Razão ou Coração livro3 O Fantasma e o Espinho de
12 O Labirinto de Vidro e Cinza
O eco do banquete ainda ressoava pelas paredes de pedra quando Edward atravessou os corredores de Whitehall como um vendaval de aço. Ele não se deu ao trabalho de despir a armadura; o som das placas de metal chocando-se era o anúncio de sua fúria. Os guardas à porta dos aposentos da rainha recuaram imediatamente diante do olhar do soberano, permitindo que ele escancarrasse as portas de carvalho com uma violência que fez os cristais da sala tremerem.
Selene estava diante da lareira, removendo a coroa de prata com mãos que, embora firmes, denunciavam o cansaço da batalha política. Ela se virou lentamente, observando a figura massiva e sombria do marido sob o portal.
— Como ousa? — A voz de Edward não era um grito; era um sussurro gutural, carregado de uma eletricidade perigosa. — Como ousa usar a coroa que eu te dei para cuspir no meu rosto diante de toda a cristandade?
— Eu não cuspi no seu rosto, Edward — Selene respondeu, caminhando até ele com uma calma desafiadora. — Eu te devolvi a dignidade de um irmão. Você estava disposto a sacrificar a pureza de Camilly pela sua incapacidade de me deixar ir. Eu apenas limpei a mancha que você mesmo jogou sobre o nome dos Tudor.
Edward avançou, encurralando-a contra a tapeçaria da parede. Ele socou a pedra ao lado da cabeça dela, o barulho do metal contra o granito ecoando pelo quarto.
— Você não sabe nada sobre sacrificar! — ele rugiu, aproximando o rosto do dela até que suas respirações se misturassem em um embate de calor e ódio. — Eu vendi minha alma para manter este reino de pé! Eu aceitei você para não ver este país mergulhado em uma guerra sagrada contra Roma! E você usa o seu primeiro dia para me desautorizar? Você é minha esposa por obrigação, Selene, não minha co-regente!
— Então me trate como tal! — Selene rebateu, empurrando o peitoral de metal dele com as palmas das mãos. — Me trate como o erro que você diz que eu sou, mas não espere que eu assista em silêncio enquanto você destrói a vida de todos ao seu redor para alimentar o seu luto! Isabelle está morta, Edward! Ela morreu e você está tentando enterrar a Inglaterra inteira no túmulo com ela!
O nome de Isabelle foi o estopim. Edward segurou Selene pelos ombros, uma mistura de desejo violento e repulsa pura turvando seu julgamento. O silêncio que se seguiu foi denso, carregado pela memória da noite na cripta.
— Você acha que, porque eu te possuí uma vez, você tem direito sobre a minha vontade? — Edward sibilou, seus olhos verdes fixos nos lábios dela, que ainda guardavam o rastro do vinho do banquete.
— Eu acho que, porque você me possuiu, você descobriu que ainda está vivo — Selene sussurrou, sua voz perdendo a aspereza e tornando-se um desafio sedutor. — E é isso que te apavora. Você prefere o seu ferro e o seu gelo porque eles não sentem dor. Mas eu sinto. E você sente também, toda vez que me toca.
Edward a beijou — um beijo que era um combate, uma tentativa de silenciá-la e de punir a si mesmo. Foi uma noite de confronto que não terminou em palavras, mas em uma entrega amarga e visceral, onde o ódio e a paixão se confundiam sob os lençóis da rainha.
Ao amanhecer, porém, o gelo retornou. Edward levantou-se da cama antes que o sol tocasse o horizonte, vestindo sua túnica sem olhar para a mulher que dormia ao seu lado. Ele parou à porta, sua silhueta recortada pela luz fria da manhã.
— O decreto permanece apenas porque não voltarei atrás na minha palavra diante da corte — ele disse, sem se virar. — Mas a partir de hoje, Selene, você é uma prisioneira nesta ala. Você não dará mais ordens, não falará com embaixadores e não sairá deste quarto sem a minha permissão. Se você quer ser rainha, aprenda que rainhas também podem ser trancafiadas.
Ele saiu, e o som da chave girando na fechadura externa foi o veredito final daquela noite. Selene abriu os olhos na penumbra, sentindo o peso da coroa mesmo sem tê-la na cabeça. Ela havia libertado Camilly, mas agora era ela quem habitava o coração da torre de ferro de Edward.
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