​O dia do casamento de Alycia e Edmund finalmente chegou, tingindo Londres com o azul da França e o dourado dos Tudor. A cerimônia na Abadia foi um triunfo da diplomacia e da beleza; Alycia caminhou com a dignidade de uma rainha, enquanto Edmund a recebia com um olhar de admiração genuína. Contudo, para Edward, cada nota do órgão e cada promessa trocada no altar eram ecos de um funeral. Ele permanecia no trono lateral, a coroa de ferro parecendo pesar toneladas sobre suas têmporas, os olhos fixos em um ponto vazio no teto da catedral.

​O banquete em Whitehall foi preparado para ser a celebração do século. Centenas de candelabros de cristal iluminavam o Grande Salão, e o vinho francês corria livremente. Edward, porém, mantinha-se como uma estátua de gelo na cabeceira da mesa. Ele mal tocava na comida e seus olhos verdes evitavam, com uma precisão cirúrgica, o lugar onde Selene estava sentada.

​Selene, em contrapartida, era o centro das atenções. Usando um vestido de seda escarlate que parecia feito de chamas vivas, ela ria e conversava, mas seu olhar, como o de um predador, nunca perdia o Rei de vista.

​Após os brindes oficiais, o mestre de cerimônias anunciou o início das danças. O protocolo era implacável: após a primeira dança dos noivos, o Rei da Inglaterra deveria honrar a convidada de mais alto escalão da comitiva francesa que não estivesse no trono. Por direito de sangue, embora ilegítima, Selene fora designada para essa honra por seu pai, o Rei Luís, em um movimento político calculado.

​O silêncio caiu sobre o salão quando Edward levantou-se. Ele caminhou até Selene com a rigidez de um homem que caminha para um duelo.

​— Mademoiselle — ele disse, a voz seca, estendendo a mão enluvada sem sequer olhar nos olhos dela.

​— Majestade — ela respondeu, pousando a mão sobre a dele. O contato, mesmo através do tecido, fez os pelos da nuca de Edward se arrepiarem.

​Eles se moveram para o centro do salão. A música, uma valsa lenta e melancólica, começou a preencher o espaço. Edward mantinha a distância máxima permitida pelo passo da dança. Seus braços eram barras de ferro que mantinham o corpo de Selene longe do seu, e seu olhar permanecia fixo no ombro dela, recusando-se a baixar para o seu rosto.

​— Você dança como se estivesse segurando um cadáver, Edward — Selene sussurrou, a voz apenas para os ouvidos dele. — Onde está o homem que rugiu para mim nos jardins?

​— O homem que você viu nos jardins está enterrado sob o dever, Mademoiselle — Edward respondeu, os dentes cerrados. — Aqui, eu sou apenas o Rei. E o Rei não deseja estar nesta dança.

​— Mentira — ela rebateu, aproximando-se apenas um milímetro, sentindo a resistência imediata dele. — Seus dedos estão apertando os meus com uma força que não é de desprezo, mas de medo. Você tem medo de que, se me olhar nos olhos, verá que eu não sou um fantasma. Eu respiro, Edward. Eu sou real.

​— Você é um erro geográfico — ele sibilou, finalmente baixando o olhar para ela. A intensidade do verde contra o azul dos olhos dela foi como o choque de dois oceanos. — Você é uma distração que a França enviou para testar minha paciência. Termine esta dança e saia da minha vista.

​— Eu não vou a lugar nenhum — Selene sorriu, uma expressão de pura teimosia que teria feito Sabrina tremer. — Você pode manter essa distância, pode se esconder atrás dessa coroa de espinhos, mas eu sinto o seu coração batendo. Ele está acelerado, Majestade. E não é por ódio.

​A música atingiu o clímax e Edward executou o giro final com uma precisão gélida. Assim que a última nota soou, ele soltou a mão dela como se tivesse sido queimado. Ele não esperou pelo aplauso da corte, nem ofereceu o braço para conduzi-la de volta ao assento.

​— O dever está cumprido — ele disse, fazendo uma vênia curta e impessoal. — Aproveite o restante da festa, Mademoiselle. Será a última vez que dividiremos o mesmo espaço.

​Edward virou-se e atravessou o salão em direção às portas laterais, ignorando os sussurros da corte e o olhar preocupado de Alycia. Selene permaneceu no centro do salão, observando as costas do Rei de Ferro desaparecerem. Ela ajeitou a saia do vestido vermelho e sorriu para si mesma. A distância que ele tentava manter era, para ela, a maior prova de que ele já estava derrotado.

​O banquete continuou, mas para o Rei e para o Espinho de Versalhes, a verdadeira guerra acabara de ser declarada sob os olhares de toda a cristandade.