contorço todo, Victor bate as mãos e se vira voltando pra festa. Exatamente depois disso Shane e Paula vem até mim.
— Ai meu Deus! – Vem Paula dizendo em minha direção enquanto ela e Shane me levantavam pelos braços. – Jeff , você ta bem?
— Cadê o Rick?!
Lá estava eu. Mais uma vez no meu momento de fraqueza e necessidade pedindo socorro ao meu irmão. Shane pergunta:
— Quer que eu chame ele?
— Não, esquece! Ta na hora de eu começar a fazer as coisas.
— Que que você vai fazer?
Larguei meus braços das mãos deles e me dirigi a festa com uma disposição que eu nunca tive! Entrei escondido, evitando o Victor, fui até o banheiro me ajeitei e me limpei, olhei para o meu relógio: 23:55!
‘Acho que ainda da pra procurar a Lori e pedir pra ficar com ela, pelo menos em comemoração ao ano novo!’
Fui costurando a multidão de pessoas pegando champanhe e taças, dizendo: “Se preparem!”, “Vai começar a contagem!”, “Ta chegando a hora!”, “Adeus ano velho, olá ano novo!”. Eu precisava chegar a mesa e ver se ela ainda estava lá! Aí eu consegui ver a mesa, e não tinha ninguém... Olhei para trás e Shane me procurava gritando o meu nome. Não podia parar, desesperado, continuei passando no meio da pista de dança, na mesa de bebidas, perto da entrada. O que me preocupava não era da Lori ter sumido, mas sim dela ter sumido junto com o Rick!
— 10!
As pessoas começaram a contagem! As luzes ficaram todas brancas. E de longe, num lugar mais reservado e com poucas pessoas pude ver uma camisa botão no meio de todos que era... Rosa! Rick!
Acelerei o passo!
— 7!
‘Vai! Vai!’
— 5!
‘Porra, cadê a Lori?!’
— 3!
O DJ estava pronto pra gritar!
— 2!
Achei a Lori, ela esta na frente do Rick!
— 1!
Umas cinco pessoas passaram na minha frente...
Foi tempo suficiente pra ele abraçar ela...
— FELIZ ANO NOVO!
... E eles se beijarem...
As garrafas de champanhe começaram a estourar. Das janelas do ginásio dava pra ver os fogos no céu, brilhando o beijo dos dois com uma diversidade de cores. O DJ desejou um feliz 1994 pra todo mundo e começou a tocar “Right Now” do Van Halen... E eu fiquei ali, mais estático que TV sem sinal, não podia acreditar. ‘Meu irmão era um traidor! Ele sabia que eu gostava dela’. Eu não conseguia olhar para nenhum outro lugar, as pessoa passavam, me abraçavam, me desejavam feliz ano novo... E eu ali... Parado...
Até que Shane põe a mão no meu ombro e eu saio do transe:
— Feliz ano novo, cara...
Ele percebeu o porque de eu estar triste, o estranho é que ele também estava... Paula apareceu depois e me desejou feliz ano novo também e eu fiz o mesmo. Ela disse que iria pra casa mais cedo por que estava cansada. Então eu decidir ir com ela.
Eu não sei o por que, mas comecei a esfregar a cara, passava a mão no meu rosto, coçava a nuca e respirava ofegante. Que sensação ruim.
Quando o Rick e a Lori foram para a pista comemorar, percebi que meu irmão estava me procurando, mas não conseguia me achar. Melhor assim, deixei a chave do carro em cima da nossa mesa, e fui embora com a Paula.
Fiquei sem conversar com o Rick a semana inteira, só um “oi” ou “bom dia”. Passado algum tempo, Lori entrou para a mesma faculdade do meu irmão e eles começaram um relacionamento sério. Decidi ficar longe deles... Quer dizer... Fazer uma faculdade melhor, então me mudei para Frankfort, capital do Kentucky, e estudei engenharia. Depois eles se casaram e eu raramente passei por Cynthiana, e quando fiz, quase nunca ia a casa deles...
Aquele tinha sido o pior ano novo da minha vida!”
— Por que está me contando isso, tio Jeff?
10 de setembro de 2003, atualmente.
— Pra você entender, Carl. O quanto o seu pai é forte e corajoso, e o quanto sua mãe ama ele e o porque de eu estar visitando ele e você, hoje...
— É por que ele tomou um tiro?
— Infelizmente.
Isso era demais para uma criança de 9 anos. Estávamos no Harrison Memorial Hospital em Cynthiana. Eu só consegui visitar o meu irmão em coma hoje. Rick tinha sido baleado há duas semanas durante uma perseguição policial por um louco fugitivo armado com uma escopeta. Meu sobrinho, Carl, não podia ver o pai numa maca com um ferimento horrível de baixo do braço, mas ele quis ser policial, isso é um risco ocupacional. Então eu disse pra ele:
— Vamos fazer o seguinte: vamos deixar essa conversinha entre nós e não vamos deixar sua mãe saber dela, Ok?
— Ok!
— Valeu meu garoto! Agora fica aqui que eu vou entrar na sala, aqui, tome! – Eu dei algumas moedas para ele para ele poder comprar alguma coisa na máquina de doces. – Vai lá que eu vou ver seu pai.
E ele foi. Eu fui abrindo a porta e o Shane estava lá de pé junto com a Lori sentada. Eu perguntei:
— Ele ta respondendo?
— Não...
Disse Lori.
Ela parecia exausta. O rádio do Shane estava apitando: estavam precisando de homens a postos para checar um tumulto numa casa do interior.
— Lori, Jeff. – ele se dirige a nós. – Eu preciso ir. Cuida bem dele, Lori. Jeff, foi bom te ver...
Eu tinha chegado na cidade há mais ou menos 4 horas, perto das 14 horas. Passei na casa dos meus pais e depois vim pra cá esperando já poder entrar na sala e ver o Rick bem, mas ele estava em um procedimento de cirurgia. Então esperei no corredor perto do quarto com Shane, Carl e Lori até eu poder entrar. Shane bate no meu ombro e eu retribuo o gesto dizendo:
— Você também, cara.
Daí ele foi embora. O clima naquela sala era de um enterro, talvez era isso que ia acabar virando no final das contas. Rick parecia acabado. Passo a mão no meu cavanhaque e digo para a Lori:
— Vai pra casa... Leva o Carl. Ele não precisa ficar aqui.
— Eu não posso... Eu tenho que ficar.
— O Rick não gostaria de te ver acabada assim. Vai pra casa, descansa e eu passo a noite com o meu irmão... Ok?
Ela ficou pensativa, mas cedeu. Rick nunca tinha dito para a Lori que eu gostava dela, que bom pra mim. Logo depois ela foi pra casa com o Carl e eu fiquei com o desmaiado...
Era quase meia noite e eu ainda não tinha dormido, ficava só lembrando daquela noite, em que o Rick, vacilou comigo. Felizmente, houveram outras garotas, outras oportunidades, mas eu não tenho nenhum anel no meu dedo e nem herdeiro.
Nisso Rick, ganhou de mim...
— Rick... Você se lembra do vovô? – Deitei no sofá do quarto, deixei o meu boné no criado mudo e coloquei o pulso na testa – Como ele contava histórias de como sobreviveu na guerra? Hm? Ele se fingia de morto. Isso me espantava e ainda me espanta. Como ele ia dormir e acordava pensando que ele... Já estava morto... – Dou um bocejo e depois começo a rir – o que é meio irônico, porque se você está morto, como pensa? “Se penso logo existo”. Ha! Nem a pau. – Deixo as risadas e volto para a seriedade – Mas ele estava certo, se você achar que já está morto, tudo a sua volta vai fazer menos sentido... Só não sei por que ele nos dizia isso, acho que porquê nós perguntávamos isso a ele.
Olhei pro lado e ele estava lá, estático.
Logo depois, peguei no sono.
De manhã cedo, perto das 9:00 horas, Lori voltou e deixou Carl na casa dos avós que eu já tinha visitado ontem. Então me despedi dela, entrei no mesmo Ford Contour que um dia foi do meu irmão e peguei a estrada pra Frankfort, afinal, eu tinha outros compromissos.
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