Real world
43 Capítulo 40
Notas iniciais
Meus olhos se arregalaram. Uma coisa era você pensar em algo, outra totalmente diferente era ouvir ela. Ele confirmou minhas suspeitas.
Pietro conseguiu reagir primeiro do que eu.
—Então o senhor quer que a gente acredite nisso? Qual o truque, afinal? –ele disse, indiferente. Mas eu via suas mãos cerradas em punhos, então soube que ele iria explodir a qualquer momento.
O homem que dizia ser meu pai suspirou.
—Não esperava que vocês acreditassem logo de cara. Mas a julgar pela cara de Sophia, ela já assimilou algumas coisas. Não estou tão diferente do que vocês se lembram...
Pietro, com uma força impressionante, fechou a porta na cara do nosso... pai.
—Pietro! –falei, meio surpresa, meio indignada, meio sem saber o que fazer.
—Eu vou pegar a arma do vovô e matar esse desgraçado. –ele falou, os olhos brilhando com lágrimas que eu nunca havia visto. Lágrimas de raiva misturada com tristeza. A última vez que vira Pietro chorando fora no enterro do meu avô.
—Pietro, se acalme. Você sabe que isso não vai fazer você se sentir melhor. –falei, minha cabeça a um turbilhão.
—Não vai? Você acha que esse cara merece menos? Sophia, olha o que ele fez com a nossa vida! –Pietro gritou e as lágrimas escorreram.
—Pietro, ele não destruiu nossa vida...
—A gente cresceu sem a merda de um pai! Os gêmeos nunca o conheceram. Fora que a mamãe tem que se matar de trabalhar para sustentar quatro filhos que não fez sozinha! E tudo isso por causa de um bêbado que não sabia se controlar...
—Calma. Vamos se acalmar. –falei, massageando as têmporas. Não iria tirar a razão de Pietro, mas eu queria ouvir alguma explicação por parte de quem dizia ser meu pai. Por que ele nos deixara? Por que depois de 14 anos veio atrás da gente? –Me escuta. Eu vou falar com ele. Você sobe para o seu quarto.
—Você o quê?! Vai ouvir esse desgraçado?
—Devemos ouvir o que ele tem a dizer.
—Então eu quero ouvir também.
—Você não tem condições disso. Olha só seu estado! Você acabou de falar que ia pegar uma arma!
—Soph... –ele disse e suspirou, deixando mais lágrimas desesperadas caírem.
—Os gêmeos também irão chegar a qualquer instante. Você deve entretê-los enquanto converso com esse homem.
Ele quis rebater, mas eu levantei a mão o interrompendo.
—Por favor. –pedi. Ele anuviou com a cabeça e subiu as escadas.
Respirei fundo e abri a porta. Me deparei com o homem chorando. Ele ouvira tudo, então.
—Eu vou dar a você tempo para se explicar. Mas não pense que terá mais que isso. Principalmente de Pietro, que nem te escutar quer.
—Deu para ouvir o que ele queria.
—Ele só está nervoso. E eu também deveria estar.
—Sempre soube que você seria a mais sensata de todos os meus filhos.
—Como sabe se nunca chegou a conhecer todos os filhos?
Ele ficou calado.
—Filha... –começou.
—Sophia. –corrigi. –Você não tem o direito de me chamar de filha.
—Tudo bem. Sophia, eu quero explicar para todos o que me fez ir embora. Mas não pense nem por um segundo que eu esqueci vocês. Todos os dias eu lembrava de meus queridos filhos e de minha mulher. Mas eu não tive escolha. E sua mãe sabe disso.
—Acho que se ela soubesse, ela não teria sofrido tanto.
—Teria, sim. Afinal, a culpa foi dela.
—Dela?
—Sophia, há tanto a ser explicado... Mas não quero ter que repetir a mesma história diversas vezes. Quero uma reunião com todos voc... –ele parou ao ver meu olhar para algo atrás dele. Ao se virar, meu pai se deparou com os gêmeos abrindo o portão.
Eles passaram por nós, Lydia lançando um olhar interrogativo para mim. Fiz menção de que explicaria depois.
Depois que eles entraram, meu pai me olhou com lágrimas nos olhos.
—Então esses são os filhos que nunca cheguei a conhecer. –falou, a voz embargada.
—Guarde suas lágrimas falsas para depois. –falei. –Assim que minha mãe chegar do hospital entro em contato com você. O senhor tem algum telefone?
—Sim...
—Ah, pensava que não tinha, visto que passou 14 anos sem nos telefonar.
—Sophia, você vai entender...
—Me dê o número. –pedi, tentando soar educada. Ele procurou por um pedaço de papel que tinha dentro do bolso e anotou.
—Te ligo depois. –falei e fechei a porta, sem nem esperar por um adeus. A verdade era que eu estava me segurando por muito tempo. Escorreguei na porta, me sentando no chão. Então chorei.
Não sabia o que aquele homem estava fazendo ali depois de tanto tempo. Será que queria dinheiro? Será que queria se reaproximar de minha mãe? Será que estava arrependido?
Ele dissera que fora tudo culpa da minha mãe. Eu tentava pensar em algo que colocasse minha mãe como culpada. A única coisa que conseguia pensar era traição, mas isso não era nem de longe um motivo para abandonar a família. Não, não era.
Depois de cerca de 10 minutos, Pietro desceu. Ele me viu no chão e sentou-se ao meu lado.
—Ele já foi? –ao julgar pela sua aparência, ele não chorara por muito tempo.
Assenti.
—Desculpa por te deixar sozinha com ele. Deveria ser mais maturo.
Era verdade. Mas não o julgava por não ser capaz de encarar aquele homem. Afinal, meu pai nunca tratara Pietro bem.
—Eu te entendo, Pietro. –falei e enxuguei as lágrimas.
Ele apenas encarava o chão, sem conseguir falar nada. Respirei fundo e soltei:
—Ele vai vir um dia aqui para se explicar com todos nós.
Ele me encarou, surpreso, mas por incrível que pareça, sem nenhum resquício de raiva em seu olhar. Só havia mágoa e uma profunda tristeza.
—E como entrará em contato com ele? –perguntou, suspirando.
—Ele me deu o número do seu celular. Eu ligarei.
—E como prepararemos os gêmeos? E a mamãe?
—Pietro... –me interrompi. Seria sábio dizer o que o nosso pai havia me dito? Ele não conseguia disfarçar nada. Se soubesse que a mamãe tinha algo a ver com o desaparecimento do nosso pai, ele simplesmente a confrontaria, o que não seria nada saudável para a casa.
—O que foi, Soph?
—Eu não sei o que fazer. –meio que menti. Na verdade, eu realmente não tinha a mínima ideia do que fazer agora.
—Vamos esperar a mamãe e dizer a ela. Depois partiremos para os gêmeos. –ele disse e me encarou pela primeira vez desde que chorara.
Assenti, sem querer dizer uma palavra. Tudo o que eu queria era sair dali e procurar Luke. Queria sentir seus braços ao redor do meu corpo. Queria sentir sua boca colada na minha, calando todos os meus pensamentos. Eu queria...
—Vamos fazer o almoço, Soph. Daqui a pouco Juan vai reclamar, dizendo que está com fome. –a voz de Pietro me tirou dos pensamentos.
Assenti novamente. Meu irmão me ajudou a levantar e fomos até a cozinha.
Teria de deixar esses pensamentos para outro momento.
...
—Aquele homem veio aqui? –minha mãe disse assim que eu e Pietro contamos a ela da visita do nosso pai.
Ela havia chegado já fazia algumas horas, mas deixamos ela almoçar e ajustar a vovó no quarto para contarmos a “novidade”. Ela não parecia surpresa. E o pior: parecia calma.
Eu imaginava que quando contássemos a nossa mãe, a primeira coisa que ela faria era gritar conosco. Eu conhecia o temperamento dela, sabia que havia algo errado.
—Por quê não estou achando você nem um pouco surpresa? –Pietro perguntou a pergunta que anuviava minha mente, os braços cruzados, a expressão séria.
Ela suspirou.
—Ele foi no hospital hoje mais cedo. –disse e passou as mãos no rosto, parecendo desolada. Ao tirar as mãos da face, pude ver lágrimas.
Somente uma pessoa conseguia deixar minha mãe assim, e essa pessoa era meu pai.
Depois que os gêmeos nasceram, minha mãe entrou em uma séria depressão pós parto. Eu não lembro muito bem, porém meu avô sempre me contava que ela tentara se matar algumas vezes. E chorava. Como chorava. Ele me dizia também, com muita precisão, que a principal causa daquilo era meu pai ter ido embora. Minha mãe sentira um peso enorme ser colocado em suas costas, que era criar 4 filhos. No entanto, eu sabia que era mais que isso. Minha mãe amava meu pai. Talvez foi uma decepção muito grande ver que aquele amor não era suficiente para fazê-lo ficar. Talvez tivesse sido uma decepção muito grande saber que...
Afinal, a culpa foi dela.
A frase que meu pai me dissera invadiu meus pensamentos. Balancei a cabeça, na tentativa de retirar algum rancor que eu tivesse pela minha mãe.
—Ele pagou a conta no hospital. Disse que pagaria o tratamento inteiro da avó de vocês. Em troca, ele queria apenas uma oportunidade de conversar. De se explicar. –senti um tremor na sua voz.
—A senhora aceitou, não foi? –perguntei.
—Não. –respondeu, séria. –Não quero que aquele homem entre em contato com algum de vocês.
Cruzei os braços, na mesma posição de Pietro.
—Bem, é um bom negócio. O pagamento do tratamento por uma conversa. Uma chance de se explicar. –falei.
—Ele só vai encher a casa de mentiras... –ela disse, a beira do desespero.
—E daí? Mãe, ele vai pagar tudo! TUDO! –Pietro descruzou os braços e gesticulou com as mãos. –Não precisarei me matar de trabalhar. Nem a senhora.
—Você não entende que eu não quero nada vindo dele? –ela explicou. –Ele se afasta por 14 anos e de repente acha que pagar uma conta de hospital pode compensar tudo? Não é assim, Pietro.
—Mãe, eu não terei que desistir da faculdade para trabalhar! Eu poderei realizar meu sonho! Deixa de ser tão egoísta e pense em mim ao menos uma vez na sua vida! –Pietro praticamente grita.
Minha mãe ficou sem palavras. Apenas encarava Pietro, boquiaberta.
Eu olhei para meu irmão, espantada. Pela sua cara, ele se arrependera do que acabara de dizer.
—Mãe, não foi isso que eu quis dizer... –ele meio que se desculpou.
—Tudo bem, Pietro. Liguem para ele e marquem esse encontro. Façam o que quiserem. –ela disse e se retirou da sala, subindo as escadas em direção ao seu quarto.
Assim que ela sumiu de vista, me virei para o meu irmão.
—Não precisava ter dito isso, Pietro. Ela só está querendo nos proteger. –o repreendi.
—Pois está fazendo isso da maneira errada.
—Para ela, não. E se realmente for errado, mais errado foi você que falou isso. Apesar de tudo, foi ela que estava aqui com a gente. Ela não merece nada disso que você disse.
—Cala a boca, Sophia. –ele disse. –E ligue para esse merda vir o quanto antes, para acabar isso tudo. –falou e pegou a chave do carro.
—Vai para onde? –perguntei, preocupada.
—Não sei. –respondeu e saiu. –Só não aguento mais ficar aqui.
Como sempre, deveria de enfrentar o furacão sozinha.
Continua...
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