​A manhã em Whitehall nasceu com uma névoa persistente, um lembrete sutil de que, no Norte, o sol precisava lutar para ser visto. Para Selene, porém, a névoa era apenas um véu que ela pretendia rasgar. Vestindo um traje de montaria em veludo verde-esmeralda que acentuava a brancura de sua pele e a intensidade de seus cabelos ruivos, ela dispensou suas damas francesas e caminhou em direção aos jardins privados do Rei. Ela sabia, através de conversas casuais com os servos que já havia seduzido com sorrisos, que este era o único refúgio de Edward Tudor.

​Selene não era uma mulher de meias-medidas. Se o Rei de Ferro queria distância, ela lhe daria proximidade. Se ele queria silêncio, ela lhe daria palavras. Ela caminhava pelas alamedas simétricas, observando a perfeição gélida das esculturas de pedra e as sebes cortadas com precisão militar. Não havia flores silvestres ali; apenas rosas brancas e vermelhas, cultivadas com um rigor que as impedia de crescer livremente.

​No centro do jardim, diante de uma fonte de mármore negro que jorrava água gelada, ela o encontrou. Edward estava de pé, de costas para ela, observando o horizonte. Ele usava uma túnica simples de veludo preto, e sua postura era a de uma sentinela que nunca abandona o posto. O som de seus passos sobre o cascalho o fez tencionar os ombros.

​— Pensei ter deixado claro que este jardim é privado, Mademoiselle — Edward disse, sem se virar. Sua voz era como o ranger de uma porta de ferro enferrujada.

​— Em Versalhes, Majestade, os jardins são feitos para serem vistos — Selene respondeu, parando a poucos passos dele. — E eu nunca fui muito boa em seguir regras que não fazem sentido.

​Edward virou-se lentamente. O impacto de vê-la à luz do dia foi ainda pior do que na noite anterior. O sol, lutando para atravessar a névoa, incidia sobre os cabelos dela, fazendo-os brilhar como ouro derretido. A lembrança de Isabelle Pierce, em pé naquele mesmo jardim dez anos antes, atingiu-o como um soco físico. Ele apertou os punhos, lutando contra o tremor que ameaçava traí-lo.

​— Versalhes é um palácio de vidro e aparências. Whitehall é feito de pedra e dever. Se você não consegue entender a diferença, talvez deva voltar para o sul com a primeira maré.

​Selene sorriu, um sorriso que não era de submissão, mas de desafio puro. Ela aproximou-se um passo, quebrando a distância de segurança que ele tentava manter.

​— Pedra e dever... parece uma descrição adequada para o seu coração, Majestade. Mas pedra pode ser quebrada, e o dever pode se tornar uma prisão. Eu vejo como você olha para mim. Você me odeia porque eu o lembro dela, mas ao mesmo tempo... — ela inclinou a cabeça, os olhos azuis fixos nos dele, — você não consegue desviar o olhar.

​— Você não sabe nada sobre o meu coração, ilegítima — Edward sibilou, a voz baixa e perigosa. — E não ouse falar de coisas que você não compreende. Isabelle Pierce foi um sacrifício que este reino exigiu. Eu fiz o que era necessário.

​— Um sacrifício ou uma covardia? — Selene provocou, sua língua afiada agindo como o espinho de uma rosa. — Dizem que o Lobo de York aceitou uma coleira de ferro para garantir o trono. Dizem que o Rei de Ferro preferiu reinar sobre cinzas a queimar com a mulher que amava. Eu não sou um fantasma, Edward. Eu sou de carne e sangue. E eu não tenho medo do seu gelo.

​A fúria de Edward explodiu. Ele deu um passo agressivo em direção a ela, segurando-a pelo braço com uma força que faria qualquer outra mulher gritar de dor. Selene, porém, não piscou. Ela sustentou o olhar dele, a respiração acelerada, mas o sorriso ainda presente nos lábios. O calor da pele dela contra a luva de Edward foi como um choque elétrico.

​— Escute-me bem, espinho de Versalhes — Edward sussurrou, a centímetros do rosto dela. — Eu já enfrentei exércitos, conspirações e venenos. Eu quebrei uma rainha russa e mandei seu embaixador para a forca. Você não é nada além de um lembrete doloroso de um passado que eu escolhi enterrar. Eu não sentirei calor novamente. Não por você.

​— Então por que a sua mão está tremendo, Majestade? — Selene perguntou, sua voz sendo um sussurro sedutor que penetrou a armadura de Edward.

​Ele a soltou bruscamente, como se ela fosse uma brasa quente. O pavor de seus próprios sentimentos o fez recuar. Ele não podia permitir isso. Não novamente.

​— Saia do meu jardim. Agora. Se eu a encontrar aqui novamente, eu a farei escoltar de volta para o navio francês antes que Alycia e Edmund terminem o jantar.

​Selene fez uma vênia lenta, com um sorriso de vitória. Ela sabia que ele não o faria. Ele precisava dela, mesmo que para odiá-la.

​— Como desejar, Majestade. Mas lembre-se: no Sul, nós sabemos que as rosas mais bonitas são as que têm os espinhos mais afiados. Eu o verei no jantar. E eu prometo que não levarei o sol comigo.

​Ela virou as costas e caminhou em direção à saída, os cabelos ruivos ondulando atrás dela. Edward Tudor permaneceu sozinho diante da fonte de mármore negro. O gelo de Whitehall estava rachando, e o Rei de Ferro percebia, com um pavor mortal, que a razão de Estado estava prestes a perder a sua primeira batalha para o coração dilacerado de um lobo que acreditava estar morto.