Realmente (Me Chamam de Rei)
10 O amanhã imprevisto
Notas iniciais
— Ele está se mexendo, eomeoni.
Não há lugar como o lar. Por isso, a voz da minha filha foi uma confirmação de que eu estava em casa. Tentei me mover, apesar de todo o cansaço que fazia eu me sentir como se fosse de chumbo.
— Fique quietinho, meu bem.
Abri os olhos devagar, e vi minhas duas moças. Sorri fracamente. Achei que nunca mais fosse vê-las. Yumi colocou a mão sobre minha testa, puxando meus cabelos para trás. Fechei os olhos por um momento. Eu poderia não ser o amor da Yumi, mas era seu bem, e sabia bem disso. Elas ficaram comigo sem dizer nada por alguns minutos, enquanto eu terminava de despertar e acumulava alguma energia. Depois desse tempo, estendi uma mão para cada uma, e cada uma me deu sua mão. Coloquei as duas junto ao meu rosto, para senti-las. Deixei lágrimas caírem por elas.
— As mulheres da minha vida. Eu amo vocês.
Pouco mais tarde, perguntei como tinha parado ali. Elas disseram que eu, assim como Sunghee, havia sido mandado de volta em uma carroça.
Hyeri trouxe sopa. Tomei-a pensando em quanto eu estava estranhando aquilo tudo. A sopa, as mulheres, o palácio, a monarquia. Eu tinha esquecido aquilo tudo a partir do momento em que soube que minha prematura morte estava próxima. A partir do momento em que o medo fez a vida do rei se transformar em um pesadelo… E o amor fez a vida se transformar em um sonho bruscamente interrompido pelo monstro. Amor…
— Como está o seu noivado, Sun?
— Normal. O príncipe veio, está hospedado aqui… Mas os últimos acontecimentos causaram tensões. Ele está um pouco tímido, entende?
— E o Tteok?
— Está me evitando. Penso que é um tipo de precaução. Mas não entendo.
— Ele está tentando se acostumar a viver sem você — disse Yumi. — Mas é difícil, minha filha. Vocês vivem juntos há seis anos.
— Ele acha que não estou sofrendo com isso também.
— Você tem estado sozinha — notei. Eu sempre fora sua companhia antes da chegada de Tteok, e ultimamente ela não tinha nenhum dos dois.
— Tenho a companhia dos livros, apeoji. Estou lendo Perrault, um livro sem romance. Quem sabe assim eu pare de me iludir.
Fiquei pensando naquilo. Primeiro, em como eu odiava a situação em que Sunghee se encontrava. Mais uma vez, me sentia culpado por aquilo, e realmente era, por mais que não houvesse escolha. Em segundo, pensei em Perraut. Pensei na história sem romance, que eu conhecia… E em uma saída. Talvez nem tudo estivesse perdido.
— Eu… eu tenho que… — disse, tentando me levantar, mas, além de estar fraco, Yumi me empurrou de volta pelos ombros.
— Vossa majestade não vai a lugar nenhum. Precisa descansar!
Percebi que nem adiantaria tentar convencê-la. Eu estava fraco e precisava me recuperar, de fato, se quisesse fazer alguma coisa, mas eu não tinha muito tempo.
— Onde está Kim Jungkook? Eu quero vê-lo.
— Vou chamar — disse Sunghee antes de sair.
— Vai me contar o motivo dessa agitação repentina? — perguntou Yumi, uma vez que estávamos a sós.
— Não é nada demais.
— Eu gostaria muito que você fosse sincero comigo — disse ela, me imitando.
Olhei para ela, divertido.
— Você é apaixonada pelo Jungkook?
— Está desviando do assunto!
— Juro que não. Pode ser sincera comigo só mais uma vez?
Yumi suspirou, embora houvesse um sorriso em seu rosto.
— Sim. Muito.
— Então… Eu também me apaixonei.
Yumi riu deixando os ombros caírem, como se estivesse aliviada.
— Até que enfim, majestade. Mas… Na Morte?
— Sim. E eu preciso salvá-lo, Yu.
— Salvá-LO? Hum, estamos falando de um mocinho, então?
— Sim, mas… Você está ouvindo? Ele está em perigo e eu preciso…
— Que bonitinho — disse ela, encantada. — Eu vivi para ver Kim Seokjin todo apaixonado! Mas falando sério, agora… Você não está em condições de salvar ninguém, meu rei. Acabou de voltar para casa e já quer partir novamente?
A porta do quarto se abriu. Sunghee entrou com Jungkook e o diplomata.
— Então ele acordou — disse meu irmão, abrindo um grande sorriso enquanto caminhava até mim. Segurou minha mão com força. — Sentimos sua falta.
Sorri.
— É bom te rever, Kookie. Trouxeram Park Jimin?
— Sim — disse Sunghee. — O encontramos no caminho e ele disse que gostaria de vir.
— Trouxe algo que talvez possa lhe ajudar, Vossa Majestade.
Jimin mostrou um pequeno frasco de vidro com líquido laranja. Imediatamente olhei para o objeto com desconfiança.
— O que é isso? Não gosto de bebidas coloridas desconhecidas. Uma dessas me deixou assim.
— É uma bebida para repor as energias. Recebi do meu appa esta manhã.
Olhei mais atentamente para Jimin. Antes de ir para a Morte, tudo o que eu sabia sobre o pai dele era que tinha ido embora do palácio. Depois, descobri a verdadeira história de Park Hyungsik… E que ele estava morto. Então, como Jimin poderia ter recebido? Até onde eu sabia, a existência do pai de Jimin era ignorada por ele… Tentei não pensar no quanto aquilo fazia sentido, mas no que poderia significar.
Park Jimin sabia de alguma coisa. Talvez eu devesse confiar nele.
— Sugiro que tome apenas metade, Majestade, e deixe a outra metade para outra possível ocasião… — acrescentou ele, me dando um pouco mais de confiança.
Estendi a mão e peguei o frasco que Jimin me oferecia. Abri-o, senti o cheiro doce e tomei metade do líquido. Depois, o tampei. De imediato, não senti nenhum efeito, mas logo comecei a sentir uma leve agitação. Logo, quis me levantar, mas caí.
— Calma. Ele vai fazer efeito aos poucos. Se esperar alguns minutos, estará novo.
— Tudo bem — eu disse, um pouco cansado pela tentativa frustrada. — Jungkook, prepare um cavalo de guerra e separe uma espada bem afiada. E espero que nenhum de vocês tente me impedir, porque eu não vou permitir que alguma coisa interfira no meu destino.
— Estou chegando, meu amor.
Repeti isso todo o caminho, enquanto o cavalo me chacoalhava, galopando a toda velocidade. Passamos rapidamente pela parte central da cidade, com ruas de pedra, mercados e pessoas por toda a parte. Fomos passando para ruas cada vez piores, com terra em vez de pedra, e casas substituíram os comércios. Depois, as casas foram piorando de qualidade, ficando cada vez mais afastadas. Começaram a aparecer vegetações e os monstrinhos que eu já tinha notado antes. Não que eu pudesse vê-los muito nitidamente na velocidade em que estava. As casas foram sumindo e sendo substituídas por arbustos e árvores cada vez maiores e em maior quantidade, até que eu me vi em uma floresta. Em contrastes com a vegetação verde, percebi, ao longe, a mancha preta que eu já conhecia como a Morte.
Conduzi o cavalo a uma velocidade mais moderada, tendo em vista a grande quantidade de obstáculos, mas sabia que estava na direção certa, embora ainda estivesse longe do destino. O sol estava cada vez mais alto no céu. Depois de algum tempo, fui me aproximando e sendo mais cauteloso, lembrando do que tinha acontecido da outra vez.
Quando cheguei no ponto próximo de onde Hoseok e Taehyung tinham me derrubado, parei o cavalo, desci e o mandei embora. Coloquei a mão no punho da espada embainhada para sentir confiança. Respirei fundo e comecei a andar normalmente em direção à Morte.
Fui tirando galhos e folhas do meio do caminho enquanto me aproximava cautelosamente. Cheguei ao limite da floresta e tentei me camuflar enquanto observava a clareira. Logo, avistei Hebi deitado próximo ao limite. Respirei fundo e caminhei diretamente para dentro do palácio.
— Oi, Hebi. — murmurei, sem olhar para ele, mas ele não me deu atenção. Continuou tranquilamente deitado.
Entrei no palácio vazio (não havia sinal de Taehyung nem Hoseok) e fui para os aposentos de Namjoon. Os lençóis ainda estavam manchados de sangue e completamente desarrumados. A vasilha estava ali, com o resto de sangue seco acumulado. No criado-mudo, a jarra com líquido verde também permanecia. Peguei a garrafa e a vasilha e saí do palácio.
Do lado de fora, fui para o quarto avulso. Assim que abri as portas, senti o mau-cheiro. Entrei e examinei as carnes penduradas, procurando as mais apetitosas. Peguei-as, tirei-as do gancho e fui jogando na vasilha. Elas caíam estrondosamente umas em cima das outras. Algumas carnes já tinham apodrecido, então não as selecionei. Depois de encher bem a vasilha, abri a garrafa e joguei tudo o que tinha nela sobre as carnes, tentando espalhar bem para que não ficasse visível. Joguei bem por cima das carnes, para que elas absorvessem o líquido e ele escorresse para as carnes mais abaixo.
Deixei a garrafa em um canto qualquer e comecei o difícil trabalho de arrastar a vasilha para fora. Fui arrastando com cuidado e dificuldade para perto de Hebi, que começava a ficar ansioso.
— Tem comida para você, grandão.
Hebi era bem educado. Apenas quando parei de arrastar e me afastei, ele ousou chegar perto do pote, mas foi com tudo. Como eu esperava, em poucos segundos, não tinha sobrado mais nada. Ele lambeu até mesmo o restinho de sangue que havia ali, enquanto eu o observava com um sorriso satisfeito.
— Muito bom, Hebi.
Caminhei tranquilamente ao redor do lago, esperando os efeitos. Em menos de um minuto, Hebi começou a tossir. Primeiro, tosses fracas com grandes intervalos. Depois, foram ficando mais intensas. Eu comecei a sorrir quando as primeiras gotas de sangue começaram a espirrar no chão. Lentamente, as tosses foram ficando mais violentas, os intervalos menores, e uma poça de sangue começava a se formar com os vômitos dele. Ele rugia, tentando se livrar daquela sensação que eu conhecia bem. Hebi se deitou com dificuldade e logo tombou para o lado, sem parar de tossir. Me aproximei dele com passos lentos e um sorriso de orelha a orelha.
— É bom, não é?
Hebi rugiu baixo entre um vômito e outro. Fechei minha expressão e abaixei o tom de voz.
— Está doendo? Você quer que pare?
Hebi manteve seus grandes olhos sobre mim, apenas tentando respirar, como se soubesse que meu objetivo ali era vingança. Desembainhei a espada e apontei para seu pescoço.
— Eu sei que não é culpa sua. São seus instintos de monstro. Mas você deveria ter obedecido seu mestre ontem. Eu consigo te perdoar por ter capturado minha filha... Mas por isso eu não posso te perdoar.
Sem mais delongas, cravei a espada em sua garganta, sem nenhuma pena. Ignorei completamente os rugidos e a movimentação de Hebi enquanto ele tentava se livrar. Afinal, ele podia ser um monstro, mas estava fora de condições de lutar. Usei toda a minha força para mover a espada, aumentando o rasgo. A movimentação de Hebi tornava meu trabalho um pouco mais difícil, mas eu ainda estava em vantagem. Em algum momento, ele parou de se contorcer e de rugir. Tire a espada num puxão, e um bocado de sangue espirrou em mim. Algumas gotinhas vieram no meu rosto, e eu as limpei com a mão livre. Estava começando a ficar cansado, mas não menos focado. Meu trabalho estava só no começo.
Cravei a espada novamente em um ponto diferente da garganta e fiz um novo corte, dessa vez no sentido vertebral. A pele dele era grossa, de forma que era muito trabalhoso abri-lo. Gastei toda a minha energia rasgando sua barriga, parando de vez em quando para limpar o suor que se acumulava ou o sangue que espirrava em mim.
Abri até onde achei que seria suficiente, fazendo um corte perpendicular no fim, e larguei a espada no chão. Coloquei minha mão na abertura e comecei a puxar a pele para fora. Era tão difícil e tão nojento que eu comecei a gritar. Talvez assim me desse alguma força. Depois de algum tempo, comecei a ver seus órgãos internos, muito bem arrumados, mas algo especial chamava a minha atenção.
Comecei a tatear o estômago, procurando algo perigoso. Era difícil identificar. A sorte era que aqueles dentes eram inúteis, já que ele engolia tudo direto. Mesmo assim, eu teria que arriscar. Pensando racionalmente, o lado seguro era a parte da frente, onde provavelmente estavam as carnes. Com as mãos pegajosas, segurei novamente a espada e perfurei o começo do estômago, sem ir muito profundamente. Comecei um novo rasgo, dessa vez mais fácil que os anteriores. Usei a mão livre para puxar a abertura, de forma que desse para ver o que havia ali dentro. Um pouco de líquido começou a escorrer, e logo identifiquei as peças de carne, que estavam bem molhadas, boiando nos líquidos do estômago. Comecei a puxar as paredes do estômago, usando a espada apenas como ajuda para abri-la. Cada vez mais líquido escorria, e conforme ele se abria, as carnes começavam a sair também. Comecei a puxá-las da frente e jogá-las para fora para ter alguma chance de enxergar alguma coisa mais importante. O sol começava a bater no que restava, e lá no fundo, eu consegui ver a metade superior de um corpo adormecido.
— Namjoon!
Comecei a puxar com mais vontade o conteúdo do estômago para fora. Quando mais líquido saía, mais o estômago ficava raso e um pouco mais dele ia aparecendo. As marcas verdes que cobriam o corpo indicavam que o líquido o estava cobrindo até o pescoço quando eu cheguei. Namjoon abriu uma pequena fresta dos seus olhos, sem nem se mexer direito. Suspirei. Ele estava vivo. Sem força nenhuma, mas vivo. Comecei a chorar, sem parar de tentar alcançá-lo. Quando quase todo o líquido já tinha escorrido, escalei a carcaça malcheirosa, entrei no estômago e engatinhei até o que havia sobrado de Namjoon. Eu estava todo sujo, e ele também. Desse modo, não tinha nada para ter nojo, então o segurei com cuidado e o abracei, ainda soluçando.
— Nam… Você tá aqui… Eu te encontrei. Vai ficar tudo bem.
Segurei-o em meu colo e comecei a arrastá-lo para a abertura, com dificuldade. Desci, e o peguei novamente. Levei-o para a margem do lago, onde o deixei cuidadosamente. Ele mantinha os olhos fechados, provavelmente por causa da claridade. Lavei as mãos no lago e comecei a pegar água para limpá-lo. Molhei seu rosto com cuidado e fui afastando as sujeiras de líquido seco.
— Vai ficar bem — sussurrei, mais para mim do que para ele. — Vai ficar tudo bem.
Namjoon abriu os olhos devagar, entre muitas piscadas, e ficou me encarando. Não desviei o olhar do olhar dele enquanto limpava seu rosto.
Lentamente, ele ergueu a mão direita em direção ao meu rosto; parecia estar fazendo muito esforço para aquilo, então eu o ajudei e pressionei sua mão suja contra minha bochecha mais suja ainda. Uma lágrima escorreu pelo rosto dele.
— Não chore — eu pedi, secando-a. — Por favor, não chore. Vai ficar tudo bem. Eu vou cuidar de você.
Namjoon pesou sua mão um pouco mais, me puxando para perto dele. Devagar, colei minha testa na dele e fechei meus olhos, sem esperar que algo muito especial fosse acontecer… mas ele me transmitiu seus pensamentos naquele instante.
“Eu sei que você vai cuidar de mim. Eu sei que nós dois vamos ficar bem. Juntos. Para sempre. Eu te amo realmente.”
Afastei-me dele apenas alguns centímetros e sorri.
— Eu sou realmente apaixonado por você. Me conte como você está se sentindo.
“Eu não como nada há muito tempo… Tenho fome e sede. Estou completamente sem energia”.
— Vai melhorar — eu disse, pensando em alguma comida, mas de repente me lembrei do líquido de Park Jimin. — Ah — voltei ao normal, soltando sua mão com cuidado, e peguei o frasco no meu bolso. Não estava sujo, o que foi bem surpreendente. Abri-o. Coloquei o polegar no lábio inferior de Namjoon e o puxei levemente para baixo. Depois, entornei o líquido devagar. — Isso vai fazer você ficar bom.
Eu estava sem comer pelo mesmo tempo que ele, então sabia que iria funcionar. O líquido realmente tinha a energia de uma belíssima refeição. Depois de algum tempo, Namjoon começou a dar sinais. Eu esperei pacientemente ao seu lado, lavando seu cabelo enquanto o alertava sobre ele precisar de alguns minutos, mesmo quando achasse que já tinha energia suficiente. Depois de uma boa quantidade de tempo, eu terminei de lavar o cabelo dele, que estava um grude só.
— Como está se sentindo, meu amor?
— Com saudade.
Do nada, ele se levantou, segurou meu pescoço e começou a me beijar loucamente. E eu tinha que admitir… Também estava com saudade. Meu rosto ainda estava todo sujo, de forma que parte do meu trabalho limpando Namjoon se desfez. Para dar um jeito naquilo, tomamos a decisão mais prática e feliz possível no momento, que foi aproveitar o lago ao nosso lado para um maravilhoso banho a dois com a linda vista da carcaça do capturandam.
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