​O eco do banquete ainda ressoava pelas paredes de pedra quando Edward atravessou os corredores de Whitehall como um vendaval de aço. Ele não se deu ao trabalho de despir a armadura; o som das placas de metal chocando-se era o anúncio de sua fúria. Os guardas à porta dos aposentos da rainha recuaram imediatamente diante do olhar do soberano, permitindo que ele escancarrasse as portas de carvalho com uma violência que fez os cristais da sala tremerem.

​Selene estava diante da lareira, removendo a coroa de prata com mãos que, embora firmes, denunciavam o cansaço da batalha política. Ela se virou lentamente, observando a figura massiva e sombria do marido sob o portal.

​— Como ousa? — A voz de Edward não era um grito; era um sussurro gutural, carregado de uma eletricidade perigosa. — Como ousa usar a coroa que eu te dei para cuspir no meu rosto diante de toda a cristandade?

​— Eu não cuspi no seu rosto, Edward — Selene respondeu, caminhando até ele com uma calma desafiadora. — Eu te devolvi a dignidade de um irmão. Você estava disposto a sacrificar a pureza de Camilly pela sua incapacidade de me deixar ir. Eu apenas limpei a mancha que você mesmo jogou sobre o nome dos Tudor.

​Edward avançou, encurralando-a contra a tapeçaria da parede. Ele socou a pedra ao lado da cabeça dela, o barulho do metal contra o granito ecoando pelo quarto.

​— Você não sabe nada sobre sacrificar! — ele rugiu, aproximando o rosto do dela até que suas respirações se misturassem em um embate de calor e ódio. — Eu vendi minha alma para manter este reino de pé! Eu aceitei você para não ver este país mergulhado em uma guerra sagrada contra Roma! E você usa o seu primeiro dia para me desautorizar? Você é minha esposa por obrigação, Selene, não minha co-regente!

​— Então me trate como tal! — Selene rebateu, empurrando o peitoral de metal dele com as palmas das mãos. — Me trate como o erro que você diz que eu sou, mas não espere que eu assista em silêncio enquanto você destrói a vida de todos ao seu redor para alimentar o seu luto! Isabelle está morta, Edward! Ela morreu e você está tentando enterrar a Inglaterra inteira no túmulo com ela!

​O nome de Isabelle foi o estopim. Edward segurou Selene pelos ombros, uma mistura de desejo violento e repulsa pura turvando seu julgamento. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado pela memória da noite na cripta.

​— Você acha que, porque eu te possuí uma vez, você tem direito sobre a minha vontade? — Edward sibilou, seus olhos verdes fixos nos lábios dela, que ainda guardavam o rastro do vinho do banquete.

​— Eu acho que, porque você me possuiu, você descobriu que ainda está vivo — Selene sussurrou, sua voz perdendo a aspereza e tornando-se um desafio sedutor. — E é isso que te apavora. Você prefere o seu ferro e o seu gelo porque eles não sentem dor. Mas eu sinto. E você sente também, toda vez que me toca.

​Edward a beijou — um beijo que era um combate, uma tentativa de silenciá-la e de punir a si mesmo. Foi uma noite de confronto que não terminou em palavras, mas em uma entrega amarga e visceral, onde o ódio e a paixão se confundiam sob os lençóis da rainha.

​Ao amanhecer, porém, o gelo retornou. Edward levantou-se da cama antes que o sol tocasse o horizonte, vestindo sua túnica sem olhar para a mulher que dormia ao seu lado. Ele parou à porta, sua silhueta recortada pela luz fria da manhã.

​— O decreto permanece apenas porque não voltarei atrás na minha palavra diante da corte — ele disse, sem se virar. — Mas a partir de hoje, Selene, você é uma prisioneira nesta ala. Você não dará mais ordens, não falará com embaixadores e não sairá deste quarto sem a minha permissão. Se você quer ser rainha, aprenda que rainhas também podem ser trancafiadas.

​Ele saiu, e o som da chave girando na fechadura externa foi o veredito final daquela noite. Selene abriu os olhos na penumbra, sentindo o peso da coroa mesmo sem tê-la na cabeça. Ela havia libertado Camilly, mas agora era ela quem habitava o coração da torre de ferro de Edward.