Realidades Ocultas
5 Nunca peça churrasco de galinha.
Notas iniciais
Ashumaru e Wander chegaram à escola e apesar de ainda ser antes das oito da manhã, Eduarda já estava lá.
— Oi Maru, oi Wander, o que você queria falar comigo? – perguntou a garota rosa, quer dizer, de cabelos rosa.
— Eu tive uma ideia que vai tirar a gente da pindaíba. O Wander é paranormal, você vira bicho… – Maru introduziu o assunto.
— Vira bicho? Me atualiza que eu tô por fora dessa – disse o rapaz.
— Depois eu te conto. Continua – falou Madu.
— Como eu tava falando, o Wander move coisinhas e agora percebe paranormalidade, a Maria Eduarda pode se transformar em animais, e eu… tenho meus segredinhos. A minha ideia é criarmos uma agência de detetives.
— Mas nós não temos nenhuma formação ou experiência nisso – contestou Eduarda.
— E quem vai contratar dois alunos de brizolão e uma anã sem-teto pra investigar alguma coisa? – perguntou Wander.
— Sem piadas com a minha altura! – Maru deu um cascudo no garoto – Continuando, não vamos investigar qualquer coisa, seremos detetives sobrenaturais e não existem muitos por aí. Qualé gente, vai ser legal, se fizermos uma propaganda boa podemos ganhar muitos clientes!
Depois de muito insistir, finalmente Ashumaru convenceu seus amigos a participar da empreitada. Os três ficaram a manhã toda no pátio discutindo como fariam a propaganda e contato com os futuros clientes, e pouco antes do meio dia, criaram uma página em uma rede social (tá, é o facebook mesmo) e postaram o seguinte texto.
Agência de detetives WAME. Usamos métodos paranormais para resolver seus problemas. Se você for assombrado por um fantasma, nós exorcizamos, se tu é corno, nós descobrimos. Encontramos pessoas, animais e objetos desaparecidos, só não recuperamos sua vergonha na cara porque quem perde uma vez não encontra nunca mais. Trazemos a pessoa amada em três dias nem que seja amarrada. Aceitamos dinheiro, cheque e vale-refeição como forma de pagamento (torcida sabor churrasco e guaraná dolly a combinar).
— Isso parece mais uma piada do que um anúncio – disse Wander.
— É estratégico. Você sabe o que Sherlock Holmes, L do Défi Nouti e o Ace Ventura tem em comum? – perguntou Ashumaru.
— Ele não existem – respondeu Maria Eduarda.
— Não, são todos excelentes detetives e totalmente birutas. Os melhores detetives do mundo não batem bem da cabeça, se acharem que somos malucos vão nos contratar na certa.
— Tenho que admitir que o anúncio ficou tri legal – disse Eduarda.
— Tô indo almoçar e depois vou pra casa, já sumi tempo demais e a minha avó tá marcando em cima de mim. Se surgir algum trabalho me avisem – Wander se despediu e saiu.
O resto da semana passou normalmente para os aspirantes a detetives. No sábado pela manhã, alguém telefonou para Maria Eduarda e logo depois, ela ligou para o Wander.
— Alô – o rapaz atendeu.
— Oi Wander, sou eu, a Madu. Entraram em contato comigo, alguém quer contratar nossos serviços.
— Sério? – ele não acreditava que o anúncio havia dado resultado.
— Eu marquei com o cliente no shopping às dez horas.
— Beleza, conseguiu falar com a Ashumaru?
— Que eu saiba ela não tem telefone e eu não sei onde ela mora, mas algo me diz que ela vai nos encontrar.
— Tá certo, nos encontramos na entrada do shopping dez horas.
Assim que terminou a conversa, Eduarda se arrumou, saiu de casa e assim que pisou na rua, encontrou Ashumaru.
— E aí, vamos pro shopping? – a mais baixa perguntou.
— Como você sabe que estou indo ao shopping?
— Você está arrumada e maquiada, e você não é do tipo que se arruma pra ir na padaria. Como está de short, certamente não vai pra igreja e ainda está de manhã portanto, todos os bares e casas noturnas estão fechadas. A única opção que sobrou é o shopping.
— E se eu estiver indo a um museu ou coisa assim?
— Não tem museus ou centros culturais por aqui, você não está levando bolsa ou carteira, ou seja, tá sem dinheiro pra passagem. Elementar minha cara.
— Nossa, você está levando essa história de detetive a sério mesmo.
— Como deve ser.
— Então você chegou na hora certa, marquei com um cliente no shopping, o Wander vai nos encontrar lá.
— Eu disse que o anúncio ia chamar clientes! Agora vamos nessa, o trabalho nos espera.
As meninas caminharam até a entrada do shopping, onde o Wander já as esperava. Após vinte minutos, um homem com cerca de sessenta anos de idade, alto e vestindo um smoking preto se aproximou dos jovens.
— Bom dia, você são da WAME?
— Sim, somos nós mesmos. Você é o cliente que entrou em contato? – disse Eduarda.
— Exatamente. O gato da minha patroa desapareceu há mais de uma semana e ela já colocou anúncios, ofereceu uma generosa recompensa porém ninguém o encontrou até agora. Se vocês encontrarem o bichano serão muito bem pagos.
— É claro que aceitamos – falou Ashumaru.
Ele trocaram contatos e informações. O homem entregou fotos do animal, um daqueles gatos sem pelos e feio que nem um demônio. Seu nome é Frango Depenado, é macho e foi visto pela última vez há oito dias no telhado de casa, cujo endereço ele deu aos jovens.
Depois que o sujeito foi embora, os “detetives” começaram a discutir o caso.
— Acho que deveríamos depilar um gato vira-lata e entregar pra ele – sugeriu Wander.
— Você não entende nada mesmo, a relação entre um animal é seu dono é tão íntima que é impossível enganar alguém desse jeito – falou Eduarda.
— Então temos que decidir como vamos começar a investigar – falou Wander.
— Eu posso virar uma gata e rondar a casa do Frango Depenado, gatos sempre tem seus lugares favoritos – disse Eduarda.
— Eu te acompanho. Quando eu morava na selva vivia caçando bichos do tamanho de gatos pra comer, vai ser fácil pegar o Depenado quando o encontrarmos – se pronunciou Ashumaru.
— Se esse gato for paranormal eu posso ver a aura dele – assim que olhou pra cara das colegas, Wander se arrependeu da piada – eu posso pesquisar algo sobre contrabando de gatos na internet.
Assim, as garotas decidiram ir até a casa do gato, enquanto o Wander ficaria aproveitando o wi-fi do shopping para pesquisar locais que vendiam gatos de raça a preços suspeitos.
Antes de ir até o endereço fornecido pelo James, Maria Eduarda passou em casa, pegou dinheiro e deu uma desculpa qualquer para seus pais. Enfim, partiu para o local junto com a Ashumaru.
As garotas pegaram o trem e depois um ônibus até que finalmente chegaram ao local. Era uma casa grande próximo à praia – poluída, mas ainda assim, uma praia.
— Uau, os donos dessa casa têm dinheiro, vamos cobrar caso se encontramos o gato – comentou Eduarda.
— Vamos chamar e entrar na casa para investigar? – perguntou Ashumaru.
— Não precisa. Seu vestido tem bastante pano, vou me esconder embaixo dele sem interesse sexual só pra deixar claro.
Maria Eduarda entregou seu celular e dinheiro para Ashumaru, se abaixou, entrou em baixo da roupa da amiga e segundos depois, saiu na forma de uma gata albina. Ela pulou no muro da casa e depois de mais um salto, já estava no telhado.
Ela foi farejando e não foi difícil sentir o cheiro do Frango Depenado, o dono daquele território no mundo dos felinos. Depois disso ela seguiu o rastro para fora de casa e o seguiu com muita determinação.
Ashumaru, que estava de guarda na frente da casa, viu a gata saindo em disparada e foi atrás dela. Ela a seguiu por um longo percurso, saindo daquele bairro nobre e chegando em um lugar mais simples. Finalmente ela entrou em um estabelecimento comercial e não saiu mais de lá, mesmo já tendo passado bastante tempo.
— Por que será que ela não saiu – Maru leu o letreiro do local – Churrasco do Magrinho, será que é um lugar seguro para um gato?
A fim de resgatar a amiga, a garota entrou no estabelecimento e se sentou. Era um lugar pequeno, com algumas mesas e cadeiras, e o cheiro de churrasco estava impregnado no ambiente.
— Eu queria farejá-la, mas aqui tem tantos cheiros diferentes que não consigo identificar só um, sem contar que esse cheiro de churrasco tá me dando uma fome…
— Oi garota, vai querer o quê? – um homem magro, muito magro mesmo com cerca de vinte de idade veio atendê-la.
— Hum… que tipo de churrasco você tem? – perguntou Ashumaru, tentando ganhar tempo.
— Carne, frango, linguiça, misto, kafta, salsichão, queijo coalho e ga… linha.
— Me dá um de carne, mal passado quase cru.
O homem foi até a churrasqueira e trouxe o que Maru pediu.
— Caramba, esse bagulho tá bom mesmo – ela comeu tudo e apenas quando terminou lembrou o que tinha ido fazer ali – ah é, tenho que encontrar a Madu.
Ela ficou pensando em como faria para vasculhar aquele lugar. Além do churrasqueiro que a serviu, havia um homem gordo, muuuito gordo no caixa e meia dúzia de clientes, sem contar que a “churrascaria” era pequena e certamente era difícil fazer qualquer coisa sem ser notada.
Então, Ashumaru olhou para a churrasqueira fixamente e, repentinamente, a pequena chama que assava a carne cresceu a ponto de provocar um incêndio.
— Incêndio, vai pegar o extintor Magrinho – o rapaz magro gritou, então o gordo correu para pegar um extintor.
Os clientes começaram a correr para fora do Churrasco do Magrinho, e foi se aproveitando dessa confusão que Ashumaru entrou na parte permitida apenas para funcionários autorizados. Ela passou por dentro do fogo, porém não sofreu queimadura alguma, e ao entrar, encontrou espetos, sacos de carvão, carnes congeladas e uma gaiola repleta de gatos.
— Vão amiguinhos, hoje o churrasco foi cancelado.
A garota abriu a gaiola e os gatos começaram a fugir. No meio daquela gataiada, Maru viu um totalmente sem pelos e o agarrou, levando alguns arranhões e uma mordida no processo.
— Não foge não garoto, você vai me render uma boa grana.
— Ei garota, você tá roubando os nossos ga… linhas! – o gordo que se chama Magrinho gritou.
Nesse momento, o gordo e o magro cercaram a saída. Ashumaru se preparou para lutar, e Eduarda, que estava escondida, saiu da sua forma de gata e voltou a ser humana.
— Quê? Aquele gato virou uma garota, é o apocalipse!
Os homens saíram correndo, deixando o caminho livre para as amigas.
— Isso foi horrível, eu pensei que ia virar churrasco – Maria Eduarda estava choramingando.
— Já passou. O importante é que estamos com o Frango Depenado, vamos pegar a nossa recompensa.
Enquanto caminhavam até a casa da dona do gato, o celular da Madu que estava com a Maru tocou.
— Alô! – Ashumaru atendeu, sob protesto da dona do aparelho.
— Oi, aqui é o Wander. Descobri que tem uma pet shop suspeita de estar traficando gatos de raça, fica lá em São Paulo, então precisamos arranjar dinheiro pra fazer a viagem.
— Já estamos com o gato!
— Bom… me esperem que estou indo praí.
De uma maneira impossível de se explicar, Wander chegou até a casa da dona do gato ao mesmo tempo que as garotas. Tocaram o interfone e assim que disseram que estavam com o gato, autorizaram a entrada. Na sala, uma mulher loira de meia idade os esperava com expressão de ansiedade, e o empregado que tratou com os jovens pela manhã estava ao seu lado.
— Frango Desossado – assim que ouviu a voz da dona, o gato fugiu das mãos dos detetives da WAME e foi até a mulher – muito obrigada, onde ele estava?
— Churrasco do Magrinho – disse Eduarda.
— Nunca ouvi falar, mas quando descobrir quem é vou processá-lo até a morte. James, pague os detetives – ela entrou em um quarto com o animal, fechando a porta logo em seguida.
— Quanto vocês querem pelo serviço? – James perguntou.
— Ah… é… – os jovens não faziam ideia do quanto cobrar.
— Deixe eu ajudar. Posso pagar quinhentos reais ou um carro, qual vocês preferem?
Os amigos ficaram na dúvida, então fizeram uma rodinha e começaram a cochichar para discutir as opções.
— Vamos aceitar o carro, com certeza vale mais do que quinhentos reais – disse Wander.
— E pode ser bem útil nas investigações – completou Ashumaru.
— Tá, mas algum de vocês sabe dirigir? – lembrou Eduarda.
Os outros balançaram a cabeça negando.
— São dois contra um, ficamos com o carro – finalizou Ashumaru.
Ao fim da rápida reunião, eles anunciaram a decisão ao mordomo.
— Ótimo, vou pegar o recibo e as chaves.
James se retirou e logo depois, uma moça muito branca de cabelos curtos, olhos azuis, magra pra caramba e parecendo ser pouco mais velha do que os detetives sobrenaturais entrou na casa.
— Quem são vocês e o que estão fazendo na minha casa? – ela perguntou, desconfiada.
— Somos detetives e acabamos de encontrar o gato da sua… mãe? – disse Eduarda.
— Ah sim, ela já estava ficando doida sem aquele bicho estranho, mas obrigada mesmo assim.
Logo depois, James voltou.
— Oh dona Kurai, vejo que já conheceu os garotos que encontraram o gato da sua mãe. Eu disse que os investigadores sobrenaturais seriam uma boa opção.
— É, o senhor estava certo – ela disse sem empolgação, porém olhava fixamente para os adolescentes.
— Aqui está a chave e o documento, o carro está na garagem, vou levá-los até lá – disse o mordomo.
— Só tem um problema, nós não sabemos dirigir e moramos bem longe daqui – disse Madu.
— Eu levo vocês e o carro até lá – ofereceu Kurai.
— Mas senhora, eles moram longe e num lugar, assim… desprovido de recursos, pode ser perigoso – argumentou James.
— E tem lugar seguro hoje em dia? Só me diz qual é o carro que eu dirijo até lá.
— É o branco compacto – informou o homem.
— Hum, ficar num carro apertadinho com duas novinhas e um novinho, mim gostar disso – disse a mulher, enquanto lambia os lábios assustadoramente.
Kurai chamou os detetives a acompanhá-la, até que chegaram a uma grande garagem com três carros.
— Qual é o nosso? – perguntou Wander.
— Aquele – ela apontou para uma pickup importada gigante.
— Uau, isso porque era compacto – Ashumaru se entusiasmou.
Eles então foram até a pickup, então Kurai deu a volta por ela e foi até uma Fiat 147 branca que estava escondida atrás do carro importado.
— Branco e compacto. Vamos? – chamou a mulher.
— Viu, era melhor ter pego o dinheiro – disse Maria Eduarda.
Sem opção, todos entraram no veículo. Foram dando instruções à motorista e, algum tempo depois, estavam no lugar onde moravam.
— Aqui estão – disse Kurai.
— Valeu mesmo dona Cunai – Wander agradeceu.
— É Kurai! – ela corrigiu – só uma coisa antes de nos despedirmos, vocês usam mesmo poderes sobrenaturais para resolver os casos?
Wander e Ashumaru disseram que sim e ao mesmo tempo, Maria Eduarda respondeu que não.
— Tanto faz. Se estiverem a fim de uma brincadeirinha a quatro sabem onde me encontrar, mas antes de ficar animadinho – ela se dirigiu ao Wander – saiba que se entrar na brincadeira vai ter que dar também.
O trio se assustou e fizeram questão de se despedir, ignorando a proposta dela. Depois disso Kurai deixou o carro na rua, em frente a casa do Wander. Cada um dos amigos da WAME foi para sua casa (ou sabe-se lá onde a Ashumaru mora), enquanto Kurai chamou um táxi para voltar pra casa.
— O garoto e a pequenininha falaram a verdade e a do cabelo rosa mentiu, então tenho cem por cento de certeza de que eles são paranormais… assim como eu – ela pensou, enquanto ia para casa.
Meu nome é Kurai Moonlight, tenho dezenove anos, estudante de direito e paranormal. Não tenho um poder legal como levitar ou entortar colheres, mas eu consigo perceber as emoções das pessoas, é quase como se eu pudesse ler pensamentos.
Logo que o meu pai se separou da minha mãe, quando eu ainda era criança, eu acabei falando a ele sobre as minhas habilidades. Pouco depois ele sumiu, minha mãe sempre dizia que ele era um cretino que fugiu pra não ter que pagar pensão, mas algo me diz que o seu desaparecimento tem a ver com minha paranormalidade, até porque eu senti que ele ficou extremamente quando contei isso a ele.
Eu nunca conheci outra pessoa que fosse realmente paranormal, até desconfiei de alguns, mas era todos charlatões. Mas agora a coisa mudou, tenho certeza que esses três têm poderes de verdade. Bem, em breve eu vou contatá-los, seus serviços poderão me ser muito úteis.
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