Reações Inefáveis da Vida Cotidiana
1 Prólogo
Notas iniciais
Quando você fica dentro do seu quarto por seis meses, o tempo se perde, fica estranho. Às vezes você acorda às 4 da manhã, as vezes às 2 da tarde e, às vezes, uma hora após ter ido dormir, sem sono algum. Acordado, seus olhos doem em contato com a luz do sol e por isso você mantém as janelas fechadas. As cortinas se tornam uma espécie de proteção para a sua caverna escura. Você dorme mal e sem seguir uma rotina. Suas olheiras estão lá pra comprovar. Seu corpo está esquelético pelas horas que passa sem comer. Quando o faz, a alimentação varia entre miojo, Doritos e um bocado de refrigerante. O terror de qualquer viciado em academia.
E dentro de seis meses você passa o tempo fazendo todo o tipo de coisa que a internet tem para oferecer. "Online" era a palavra chave. Eu derrotava um americano e depois um japonês em um jogo de RPG; comprava uma miniatura do Charizard que eu não precisava, mas queria ter; batia uma com a incrível performance de Sasha Grey; e finalizava assistindo cinco episódios de Breaking Bad. Internet é um método de distração extremamente eficiente. Foram lindo seis meses onde não chorei uma única vez.
Eu era o que as pessoas chamavam de "vagabundo". Um ser cuja existência não possuí perspectiva de futuro. Mas eu gostava da vida de ganhar experiência. Nos jogos, eu gastava dinheiro real para comprar moedas virtuais para comprar roupas e armas para os meus personagens. Você está no level 1 e quando vê, atingiu o level 100, o que significa que você pode derrotar quase todo mundo. Só precisou investir quase 1000 mil reais para conseguir esse feito. É o tipo de coisa que sua mãe contaria com orgulho para as pessoas, certo?
Porém, nem sempre eu fui recluso — ou vagabundo, como queiram. Eu já havia trabalhado. Horas e horas conversando com pessoas, tentando empurrar coisas que elas não queriam. Meu trabalho é fazê-las pensar que necessitavam daquilo. Eu vendia seguro de vida.
Imagine, então, que você está na ligação com Sr. Adamião, pai de família, aposentado e sem muita paciência para escutar. Você quer lhe passar o seguro, mas Sr. Adamião não quer, não precisa ou já tem.
– Mas é só 20 reais por mês. É como pagar um cafézinho por dia. — Sr. Adamião ainda não quer — E se acontecer do senhor morrer? Como fica sua família? — Sr. Adamião avisa que não gosta da palavra 'morte' — Se o senhor ficar com o seguro, vai concorrer a um sorteio de dois carros por mês. — Sr. Adamião diz que não tem sorte pra ganhar nessas coisas.
No desespero você fala do guarda-chuva. Você conhece essa? Era um clássico.
– Senhor, o seguro é que nem um guarda-chuva. O senhor o leva por questão de segurança porque nunca se sabe quando vai chover. E com o seguro é a mesma coisa, porque nunca sabemos o dia de amanhã. Não sabemos se vamos estar vivos ou se alguma fatalidade possa acontecer (Porque eu não posso falar a palavra 'morte').
Era um argumento medíocre que às vezes as pessoas caíam. Com Sr. Adamião não teve jeito.
Ainda assim eu era esforçado. Em quase um ano e meio. consegui juntar quase dez mil reais. Meu plano era usar isso para que eu e Natália nos mudássemos para os Estados Unidos. Você sabe, né? Aquela ladainha sonhadora de que nos EUA as coisas eram melhores e mais legais e mais fácil de nos tornamos ricos. Eu e Natália vivíamos falando sobre isso. Até que ela morre. E não. Ela não tinha seguro de vida.
Segundo algumas informações não muito confiáveis na internet, ao morrer sua consciência tem um atraso de três minutos para morrer junto do corpo. Sempre me pergunto o que ela pensou nesses minutos... Ela pensou em mim? Será que pra ela, nossa mudança para os Estados Unidos não era mais o suficiente para continuar vivendo? Ou sua vida inteira passou diante dos seus olhos como um clichê idiota?
Eu ainda tenho raiva dela. É estranho ter raiva de alguém que morreu. Sua história com aquela pessoa está pausada, empacada e nunca mais vai sair daquilo. Você não pode gritar ou jogar coisas na cara de alguém que está morto. Primeira regra dos caminhos do coração: não se apaixone por uma garota que pode se matar quando você menos espera. Aposto que Sr. Adamião concordaria comigo.
Após algo tão traumático quanto a morte de uma namorada pode ser, você se encontra dentro de um quarto por seis meses.
Então, aparece seu pai surgindo do nada como uma Fênix desnecessária desferindo frases pretensiosas.
Vim lhe salvar, meu filho. Salvar você de si mesmo.
E em um ano meu pai completou minha vida. Arranjou-me um emprego em um hotel; uma garota loira de olhos azuis brotou em minha vida e logo se tornou minha namorada.... Amigos antigos voltaram, novos apareceram... Minhas roupas mudaram, um carro surgiu, eventos sociais passaram a ter a minha presença...
Não é lindo quando sua vida é estabelecida sem nenhum esforço?
Antes eu era um vagabundo. Agora sou uma farsa.
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