Realidade

2 Capítulo 1 - parte 2


Deixei ela de lado e continuei a andar, eu sei que ela iria me seguir, sempre seguia. Posso parecer um pouco má desse jeito mais é a única maneira de fazer ela parar de falar um pouco. Ela sempre foi hiper-ativa e eu nunca gostei tanto disso, sou muito quieta para ela. Chegamos na escola, olhei do chão para cima e então respirei fundo, não seria tão fácil esse ano. Era imensa, as grades eram negras, suas paredes pareciam ser de um material tão claro e nobre, as janelas eram brancas como as nuvens e tinham o formato curvado com a sua parte inferior reta. Acho que nossa escola era um dos poucos monumentos que pareciam ser "nobres", a maioria dos lugares aqui eram sem cor, pareciam apagados. Mais um motivo para eu quero sair logo de Dallas, mesmo isso sendo quase impossível. Aqui tinhamos um lema: "Nasceu aqui, morreu aqui". Por isso geralmente os nossos pais nos prendem muito, sem falar que se qualquer outra cidade,vila ou até mesmo um clube de mendigos que saisse da nossa cidade iriam ser rejeitados completamente. Houve uma história de um senhor que saiu de Dallas e foi para uma cidadezinha aqui perto, ele tentou arranjar emprego e conseguiu. Ficou alguns meses trabalhando lá mas logo descobriram da onde ele veio e o mataram. Parece que todos da redondeza acham que aqui somos os filhos dos Daemon. Completamente fútil, né?

Entramos na sala de aula que também era inteiramente branca, as carteiras pareciam cristais de tão limpas e as cadeiras... nem me fale, impecáveis. Ao menos isto tinhamos, higiênie. Sentei no meu lugar de sempre e fiquei esperando a aula começar enquanto todos ainda continuavam em pé, conversando como nunca até suas gargantas sangrarem de tanto falarem.

O sinal bateu, pra mim era um alívio. Agora era apenas aula e nada mais. A sra.Jannie foi logo se sentando com aquela roupa sem cor que usava, uma saia longa até os joelhos finos bege e sua blusa cinza de lã que mais parecia uma bola de pelo de tão engomada e velha. Levantava aquele óculos fino que ela usava sobre o nariz pontudo, os olhos dela eram castanhos claros que até combinava com seus cabelos tingidos com um pouco do branco sobre as laterais.

– Sem mais conversas. Hoje falaremos do livro que pedi para que lessem nas férias, Olhares Predestinados.

Alguns fizeram cara de quem nem teria comprado esse livro, outros com cara de quem teria esquecido, e os mais inteligentes pegavam de suas bolsas. A minha sorte é que sempre gostei de livros e consegui pegar Olhares Predestinados na biblioteca de minha avó no Arizona.

– Certo, acham mesmo que os que não leram vão se dar bem não é? Pois bem... — Franzia a testa com o olhar que penetrava á todos, passando pela sala inteira até voltar para o quadro negro.

Odiava quando ela fazia isto, como eu iria saber quando abaixar-me? Eu sempre fiz isso. As chances de ser escolhida para explicar era menor, mesmo eu sabendo do livro, não sou afim de falar em público. E só por que eu não queria, ela apontou aquele dedo indicador magro. Olhei assustada, até coloquei o livro de capa dura e de cor azul sobre o rosto mas nada adiantou.

– Srta.Vicenza, por favor.

– Professora... é que não quero.

– Eu também não queria estar trabalhando no momento ...

Droga, não tinha escolha mesmo. Comecei a ficar trêmula e até minha voz mudou. Parecia realmente estar com medo, eu me sentia totalmente desconfigurada como uma tv velha que muda de canais sozinhos. Abri o livro e fui á primeira página amarelada do Olhares Predestinados. Meu coração acelerou derrepente e meu sangue parecia passar mais rápido pela minhas veias. Ouvi a voz e então fechei meus olhos. Era doce mas também chegava a ser um pouco assustadora, era masculina, o que era estranho ser tão doce. E a voz foi dizendo: " O livro consiste no romance de dois adolescentes de uma faculdade. Tiveram grandes dificuldades para expor seu amor para as pessoas... "

Ouvi atentamente e comecei a repetir oque exatamente estava ouvindo. Arrisquei mesmo assim, minhas chances de acertar eram poucas. Por mais que eu tenha lido. Quando leio um livro e vou direto para outro, bom ... eu deixo ... na verdade, eu li apenas a metade! Não sei como realmente termina. A sra.Jannie olhou para mim espantada e deu um sorriso de lado, marcando na prancheta transparente.

– Muito bem Srta.Vicenza. Nunca vi uma explicação tão complexa deste livro e olha que já pedi para muitos alunos lerem.

Eu falei com a mesma voz tremula que estava antes, só que desta vez parecia pior, afinal o crédito não era meu. Era de alguém que eu não sabia quem era ou então era apenas minha subconsciência com voz masculina.

– Obrigada professora.