Realidades - Ernesto e Ema
4 O Reencontro
Notas iniciais
Subiu as escadas do cortiço as pressas sendo observada com curiosidade por todos por quem ela passava, parou de frente a porta, aquela porta de madeira envelhecida e gasta que sempre batia com a máxima altivez possível. Não foi diferente dessa vez, embora as pernas estivessem bambas, embora tremesse, embora seu coração parecesse que ia saltar pela boca. Respirou fundo, engoliu seco e bateu forte.
Esperou e nada, bateu novamente... nada! Estava impaciente e não esperou mais, adentrou com tudo no quarto dele.
— Mas que falta de educação, deixar-me esperando na porta! – ralhou logo de entrada.
Ernesto saltou da cama como se tivesse levado um choque, incrédulo, olhava para ela como se fosse uma miragem! Mesmo assim ela percebeu sua face abatida.
— Ema?! Es-está... está linda! – sua voz pareceu meio inervada, e os olhos dele brilharam.
Ela lhe alçou as sobrancelhas, ainda agitada e a face corada.
— O-oque...? Ema??! – ele pareceu aperceber-se de algo, coçou os olhos como se para limpar a visão.
— Sou eu mesma, seu italiano bronco! – disse ainda nervosa, embora num resquício de sorriso por causa da confusão dele.
— O-oque... — ele pigarreou, recuperando-se do momento de quimera. — O que faz aqui? E- e ainda vestida assim? Você não deveria está casando-se?
— Não. — ela mordeu os lábios, apreensiva. — Não deveria! Você sabe que eu não deveria.
— Eu não entendo!
— Não entende?! O que não entende? É tão óbvio! Você estava certo Ernesto. Você sempre esteve certo!
A face dele parecia escandalizada. Porque realmente a cena poderia está sendo um pouco demais para ele. Ema Cavalcante a baronesinha do café estava ali parada em sua frente, num quarto de cortiço, trajada de noiva e ainda por cima lhe dizendo que ele estava certo. Só podia ser alucinação!
— Repita isso, por favor... É um momento único na vida! A baronesinha admitindo que o carcamano aqui sempre esteve certo! — ele não pôde o gracejo.
Ela rolou os olhos.
— Não seja idiota!
Ele finalmente sorriu. Um riso largo, lindo.
— O que aconteceu?
— Eu fugi! — ela disse corando. — Fugi da igreja... no meio do casamento!
— Você fez o quê? — Ernesto quase gritou.
— Eu sei, eu sei... fui uma inconseqüente, Ernesto! Meu Deus! — ela passou as mãos pelo rosto. — Como pude deixar isso ir tão longe, como? Como pude fazer isso com Jorge?! — ela começou a se agitar, sentiu as lágrimas virem à seus olhos, porém sentiu os braços fortes e quentes a envolverem, e nunca se sentiu tão acolhida na vida.
— Sente-se aqui, baronesinha! — ele a encaminhou até a cama, ainda a abraçando, depois a abrigou em seu peito, deixando-a chorar.
Ema ouvia o coração dele bater agitado sobre o peito em que estava recostada. Ernesto a aquecia em cada gesto, e ela se perguntou naquele momento como poderia viver sem aquilo. Por muito pouco perdera, e chorou por isso, chorou pensando em quão vazia seria a sua vida sem aquilo. Abraçou-se mais apertado a ele, e ele a ela, numa necessidade infundada de tê-lo cada vez mais próximo, levantou a cabeça em sua direção, tão perto, tão próximo, ela não resistiu, beijou-o.
E ele não demorou um minuto para corresponder-lhe, a abraçando com ainda mais força, a apertando contra si, como se com medo que ela pudesse simplesmente desaparecer, ou escapar de suas mãos. Mal sabia ele que está seria a última coisa que ela faria. Ema queria, se fosse possível, se fundir a ele, e então sim, com ele, com seu italiano mal criado tornarem-se um só.
O beijo era intenso e apaixonado, suculento como sempre fora, porém tinha algo mais, tinha uma pitada a mais de certeza, de posse, e de desejo! Apertavam-se um no outro e com as mãos também sedentas descobrindo cada pedacinho de pele que se escapava dos tecidos das roupas.
Aquilo estava ficando insano, ela não conseguia raciocinar e a cada toque de Ernesto uma corrente elétrica perpassava seu corpo. Sentia-se quente por fora e um frio aconchegante por dentro, a palavra era extasiada, talvez. Separam-se apenas quando ouviram batidas fortes na porta, e só então se deu conta que já estava deitada na cama com o italiano sobre seu corpo. Corou imediatamente, mas do que possivelmente já estava.
Ele levantou-se meio desconcertado, estendendo a mão para ela que se aprumou, sentando-se na cama pondo-se apropriada.
Novamente as batidas na porta.
— Ernesto! — era a voz de Aurélio. — Ernesto! Ema está aí?
— Não abra — ela sussurrou.
Ele alçou uma de suas sobrancelhas, a fazendo entender que eles precisavam enfrentar aquilo. O viu ir até a porta e a abrir. No estante seguinte Aurélio e Jorge adentravam o quarto.
— O que está havendo Ema? — perguntou-lhe o pai.
— Ema, o que.. o que está fazendo? — perguntou Jorge, o olhar perdido entre ela e Ernesto e às lágrimas novamente o ameaçando. Ela se recriminou novamente. Como pôde ser tão cruel com ele?
— Eu sinto muito Jorge! Não tenho como me desculpar, mas... eu simplesmente não podia!
— Mas precisava ser daquele jeito, Ema?! Deixando-me plantado no altar na frente de todos! — pela primeira vez na vida, Ema via Jorge perto de perder o controle.
— Eu lamento!
— Você lamenta? Por acaso tem idéia das consequências de seus atos? Como pude ser tão cego? — ele passou as mãos, exasperado, pelo rosto, apesar disso educado como sempre, não levantou nem um pouco a voz. — Você é e sempre foi uma menina mimada, e eu me deixei cair de amores... Como pude ser tão estúpido?!
— Não fale assim, Jorge! — ela levantou-se e pensou em ir até ele, mas logo entendeu que não ajudaria. — Eu entendo que esteja me odiando agora, mas, por favor, não fale assim!
— Como espera que eu fale? Como espera que eu me dirija a você novamente?! — embora ele estivesse bravo, Ema via a dor titilar em seus olhos, odiou-se ainda mais. Não amava Jorge como homem, mas o amava como amigo, e magoá-lo lhe causava grande dor.
— Perdão! — pediu, era o único que lhe restara.
— Perdoar? — Jorge suspirou. — Não me peça isso, você simplesmente não tem esse direito! — ele novamente olhou dela para Ernesto e para ela novamente. — Quero ver por quanto tempo poderá viver assim sem seus vestidos, sem seus bailes, seus sarais...
— Como pode pensar isso de mim, Jorge?
— Você me faz pensar pior!
Dito isso e lhe lançando um olhar de dor e desprezo ele saiu do quarto. Ema dilacerada virou-se para Aurélio.
— Papai, eu...
— Não! — Aurélio se afastou, seu rosto severo como Ema nunca vira antes. — Nunca senti tamanha vergonha em minha vida! Como pôde fazer isso conosco?
— Papai, eu... eu só estava indo atrás da minha felicidade, como o senhor me fez prometer que faria!
— E precisava ser desse jeito, Ema? Magoando desse jeito o Jorge? Colocando-nos no ridículo?! Tem idéia de como está o seu avô? Você teve tanto tempo, fora tantas vezes alertada, para agora... isso?! Que decepção!
— Papai!
— Que decepção, meu Deus! — repetiu ele com a palavra definindo seu olhar, Ema nunca se sentiu tão miserável. Embrenhou as mãos pelos cabelos já despenteados, com as lágrimas novamente lhe escorrendo, caiu na cama novamente. — Vou voltar para o hotel, seu avô quer voltar imediatamente para o Vale do Café.
— Ele não quer me ver?
— O que você acha? — Aurélio deixou a pergunta no ar e saiu.
Tudo estava desmoronando. Ela entendia seu erro, mas achou que ao menos seu pai e seu avô a entenderia, já que ambos a fizera prometer que seria feliz.
— Ele tem razão! — ela ouviu a voz de Ernesto, firme, rouca, afetada.
— O que? — ela o olhou, embora a vista estivesse embaçada.
— Ele tem razão! — repetiu, ele estava recostado no canto da parede a observando.
— Quem?
— Jorge!
— Não estou entendendo.
— Como ficará comigo, Ema? Eu não tenho nada para lhe oferecer...
Ela levantou-se o olhando espantada.
— Ernesto, por favor, eu...
— Não. Jorge tem razão! Você tinha razão! — ele não a olhava, mirava um ponto no ar que só ele podia enxergar. — A senhorita... — ela percebeu que ele se corrigira. — tinha razão quando disse que não podia ficar comigo. Eu não a faria feliz, a senhorita sempre esperara mais de mim do que eu poderei lhe dar.
— Ernesto — ela aproximou-se dele. — Isso não é verdade! Eu quero você — o choro já a fazia soluçar. — Eu quero ficar com você para sempre, não importa onde ou como....
— Não sabe o que está dizendo! — ele afastou-se dela. — Eu não devia ter ido ao seu quarto ontem... Eu... — ela o ouviu soluçar. — Preciso pensar.
E ele também saiu porta a fora a deixando lá, chorando, despedaçada, desesperada como se o mundo tivesse se aberto a seus pés... Um grito agudo rasgou sua garganta, um grito de terror e de dor.
Estava sozinha!
...
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