Razão ou Coração livro3 O Fantasma e o Espinho de
9 O Ultimato de Versalhes
A madrugada em Whitehall era um labirinto de sombras e pecados silenciados. Selene, movida por uma mistura inebriante de poder e o desejo de confrontar o homem que sacrificara a paz da própria irmã por ela, atravessou os corredores até os aposentos reais. Ela não bateu; entrou como uma tempestade de seda. Edward, que tentava afogar a culpa em uma jarra de vinho, não teve tempo de erguer suas defesas.
A sedução foi um embate de vontades. Selene usou cada palavra e cada toque para desarmar o Rei de Ferro, e Edward, fragilizado pela própria obsessão, sucumbiu novamente. Entre beijos carregados de ressentimento e carícias que queimavam como brasas, eles se perderam um no outro sobre os lençóis de linho real.
Contudo, a discussão que se seguiu ao ato foi mais violenta que a própria paixão.
— Você me comprou, Edward! — Selene sibilou, sentada na beira da cama, os cabelos ruivos em desalinho. — Você destruiu o futuro de Camilly para me manter como seu brinquedo secreto!
— Você é o meu castigo! — Edward rugiu, levantando-se da cama, a nudez expondo as cicatrizes de batalhas antigas. — Você entrou aqui para me destruir, e conseguiu!
Os gritos de fúria ecoaram além das portas pesadas, atraindo o que Edward mais temia. A porta do quarto foi aberta abruptamente pela guarda, seguida por figuras que traziam a luz impiedosa das tochas: Sabrina, com o rosto petrificado em horror; Charles, cuja expressão oscilava entre a decepção e a raiva; e o Rei Luís, que exibia um sorriso gélido de quem acabara de ganhar o jogo.
A cena era irrefutável. Edward estava parado no centro do quarto, nu e vulnerável, enquanto Selene se enrolava apressadamente em um lençol de seda, os olhos desafiadores apesar da situação.
— Então este é o "dever" que você tanto prega, Edward? — Sabrina sussurrou, a voz carregada de um desgosto profundo.
O Rei Luís deu um passo à frente, ignorando o escândalo e focando na oportunidade política. Ele olhou para o Rei da Inglaterra com um desdém diplomático que escondia um triunfo absoluto.
— Você desvirtuou uma princesa da França sob o seu próprio teto, Edward Tudor — Luís declarou, sua voz ecoando com a autoridade de um veredicto. — O escândalo chegará a Roma antes do pôr do sol. O Papa não verá com bons olhos um monarca que sacrifica a castidade de sua convidada em uma cripta e em seus aposentos.
— O que você quer, Luís? — Edward perguntou, sua voz saindo como um rosnado animal, enquanto ele vestia um roupão com mãos trêmulas de puro ódio.
— Você tem duas opções — Luís respondeu, aproximando-se. — Ou eu testemunho contra você em Roma, pedindo sua excomunhão e o isolamento da Inglaterra, ou você se casa com Selene imediatamente. Ela não será uma "dama de companhia". Ela será a Rainha da Inglaterra.
O silêncio que se seguiu foi mortal. Sabrina fechou os olhos, percebendo que o plano de Selene — ou do destino — havia vencido. Edward olhou para Selene, que o observava de cima do lençol, e o desejo que sentira momentos antes transformou-se em um fel amargo.
— Eu me casarei com ela — Edward disse, a voz tão fria que parecia vir do fundo de uma tumba. — Mas ouça bem, Luís... e ouça bem, Selene. Eu darei a ela a coroa. Darei a ela o título. Mas nada neste mundo, nem o Papa, nem Deus, nem a força da França, me fará respeitá-la como minha esposa. Ela terá o meu nome, mas nunca terá o meu coração ou a minha honra.
Ele caminhou até Selene, parando a centímetros dela, o olhar verde destilando um veneno letal.
— Você queria o trono, Selene? Pois bem, você o terá. Mas você descobrirá que o leito de um Rei que te odeia é mais frio do que o túmulo de Isabelle.
Edward saiu do quarto, passando pelos pais sem olhar para trás, deixando para trás uma rainha eleita pelo escândalo e um reino que, agora, estava definitivamente dividido entre o ferro da lei e o fogo da traição.
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