Razão ou Coração livro3 O Fantasma e o Espinho de
10 O Sacramento das Sombras
A manhã do casamento surgiu sob um céu de chumbo, com uma garoa fina que transformava as pedras de Whitehall em espelhos cinzentos. Dentro da Capela Real, o ambiente não era de celebração, mas de um funeral solene. O cheiro de incenso era tão carregado que parecia sufocar os poucos nobres presentes, que sussurravam sobre o escândalo que forçara aquela união repentina.
Edward estava parado diante do altar, mas não vestia as roupas de seda e ouro esperadas de um noivo real. Ele usava sua armadura de guerra, a placa peitoral negra polida até brilhar como obsidiana, e seu manto de veludo escuro caía pesadamente sobre os ombros. Sua mão descansava no punho da espada, e seu rosto, esculpido em ódio e exaustão, não se moveu quando as portas se abriram.
Selene entrou com uma beleza que era quase uma afronta ao ambiente lúgubre. Seu vestido de cetim prateado, detalhado com rendas negras, arrastava-se pelo chão de mármore como uma serpente de metal. Ela não caminhava com a hesitação de uma noiva; sua cabeça estava erguida, e seus olhos azuis buscavam os de Edward, desafiando a frieza que emanava dele. Ao seu lado, o Rei Luís exibia um sorriso de triunfo geopolítico, enquanto Sabrina e Charles observavam da primeira fileira com expressões de quem via a própria linhagem ser desmantelada.
A cerimônia foi rápida e gélida. O arcebispo, visivelmente desconfortável sob o olhar assassino do Rei, apressou os ritos. No momento em que Edward deveria segurar a mão de Selene para o juramento, ele o fez com uma rigidez que fez os dedos dela empalidecerem sob a pressão do metal de sua manopla.
— Eu, Edward Tudor, recebo-te como minha rainha e esposa — ele disse, sua voz ecoando pelas abóbadas da capela, destituída de qualquer traço de afeto.
Quando chegou a vez de Selene, ela pronunciou seus votos com uma clareza cortante, olhando fixamente para o homem que a possuíra com fúria e agora a recebia com desprezo. No momento em que Edward deveria beijar a noiva, ele apenas inclinou a cabeça, seus lábios mal roçando a bochecha de Selene, um gesto tão impessoal que fez o Rei Luís fechar o sorriso por um instante.
Ao final da bênção, enquanto os sinos de Whitehall dobravam de forma melancólica, Edward inclinou-se em direção ao ouvido de Selene, o hálito quente contrastando com o tom gélido de suas palavras.
— Você tem a sua coroa, Selene. Mas a partir deste momento, você descobrirá que este palácio tem mil salas, e em nenhuma delas você encontrará o meu respeito. Você reinará sobre paredes de pedra, pois o meu coração está trancado em uma cripta onde você nunca terá a chave.
Ele soltou a mão dela bruscamente e, sem esperar pela procissão oficial ou pelo braço da esposa, desceu os degraus do altar e atravessou a nave da capela. O som de suas botas de metal contra o mármore foi o único aplauso que a nova Rainha da Inglaterra recebeu.
Camilly, sentada ao lado de um Jonas que já a olhava com a posse de um dono, chorava silenciosamente. Ela sabia que aquele casamento não era apenas o fim da liberdade dela, mas o golpe final na sanidade de seu irmão. Selene permaneceu sozinha diante do altar por alguns segundos, a coroa pesando em sua cabeça e o olhar de Sabrina queimando em suas costas. Ela havia vencido o Rei, mas percebia, com um calafrio, que a guerra dentro daqueles quartos estava apenas começando.
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