Realidade x Verdade
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Meu segundo yaoi explicito em poucos dias, estou fora de controle!
Maxwell Churchill
Durante o Exame de Aptidão que todas as crianças de sete anos faziam em Pangea, Maxwell foi o único do orfanato a alcançar uma nota suficientemente alta para ir para a Cúpula. A Cúpula era um complexo no centro da cidade, onde eram feita pesquisas para todo e qualquer avanço tecnológico.
Depois da triagem, Max foi levado para o setor de Engenharia Robótica. Não demorou muito tempo até que ele se enturmasse, mesmo sendo o mais jovem entre os estudantes. Durante os horários de intervalo, onde quer que o grupo mais barulhento estivesse, lá ele estaria, sua risada ecoando pelos corredores. Sua mesa no refeitório era a mais concorrida; os novatos seguiam seu exemplo, e os veteranos o respeitavam como seu igual.
O que ninguém percebia era que pouco sabiam do próprio Maxwell. Ele sempre se esquivava de perguntas sobre o orfanato e a família com brincadeiras bem humoradas, e uma vez chegou a ir do laboratório até o refeitório andando sobre as mãos para fugir da pergunta sobre onde passaria as festas de fim de ano, única época que lhes era permitido sair da Cúpula.
Maxwell não tinha para onde ir.
Todavia, ele não era uma pessoa triste. Max apenas preferia ignorar seu passado solitário, pensando que ninguém entenderia.
Ele ainda não tinha notado o garoto triste que sentava nos fundos do refeitório, sozinho.
Simon Harmison
Simon não se lembrava de uma vida fora da Cúpula, embora seu arquivo dissesse que ele chegou ali depois de seu aniversário de três anos. Também não se lembrava do tempo que tinha dois braços, mas sua ficha médica dizia que o procedimento tinha acontecido depois de um acidente durante seus cinco anos.
Tudo que Simon lembrava era de trabalhar e programar.
Desde que podia se lembrar ele era o principal estudante do setor de Software. Podia quebrar as defesas de qualquer sistema, invadir banco de dados, retirar o que quisesse e sair sem deixar vestígios. Na verdade, uma vez invadiu o sistema de um país vizinho e consertou as falhas do sistema. Recebeu uma bronca de seus superiores, mas mesmo quando eles ralhavam, havia aquele brilho de divertimento nos olhos deles.
Simon não entedia o porquê. Apenas via algo com defeito e consertava. Não se importava com disputas de poder, e a possível guerra que diziam se aproximar. Ele apenas queria fazer seu trabalho.
Falava pouco, e principalmente sobre seus projetos. Nem mesmo seu professor podia dizer que conhecia aquele jovem. Na verdade, os outros estudantes se sentiam incomodados na presença de Simon, por algo que não conseguiam descrever. Era como se o garoto fosse um robô, e não um ser vivo. O braço direito robótico, sempre a vista, não ajudava muito.
Até que Simon recebeu seu próprio projeto sobre realidade virtual e recebeu o próprio laboratório, e todos respiraram aliviados. Ele mesmo não se importou. Pela primeira vez estava trabalhando sozinho, sem precisar seguir ordens ou reportar a ninguém. Era tudo que ele sempre quis e não importava o que outros pensavam.
Simon estava mais que satisfeito em fazer tudo sozinho.
Até que, quando ele já tinha 14 anos, escorregou no laboratório e caiu em cima de seu braço robótico, que parou de funcionar devidamente.
Maxwell e Simon
Maxwell não entendeu quando teve que sair do seu laboratório, onde trabalhava em um projeto de robô de batalha para efetuar um conserto. Porém, ordens eram ordens, e mesmo contrariado, seguiu rumo ao setor de Software.
“O que eles acham que eu sou, um mecânico? Já faz oito anos que eu moro neste lugar, que tal um pouco de respeito?” pensava irritado, andando pelos corredores, encarando mal-humorado os sensores de movimento. Ele mesmo tinha projetado o hardware daqueles sensores, que continham um programa de reconhecimento que alertava os robôs da segurança se alguém não permitido estava perambulando em um setor proibido. O humor de Max tinha piorado quando teve que ir na segurança pedir permissão de duas horas para entrar no setor de Software, por que se não, suas próprias criações iam se virar contra ele.
― Deviam se envergonhar, depois de tudo que eu fiz por vocês ― resmungou para um dos sensores. ― Filhos ingratos! Eu devia deixar vocês sem reparos por uma semana, pra aprenderem a respeitar o pai de vocês.
“Ou pelo menos um deles.” Completou para si mesmo. Nunca tinha conhecido quem criou o programa.
Enfim chegou ao Laboratório onde havia sido solicitado. Aproximou-se do sensor da trava de segurança e deixou que fizesse a leitura de sua íris, para segundos depois, ouvir baixinho o computador anunciar sua presença a quem quer que estivesse lá dentro. Em seguida, a porta abriu, e Max ficou muito confuso ao entrar. Lá dentro apenas havia uma escrivaninha com teclado virtual sobre ela, e mais para o fundo, o que lembrava ser um aparelho de um exame médico realmente antigo, Ressonância Magnética.
― Senhor Churchill? ― Maxwell quase pulou de susto ao ouvir uma voz próxima a ele. ― Desculpe.
Max encarou o jovem que, no ponto de vista dele, tinha se materializado ali e notou por que tinha sido chamado. O braço mecânico do garoto estava chiando, e uma ou outra faísca podia ser vista.
― Eu mesmo. ― Estendeu a mão. ― Maxwell Churchill.
― Não é uma boa ideia ― Simon falou olhando para a mão estendida de Max. ― Sou o Doutor Simon Harmison. Desculpe-me por afastá-lo das suas obrigações, mas preciso de um reparo urgente para poder voltar para as minhas.
Max ficou desconsertado por um momento pelo formalismo do outro, mas relevou.
― Qual é o problema? ― Sem pedir licença, foi até a escrivaninha e sentou-se na cadeira giratória.
― Não consigo controlar bem meu braço depois de uma queda hoje cedo. Tenho dificuldade em tarefas simples, como segurar copos, digitar no teclado virtual e outras tarefas que precisam de controle de força.
― Ah, você deve ter desconectado alguns cabos na queda. ― Max sorriu e retirou seu kit de ferramentas que tinha preso a perna. ― Isso é fácil de resolver, uns quinze ou vinte minutos e você vai ser o novo Edward Elric.
― Não conheço nenhum Edward Elric. Ele é um cientista?
― De certa forma. Nunca assistiu Fullmetal Alchemist? ― Maxwell retirou uma placa de metal na altura do ombro de Simon para ter acesso aos cabos.
― Alquimia é um tipo de ciência ultrapassada, mais semelhante a uma religião do que a uma ciência propriamente dita.
Max parou o que estava fazendo para olhar incrédulo para Simon, um sorriso ameaçando se formar enquanto o doutor apenas o encarou de volta, sua face em branco. E isso foi o suficiente para fazer Maxwell começar a gargalhar, antes de voltar a seu serviço.
― Você é inacreditável, cara.
― Não entendo, se estou diante de você, como pode não acreditar na minha existência? ― Sua expressão séria impediria qualquer um de pensar que ele estava gracejando.
― Linguagem figurada, baixinho. ― Max revirou os olhos, mas o sorriso amigável não sumiu enquanto ele prosseguia com o reparo.
― Ah. ― Simon assentiu.
― Foi você que fez a solicitação pedindo por mim, não foi? ― Max não era um grande fã de silêncio.
― Fiquei satisfeito com seu trabalho no hardware dos sensores.
― Você programou? ― Levantou a cabeça, um sorriso radiante em seus lábios. ― Você fez um ótimo trabalho! ― Ao perceber que Simon não responderia ao elogio, continuou falando. ― Agora estou trabalhando em robôs de batalha. Recebemos um protótipo de software, mas eu não gostei muito. Movimentos muito previsíveis.
― Posso revisar o logaritmo do programa, se me enviar, mas como é apenas um protótipo que será testado dentro do laboratório, recomendo não ampliar a variação de movimentos até ter a certeza que é seguro.
― Quer participar desse projeto com a gente? ― Max perguntou animado. ― Temos uma turma boa, lá. Gente bem legal.
Simon se retraiu um pouco.
― Ficarei apenas na consultoria, em retribuição ao reparo que está fazendo, mas tenho meu próprio projeto.
― E qual seria esse? ― Olhou ao redor. ― Não parece ter muita coisa pra fazer por aqui.
― Estou responsável pelos programas de realidade virtual, para criar ambientes realistas e seguros de treinamento. Não apenas para soldados de campo, mas também para pilotos.
― Legal! ― Max exclamou. ― Ei, eu vou reconectar os cabos. Você vai sentir um choque desconfortável na sua medula, mas aguente firme e fique parado, certo? ― Simon assentiu.
Ele estremeceu cada vez que Maxwell reconectava um cabo, mas não se mexeu. Quando acabou, Max colocou a placa de metal do lugar e simulou movimentos com o braço mecânico, para testar as articulações.
― Muito bem, um pequeno teste. ― Mostrou suas finas ferramentas sobre a escrivaninha. ― Tente pegá-las e ordená-las por tamanho e me diga se está tudo normal.
Simon fez o que lhe foi pedido rapidamente, e se sobressaltou ao sentir Maxwell bagunçando seu cabelo escuro.
― Prontinho, novo em folha. ― Sorriu radiante, e foi aí que Simon realmente olhou para o engenheiro.
O cabelo cor de palha, as olheiras discretas sob os olhos castanhos e o sorriso que parecia que era maior que o rosto. Simon rapidamente desviou o olhar.
― Obrigado. Irei retribuir o favor em breve ― falou olhando para os próprios pés.
― Sem pressa. ― Max guardou suas ferramentas. ― Ei, posso te adicionar na minha lista de contatos no sistema? Assim a gente pode se comunicar mais facilmente e você não vai precisar fazer uma requisição se precisar de outro reparo. ― Ergueu o pulso que tinha o relógio, clicou em um botão lateral e uma tela holográfica surgiu.
Simon sentiu seu próprio relógio vibrar, e desconfortável, ergueu o braço para aceitar o convite, enquanto fingia que não percebia a surpresa de Max ao ver sua lista de contatos vazia.
― Agradeço pelo reparo e não quero ser rude, mas preciso recuperar o tempo perdido. ― Simon tocou o teclado virtual e uma tela holográfica quase do tamanho de uma parede surgiu na frente da escrivaninha.
― Tudo bem. ― Max tornou a bagunçar os cabelos escuros de Simon. ― A gente se vê por aí, baixinho.
Maxwell saiu acenando, e os olhos azuis de Simon não o abandonaram nem por um segundo.
― Mas... ― falou para a sala vazia ― a minha altura é compatível com a minha idade.
Simon e Maxwell
Simon agarrou a manga do braço direito do casaco que vestia, para ter a certeza que seu braço mecânico estava bem coberto. Não entendia o porquê, mas sabia que seus colegas não gostavam muito de olhar aquela peça mecânica.
Não teria saído do seu laboratório se não fosse por Maxwell ter adoecido. Desde o primeiro encontro entre os dois, três meses antes, Max sempre enviava mensagens e e-mails contando sobre seu dia-a-dia, e Simon respondia com ideias sobre projetos futuros. Não tinha certeza se era a maneira correta de responder e-mails pessoais, mas Max nunca havia reclamado. Ele até tinha mandado um vídeo de um mini robô tocando piano no seu aniversário depois de Simon ter mencionado que queria uma forma de recuperar partituras de músicas clássicas que tinham se perdido durante a última guerra.
E era por isso que Simon tinha resolvido sair de seu isolamento e visitar seu amigo na enfermaria. Max faria o mesmo por ele.
Por sorte, nenhuma das turmas de engenharia estava em horário livre, então o quarto de Max estava vazio, com o paciente olhando entediado para a tela holográfica que surgia de seu relógio.
― Senhor... quero dizer, Maxwell? ― chamou, hesitante. Já tinha levado bronca de Max muitas vezes por causa do tratamento formal.
― Simon! ― O rosto de Maxwell se iluminou com o sorriso que ele esboçou. ― Eu não acredito que a versão masculina de Rapunzel abandonou a torre!
―... Rapunzel? ― Simon não escondeu sua confusão.
― Sério, cara, pelo menos os contos de fadas. ― Max revirou os olhos. ― É conhecimento básico! Mas deixa pra lá. O que o traz aqui?
― Queria ver como você está ― respondeu se aproximando da cama, e esperou o comentário brincalhão de Maxwell.
Porém, o que veio foi um sorriso carinhoso que fez Simon olhar para os próprios pés. Sempre desviava o olhar diante as expressões emotivas de Max.
― Obrigado, baixinho ― disse suavemente. ― Não se preocupe, é só pressão baixa. Supostamente estou trabalhando demais e comendo de menos. Recebi uma bronca por isso. Nossos chefes parecem esquecer que são eles que nos matam de trabalhar.
― Eu nunca fiquei doente.
― Você é um viciado em trabalho, acho que vai ficar doente se ficar de férias, isso sim. ― Max riu por alguns instantes. ― Você deve enlouquecer quando entramos nas férias de fim de ano.
― Não, eu fico no laboratório. ― Simon se sentou na beirada da cama.
― Você não... ― Max se sentia desconfortável para perguntar, já que ele mesmo não gostava de responder essa pergunta ― tem família?
― Meus pais estão cadastrados no sistema, e os dois estão vivos, mas não me lembro deles ― Simon respondeu com o rosto sem expressão. ― Estou aqui desde os três anos. Não lembro de nada que não seja a Cúpula. Então, considero desnecessário visitar minha família.
― Você nunca saiu daqui? ― Max estava perplexo. ― Quero dizer, você nem chegou a fazer o Exame de Aptidão, certo? Era muito novo para isso. Só... te trouxeram pra cá?
― Sim. ― Simon o olhava diretamente nos olhos, mostrando que não se importava com o que tinha acontecido. ― Segundo os arquivos, meus pais me enviaram para cá depois de eu hackear o sistema da fábrica de produtos alimentícios da família. Eu sou mais útil aqui, de qualquer maneira. Minha função já foi decidida a anos atrás, não me encaixo em qualquer outro lugar.
E no instante seguinte, Simon estava com os olhos arregalados, enquanto os braços de Maxwell estavam ao seu redor, o queixo dele em seu ombro e Simon conseguia sentir o cheiro almiscarado de Max.
― O que está fazendo? ― Sentia-se encolher por causa do constrangimento, mas não fez nenhum movimento para afastar-se.
― Estou te abraçando, anta. ― Max riu próximo da orelha de Simon. ― É o que amigos fazem.
― Amigo: que é ligado a outrem por laços de amizade. Companheiro, protetor. ― Simon recitou, ainda paralisado.
Maxwell riu outra vez e Simon desejou que ele parasse, por que não tinha certeza se gostava daquela sensação estranha em ocorria em sua barriga toda vez que Max o fazia.
― Você decorou o dicionário ou o quê? ― Max perguntou, ainda sem soltá-lo.
― Na verdade, eu pesquisei depois de você mencionar a palavra em um dos seus e-mails. Eu nunca tive um amigo, então queria confirmar o significado.
Max se afastou o suficiente para olhar nos olhos de Simon, mas manteve suas mãos nos ombros dele.
― O significado do dicionário está incompleto, idiota. ― Apesar do vocativo rude, Maxwell sorria. ― Amigo é tipo irmão, a diferença é que amigo não é irmão de sangue e a gente pode escolher.
Simon hesitou por um momento.
― Então eu posso escolher você? ― Finalmente perguntou.
― Tarde demais. Te escolhi primeiro. ― Maxwell tornou a abraça-lo, e dessa vez, ainda que meio desajeitado, Simon retribuiu.
― Eu não entendi por que quem escolheu primeiro é importante, já que o resultado é o mesmo.
Max riu mais uma vez, e Simon inconscientemente o abraçou mais forte.
― Eu sei, baixinho. Eu sei.
Maxwell Churchill
Max estava sentado na segunda cadeira do laboratório de Simon ― colocada ali especialmente para ele, o único visitante regular ― observando seu melhor amigo terminar o que quer que estivesse fazendo para que pudessem almoçar.
Simon não parecia nota-lo ali, compenetrado na tela a sua frente, digitando códigos e logaritmos sem sequer olhar para o teclado. Era em momentos assim que Maxwell podia olhá-lo à vontade. Os cabelos escuros, caindo pela testa, pareciam precisar de um corte, já que vez ou outra, Simon os afastava, penteando-os com os dedos para trás. Max prendia a respiração toda vez que isso acontecia. Os olhos azuis, tão atentos, eram uma atração a parte. Porém, o que mais lhe atraía a atenção eram os lábios cheios e entreabertos. E era quando sua mente chegava a esse ponto que invariavelmente Maxwell tentava começar uma conversa qualquer para impedir sua imaginação de ir muito longe.
― Simon, você está planejando morrer de fome? ― perguntou enquanto girava a cadeira.
Demorou alguns minutos ― sim, minutos! ― para que o impaciente Max recebesse uma resposta.
― Terminei. ― E mais uma vez, Simon usou a mão esquerda para jogar os fios que teimavam em cair em seus olhos para trás.
Três anos tinham se passado desde o primeiro encontro entre os dois, e Maxwell já havia desistido de se iludir sobre aquela relação ser apenas amizade. Simon significava mais. Max preferia desaparecer com Simon nos jardins do setor de Botânica do que jogar algo com seus amigos da sua turma de engenharia. Preferia almoçar no telhado do prédio principal sozinho com Simon do que com aquela multidão barulhenta do refeitório.
Não que Simon tivesse pedido por isso. Na verdade, Simon vez ou outra aparecia em seu laboratório ignorando os olhares atravessados que recebia dos outros amigos de Max. Então, Maxwell preferia assim, só eles dois. Dessa maneira, não corria o risco de bater em alguém pelo tratamento que davam a Simon.
Agora, sentados no telhado de um dos prédios da Cúpula, observavam os carros flutuando ao redor e Max fazia seu melhor para não entrelaçar os dedos de Simon nos seus.
― Seu aniversário está chegando. ― Simon parecia alguém que estava informando um fato que havia sido esquecido.
― Eu sei, baixinho, é um evento anual. ― Sorriu, fechando os olhos e aproveitando o vento.
― Eu sou quase da sua altura, não entendo por que continua a me chamar assim. ― Porém, ele não parecia chateado, e não demorou a continuar. ― Tem algo que deseja de presente?
― Não se incomode com isso, Simon. ― Seu sorriso continuava no lugar, mas de certa maneira, Simon achava que era um sorriso triste. ― O que eu quero está além do alcance de qualquer um.
― Me diga mesmo assim.
― Meus pais morreram na queda de uma nave, um pouco antes do natal, você sabe. ― Ele tinha contado essa história a algum tempo. ― Eu só queria ter passado esse último natal com eles.
E Max se virou surpreso para Simon quando notou a mão dele sobre a sua, mas não demorou a voltar a sorrir. Isso só servia como prova de como Simon significava tudo.
Simon Harmison
Simon ficou trancado por semanas dentro do seu laboratório. Maxwell ficava horas do lado de fora, argumentando de todas as maneiras, mas não conseguiu que ele abrisse a porta. O máximo que conseguiu foi um e-mail onde Simon avisava que tinha que terminar um projeto urgente e secreto.
E foi o que ele fez. Durante aquelas quase três semanas, não parou um minuto de trabalhar. Muitas vezes dormiu sobre a escrivaninha e acordou desorientado. Porém, conseguiu terminar a tempo. Mal podia esperar para mostrar a Maxwell. Enviou uma mensagem, mesmo sabendo que estava bem próximo do horário do toque de recolher e era possível que ele não viesse, mas precisava tentar mesmo assim.
Porém, seu receio foi em vão. Meia hora depois, Max surgiu na porta. Estava mal-humorado, mas veio mesmo assim.
― Depois de me ignorar por três semanas, finalmente se lembrou de mim ― resmungou.
― Amanhã é seu aniversário, eu precisava terminar antes disso. ― Simon estava conectando alguns cabos ao que parecia ser um tipo de óculos, mas era bem maior que isso.
Se ele estivesse olhando para Max, e fosse bom em ler expressões faciais, ele reconheceria a ternura que Maxwell demonstrava em seu sorriso. Ele nunca conseguia ficar muito tempo chateado com Simon, de qualquer maneira.
― Coloque isso, certo? ― Entregou os óculos exagerados para Max. ― Eu vou estar operando tudo do computador. ― Fez Max vestir um par de luvas que quase chegavam aos ombros. ― E é melhor você ficar sentado. ― O empurrou para a cadeira giratória.
― Está me usando de cobaia? ― Maxwell arqueou uma sobrancelha.
― É seu presente de aniversário.
Sabendo que teria respostas de forma mais rápida apenas colocando os óculos e esperando, foi o que Max fez. Simon sorriu discretamente, antes de começar a rodar a simulação em seu computador. Foram dias de pesquisa para desenvolver um logaritmo satisfatório até que chegou ao que era uma simulação de um jantar da família de Max em uma véspera de natal. Assistiu vídeos que encontrou na rede para conseguir os marcadores de personalidade, invadiu o sistema para conseguir dados exatos. Foi o maior desafio que já enfrentara, mas se fizesse Max feliz, valeria a pena.
Ouviu o amigo ofegar de surpresa quando a simulação começou, mas evitou olhar para ele. De certa forma, parecia que estava invadindo a privacidade de Max. Então esperou, batendo os pés no chão de forma ritmada, apenas verificando se a simulação corria sem bugs. Até que, duas horas depois, ela chegou ao fim.
Simon foi até Maxwell, que retirava os óculos do rosto molhado pelas lágrimas. Isso fez com que o ânimo de Simon caísse por terra.
― Eu fiz alguma coisa errada? ― perguntou apressado, suas mãos secando as lágrimas no rosto de Max. ― Se me disser, eu posso consertar. Eu já tenho a maior parte do programa pronto e...
― Simon... ― Maxwell o interrompeu, e agora ele sorria. Simon não entendia como alguém podia chorar e sorrir ao mesmo tempo. ― Eu deveria saber. Só você para fazer o impossível.
― Mas não é impossível... ― E antes que Simon explicasse cientificamente o que fez, Max o calou mais uma vez.
Simon congelou no lugar, sua respiração ficou suspensa. Maxwell apenas tinha colado os lábios aos seus, algo tão simples, mas ele pela primeira vez na vida ficou com a mente em branco. Foi apenas por um instante. Max se afastou, e Simon reconheceu aquela expressão de quem estava prestes a pedir desculpas. Seus braços envolveram o pescoço de Max e foi ele que tomou a iniciativa do segundo beijo.
III. Maxwell Churchill
Os meses depois do seu aniversário de dezenove anos foram os melhores da vida de Max. Havia o trabalho que ele amava, havia Simon e havia os beijos de Simon. Os dois se esticavam no gramado do jardim, ou mesmo em um canto do laboratório de Simon e apenas ficavam juntos.
― Simon ― chamou baixinho.
― Sim? ― Simon respondeu em um sussurro, quase dormindo. Era final de tarde, e ele havia virado a noite trabalhando.
― Eu amo você ― declarou baixinho, sem esperar resposta.
E realmente a resposta não veio. Porém, Simon esboçou um sorriso feliz, e isso era tudo que Max sempre precisou.
Entretanto, aquela paz não poderia durar para sempre. Uma nova guerra chegou, e um ano depois, Maxwell recebeu a convocação para reparar robôs de batalha no front.
― Ei, eu vou voltar logo, não precisa se preocupar ― falou enquanto se despedia de Simon.
― Eu vou esperar por você. ― Prometeu.
III. Simon Harmison
Três anos desde que a guerra havia começado, e Pangea estava quase caindo. Maxwell ainda enviava e-mails falando sobre sua situação e de quanto sentia falta de Simon. O Exército estava confiante de conseguir salvar pelo menos a zona leste e sul do país.
Simon retirou os óculos que lhe permitia ver as simulações de realidade virtual. Passava os dias revivendo suas memórias, uma vez que naquela altura, seus talentos só eram necessários em poucas horas do dia. Informações não iam mais salvá-los. Então, preferia passar seus dias no mundo onde Max ainda estava com ele.
As batidas na porta ficaram mais fortes, e ele já podia ver o metal se deformando. A qualquer instante o exército inimigo arrombaria e ele estaria morto. Aproximou-se da janela, passando a mão no sensor ao lado, para que a mesma ficasse transparente e ele pudesse ver a cidade que queimava.
Mais uma batida, e eles estavam dentro. Simon não se virou para vê-los.
― Adeus, Max ― sussurrou para a cidade em chamas. ― Desculpe não poder esperar mais.
Notas finais
Podem tacar o pau, mas taquem com carinho :v
Beijos!
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