Realeza
5 Capítulo 5
Notas iniciais
Se os olhos são as janelas para a alma, os olhos afiados de Mebuki eram as portas abertas para o inferno. Assim como o gesticular de dedos perto do rosto que mostrava que ela estava de olho no que eu fazia, a forma que desviava os grandes cílios para a figura do futuro herdeiro ao meu lado declarava abertamente que ela fazia gosto por esse cavalheiro.
Traduzindo, ela fazia gosto por esse casamento.
Talvez tenha sido o ar rarefeito do salão, misturado com o pólen daquele amontoado de flores, ou mesmo os olhares julgadores da dona Mebuki Haruno, mesclados com os dos abutres da sociedade, que me fizeram começar a ter dor de cabeça.
— Gostaria de provar mais um vinho? — Perguntou de forma galante.
O príncipe estava se saindo uma pessoa encantadora de conversar.
— Se eu provar mais alguma coisa vou ser carregada para casa. — Falei. — E minha mãe não gostaria de ver a filhinha dela passar esse vexame.
A senhora Mebuki estava analisando, mesmo de longe, cada um de meus movimentos, sua maestria em análise era digna de um renomado detetive.
— Te dou um vinho exclusivo, preparado por mim, se você me tirar do olhar de falcão da minha mãe. — Falei passando a mão nas têmporas.
— Não seria bom para uma dama ficar andando sozinha com um cavalheiro. — Falou olhando minha mãe balançar uma taça em nossa direção.
— Estamos em um baile, não ficaremos sozinhos em nenhum lugar. — Constatei recebendo um aceno de cabeça em concordância.
Ele segurou meu braço e eu o acompanhei passando pelo meio daquela multidão. Todos os olhares estavam no príncipe e na sua "suposta" acompanhante, enquanto andávamos ao redor de todos. Ao passar perto de duas garotas, que julgo terem a mesma idade que eu, consegui claramente ouvir um rosnado amedrontador de uma delas.
"Ótimo, agora eu também tenho inimigos” pensei.
Chegamos sem muita luta até a porta de entrada que dava para um dos jardins da grande mansão, um jardim deveras magnífico.
— Minha cabeça dói. — Falei batendo dois dedos na testa.
— Me espere no jardim, vou pegar um copo de água para a senhorita. — Assenti voltando a encarar o deslumbrante jardim.
As pétalas de flores balançavam com o soprar do vento, as flores eram de uma magnífica mistura de azul com vermelho, olhando de cima dava para ver o formato do leque, brasão da família real Uchiha.
O jardim era lindo!
Suspirei cansada de tudo aquilo, o jeito que esse baile estava patético, dava para entender o motivo de minha tia nunca ter se sujeitado ao papel de caçar um homem. Ela era uma sortuda que tinha voz suficiente nessa sociedade para não se sujeitar a isso.
— Vejo que está sozinha, senhorita. — Dei um pulo de confusão levando uma mão ao peito ao ser surpreendida pela voz masculina no meio das flores. — Pago um ótimo cavalo se me falar o motivo dos seus suspiros, e aposto mais dois cavalos que não são para o príncipe herdeiro.
O homem estava sentado em um dos bancos, inclinado levemente para trás enquanto tragava um charuto.
— Me desculpe por atrapalhar, eu juro que não vi o senhor.- Declarei perdendo a compostura.
— Sua beleza pode me atrapalhar quantas vezes for necessária. — Declarou inclinando o corpo para voltar à posição inicial.
— Vejo que é um galanteador. — Revirei os olhos ao notar seu sorriso desdenhoso enquanto me policio pelo que falei. — Está me cortejando, senhor?
— Não estou te cortejando. — Confirmou logo em seguida.. — Estou flertando com você.
— E não seria a mesma coisa? — A curiosidade começava a tomar conta da minha mente, quem era a figura misteriosa e ligeiramente estranha no meio do jardim?
— Se eu estivesse te cortejando, significaria que eu teria interesse em casar com a senhorita. — Falou. — O que, felizmente, eu não tenho. — “Felizmente?” pensei.
Tiro 1 dado com sucesso, o atirador acertou diretamente meu ego.
Abri a boca algumas vezes, tentando raciocinar o que ele estava falando, antes de dizer, por fim:
— Então o senhor, desdenha de casamentos? — Perguntei irritada, minha cabeça doía mais do que antes, e a presença do homem começava a me incomodar. — Claro que desdenha, o senhor não precisa necessariamente casar, não é mesmo?
— Nem minha fortuna, nem minha condição física me obrigam a casar, senhorita. — Outra tragada foi dada em seu charuto.
— Quando diz “condição física" quer dizer, por que o senhor nasceu homem, não é mesmo? — Levantei uma das têmporas, eu estava preparada para sair batendo o pé daquele lugar.
— Eu tenho privilégios, eu assumo isso. Mas acho um tanto interessante a forma que essas garotas desesperadas ficam a todo custo tentando seduzir um homem. — Continuou. — Para arrumar a droga de um casamento.
— Então é só diversão para o senhor? Brincar com uma coisa que pode mudar o futuro de uma garota. — Um suspiro saiu do meu peito ao notar um sopro quente em minha nuca.
Como ele tinha chegado tão perto sem eu notar?
— Sinto hipocrisia em sua fala, minha querida. — Um arrepio subiu por minha espinha. — Você estava até uns minutos atrás sendo cortejada pelo príncipe herdeiro, e agora defende as garotas que não querem casar. — Disse. — Não seja tão hipócrita, senhorita.
— Eu…eu. — Minha garganta fechou com as palavras que não conseguiram sair, petrifiquei no lugar encarando aquele homem por cima do ombro.
— O que está acontecendo? — A voz do príncipe se fez presente no ambiente, olhei embasbacada de um para o outro, eles eram tão parecidos. — Você não está constrangendo a senhorita Haruno, não é irmão?
— Vo…cês são irmãos? — Perguntei entre soluções.
Minha face estava vermelha igual um pimentão, meus dedos que antes estavam soltos agora apertavam fortemente a saia do meu vestido como se quisesse rasgá-lo ao meio.
— Fico decepcionada, senhorita? — Vi seu rosto passar de indiferença para um completo deboche, suas sobrancelhas antes retas foram se arqueando tomando uma expressão de curiosidade.
— Nãooo. — Falei exageradamente. — Digo… Não.
— Então, talvez, admirada? — Desdenhou.
— Jamais, meu senhor! — Respondi tentando controlar minha respiração, voltei aos poucos a encarar o príncipe herdeiro e ele estava com as sobrancelhas arqueadas, da mesma forma que o irmão estava. “Como não percebi a semelhança antes?”
— Bem… — Pigarreei. — Acho melhor voltar para dentro, minha mãe deve estar louca me procurando.
— Eu acompanho a senhorita. — O príncipe herdeiro levantou uma das mãos que estava desocupada e me estendeu, enquanto que a outra segurava um copo com água.
— Foi um prazer te conhecer, senhorita Haruno. — Foi tudo que consegui ouvir antes de sair pela porta.
Aquele homem era estranho, atraentemente estranho.
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