Real world
8 Capítulo 8
Notas iniciais
Nina me olhou e fez uma cara de confusa. Entendi sua confusão.
Pietro estava fora, certamente na casa da “ficante”. Minha mãe tinha saído para ir trabalhar. Juan tinha ido jogar futebol. Só restava vovó e Lydia.
Mas pelo grito, apostaria todas as minhas fichas na Lydia.
Corri até o quarto dela e vi que a porta do banheiro estava aberta.
Entrei e vi ela encarando, horrorizada, o vaso sanitário.
Não precisei pensar muito. Sabia o que tinha acontecido.
—Soph o vaso está cheio de sangue! –ela exclamou. –Ai meu Deus!
—Lydia, se acalme. Lembra do que eu falei ontem? Não é o fim do mundo.
—NÃO ACREDITO. –ela falou e começou a chorar. –Agora não vou poder ir todos os dias que eu quiser para a piscina, os meninos vão ter nojo de mim...
—Hey! Quem disse que os meninos vão ter nojo? Se fosse por isso, nenhuma mulher seria casada.
—Mas Sophia, isso é tão...
—Tão nada, Lydia! –ela soluçou. –Tome um banho. Vou pegar uma coisa pra você.
Apesar de ela estar tremendo, assentiu e trancou a porta do banheiro, para tomar o banho.
Fui para o meu quarto e comecei a fuçar minhas coisas, tentando achar um absorvente. Nina perguntou o que aconteceu e eu expliquei rapidamente o que estava acontecendo.
Ela riu e falou:
—Eu tenho um absorvente dentro da bolsa. –ela pegou a bolsa e me entregou um pacotinho. –Leve para ela.
Fui novamente para o quarto dela e bati na porta do banheiro. Lydia abriu e vi que ela já tinha tomado um banho. Entrei no banheiro e entreguei o absorvente.
—Lydia, você coloca isso na calcinha. É fácil colocar. Só é tirar os adesivos que vem dentro. Okay?
—Me ajuda? –ela pediu, com aqueles olhos pidões.
—Não posso. Você tem que aprender a fazer isso sozinha.
Ela fez uma carinha, mas não pediu novamente. Ainda bem, pois não negaria um segundo pedido de ajuda.
...
Lydia demorou um pouco no banheiro. Deveria estar com algum problema. Mas não falei nada. Apenas sentei em sua cama e esperei.
Aqui no quarto dos gêmeos, diferentemente do meu quarto, eram duas camas. Não era uma beliche. Isso me deixou mega irritada no começo, mas agora nem ligava mais. Deveria ser o amadurecimento.
Neste momento, olhando para as duas camas, poderia perceber o quão diferente os gêmeos eram entre si. A cama de Juan era toda bagunçada, enquanto a de Lydia era toda arrumadinha. Ela foi a única da família que nasceu organizada.
Quando ela finalmente saiu, chamei para que ela sentasse ao meu lado na cama dela.
—Soph, sei que agi como uma criancinha... –ela começou, mas eu a interrompi.
—Olha Lydia, você vai ter que começar a se virar sozinha agora. Você está se tornando uma mulher e isso não vai ser a pior coisa que vai acontecer com você. Haverão piores, acredite. –ela abriu a boca para falar, mas eu levantei a mão, pedindo silêncio. –Não ligue para o que os outros dizem. Você vai continuar a mesma Lydia de sempre... Só vai ser extremamente chata algumas vezes. –ela riu, e isso fez com que eu ficasse mais aliviada.
—Tudo bem. Sou mulher. Sou forte. –ela disse.
—Muito bem. –sorri. –Agora, se me der licença, tenho um baile para ir.
...
—Sophia, acho que a gente vai se atrasar. –Nina resmungou, pela milésima vez naquela noite, passando mais uma camada de rímel em seus cílios.
—Fique quieta, Nina. Ainda temos 20 minutos. –retruquei de volta, enquanto terminava minha maquiagem.
—Depois não diga que eu não avisei. –ela murmurou, colocando seu vestido e calçando seus saltos.
Depois ela se levantou e se olhou na frente do espelho, vendo se estava faltando algo.
Na minha opinião, não faltava nada. Nina sempre foi linda e naquele dia não foi diferente. Seus cabelos pretos estavam cacheados e seus olhos verdes foram marcados por pouca maquiagem. Sua pele morena não tinha marcas de espinhas, portanto, nem precisou de muito pó. Ela usava um vestido preto que ia até os joelhos. Tinha mangas de rendas e um decote simples na frente.
Depois que concluí minha maquiagem, coloquei meu vestido e coloquei meus saltos.
Ao me levantar e olhar no espelho, pensei: MERDA. Nina estava certa. O vestido tinha ficado curto. Muito curto.
—Eu avisei. –ela cantarolou e eu dei o dedo do meio pra ela.
Estava curto, mas não mostrava a bunda. Era o que importava. Eu acho.
Eu só precisava ter cuidado.
Descemos as escadas e Pietro nos esperava sentado no sofá.
—Sophia, este vestido está... –ele disse, quando me viu.
—Curto. Eu sei. –respondi. –Vamos logo. –emendei, querendo sair dali antes que minha mãe aparecesse. Se ela me visse com este vestido...
—Tudo bem, então. –Pietro falou e pegou as chaves do carro. –Vamos.
...
Quando cheguei na festa, um arrepio percorreu meu corpo, como se algo fosse acontecer hoje e que afetaria minha vida para sempre. Ou era só besteira minha.
Respirei fundo e abri as portas duplas da quadra da escola, sendo seguida por Nina. Assim que entrei, vi o quanto aquilo fora bem organizado. Britney era uma vadia, mas uma vadia de bom gosto.
O ginásio estava todo iluminado com luzes coloridas e tinha um globo de luz girando no centro de tudo. Tinha mesas com petiscos e bebidas em todos os lugares. Haviam balões de gás hélio e serpentinas nas paredes e no teto. No centro, um cartaz bem grande dizia boas-vindas aos novatos e bla bla bla.
Tinha um local para a banda, que ainda não havia chegado. Na pista de dança, vários casais já dançavam.
Estava tão perdida na decoração que quase tive um troço quando Rafa chegou por trás e falou:
—Vestido curto demais, não acha?
—Você também não, por favor. –resmunguei e olhei ao redor, ainda deslumbrada.
—Procurando quem? O Brian? –ele disse e riu. –Ele ainda não chegou.
—Cale a boca, idiota. –bati de leve em seu ombro.
—Cadê a Nina?
—Ela está bem atrás de mim... –falei e, quando olhei para trás, não encontrei ninguém. –Ela estava bem atrás de mim... –dei de ombros. –Deve ter achado o Nathan e agora estão se pegando por aí.
—Quer dizer que eles se acertaram? –ele perguntou e, apesar da luz estar um pouco ruim, notei que ele revirou os olhos.
—Por quê? Você não queria que eles se acertassem?
—Não é isso. É que aquele garoto ainda vai machucar ela.
—Rafa, todo homem um dia vai machucar uma mulher. É natural.
—Até parece que você entende dessas coisas. –ele retrucou.
—ENFIM. –exclamei. –Isso é um baile ou um centro de conversas sobre homens?
—É um baile. –ele disse e me puxou para a pista de dança.
...
A festa já estava durando umas 2 horas. A gente ainda não tinha visto a Nina, e isso me deixou um pouco preocupada.
Eu vi o Brian chegando, mas ele estava acompanhado de uma garota e até agora não veio falar comigo.
Eu estava me divertindo. Dancei com o Rafa e com outras colegas minhas e estava sendo bem legal, até o momento que percebi que Rafa estava ficando bêbado.
—Rafa, vamos pra casa. –pedi.
—O quê? –ele falou e riu. –Mas agora que está ficando divertido!
—Você está ficando bêbado.
—A ideia é essa. –ele disse novamente e riu. –Vou pegar mais tequila uhu!
Juro que me deu uma vontade de matar Rafael tão grande que quase não me aguentei.
Aproveitei que estava sozinha e andei um pouco pela festa á procura de Nina.
Muitas pessoas falaram comigo, outras apenas me encaravam.
Então eu achei. Não Nina. Achei o Brian.
Ele veio andando na minha direção e passou uma olhada discreta em minhas pernas. Homens...
—Oi Sophia. –ele saudou. –Está bastante bonita.
—Obrigada Brian. Não tinha te visto ainda...
—Digamos que minha parceira é bastante grudenta.
—Quem é?
—Uma tal de Camilla, sei lá. Só sei que ela está bêbada e pude escapar.
—Pelo que parece, todo mundo já está bêbado. Só sobramos nós dois.
—E o Lucas. –ele completou.
—Lucas?
—Eu estava falando com ele agora. Ele disse que não gosta de beber. Só vem para olhar para as garotas e namorar.
—Típico. –falei. –Você viu a Nina?
—Ela estava com um garoto, lá perto do Lucas.
—Onde o Lucas estava?
—Perto das arquibancadas.
—Vou lá ver ela. Obrigada. –falei e antes que eu saísse, ele me pegou pelo pulso. Virei o rosto e ele falou, sorrindo:
—Ainda quero uma dança com você.
Engoli em seco e disse:
—Claro.
Então fui procurar Nina. Procurei nas arquibancadas da direita e não encontrei ninguém. Tive que contornar o ginásio quase todo para chegar nas arquibancadas da esquerda. Chegando lá, vi Lucas encostado em uma parede e bebia algo de um copo. Lucas não beber? Mentira do século.
Me aproximei dele, que percebeu minha presença e olhou diretamente para as minhas pernas. Okay, isto estava começando a me deixar constrangida.
A gente não se falava, mas eu queria saber onde Nina estava. Realmente, meu orgulho estava começando a desaparecer.
—Você sabe onde a Nina está? –perguntei.
—Não sou babá de ninguém. –ele falou e pude ver que ele havia colocado um pircing no canto esquerdo da boca.
—Ela estava com o Nathan.
—Não sou babá de ninguém, muito menos do Nathan.
—Eles poderiam ter dito pra onde iriam.
—Eles não me devem satisfação.
Okay, eu estava começando a ficar irritada. Aquele garoto tinha resposta pra tudo!
—Tudo bem. –falei apenas e saí.
Acho que aquele garoto estava bêbado. E isso me deixou irritada.
Odiava quem bebia. Odiava mesmo.
Por isso que eu queria me manter o mais longe possível do Rafa.
Se as pessoas soubessem o que a bebida fazia com as pessoas, garanto que ninguém beberia. Um simples líquido destruiu meu pai.
Saí do ginásio e fui para dentro da escola. Nina deveria estar por aí. Ou não.
Andei pelos corredores e estava tudo muito escuro. Eu estava começando a ficar com medo. Não que eu fosse uma garotinha que tivesse medo do escuro. Mas aquilo estava aterrorizante. Parecia aquelas cenas de filme de terror na qual a mocinha é pega pelo monstro.
Depois de tanto andar, pensei “Não deve haver ninguém aqui”.
Mas então eu ouvi um barulho de algo caindo. E eu segui o som. Era a sala de informática.
Ao me aproximar mais, ouvi risadas. Risadas de Nina.
Entrei na sala com tudo, sem se importar com nada. Liguei a luz e vi uma coisa que eu nunca gostaria de ver.
Nina estava sem o vestido, e estava sentada em uma mesa. Nathan estava somente de cueca, mas creio que já estava pronto para retirar ela, já que o volume estava grande demais para um local apertado.
—Gente, o que é isso? –perguntei, horrorizada. –Em uma escola?!
—Sophia? –perguntou Nina, com a voz embargada.
Nathan apenas me olhava e eu tentava, juro que tentava, não olhar para a sua cueca.
—Nina, vista-se. –pedi.
—Mas agora que a brincadeira estava ficando boa? –ela falou e riu. –Saia daqui, Soph.
—Marina! –exclamei, e ela se assustou. Eu só falava seu nome completo quando já estava irritada.
—Sophia! –ela gritou de volta e riu, como se tudo fosse a coisa mais engraçada do mundo.
—Nina, vamos embora. –Nathan falou e começou a colocar a calça.
—Calma aí. –falei, fazendo com que ele olhasse pra mim, confuso. –Você estava querendo fazer isso com a Nina bêbada e você lúcido?
—Eu não sou um estuprador, se está pensando nisso. –ele respondeu. –Ela apenas me chamou e eu vim.
Abri a boca pra falar algo mas nada saiu. Realmente, a Nina disse que algo iria rolar. Então não poderia ser forçado.
—Por favor Nina, coloque a roupa. –ele pediu e ajudou ela a se vestir.
—Sophia é muito chata. –ela disse, com a voz embolada. –Não deixa Nina se divertir.
—Ah ótimo, agora ela está falando na terceira pessoa. –eu massageei minhas têmporas. –Depois disso vem o quê?
—Você vai com ela pra casa? –ele perguntou, com um ar brincalhão.
—Sim... Por quê? –respondi.
—O pior vai ser na volta. –ele falou e sorriu.
—Por quê?
—Você vai ver. –ele disse e abotoou o vestido de Nina. Ele colocou sua blusa social e passou o braço pela cintura de Nina, tentando mantê-la em pé. –Até mais, destruidora de relações sexuais.
Ele passou por mim rindo, junto com a Nina e eu tive vontade de matar os dois.
...
Quando eu voltei para o ginásio, a primeira coisa que eu notei foi o Rafa se agarrando com uma menina no meio da multidão. Calma, hoje foi o dia de meus amigos me irritarem?
Ao me aproximar dos dois, Rafa percebeu minha presença e se desgrudou da menina.
—Oi Soph! –ele saudou, com a voz meia estranha. Ele sorriu. –Estava te procurando...
—Rafa, acho que já vou embora. –falei, sem enrolação.
—Por quê? –ele perguntou e a menina se afastou. Ela também estava embriagada, pude ver só pelo andar.
—Porque meus únicos amigos estão bêbados demais para conversarem comigo?
—Isso não se encaixa em mim, né? –uma voz surgiu atrás de mim e, na hora que eu me virei, um sorriso bobo surgiu na minha face. Brian sorria de um modo encantador.
—Não sei... –falei, ignorando a risada de Rafa. –Você pode muito bem ter bebido depois que eu saí de perto de você.
—Eu não faria isso. Ainda tenho que dançar com você. –ele falou e estendeu a mão.
—Ah não... Não gosto de dançar.
—Vai me negar uma dança?
Suspirei. Tudo bem. Uma dança não faria mal a ninguém.
—Okay. Só uma música. –avisei e cedi minha mão para ele.
Ele me levou até a pista de dança e o toque de uma música animada surgiu. A banda já havia parado de tocar, e agora tinha apenas a música vindo de um DJ. Começamos a dançar, junto com algumas outras pessoas e foi muito bom. Brian ria de um modo tão espontâneo e dançava tão engraçado que eu não pude deixar de gargalhar também.
Eu finalmente estava me divertindo naquela festa.
...
Eu disse que iria ser só uma música, certo? Digamos que eu me empolguei tanto que acabei dançando ao som de Sorry, Drag me Down, Worth It, Shake it off, e mais umas 10 músicas. Aquilo estava sendo realmente divertido.
Então eu simplesmente parei, ofegante. Dançar cansava. E muito.
Ainda rindo, Brian me guiou até a mesa de bebidas, onde eu peguei uma garrafa de água. Ali estava bastante vago, já que a maioria das pessoas estavam na pista de dança.
Brian sorriu para mim enquanto eu bebi uma grande quantidade de água.
Depois seu sorriso desapareceu e ele continuou olhando para mim, com seus olhos negros encantadores.
Eu acho que deveria estar vermelha. Não gostava de ser encarada.
Desviei o olhar e a primeira pessoa que eu vi foi Lucas, voltando de dentro da escola, com uma cara não muito amigável.
Ao voltar minha atenção para Brian, notei que ele havia se aproximado mais de mim.
—Posso te perguntar uma coisa? –ele falou, e What do you mean do Justin Bieber começou a tocar.
—Claro. –falei e sorri, apesar de incomodada pela proximidade.
—Posso te beijar? –ele perguntou, sorrindo.
MEU DEUS. Meu coração disparou de uma forma tão “coisada” que não sei como não tive um troço, ali mesmo. Era o primeiro menino que me perguntava se podia me beijar. E isso foi incrível.
Uma parte de mim queria, ansiava por um beijo. Poxa, eu já estava com quase 17 anos! Uma hora eu iria trocar saliva com alguém.
Só que outra parte de mim dizia que era errado eu ficar com aquele garoto, que não era pra eu fazer merda.
—Brian... –sussurrei. –Não dá.
O sorriso dele desapareceu.
—Não tudo bem. Foi muito repentino. É que você é uma garota muito incrível, sabe? E linda e... –ele sorriu, sem graça. –Desculpe.
—Não é isso... Eu não estou preparada e...
—Não tudo bem. Desculpe se te pressionei. –ele colocou as mãos no bolso. –Desculpa mesmo. Espero que isso não estrague nossa amizade.
—Nunca estragaria! –falei, já me afastando dele. –Brian, você é uma pessoa incrível. Mas é que... não quero isso, pelo menos não agora. Esperei todo este tempo por uma pessoa que eu realmente gostasse, e digamos que nos conhecemos á apenas alguns dias.
Assim que estas palavras saíram da minha boca, praguejei mentalmente. Os olhos dele perderam o brilho. Eu realmente havia machucado seus sentimentos.
—Brian... –falei e tentei pegar seu braço, mas ele se afastou disfarçadamente. Eu notei, caso ele queira saber.
Eu fiquei sim, com muito peso na consciência, mas, antes de eu fazer mais merda, uma pessoa me salvou. E adivinha quem foi? Isso mesmo, Lucas.
—Ei. –ele cutucou meu ombro. –Pode, por favor, levar sua amiguinha embora? Ela já fez merda demais por hoje.
—O quê? –perguntei, assustada.
—Tá surda é?
—Onde ela está?
—Sei lá. –ele revirou os olhos. –Olha lá fora.
—Brian eu... –comecei a falar e olhei para trás, mas ele não estava mais lá. Passei reto pelo Lucas e fui na direção da saída do ginásio.
Assim que saí de lá, me deparei com Nina sentada em um canto e aparentemente ela estava chorando. Cheguei perto dela e constatei que sim, ela estava bêbada.
—O que aconteceu? –perguntei, me ajoelhando ao lado dela. Se alguém passasse por ali, veriam minha bunda.
—Eu nasci?! –ela exclamou, em meio á um soluço.
—Me diz o que aconteceu. –pedi.
—Eu... Eu... Lucas...
—O que tem o Lucas?
—Eu beijei o Lucas. –ela disse por fim e se pôs novamente á chorar.
Continua...
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