Reaper of Souls
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Viajar sempre é legal não é!? Pelo menos é assim que todos pensam, e bem, eu sou como a maioria e também penso assim, mas, naquele dia não pensei que essa fosse a melhor ideia. Queria ficar, tive um mau pressentimento, e como sempre, esse meu pressentimento não foi reconhecido. Da outra vez que pensei nisso, eu nunca mais vi minha avó, mas coitada, ela já estava velha, e merecia um descanso.
Desde a minha infância pressinto a morte, não sei descrever muito bem isso, mas é sempre assim, me falam algo e sinto uma grande infelicidade, como se tudo ao meu redor e ao redor da pessoa que me falou algo estivesse morrendo, e é isso que acontece, tudo vai morrendo, perdendo a vida e ficando seco, a grama, as árvores, as flores, tudo, vai simplesmente perdendo a cor e a vida, desfalecendo rapidamente, até mesmo os cabelos que antes tinham cor passam para a um branco sem brilho, sem nada. A pele vai perdendo toda vivacidade e todo resquício de vida, até que eu só veja ossos e eles próprios passam a se dissolver, como se estivessem queimando, até que tudo na minha frente desaparece e eu só veja a escuridão ao redor que um dia tinha vida. Depois de todo esse repetitivo acontecimento, tudo volta, toda cor, toda vida e novamente volto à realidade. Mas nem sempre é a própria pessoa que morre, pode ser seu parente, ou seu amigo, ou até mesmo seu cachorro, simplesmente por ser algo que ela ame, aquela escuridão irá aparecer.
Foi isso que aconteceu no momento em que minha mãe me disse que íamos viajar, mas aquela escuridão foi diferente... ela parecia alegre. Como se finalmente pudesse aparecer para a minha família novamente, como se estivesse esperando por isso desde muito tempo atrás. Logo que percebi isso, pedi e até mesmo implorei a minha mãe para que ficássemos, não quis ir, eu não podia fazer isso, não podia ir, tinha que impedir a todos, aquela escuridão não era normal, ela era maligna, era mais maligna que de costume, como se antes mesmo da morte de alguém ela já estivesse sentindo o gosto do sangue dela escorrendo por seus lábios. Aquilo me assustou, mas como sempre me acontece, não fui escutada, e fui forçada a ir, mas não pude desistir, nem mesmo quando descobri aquilo tentava impedir as pessoas, eu já sabia, que se a morte está na sua frente, ela não vai sair até você ser pego por ela e finalmente ser morto, só que dessa vez não era assim, aquilo era diferente, eu tinha que impedir.
Ninguém me escutava mais, durante todo caminho fui ignorada e minha própria família passou a me ignorar, já tinha me acostumado com isso, mas só quando eram meus colegas, mas, minha mãe, meu pai e meu irmão, perceber que todos eles me ignoraram não era legal, eu não estava mais suportando tudo isso. Quis gritar, mas nada saia, eu só escutava minha família rindo, enquanto eu tentava gritar e nenhum som era emitido. Fiquei atordoada por muito tempo, não queria acreditar em nada, não queria acreditar que eu tinha visto aquela escuridão, não queria acreditar que eu estava acordada, isso tudo, tudo é uma mentira, nada disso era verdade, eu ainda estava dormindo, na minha cama, e tudo isso é um sonho. Fechei meus olhos, e fiquei assim por o que imaginava serem horas, mas foram apenas segundos, e logo que abri meus olhos com esperança que aquela escuridão não estivesse mais ali, com esperança de que fosse simplesmente mais uma viagem normal, e que eu fosse normal.
Só que nem tudo na vida é como esperamos, e aquilo tudo continuou sendo verdade, toda aquela escuridão ainda estava lá, sorrindo para mim, esperando o momento do ataque. Não estava mais suportando tudo isso, precisava dormir, mas não queria mais acordar, queria continuar dormindo, para o resto da eternidade, e foi isso que tentei fazer. Deitei-me, afundei minha cabeça no banco do carro, e fiquei desse jeito, por muito tempo, até que sou acordada com o chamado da minha mãe. Saber que tínhamos chegado de nada me animava, e ver aquela escuridão ainda nos perseguindo retirava toda minha alegria de viver.
Saímos todos do carro e começamos a caminhar. Não sei bem onde estávamos, mas era um lugar feio, era repugnante, em todas as direções que eu olhava tinha animais mortos, não tinha mais nada verde por todo o local, parecia uma ilha, e parecia muito deserta, eu não via nenhuma vida em nenhum lugar, mas parece que minha família não achava isso, pois por todos os lados que eles olhavam ficavam admirados com a visão e comentavam rindo cada vez mais. Eu não conseguia entender, por que tudo isso estava acontecendo?
Continuamos andando pelo o que imagino terem sido horas, até que eu avistei um lago. Um lago que estava morto, como todo o resto, os peixes e animais estavam boiando em uma água negra e parada, cheia de ossos e plantas mortas. No centro no lago havia uma casa, ela parecia pequena e antiga, e o único modo de chegar nela era passando por um pequeno caminho de madeira que parecia desgastada e quebradiça para mim, mas foi com ela que chegamos à casa.
Dentro da cabana não havia divisórias, era uma cabana pequena, e parecia muito mais antiga por dentro do que por fora, os móveis eram empoeirados e sem utilidade, mas só eu percebia isso.
Minha mãe se sentou na cama, meu pai e irmão se sentaram nas cadeiras que tinha ao lado da mesa, e eu fiquei em pé. Não conseguia sentar, senti que se fizesse isso não iria mais levantar, então só fiquei perto de minha mãe e tentei ser normal, mas não deu certo. Eu estava de frente para a minha mãe, do lado oposto da cabeceira da cama, e atrás de mim tinha uma parede, ela não estava tão perto, mas também não estava longe, e eu senti algo, um grande calafrio atrás de mim, e depois foi como se um dedo de gelo estivesse passando pela espinha das minhas costas e me virei de repente.
Atrás de mim se reunia toda aquela escuridão, e vinha formando uma pessoa — pra ser mais exata — aquela escuridão vinha formando um Ceifador da Morte. Eu não conseguia ver seu rosto, parecia ser um vácuo total por baixo daquela capa negra que cobria todo seu corpo. O Ceifador da Morte flutuava a poucos centímetros do chão, ele tinha uma foice negra gigantesca que continha detalhes vermelhos e que pareciam ser feitos de sangue. Enquanto eu observava-o imóvel, incapaz de mexer nem mesmo um músculo ele mexeu seu braço lentamente até alcançar o cabo de sua foice e a retirar com grande lentidão, como se quisesse que eu observasse cada movimento dele.
Aquele foi um dos momentos em que mais tive medo em toda minha vida, nunca tinha sentido tanto medo quanto naquele momento. Tive medo de tudo, tive medo até mesmo de morrer, que foi um medo que eu nunca senti em toda minha vida, mas agora ele estava lá, aquele medo estava comigo, e estava possuindo todo meu corpo, até que eu não senti mais as coisas, tudo aconteceu tão rápido, em míseros segundos aquela negritude em minha frente passou sua foice em meu pescoço e minha cabeça foi arrancada fora, fazendo com que ela caísse diretamente no colo da minha mãe que parara de conversar a passara me observar a pouco tempo atrás, quando eu ainda estava completamente viva.
Vi tudo escuro, não conseguia enxergar nada, era tudo negro e não havia nenhuma luz, sentia um peso em meus olhos e tentei abri-los, e ao fazê-lo vi que ainda estava naquela cabana, e eu estava no colo da minha mãe, enquanto ela afagava meu cabelo com um olhar triste e choroso senti como se eu estivesse me afogando, mas eu estava me afogando em sangue. De repente meu irmão pegou minha cabeça e a encaixou em algo que só depois de alguns segundos desnorteada percebi que o algo no qual ele me colocou era meu próprio corpo. Tudo estava muito estranho, mesmo meu irmão tendo feito aquilo ele não pareceu ter consciência do que fazia, foi como se ele estivesse colocando um chapéu em minha cabeça, minha família parecia não perceber o que estava realmente acontecendo comigo, eles pareciam não ver que eu estava sem a cabeça. Eu não estava entendo mais nada do que estava acontecendo. Eu não tinha sido ceifada? Eu não deveria estar morta? Então por que eu estava ali? Por que ninguém percebia que meu pescoço não estava mais no meu corpo? Por que não percebiam que eu morri?
Eu estava com muitas perguntas em minha cabeça, até que eu ouço uma voz calma e relaxante.
– Tu não deves preocupar-se com estas coisas jovem garota. Tu deves simplesmente dizer tudo que quiseres falar aos teus pais, sem medo, sem ressentimentos. Tu tens um poder especial, e sabes disto, e por isso estou aqui para ajudar-te com tudo que te for necessário. — isto que eu ouvi foi suficiente para eu entender tudo, para eu me lembrar de tudo.
Eu não era normal, nunca fui e nunca serei. Eu tenho um poder e sei usá-lo, pois eu posso controlar aquilo que todos temem, eu posso controlar a morte, pois eu sou a Ceifadora de Almas esposa do Ceifador da Morte. Não sei como me esqueci de tudo isso, foi realmente um desejo idiota, foi idiota eu querer pelo menos uma vez ser humana e saber o que os humanos sentem, o que eles realmente são, mas eu fugi de mim, e não me lembrei mais do meu próprio passado. Agora o que eu tenho que fazer é me despedir, mas não serei como antes, pois agora eu sei o que um humano sente, e sei que amo meus pais, mesmo eles não sendo realmente meus pais, eu os considero meus verdadeiros e únicos familiares.
– Mãe, eu sei que você sempre esteve comigo e nunca deixou de fazer algo por mim, e eu realmente lhe agradeço por isso. Pai, você nunca deixou de trabalhar para ajudar a família e estava sempre dando carinho mesmo quando não tinha tempo, o senhor arrumava um tempo para distribuir carinho a todos, e este foi simplesmente o mais bonito ato que eu já vi. Meu irmão, eu sei que sempre lhe disse que o odiava, mas não acredite, saiba que eu o amo, e que você é simplesmente o melhor irmão que alguém já teve. — todos já estavam chorando, inclusive eu, chorar era algo novo para mim, algo que nunca senti, mas dessa vez eu estava realmente chorando — Meus pais, eu queria lhes dizer para não ficarem tão tristes, não quero façam alguma besteira depois que eu for, eu quero ver vocês continuarem a viver e serem felizes, mas agora, sem mim. Eu amo vocês de todo o meu coração. Eu sei que você queria me ver casando mãe, e sei que você queria ser avó, meu pai. Mas agora, vocês vão ver meu irmão se casar e ter lindos filhos, eu sei que ele vai encontrar uma bela mulher e vai ser muito feliz. Mãe, eu sei que você queria que eu cassasse com um belo homem e ser feliz com ele, mas eu já fui feliz o bastante só de poder ter vivido e conhecido vocês. Se agora está acontecendo isto, é por que é minha hora, e então pai, mãe e meu irmão, é agora que me despeço de vocês, e saibam que os amo com todo meu coração.
Terminei de dizer tudo o que eu queria e novamente fui voltar ao meu mundo, eu estava evaporando aos olhos dos que estavam a minha frente, e eu continuei chorando dolorosamente enquanto os observava chorar e ver meu corpo se esvair de seus olhos e principalmente de suas lembranças.
Por muitos anos eu vivi visitando-os, e sempre que eu chegava eles sorriam, eu não conseguia entender, mas era como se eles percebessem que eu estava lá, os vendo serem felizes, vendo meu irmão brincar com seu filho enquanto meu pai ria do neto, e minha mãe juntamente com a esposa do meu irmão estavam na cozinha, conversando sobre filhas e sobre o quanto minha mãe se lembrava vagamente de que já teve uma filha.
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