Razão ou Coração

19 :O Gelo e a Brasa


O inverno em York não chegou com suavidade; ele golpeou o castelo como uma punição divina. Em uma única noite, o céu desabou em uma neve branca e espessa, soterrando as estradas e transformando a fortaleza em uma ilha de pedra isolada do resto do mundo. O som do vento uivando pelas fendas das torres era constante, e o frio de fora começou a vencer as grossas paredes de granito.

​A escassez de lenha seca e a vigilância constante da Sra. Halloway forçaram Charles e Sabrina a uma proximidade que nenhum teatro poderia ter previsto.

​O quarto principal era o único lugar onde a lareira ainda recebia toras de carvalho suficientes para manter a vida. O restante do castelo tornara-se um túmulo gelado. Devido à tempestade, os servos mal conseguiam transitar pelas áreas externas, e a Sra. Halloway, com seu olhar de falcão, aproveitava o isolamento para reduzir as provisões de lenha, alegando "necessidade de racionamento para a sobrevivência de todos".

​— Ela está tentando nos quebrar pelo frio — Sabrina murmurou, sentada encolhida em frente à lareira, envolta em três camadas de peles pesadas. Seus lábios tinham um leve tom azulado.

​Charles entrou no quarto, batendo a neve das botas. Ele viera das cavalariças, onde ajudara a reforçar as portas contra o vento. Ele parecia exausto, o rosto castigado pelo frio, mas seus olhos brilharam ao ver Sabrina tremendo.

​— William escolheu bem o lugar para o nosso exílio — Charles disse, a voz rouca. Ele aproximou-se e jogou a última tora de madeira no fogo. — Se não morrermos pela espada, morreremos congelados enquanto ela escreve relatórios sobre como fomos "unidos pelo destino".

​Ele sentou-se ao lado dela no tapete de pele de urso. Pela primeira vez, não havia deboche. O frio era um inimigo comum que não aceitava ironias.

​— Aproxime-se, Sabrina — ele comandou, mas não era uma ordem real, era um apelo de sobrevivência. — O calor de uma pessoa é a única coisa que a neve não pode roubar.

​Sabrina hesitou, mas um calafrio violento a sacudiu. Ela cedeu, deslizando para o lado dele. Charles abriu o seu pesado manto de pele de lobo e a envolveu, puxando-a para o peito. O calor do corpo dele era imenso, um contraste brutal com o ar gélido do quarto.

​A Confissão nas Sombras

​Ficaram em silêncio por um longo tempo, observando as chamas devorarem a madeira. A respiração de um aquecia o rosto do outro. A máscara de teatro que usavam para a Sra. Halloway caiu, pois ali, no isolamento total, não havia ninguém para impressionar além da própria morte.

​— Por que você não me entregou? — Charles perguntou subitamente, a voz vibrando contra o ombro dela. — Naquela noite na estalagem... você tinha as provas. Poderia ter se livrado de mim e voltado para a proteção de William como a vítima heroica.

​Sabrina suspirou, sentindo o cheiro de couro e frio que emanava dele.

​— William não aceita vítimas, Charles. Ele aceita ferramentas. Se eu o entregasse, eu provaria que fui uma ferramenta falha. E, no fundo... — ela fez uma pausa, olhando para as brasas — eu percebi que você é o único que me vê. No palácio, eu era a "protegida". Para William, eu sou uma peça. Para você, eu sou um espinho. Mas pelo menos sou real.

​Charles apertou o abraço, enterrando o rosto nos cabelos dela.

​— Eu nunca quis que você fosse arrastada para isso — ele confessou, um segredo que ele nunca admitiria sob a luz do sol. — Eu voltei para salvar minha pele, mas acabei entregando a sua ao lobo.

​— Nós somos os lobos agora, Charles — Sabrina respondeu, levantando o rosto para encará-lo. — Se sobrevivermos a este inverno, William não terá mais dois súditos em York. Terá dois sobreviventes que sabem exatamente do que o outro é capaz.

​O olhar de Charles desceu para os lábios de Sabrina. Desta vez, não havia Sra. Halloway atrás da porta. Não havia teatro. Havia apenas a necessidade humana de calor e a atração que o ódio tentara, sem sucesso, sufocar.

​Ele a beijou. Não foi o beijo agressivo do quarto nupcial, nem o beijo fingido do café da manhã. Foi um beijo lento, desesperado e quente, como se estivessem tentando fundir o gelo que os cercava. Sabrina correspondeu, as mãos subindo pelo pescoço dele, agarrando-se ao homem que era, ao mesmo tempo, seu captor e seu único aliado.

​Lá fora, a tempestade rugia, mas dentro do círculo de luz da lareira, o inverno de York acabara de encontrar o seu primeiro incêndio.