Realidade ou Devaneio?
5 Terceiro Dia
Notas iniciais
Nami estava deitada em sua cama, seus olhos fitavam fervorosamente o teto, vários pensamentos encobriam a sua mente, definitivamente não conseguia tirá-lo da base de seu raciocínio, não deixava de se preocupar com seus companheiros e também de pensar no ocorrido do último dia, levantou-se vagarosamente, com passos pesados foi até o convés do navio, uma brisa gelada pairava por todo o Sunny, olhou para o céu que obtinha uma tonalidade acinzenta que ocultava algumas das estrelas, apoiou as mãos frias sobre as bochechas.
- Será que estou doente ou estou imaginando coisas?
Sentou-se no balanço que havia em algumas das árvores, sua mente oscilava, mesmo Nami sendo realista e determinada com os fatos, ela tinha certeza absoluta e acreditava que ele estava a sua volta, mesmo depois de ter morrido.
- Zoro ...
Ali permaneceu por algum tempo tentado concentrar-se, algumas idéias fluíam como vertentes em sua mente, já no mastro principal encontrava- se Zoro divagando seus pensamentos, seus olhos fitavam seus enormes pesos que agora estavam inertes desde sua morte, incrivelmente aquela situação estava o desanimando.
\" Eu já não sei mais o que fazer.\"
Seguiu até a janela e ficou surpreso em ver a garota sentada no balanço, rapidamente ele pensou em descer até ela, mas sua idéia foi ligeiramente cortada pelo seu desanimo, não queria mais ficar a importunando e a assustando ainda mais no estado em que estava, a fraqueza dela tornavasse a sua angústia, escorregou até o chão e ali permaneceu sem nenhuma emoção aparente, aos poucos estava aceitando a sua morte, ele não pertencia mais a esse lugar, a esse mundo, aquelas pessoas, a ninguém.
XxX
Mais um dia havia amanhecido aos poucos todos iam despertando no Thousand Sunny, Brook nunca mais havia tocado suas músicas alegres pela manha, o som do mar era a única canção que agora preenchia o ar, a temperatura havia caído, alguns raios solares invadiram a pequena janela que havia no dormitório feminino invadindo aos poucos a face morena que repousava, Robin franziu o cenho abrindo os olhos vagarosamente, sentou-se na cama apática, a primeira coisa que fez foi olhar para a navegadora mas surpreendeu-se em ver que não estava.
- Navegadora-san?
Levantou-se apressadamente, ela não estava pelo quarto, colocou o roupão um pouco sem jeito e rumou para a porta, seus olhos vagaram por todos os cantos do navio, até que uma luz vinda da biblioteca chamou sua atenção.
- Será que é ela que está lá?
Robin em passos silenciosos seguiu até o local, chegou frente da porta a empurrando delicadamente e surpreendeu-se em ver Nami lendo um livro, aparentava estar muito concentrada, seu rosto possuía olheiras profundas, rapidamente a arqueologa deduziu que ela havia passado a noite acordada.
- Com licença.
Nami deu um pequeno pulo na cadeira, seu rosto havia ficado mais pálido do que o habitual, ela se virou rapidamente em direção da arqueologa.
- Robin.. que susto você me deu.
- Estava preocupada, não lhe encontrei deitada em sua cama.
Nami pegou os dois livros que mantinha sobre a mesa com força, os colocando em seu colo, soltou um olhar cansada para a morena e sorriu.
- Eu estou bem, só estava... lendo alguns livros.
- Sobre o que?
Perguntou curiosa, Nami ficou em pé um pouco constrangida, seus olhos mantinham um brilho peculiar, mas não era de lágrimas e sim de esperança, Robin arregalou um pouco seus olhos ao ler os títulos de ambos os livros, um aperto palpitou em seu peito.
- Navegadora-san... esses livros são sobre o \"outro plano\", não me diga que...
- Sim, eu sei que parece absurdo mas... mas eu tenho certeza que ele está aqui, está tentando falar comigo... eu sinto isso...
- Nami... creio que isso é impossível...
A arqueologa aproximou-se pegando os livros da mão de Nami os colocando sobre a mesa, logo após colocou as mãos sobre os ombros da garota, indicando-lhe a sentar, e assim fez o mesmo, ambas ficaram sentadas em silêncio por alguns minutos, grandes minutos, a morena tomou a iniciativa em romper o silêncio.
- Você sabe melhor do que eu... que ele morreu e não vai voltar, essas coisas não acontece, pessoas morrerem, muitas pessoas morrem na GrandLine... não quero te desanimar, só quero o seu melhor, volte ser nossa navegadora determinada.
As palavras de Robin pareciam agulhas entrando em seu cérebro, sinalizava um gesto negativo com as palavras que ouvia, sua voz rasgou a garganta, pois seu soluço era constante pela respiração fora de ritmo.
- Não! NÃO! Você está errada, eu sei que ele está aqui, eu o escutei me chamar.. ele chamou minha atenção quebrando um vaso de flores, eu o senti encostar em mim... eu tenho certeza disso! Sanji-kun viu também!
A morena pestanejou os olhos os franzindo com força, com muita dificuldade tentou estampar um sorriso em seu rosto.
- Acho melhor você ir descansar, está com uma cara terrível, vamos.
-Mas... está bem.
Ela pegou os livros e foi acompanhada por Robin até o quarto, Nami os colocou sobre a cabeceira, seu corpo estava tão cansado e pesado que parecia uma pedra sobre o gramado.
- Eu direi aos outros que você esta repousando.
- Obrigada, Robin.
A morena se afastou encostando a porta, Nami fitava pesadamente a pequena janela que era iluminada com os primeiros raios de sol da manhã, sua vista foi ficando pesada ate que o sono tomou conta de sua consciência cansada.
XxX
Zoro ainda permanecia inerente no ninho de corvo, seus olhos simplesmente focavam o nada, desde sua chegada nenhuma de seus nakamas havia subido na sala de treinamento. Talvez fizessem isso para amenizar a dor que existia em seus corações, a luz do o sol aos poucos começou a invadir o grande vidro, o fez cerrar as sobrancelhas, cansadamente se ergueu aproximando-se da janela, seus olhos naquele momento só focalizava o céu, e ela não estava mais lá,era tão mais fácil se ele tivesse morrido de vez e não ter essa frescura de segunda chance, um borrão preto chamou a atenção o fazendo olhar para a parte inferior do navio, Robin caminhava fora de seu ritmo em direção a cozinha.
\"- O que diabos aconteceu lá em baixo?\"
Zoro atravessou a parede do ninho de corvo, caindo levemente sobre o gramado verde amarelado do convés, colocou as mãos no bolso e seguiu o mesmo trajeto da arqueologa, chegou diante da cozinha, ficou mais curioso ao escutar a voz do cozinheiro.
- Como assim, Robin-chan?
A morena havia sentado-se em umas cadeiras que compunha a mesa, o cozinheiro aproximou-se servindo-la com seu precioso café.
- A navegadora-san vem se comportado estranho essa manha...
Sanji arregalou o olho, colocou o bule delicadamente sobre o fogão, uma expressão entristecida tomou conta de sua face, um pouco incerto, perguntou:
- Estranho? Como assim?
Sanji não estava gostando como a conversa estava iniciando, a única coisa que ele pensava naquele momento era se tinha magoado Nami quando tentou se aproximar dela, ele estava angustiado pois nunca faria mau a pessoa que admirava .
- Bem... ela acha que o espadachim-san está entre nós... – ela fechou levemente os olhos, seus orbes azuis cintilaram com o reflexo do café, sua voz soava amarga — ... está tentando procurar um meio de entrar em contato com ele.
Sanji arregalou os olhos assim como Zoro que estava na cozinha, o loiro colocou o avental sobre o balcão um pouco aterrorizado, sentou-se em uma das cadeiras que ficavam envolto a mesa.
- Porque Nami-san faria algo desse tipo? Eu tenho consciência absoluta que ela sabe que ele não voltara.
Zoro ainda mantinha o olhar arregalo, seus pensamentos explodiram como uma bomba em sua mente, ela finalmente começou a entender o que ele queria, talvez fosse possível dele voltar a vida sim, por mais que Zoro não se importasse tanto , ele queria muito poder voltar para o seu lar e as pessoas que o acolheram, ele precisava de Nami, precisava dela para voltar, e precisava voltar para mandar o recado de Bellemere, era tanta coisa que precisava fazer, seu desejo de viver gradativamente ia sendo aumentado.
- Eu também achava isso Cooker-san, mas ela disse que você viu também... ela falou que ele quebrou um vaso de flores e você estava presente.
Robin tomava mais um gole de seu café amargo, o cozinheiro deu uma tragada forte em seu cigarro soltando a fumaça pelo nariz, ambos ficaram por um momento assim, em silêncio, ele cruzou os braços sobre o peito.
- Eu realmente vi isso, mas deve ter sido somente alguma onda balançando o navio... Robin-chan já não sei mais o que fazer para ajudar Nami-san, não somente ela, mas o Luffy e o Chopper andam bastante abatidos também, acho que todos aqui estamos, mas eles aparentam ser os mais abatidos.
Zoro sentiasse irritado com o que ambos falavam, ele estava ali, ela não estava loquiando quando disse sobre o vaso de flores.
\"- Ei seus idiotas! Ela esta certa, foi eu mesmo que quebrou aquilo, se não fosse eu... esse cozinheiro de merda... tsc!\"
Robin terminou o seu café, colocando a xícara ainda quente sobre o pires, ela pestanejou algumas vezes, seu olhar parecia cada vez mais fundo, mais triste, como se o azul de seus olhos estivessem escurecendo.
- Precisamos falar com o Doutor-san, deve ter alguma coisa que ele possa fazer.
- Falarei com ele Robin-chan!
Os braços de Zoro tremiam... tremiam de raiva, ele sabia que todos ali estavam preocupados com o estado da garota, que realmente não era normal poder ver coisas que ninguém vê, mas ele sentia que no fundo daquela conversa, havia uma pitada dizendo que ela já estava loquiando. E ela não estava. Ela estava fazendo o correto, o seu tempo estava terminado, já estava na metade, ele tinha que correr, correr o mais rápido possível para que ela o escutasse, que fosse de volta para aquela ilha maldita em que tudo começou ou terminou, mas cada vez estavam mais e mais longe do caminho certo.
\"- Não posso mais perder tempo aqui!\"
Zoro saiu da cozinha enfurecido, depois de um suspiro tentou caminhar calmamente em direção de onde a garota se encontrava, mas algo o fez parar, Luffy estava sentando na cabeça de leão do navio, ele estava de costas para o espadachim, mas pelo jeito que sua cabeça estava posicionada podiasse notar que ele fitava o horizonte, ele se perguntava o que o garoto estava pensando assim como os demais, Roronoa aproximou-se devagar nessa exato momento Luffy baixou a cabeça deixando que a sombra do chapéu tapassem seus olhos.
\"- Esse não é o capitão que eu conheço.\"
Zoro se afastou o deixando ali, antes que sentisse mau em velo naquele estado, aos poucos a porta do quarto feminino chegavam ao seu ponto de visão, as vezes tinha vontade de correr até ela, e isso era besteira, afinal o que mudaria estar alguns segundos a mais perto dela? Atravessou à porta, notou que Nami estava dormindo, um sono muito leve, seu rosto era cansado, seus cabelos alaranjados cobriam desordenadamente o travesseiro branco, seus lábios separados levemente deixando a respiração fluir, Zoro a analisava, cada detalhe, cada sutileza era apreciada, nada escapava de seus olhos, ate que se pegou pensando nela.
\" – O que diabos estou fazendo...tenho tanta coisa a fazer!\"
Ele não conseguia parar, seus olhos não desviavam dela, ele nunca há virá tão de pertinho, pelo menos nunca parou para analisá-la assim tão perto, ele se ajoelhou diante da cama e ficou ali a olhando por algum tempo.
\" – Até que essa bruxa não é tão feia assim... não mesmo.\"
Ele se perguntava porque estava feito um bobo ali, ergueu a mão em direção ao rosto dela, ele sabia que era quase impossível tocá-la, mas fechou os olhos tentando lembrar do toque macio que sua pele sempre tivera, um ruído vindo de fora do quarto, fez o espadachim tirar a mão rapidamente do rosto da garota.
\"- Argh! Desde quando fantasmas se assustam se é eles que devem assustar!\"
Falou irritado enquanto levantava-se, ao virar em direção a porta seus olhos cuidadosamente vagaram para a mesinha que havia ao lado da cama, ao vê-los ele sorriu alegremente, sorriu como não sorria a algum tempo, ele virou-se para a navegadora e se projetou para alcançá-la, mas sua visão foi ficando turva, ele não conseguia falar, estava sentindo-se tonto, seus olhos foram fechando devagar.
oOoOoOo
Ele sentia a areia quente em sua pele, era de alguma forma confortável, seus olhos estavam pesados, foi difícil de abri-los como se tivesse ficado com eles fechados por muito tempo, a luz do sol era forte, levantou-se sem saber onde estava, e o que havia acontecido consigo, a única coisa que ele se lembrara era de estar no quarto de Nami, colocou a mão na cabeça que latejava um pouco.
- Tsc! Onde eu acabei parando.
Olhou a sua volta e só pode ver o mar límpido e muito calmo a sua volta, ficou de pé sacudindo a areia que estava em sua roupa.
- Isso é tão real.
Colocou as mãos no bolso e começou a andar sem rumo nenhum, o dia estava perfeito, ele notou alguns rochedos um pouco mais além, optou por ir lá, o vento fresco acariciava seu rosto, fazia algum tempo que não tinha essas sensações, por fim ele pensou como era ótimo estar vivo, enfim chegou onde queria, segurou a ponta de uma das pedras e num pulo subiu ao alto, mas seus olhos encontraram a imagem de outros ligeiramente arregalados, um par de olhos castanhos dourados cintilavam a luz do sol, os cabelos pareciam fogo bailando ao vento, seus lábios rosados um pouco trêmulos, sim, era ela.
- NAMI?
- Z-Zoro!
A voz saiu apertada de sua garganta, o brilho que ele tinha visto nos olhos da garota não eram do sol e sim de pequeninas lágrimas que estavam ficando cada vez maiores nos cantos dos olhos, seus olhares eram tão fortes como se o resto do mundo tivesse sido apagado, a única coisa que ele sentiu foi um calor envolvendo seu corpo, ela havia se jogado tão rápido em seus braços que ele mau teve tempo de se equilibrar, tombando um pouco para traz, os braços dela envolviam seu corpo, afagou a face ao peito do espadachim, sua voz soava macia e delicada.
- Pelos deuses...Zoro é você mesmo... nem acredito!
Roronoa não sabia o que fazer com seus próprios braços, não sabia se retribuía o abraço, se a olhava nos olhos, ou se simplesmente a escutava, ergueu uma das mãos e afagou os cabelos ruivos da garota.
- Sim sou eu, eu acho.
Ele sorriu para ela um pouco nervoso, afinal não sabia onde estava e o que havia acontecido, mas ele tinha certeza que era ela,e isso era o que importava, aos poucos ambos tomaram uma pequena distância para poder analisar um ao outro, ele jamais havia visto o rosto dela tão iluminado como agora.
- Desde que você morreu, eu venho sonhado que estou nessa praia, e eu estou sempre esperando você...e você veio.
- Então esse é seu sonho, certo?
- Sim.
Ele suspirou aliviado, aquilo que Bellemere havia dito realmente aconteceu, estava muito contente, feliz por ter conseguido alcançar os sonhos e estar próximo dela de alguma forma.
- Estou sofrendo tanto sem você, todos nós estamos sofrendo... porque nos abandonou?
Ele olhou de canto para a mão e notou que ela a segurava com força, baixou o olhar para os joelhos, ele não queria nem um pouco falar sobre isso, sentia uma dor palpitar o peito, fechou os olhos em desistência, mas sentiu um leve toque invadir sua face, abriu o olhar novamente e viu uma das delicadas mãos da navegadora percorrerem com carinho sua bochecha, ele quis rir, rir que nem criança quando recebe atenção, pegou a mão dela a empurrando mais contra seu próprio rosto, toda a palma da mão dela lhe cobria a face dourada pela luz do sol.
- Hei, eu não quero falar sobre isso... eu preciso de sua ajuda em algo.
- O que você precisa?
Assentiu, ele soltou a mão dela, ela levou a mão aos próprios joelhos, estava envergonhada, ele não pareceu ligar.
- Eu posso voltar à vida... se conseguir chegar ate o lugar em que fui enterrado, mas você tem só 4 dias.
Ela o escutou atentamente, seus olhos pareciam transbordar milhares de emoções, um sorriso angelical habitou os lábios,a mão que permanecia segurando a do espadachim agora apertava com mais força, sua voz surgia animada de sua garganta.
- Eu não me surpreendo com isso... eu já imagina pois tinha certeza que você voltaria, você é o homem mais forte que conheço, nem Deus teria coragem de lidar com você.
- Eu não acredito em Deus.
- Mesmo depois de tudo isso que esta acontecendo você ainda não acredita? Inacreditável!
- O que importa é que se você me quer na terra de novo...- A voz de Nami o cortou bruscamente, ele fez uma cara emburrada.
-É obvio que farei o possível, nós precisamos de você aqui, afinal você me deve 300 mil berries.
- Mesmo depois de morto você continua a me cobrar... sua...!
Ele não conseguiu terminar a frase, não havia mais o que dizer, ele definitivamente não estava bravo, ela continuava a esbanjar o sorriso pela face, mas com ele era diferente, seus olhos pareciam agora distantes e escuros, Nami não era boba notou rapidamente que algo atormentava o moreno.
-Z oro... algo errado?
-... eu vi...
Ele suspirou tomando fôlego, ficou pensativo novamente, a navegadora acompanhava cada gesto com os olhos.
- Eu tenho muita coisa para te falar, mas não agora...
Zoro ergueu as mãos a cabeça, ela doía muito, tudo parecia girar numa velocidade absurda, um som agudo invadiu seus ouvidos, começou a gritar, seu corpo parecia ser perfurado por milhões de agulhas, abriu os olhos num último ato, Nami não estava mais lá.
Fale com o autor