Razão ou Coração

28 Sangue, Gelo e Coroa


O inverno parecia ter retornado a Londres apenas para testemunhar o desfecho dessa saga. A neve caía pesada, mas o brilho branco lá fora era contrastado pelo vermelho do sangue que manchava os pátios de Whitehall. Alexander, em um último ato de loucura e desespero, usara seus contatos remanescentes e mercenários estrangeiros para lançar um ataque surpresa ao palácio, aproveitando-se do momento de maior vulnerabilidade do Rei: o nascimento de seu herdeiro.

​Dentro do palácio, os gritos de guerra misturavam-se aos gritos de dor de Sabrina. O parto fora antecipado pelo estresse do cerco. No quarto real, transformado em uma fortaleza, Camilly limpava o suor da testa de Sabrina, enquanto Virginia tremia num canto, segurando bacias de água quente com as mãos trêmulas.

​— Onde está o Charles? — Sabrina arquejou, agarrando os lençóis com uma força descomunal enquanto uma contração a dilacerava.

​— Ele está nos portões, Sabrina — Camilly respondeu, tentando manter a voz firme apesar do som de metal batendo contra metal que ecoava no corredor. — Ele jurou que nenhum traidor cruzaria esta porta.

​O Lobo no Umbral

​No corredor adjacente ao quarto, Charles era a personificação da fúria. Ele não usava a coroa, mas sim seu elmo de guerra. Sua armadura estava coberta de fuligem e sangue. Ele e um punhado de guardas leais de York formavam uma barreira humana diante da porta da Rainha.

​Alexander surgiu no fim do corredor, com a espada em punho e o rosto transfigurado pelo ódio.

​— Saia da frente, tio! — Alexander gritou. — O reinado do bastardo termina hoje, antes que o seu filhote veja a luz!

​— Você não é um Tudor, Alexander — Charles sibilou, avançando com a espada desembainhada. — Você é apenas a sombra de um erro que eu estou prestes a apagar.

​O duelo foi brutal. Alexander era jovem e rápido, mas Charles lutava com a força de um homem que defendia tudo o que amava. Cada golpe de Charles carregava o peso de York, da perda do primeiro filho e da promessa que fizera a Sabrina. Com um movimento magistral, Charles desarmou o sobrinho e, com um chute poderoso, lançou-o contra a parede, prendendo-o com a ponta da lâmina na garganta.

​— Você não vale o sangue que mancharia este chão — Charles rosnou. — Guardas! Levem-no para a torre mais profunda. Ele assistirá ao nascer do sol de um novo herdeiro antes de enfrentar o carrasco.

​O Primeiro Grito

​No exato momento em que Alexander era arrastado, um som diferente cortou o ar do palácio. Não era um grito de guerra, nem o estrépito de espadas. Era um choro agudo, forte e cheio de vida.

​Charles largou a espada. Suas mãos trêmulas retiraram o elmo. Ele empurrou as portas do quarto e parou.

​Sabrina estava exausta, os cabelos loiros colados ao rosto, mas em seus braços, envolto em lã branca, estava o milagre. Camilly sorria entre lágrimas, e até Virginia parecia ter encontrado coragem diante da cena.

​— É um menino, Charles — Sabrina sussurrou, a voz fraca, mas carregada de triunfo. — O Lobo de York tem o seu herdeiro.

​Charles caminhou até a cama e ajoelhou-se. Ele não olhou para a coroa que repousava sobre a mesa, mas para o pequeno rosto avermelhado do filho. Ele beijou a testa de Sabrina e depois a mão minúscula do bebê.

​— Ele se chamará Edward — Charles declarou, a voz vibrando de emoção. — O Rei Edward. O primeiro de uma linhagem que ninguém poderá questionar.

​Lá fora, os gritos de batalha cessaram. Os mercenários de Alexander, ouvindo que o líder fora capturado e que um novo príncipe nascera, depuseram as armas. O cerco fora quebrado não apenas pelo aço, mas pela vida que insistira em florescer no meio do caos.

​A guerra de York e Londres finalmente terminara. O inverno passaria, e pela primeira vez em gerações, a primavera traria uma paz que não fora comprada com mentiras, mas conquistada com a verdade e o amor indomável de um Lobo e sua Rainha.