Realidades Ocultas

3 Lugares com nomes bonitos não são necessariamente tranquilos


Notas iniciais
Olá leitores.Capítulo novo e grandinho em relação aos outros, então vamos logo ao que interessa!

A noite não foi o que se pode chamar de relaxante para o pobre Wanderwal, não pela coça de vara de goiaba que levou da avó assim que chegou em casa, mas por não saber o que o esperava dali pra frente. Tudo aquilo havia caído sem paraquedas em cima dele, morte por combustão espontânea, amuletos mágicos, uma agente do FBI o coagindo a ajudá-la, energia mística, velha tarada…

Logo que saiu de casa pela manhã, decidiu não ir à escola e se dirigiu ao ponto para pegar o ônibus para encontrar a mestra Rute cedo e tentar voltar cedo também. De alguma forma, o garoto sabia que sua vida nunca mais seria como antes.

Quando estava esperando pela condução, ouviu uma já conhecida voz feminina estridente.

— Que coisa feia, sua escola é pro outro lado – disse Ashumaru, pulando do alto de um poste e aterrissando bem na frente dele.

— Você já conseguiu sua carona não foi? Agora me deixe em paz!

— Tu vai ver a velha não é? Tem certeza que você não foi lá ontem por oooutro motivo?

— Você pergunta de mais. Que tal um jogo enquanto eu espero o ônibus?

— Jogo, aposta, acordo… gosto muito disso, quais são as regras?

— Cada um responde a uma pergunta do outro, alternando. E nada de mentiras.

— Tá bem, mas eu começo. O que você foi fazer na casa da Dona Rute?

— Fui lá para ela me ensinar a sentir se outra pessoa também é paranormal – o garoto estava levando bastante a sério o acordo de não mentir – agora é minha vez, como você sabia que eu era paranormal?

— Porque eu senti uma descarga de energia mística vinda da casa da velha e uma paranormal experiente como ela não daria um mole desses, então concluí que era você. Agora sou eu: por que quer aprender a sentir paranormalidade?

— Para ajudar uma PM ou coisa assim a descobrir quem matou uma colega da minha escola.

— Para depender de poderes paranormais não deve ter sido uma morte comum…

— Não fura a fila, agora é a na minha vez – reclamou Wander – Você disse que sentiu a minha energia mística, você também é paranormal?

— Não – ela foi curta e grossa na resposta – ei, aquele ônibus vindo ali não é o seu? Faz sinal logo que o próximo só deve passar daqui a uma hora.

Assim, Wander fez sinal e logo que o ônibus parou, ele entrou.

— Pode deixar que vou te ajudar a encontrar quem matou a sua colega! – ela gritou nada discretamente para ele. O garoto apenas fez um joinha com a mão, embora ainda tivesse muitas dúvidas quanto à sua nova e estranha amiga.

Após uma longa viagem, finalmente Wander chegou à casa da Rute Mendonça, onde foi recebido por ela.

— Dona Rute, hoje eu vou aprender a sentir paranormalidade?

— Provavelmente não, isso leva tempo – a mulher respondeu calmamente.

— Mas eu não posso ficar faltando aula pra ficar vindo pra cá, alguma hora vão descobrir…

— Você nunca mas terá a vida de um adolescente normal, quanto mais cedo aceitar isso melhor. Ontem você conseguiu sentir sua própria energia, porém acabou dando uma descarga energética muito forte e rápida, o que tem dois inconvenientes: o primeiro deles é que a energia mística de ninguém é ilimitada e se você gasta muito de uma vez, acaba ficando sem nada o que te deixa inútil no meio de uma batalha.

O discípulo ouvia atentamente o que a mestra dizia.

— O segundo é que uma explosão descontrolada de energia praticamente diz “Oi, sou um paranormal inexperiente, vem me pegar!” e isso é perigoso, nunca se sabe quem está a espreita.

— Interessante, mas como eu posso não dar esse mole de novo?

— É só ouvir com atenção e seguir as minhas instruções a risca.

*****

Eram oito da manhã. Gabriel estava saindo correndo de um hospital usando uma daquelas camisolas que deixam a bunda de fora enquanto alguns seguranças corriam atrás dele. Felizmente, depois de algum tempo, o homem conseguiu despistar seus perseguidores.

Ele então parou a alguns quarteirões dali e ofegante, começou a massagear por cima de um curativo na sua barriga que doía muito.

— Como eu ia adivinhar que eu ia acabar levando um tiro em pleno voo, podia jurar que Cidade de Deus era um lugar tranquilo para sobrevoar… Tanto faz, pelo menos já arrancaram a bala do meu corpo e quando a minha energia mística voltar eu posso me curar – ele continuou seu caminho, porém dessa vez foi andando.

******

Uma mulher com cerca de quarenta anos, branca e com cabelos loiros bastante claros foi até o quintal da sua casa procurando pela filha que costumava ficar brincando com o seu cachorro. Ao olhar, viu dois cachorros, o vira-latas Bilbo e outro que ela não conhecia. Esfregou os olhos e quando os abriu, viu sua filha junto com o cão.

Madu, você vai pra escola cedo hoje? – a mãe perguntou.

— Vou sim, já estou saindo bah!

Logo depois, a jovem de dezessete anos entrou na casa, pôs o uniforme e partiu para a escola. Ela estudava no turno da tarde, mas como ela era muito branca e se sentia mal quando andava na rua com o sol a pino, preferia sair de manhã e ficar lendo na biblioteca.

No meio do caminho, um garoto da sua turma que vinha andando em uma honda biz vermelha e sem placa parou ao lado dela.

— E aí gaucha, posso trocar uma ideia contigo? – o garoto perguntou.

— Ah… claro! – ela concordou, apesar de odiar ser chamada de gaúcha.

— Pô, eu tô afim de namorar com você.

— Você é legal mas não tenho tempo pra namorar, o ENEM tá chegando e eu estou estudando o tempo todo, mas podemos ser amigos.

— Pensa bem, depois não adianta mudar de ideia e vim atrás de mim.

— Fica tranquilo que isso não vai acontecer. Tchau – a garota seguiu seu rumo, deixando o sujeito lá na friendzone.

Eu sou a Maria Eduarda e os mais íntimos me chamam de Madu. Não gosto de ser chamada de Duda e muito menos de gaúcha e sinceramente não sei porque alguns colegas da escola me chamam assim. Ah é, deve ser porque eu vim do Rio Grande do Sul e só cheguei no Rio de Janeiro no início desse ano.

Eu devo chamar muita atenção, não sei se são os meus cabelos rosas, meu sotaque diferente ou se são pelos meus seios e bunda serem grandes, mas quase toda semana tem algum garoto querendo ficar ou namorar comigo, porém eu nunca quis saber de nenhum deles. É engraçado que quando se mostra cariocas na televisão sempre são homens bonitos, malhados, bronzeados na beira da praia e com aquela malandragem sexy, mas quando cheguei aqui só vi uns guris feios e mal educados, sem contar que vim morar num bairro com clima de vulcão e a praia mais próxima fica a trinta quilômetros daqui.

Mudando de assunto, eu tenho um segredo. Quando eu era criança, eu estava no sítio da minha avó brincando de imitar os animais e de repente me transformei em um. No início me assustei, pensei que estava ficando louca mas acabei me acostumando. Hoje eu consigo me transformar em qualquer bicho e gosto muito disso, embora as vezes eu me pergunte porque tenho esse poder e se eu sou a única.

Madu chegou na escola e foi para a biblioteca como costumava fazer. Enquanto procurava algum livro na estante, ouviu a conversa de duas garotas escandalosas.

— Estão dizendo que mataram a Sara – comentou uma das estudantes.

— Não pode ser, um monte de gente viu ela pegando fogo sozinha – disse a outra.

— Você já ouviu falar de alguém pegar fogo sozinho antes? Eu acho que alguém com pacto fez aquilo com ela, tadinha…

— Tá amarrado, vamos mudar de assunto?

Madu não prestou atenção no resto da conversa, entretanto ficou pensando no que havia acabado de ouvir. É claro que ela soube do que aconteceu com a aluna daquela escola dias antes, mas até agora ela não tinha parado pra pensar sobre isso, e se a garota da biblioteca estiver certa e a tal Sara tiver sido morta? Se ela pode se transformar em animais, será que outra pessoa pode incinerar outras a distância?

A menina pegou um livro e sentou, embora não tenha conseguido se concentrar na leitura e ficou apenas perdida nos seus pensamentos. De repente, o seu momento de reflexão foi interrompido por uma voz feminina.

— Oi, qual é o seu nome? – uma garota baixinha, com longos cabelos e descalça surgiu de repente.

— Ah… Maria Eduarda, e o seu?

— Ashumaru. O que você sabe sobre a garota que morreu de combustão espontânea nessa escola? – discrição não era o forte dela.

— Não muita coisa, eu estudo de tarde e não conheço os alunos da manhã – Madu olhou melhor para a estranha – espere, você estuda aqui? Cadê o seu uniforme?

— Eu não estudo aqui, não tinha ninguém no portão então entrei.

— Realmente ficou bem fácil entrar aqui desde que demitiram os funcionários terceirizados e ficamos sem porteiro – comentou a estudante.

— Eu ouvi falar de uma morte suspeita e vim investigar – nesse momento, Ashumaru começou a fugar, como se quisesse farejar alguma coisa na outra garota – nossa, você tem cheiro de vários animais, por acaso mora em um zoológico?

Madu se assustou, será que essa estranha sentiu o cheiro de todos os animais que ela já se transformou? De toda forma, com certeza ela era alguém bem peculiar.

— O que você sabe sobre o caso dessa morte? – Maria Eduarda perguntou, sem comentar sobre o seu provável cheiro de zoológico.

— Não muita coisa, mas tenho certeza de que isso tem algo de sobrenatural nisso – afirmou Ashumaru.

“Será que essa guria realmente sabe alguma coisa sobre poderes sobrenaturais? Teria ela as respostas que tanto preciso?” pensou Madu.

— Eu não sei muita coisa e nem você, mas juntas podemos descobrir o que aconteceu – propôs Maria Eduarda.

— Está bem, mas para investigar comigo você tem que ser muito discreta, você consegue? – perguntou Ashumaru, quase gritando.

— Vou tentar, mas eu acho que nunca serei tão discreta quanto você – ironizou Madu.

As duas garotas então resolveram se separar e procurar pistas.

*****

Wander passou o dia inteiro treinando com a Rute, e pelo menos ele conseguiu sentir sua própria energia sem gastá-la completamente. Já as quatro da tarde, os dois pararam para comer.

— Não imaginei que alguém com a sua grana pediria uma quentinha de mocotó – comentou o garoto, enquanto comia.

— Ninguém gosta de caviar, as pessoas só comem porque é caro e isso é um sinal de status – disse a mulher.

— O dia tá acabando e eu tenho que voltar pra casa – ele suspirou – quando a Tatielly me encontrar vai me matar, eu ainda não aprendi a sentir paranormalidade como ela me mandou fazer.

— Como vocês se conheceram e porque ela está te obrigando a aprender a sentir paranormalidade?

— Semana passada uma garota da minha escola sofreu combustão espontânea. Logo depois a Tatielly me procurou e se apresentou como agente do F.B.I., disse que estava investigando a morte da garota e no final acabou revelando que sabia que eu era paranormal e que quem a matou também deve ser. No fim, ela me deu o seu endereço e o resto você já sabe.

— Ela deve estar atrás do amuleto do fogo… – a velha pensou em voz alta.

— Sim, a Tatielly chegou a me mostrar um desenho dele e a amiga da garota que morreu disse que ela tinha recebido um colar de um admirador misterioso no dia em que morreu, e o colar batia com a descrição desse amuleto.

— Já que a Tatielly te envolveu nisso, acho que você merece ao menos saber o que está acontecendo. Existe um amuleto mágico chamado amuleto do fogo, e entre outras coisas, possui a característica de só poder ser pego diretamente por paranormais. Se alguém que não possua este dom ficar em contato com ele por muito tempo, ela queima até a morte. É tudo o que eu tenho para dizer, se quiser saber mais leia no livro que aquela sua amiguinha roubou de mim.

— Como?

— A Ashumaru, eu sei que vocês foram embora daqui juntos ontem. Ela roubou um dos meus livros e pensa que eu não sei, diga que se ela der o livro pra você eu continuo fingindo que não sei o que ela fez.

— Ah… tá bom então – ele se levantou – a viagem daqui pra minha casa é a e tenho que ir logo.

— Está bom. Amanhã eu te ensinarei mais coisas e talvez, em pouco tempo, você consiga sentir paranormalidade, mas se me permite dizer seria mais útil se eu te ensinasse a fazer um sexo oral perfeito, eu vou me depilar na hora do banho…

— Informação demais, tchau – Wander deixou a casa da mestra, tentando não visualizar a proposta dela.

No início da noite, o garoto chegou ao bairro onde mora e quando estava na rua de casa, encontrou Ashumaru e Maria Eduarda juntas.

— Oi Wander! – saudou Maru.

— Oi garota, oi outra garota.

— Eu sei que você comeu a velha o dia inteiro e deve estar cansado então vou ser rápida.

— Ei, eu não comi ninguém! – ele protestou.

— Antes que eu me esqueça, Wander Madu, Madu Wander – ela os apresentou rapidamente – descobrimos que a Sara, a menina que morreu, recebeu um colar com um estranho pingente e olhe só – ela pegou um livro que estava escondido em sua estranha saia e o abriu – era igualzinho a esse amuleto mágico.

— Disso eu já sabia, como ela não era paranormal acabou sofrendo combustão espontânea e depois o amuleto sumiu, por isso concluímos que há mais um paranormal na escola e que ele pode ter dado o amuleto pra Sara de propósito para matá-la – falou Wander.

— Bah, nós duas trabalhamos a tarde toda e descobrimos o que ele já sabia – disse Maria Eduarda.

— Temos que encontrar essa pessoa e entregá-la pro F.B.I. Você disse que sentiu a minha energia mística, pode sentir a do bandido para pegarmos logo ele? – Wander perguntou para a Ashumaru.

— Só se ele for burro suficiente pra fazer uma explosão de energia de uma vez só igual você fez ontem – ela respondeu.

— Já está ficando tarde, tenho que ir. Prazer em conhecê-los, qualquer novidade me avisem! – Maria Eduarda se despediu e partiu.

“Então paranormais realmente existem… Será que eu também sou uma?” Madu especulou, enquanto ia para casa.

— Eu também tenho que ir, e aliás, a dona Rute disse pra você me dar o livro que você roubou dela – Wander disse para Ashumaru.

— Eu não roubei, só peguei emprestado! Qualquer dia eu te deixo dar uma olhadinha, agora vou dar um rolé por aí, ver se tem alguma coisa boa pra se fazer nesse lugar – Maru também saiu.

Wander continuou indo para casa e quando já estava no portão, foi interceptado pela Tatielly.

— O que você estava falando com aquelas garotas? – ela perguntou de maneira intimidadora.

— Combinando um ménage pra mais tarde, quer participar?

— Idiota! – ela deu um soco na barriga do rapaz, que se curvou no chão, com dor – aquelas garotas estavam perguntando coisas sobre a morte da Sara na escola essa tarde, se você tiver falado sobre mim ou sobre o amuleto eu vou te matar.

— Pode deixar, não falei nada – ele respondeu, se recompondo do golpe.

— Já aprendeu a sentir paranormalidade?

— Ainda não, a Rute falou que isso demora.

— Você tem até amanhã, caso contrário você vai ficar em Guantánamo até morrer.

A mulher pegou sua moto, que estava na calçada, e saiu em disparada. Sem ter muito o que fazer, Wander apenas entrou em casa.

Na manhã seguinte, Wanderwal saiu de casa mais uma vez dizendo que estava indo para a escola, porém seu plano era ir novamente na casa da Rute Mendonça.

— Juro que essa vai ser a última vez que vou treinar com a velha, se alguém vier na minha casa saber por que eu tô faltando aula eu tô fudido – resmungou o estudante, enquanto se dirigia ao ponto de ônibus e depois de esperar bastante, ele conseguiu pegar o ônibus a fim de encontrar a mestra.

Pouco mais tarde, Maria Eduarda saiu de casa rumo à escola e assim que botou os pés na rua, encontrou Ashumaru.

— Como você descobriu onde eu moro? – perguntou Madu.

— Segui o cheiro de estábulo – ela deu uma risadinha, embora a colega não tenha achado nenhuma graça – brincadeira, fui perguntando por aí onde morava uma garota de cabelos rosas e foi fácil de achar.

— Alguma novidade sobre a nossa investigação?

— Nenhuma. A nossa maior suspeita é que tenha outro paranormal na escola que você estuda além do Wander, mas enquanto ele não aprender a perceber outros paranormais, ficaremos de mãos atadas.

— Você não consegue fazer isso? Você também não é paranormal?

— Na verdade não, e parece que você também não é.

— Você deve estar certa… – Eduarda falou em tom baixo, na verdade ela mesma não sabia o que era.

— Mas você acreditou tão rápido que a garota foi morta com poderes sobrenaturais e que o Wander não é normal, você já presenciou alguma coisa estranha sinistra do outro mundo?

— Ah… não, sou só muito crédula mesmo – a garota de cabelos rosas mentiu – e você, já teve alguma experiência sobrenatural?

— Eu já vi muita coisa, mas nem vou contar porque você não vai acreditar. Tá indo pra escola? Vou com você, lá eu posso arranjar um rango grátis, e aliás, tem caras bonitos por lá?

— Não mesmo!

Assim, as duas garotas foram conversando para a escola.

*****

Já no fim da tarde, Wander estava na sala na qual ele recebia o treinamento da Rute Mendonça.

— Tem certeza que eu tenho que ficar nessa posição? – o aprendiz perguntou, agoniado.

— Essa é a melhor posição para sentir a energia de outra pessoa, você tem que ficar com o pé direito e a palma esquerda totalmente apoiados no chão, cabeça erguida, olhos e bocas totalmente abertos, o que tem de difícil nisso?

— Tá bom – ele tentava desesperadamente ficar dessa maneira por mais de dois segundos – e depois?

— Provavelmente o seu sentido mais aguçado seja a visão, então faça a sua energia mística fluir em direção aos seus olhos.

O aluno tentava fazer o que a mestra mandou.

— Agora eu vou parar de esconder a minha energia. Se você fez tudo direitinho, vai ver uma aura vermelha em torno do meu corpo.

Wander olhava, olhava, tentava se equilibrar porém não conseguia ver nada.

— Vou te dar um incentivo, vou tirar minha roupa e só coloco de volta quando você conseguir enxergar o que eu descrevi, e não vale mentir porque eu vou perceber e vou te punir se fizer isso.

Rute fez o prometido e se despiu totalmente, para o desespero do rapaz. Ele tentava ver a tal aura vermelha, porém não enxergava nada além de rugas.

— Já que estou tendo plateia vou aproveitar e me masturbar pra você ver…

Wander não acreditou que ela faria isso, mas quando ela começou o pavor foi tanto que sua energia fluiu freneticamente através dos seus olhos e finalmente, ele viu uma aura dourada em torno do corpo da mulher.

— Dona Rute, eu tô vendo alguma coisa mas acho que tá errado, é dourado e não vermelho.

Nesse momento, ela se vestiu.

— O que foi, sou um caso perdido? – o discípulo estranhou.

— Realmente você viu a minha energia. Eu te dei uma informação falsa, se dissesse que era vermelha eu saberia que mentiu e ia te punir fazendo um demonstração com a minha coleção de vibradores para você ver.

— Graças a minha avó que sempre me disse preu nunca mentir pros mais velhos…

— Quando você precisar verificar se alguém é paranormal, faça exatamente o que fez aqui. É claro que é possível detectar paranormalidade sem todos esses passos, mas como você tem pressa isso é o máximo que posso te ensinar.

— Obrigado dona Rute, agora tô indo!

Ele saiu dali correndo, como se tentasse deixar para trás a terrível imagem que não saía da sua mente.

No dia seguinte, Wander estava feliz e satisfeito, afinal, não precisaria ver a velha tarada novamente. Foi para a escola e logo na entrada, quando os estudantes ainda estavam no pátio, ele começou a fazer a pose estranha e ficou olhando para os colegas, tentando enxergar uma aura colorida em algum deles, e obviamente, todos ficaram olhando pra ele e rindo.

— Ei Wander, tu faltou três dias e agora tá aí desse jeito, bateu a cabeça e ficou maluco? – perguntou Orelha, seu amigo.

— Não é isso – Wander tentava falar e se concentrar ao mesmo tempo – eu tava… aprendendo yoga com uma mestra e agora tô treinando uma posição.

— Tá todo mundo te olhando, desse jeito é que tu nunca vai pegar ninguém mesmo.

Logo, o sinal tocou.

— Vai pra sala ou vai ficar aí fazendo posição do dromedário? – perguntou Orelha.

— Sobe na minha frente, eu já vou.

Eu sou o Orelha, melhor amigo do Wander. Essa foi a minha primeira aparição e acho que vai ser a última, então, não sei bem o que dizer… já sei, gatinhas, mandem nudes pro meu zap zap, prometo recompensá-las com nudes minhas também. Fui!

Um pouco depois, Wander foi para a sala de aula, frustrado por não ter conseguido sentir a paranormalidade de nenhum aluno. Na hora do intervalo, encontrou com Maria Eduarda e a Ashumaru.

— E aí garotas – ele foi falar com elas – conseguiram descobrir alguma coisa nova?

— Nada de novo – disse Ashumaru – e você?

— Eu já aprendi a sentir paranormalidade, mas tenho que ficar numa posição ridícula e já tentei ver em tudo quanto é aluno e não consegui ver nada.

— E se não for um aluno? – sugeriu Eduarda.

Ashumaru e Wander ficaram com cara de paisagem, então a garota de cabelos rosas continuou.

— Além de alunos aqui tem professores, funcionários, gente de fora que fica passeando por aqui… Por que não tentar outras pessoas?

A ideia era tão simples e ao mesmo tempo tão genial que os colegas nem conseguiam acreditar em como não tinham pensado nisso antes.

— Vou na sala dos professores, já volto!

Wander subiu a rampa e foi até a sala dos professores, como estava no intervalo, todos estavam reunidos e seria fácil ver se algum deles era paranormal. Agora o grande problema era explicar o porquê dele ficar com o pé direito e a palma esquerda totalmente apoiados no chão, cabeça erguida, olhos e bocas totalmente abertos olhando para os professores.

Enfim, ele pediu licença e chamou o professor de Educação Física.

— O que você quer? – perguntou o professor.

— Eu aprendi uma posição de yoga e quero ver se tô fazendo certo, olha só.

Wander fez a tal posição, olhando atentamente para todos para ver se enxergava algo de diferente.

— Eu não entendo de yoga, mas isso tá feio – comentou o professor.

— Vamo descendo, alunos não podem ficar aqui na hora do intervalo – Joaquim, o inspetor da escola, chegou expulsando Wanderwal.

— Tá bom, já vou descer… – quando Wander olhou para o inspetor, viu uma aura parecida com a que viu ao redor da Rute no dia anterior, porém era azulada e menos brilhante do que a da mestra.

Ele voltou apressado para o pátio e logo encontrou as garotas.

— Eu consegui!– Wander anunciou para elas.

— Agora fiquei curiosa, quem era? Meu palpite é que é o professor de filosofia, aquele sujeito é muito estranho – disse Maria Eduarda.

— Não é um professor, é o Joaquim.

— O padeiro? – a gaúcha perguntou.

— Não, o inspetor.

— Então foi ele quem matou a garota, já podemos pegar ele – falou Ashumaru.

— Eu não vou me meter mais nisso, quando a Tatielly me procurar vou caguetar o cara e essa treta já não vai ser mais problema meu.

— Minhas dúvidas ainda não foram respondidas… – Maria Eduarda pensou alto.

O sinal tocou, então Wander voltou para a sala de aula enquanto as meninas foram para a biblioteca.

*****

Bem distante dali, um garoto aparentando ter dezessete para dezoito anos, cabelos brancos meticulosamente bagunçados estava em um quarto jogando just dance, falando no telefone e lendo um livro, tudo ao mesmo tempo. Enfim, alguém deu duas batidas na porta do quarto.

— Posso entrar? – perguntou uma voz feminina.

— Fica tranquila tia, não tô tocando punheta não…

— Engraçadinho – a mulher abriu a porta – eu vou dar uma saída, tem janta pronta, é só esquentar. E vê se tira um pouco esse cordão esquisito, você não larga disso nem pra tomar banho.

— Tá bom – ele concordou, embora nem tenha escutado o que ela disse.

A mulher saiu, enquanto ele continuou com suas atividades. Ao lado dele, estava uma bela garota extremamente branca, com cabelos azuis claros que cobriam um dos seus olhos. Para completar, ela usava um vestido branco esvoaçante.

— Em, o belo Mark Lavesque vai ser incomodado. Ainda não sei como, mas preciso protegê-lo…

Meu nome é Angel Moon, pode parecer estranho, mas foi o nome que minha mãe escolheu e é bem melhor do que Luz Raio Estrela e Luar como o meu pai queria. Aliás, ambos eram hippies.

Talvez estejam se perguntando porque eu estou no quarto de um garoto e ele não consegue me ver, será que é porque ele é hiperativo e não presta atenção em nada? Poderia ser, mas a verdade é que eu já estou morta, sou um espírito e poucos humanos conseguem me ver. Isso não significa que eu não interaja com o mundo físico, eu aprendi com o tempo a me manifestar de algumas maneiras, mas isso não importa agora.

O que interessa é que o Mark vai entrar no meio de um fogo cruzado sem nem saber por que, mas eu vou ajudá-lo e tenho certeza de que sendo um Lavesque, ele se sairá bem.

Notas finais
Obrigado aos que chegaram até aqui. Me desculpem por ainda não estar dando destaque a todos os personagens de leitores, mas eu espero terminar esse primeiro arco no próximo capítulo e depois disso eu junto todo mundo. Caso eu não publique até o natal, feliz natal!