Reality without you
1 A noite em que as estrelas perderam o brilho
"Sim minha querida, monstros existem. E por acaso existe um pendurado bem no meu porão"
Isso era tudo o que a última página de seu diário dizia. Fechei-o cuidadosamente e o coloquei em cima da escrivaninha ao lado da cama. O que diabos mamãe pretendia dizer com isso? Oras, incontáveis vezes estive no porão e com meus próprios olhos não vi sequer um desses monstros que ela citou.
Ouvi batidas na porta do quarto antigo, provavelmente seria papai.
–Lucy? Tenho certeza de que você está ai! Saía logo daí, quantas vezes já lhe disse para não entrar nos antigos aposentos de sua mãe?
As batidas continuaram, ele insistia como sempre. Qual o problema de estar no quarto dela?
–Vamos, saía já daí!
Suspirei desistente, e caminhei até a porta
–Já estou indo papai
Abri a porta de madeira antiga, em resultado o ranger da mesma ecoou por toda a casa. Meu pai nada disse, apenas trancou o dormitório, me encarou com olhos fulminantes e em passos pesados saiu em direção a sala de jantar. Já passava da hora, talvez esse fosse o motivo de maior irritação, Virgo deve ter me acobertado no tempo em que estive ausente no jantar. Caminhei atrás de meu pai, ao longe avistei-o sentar-se na e me esperar com a mesma carranca no rosto.
Sentei-me, Câncer serviu-nos. Bem, não estranhe mas temos o costume de chamar nossos serviçais com os signos do zodíaco. Era uma mania de minha falecida mãe, Layla Heartfilia, que não se apagou com o tempo. Sei que tudo deve estar meio confuso, mas irei explicar desde o começo.
Chamo-me Lucy Heartfilia, filha de Jude e Layla Heartfilia, uma das famílias mais ricas do Japão. Atualmente, possuo 18 anos, não sei ao certo como me descrever mas muitos dizem que sou idêntica à minha mãe: olhos amendoados, cabelos dourados e pele leitosa.
Minha mãe veio por falecer quando eu ainda era uma criança, eu possuía apenas 8 anos de idade, posso dizer que foi algo torturante, afinal era a pessoa qual eu mais amava. Antes de sua morte, eu passava horas e horas ouvindo suas histórias fantásticas sobre dragões, animais gigantes e monstruosos, pessoas boas e más, e também sobre as que possuíam o dom de usar magia, os belos e magníficos magos. Eram histórias sobre um mundo diferente, onde tudo isso era comum.
Meu pai por outro lado sempre fora um tanto mais ardiloso, nunca perdia tempo com histórias ou ao menos fantasias. Para ele, esse mundo não existia.
Se eu acredito nas histórias de minha mãe? Sem dúvida alguma. Quando olho o céu pela janela é como se o horizonte se estendesse a lugares muito mais distantes pintados por diversas cores estivesse bem à minha frente. É como se uma rapsódia de doces vozes chegasse aos meus ouvidos. Mas não é apenas isso, as vezes tenho a impressão de avistar grandes sombras voarem pelos céus, como os gigantescos dragões das histórias de minha mãe.
As vezes penso se essa tal magia realmente existe. Oras, estamos nos anos de 1893 seria isso que as tão famosas bruxas fazem uso? Tenho que discordar de meus pensamentos, bruxas seriam aquelas que vendem as almas ao diabo certo? Ao menos era o que ela dizia.
–Não tocou em sua comida?- disse meu pai
Despertei de meus pensamentos e o encarei.
–Estou sem fome
–Oras, se não se alimentar irá ficar muito magra. Acha que encontrarás algum pretendente esquelética dessa maneira?
–Não papai, mas estou sem fome. Obrigada
Me levantei e caminhei em direção as escadas, meu aposento ficava no andar de cima. Meu pai nada disse, por sorte ao menos dessa vez eu não teria de escutar um sermão novamente. Levantei a barra de minha longa vestimenta. Era um vestido de cetim carmesim trabalhado em camadas de babados cor-de-rosa, pertencera à minha mãe. Subi as escadas e adentrei minha ala de descanso.
Retirei o vestido e logo depois o espartilho que apertava minha cintura. Nunca vi sentido em usar algo para afinar a mesma. Papai me diz que se não usa-los não vou arrumar qualquer pretendente, e assim, não me casar e trazer desgraça para a família. Claramente eu não concordo com isso, porém, não posso fazer nada a não ser obedece-lo.
Vesti minhas camisolas e me sentei na beirada da cama, apoiando-me no parapeito da janela à minha frente. Gosto de observar o céu a noite, é como se ele brilhasse em uma intensidade fraca em algumas partes. Não como as estrelas, mas realmente brilhava, um brilho prateado que parecia poder ser roubado a qualquer momento. E era sempre nesse momento que eu estava prestes a ficar maravilhada com as sombras amorfas dançando pelo céu de forma graciosa e encantadora.
Fechei meus olhos e me deixei levar pelas vozes melodiosas que ecoavam por meus ouvidos. Essa é apenas uma noite comum para mim.
Como de costume, adormeci. Mas nessa noite algo mudou, ouvi algo estrondoso e acordei num pulo, estava assustada. Fixei meus olhos no céu e estremeci, era estranho: não havia nada, nuvens, sons, sombras, sequer o brilho com o qual eu me admirava todas as noites. Ao horizonte, a lua parecia tocar o chão, era azulada num to quase translúcido que me atraía profundamente, eu precisava ver de perto.
Tentei abrir a porta, mas estava trancada, provavelmente algo do feitio de meu pai. Olhei pela janela, a distância não era tão grande assim, então me apoiei na janela e saltei. Caí de bunda, talvez eu não seja muito boa em quedas quanto parecia. me levantei e segui um pequeno caminho no jardim, uma estrada feita com pedras brancas que pareciam brilhar na luz que a lua emitia. Depois de algum tempo andando por elas,(bastante tempo na verdade já que nossa propriedade ocupava o espaço de uma cidade pequena) eu avistei o rio onde eu passei grande tempo da minha infância, e ali, a lua parecia se banhar em seu leito.
Me aproximei, parecia que poderia toca-la. Quando meus pés tocaram a aguá um arrepio percorreu minha nuca, andei mais um pouco e o chão se perdeu e eu afundei. Tudo que pude observar foi a lua perder o brilho até meu peito apertar por falta de ar, e foi ai que tudo ficou estranho. continuei afundando, comecei a cair, cair mesmo, eu sentia o vento entre o meu cabelo e toda a sensação molhada sumiu. Continuei caindo, dessa vez o lago havia se tornado uma imensidão escura, aquele mesmo céu cheio de nuvens.
Não tive reação, não conseguia gritar ou me mexer, mas presenciei as estrelas perderem seu brilho naquela noite, então, apaguei.
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