​A noite em Whitehall era silenciosa, mas o ar nos corredores parecia carregar o peso de uma tempestade iminente. Selene foi anunciada e, pela primeira vez, as portas dos aposentos pessoais do Rei se abriram para ela. Diferente do quarto da rainha, que era adornado com sedas, o cômodo de Edward era austero: paredes de pedra nua, mapas de guerra e o cheiro persistente de madeira queimada e pergaminho antigo.

​Ela caminhou calmamente, os passos ecoando no chão de carvalho. Observou a cama larga, a lareira que estalava baixinho e a poltrona onde Edward estava sentado, com a cabeça apoiada na mão. Ele se levantou assim que a viu, a postura rígida, mas os olhos revelando uma vulnerabilidade que ele nunca permitira que ninguém visse.

​— Você nunca veio aqui — Edward disse, a voz rouca, quase um sussurro.

​— Eu nunca fui convidada — Selene respondeu, parando a poucos metros dele. Ela o estudou sob a luz das velas; ele não tinha a coroa, e sem ela, parecia apenas um homem diante de seu destino. — Eu estive pensando em tudo o que vivemos. No ódio, na fuga, no nosso filho... e na sombra que você sempre colocou entre nós.

​Ela deu um passo à frente, os olhos fixos nos dele, desafiando-o a desviar o olhar.

​— Diga-me a verdade, Edward. Sem o título de Rei, sem a obrigação com o conselho ou com a França. O que você sente por mim? Eu sou apenas o "erro" que te deu um herdeiro, ou sou algo mais?

​Edward desviou o olhar para as brasas na lareira, os punhos cerrados ao lado do corpo. O silêncio se arrastou, torturante, até que ele finalmente explodiu, a voz embargada por uma emoção contida por anos.

​— Você quer saber o que eu sinto? Eu sinto pavor, Selene! — Ele se virou para ela, os olhos brilhando com lágrimas que ele se recusava a deixar cair. — Eu passei a vida inteira acreditando que o amor era um altar sagrado e intocável, algo que eu guardava para uma morta porque era seguro. Mortos não nos machucam, mortos não nos desafiam. Mas então você chegou.

​Ele caminhou até ela, parando tão perto que ela podia sentir o calor que emanava de seu corpo.

​— Você me destruiu desde o primeiro dia. Você me fez sentir uma fome que eu não sabia que existia. Cada vez que eu te humilhava, eu estava, na verdade, tentando punir a mim mesmo por querer você mais do que a minha própria alma. Eu te chamei de erro porque admitir que você era o meu acerto significava que eu teria que viver de verdade, e eu estava confortável na minha morte em vida.

​Edward segurou o rosto de Selene com as mãos trêmulas. Não havia brutalidade agora, apenas uma entrega absoluta.

​— Eu nunca amei Isabelle como homem. Eu amei uma ideia. Mas você... eu amo o seu fogo, a sua língua afiada, a forma como você protege nosso filho. Eu te amo de um jeito que me consome. Esses três anos sem você foram o verdadeiro inferno. Eu não bebia para esquecer meu dever, Selene. Eu bebia para tentar apagar a imagem do seu rosto que me assombrava toda vez que eu fechava os olhos.

​As lágrimas finalmente caíram, lavando a máscara do Rei de Ferro.

​— Você não é o meu erro, Selene. Você é a minha única verdade. Eu sou um homem quebrado, mas se você me permitir, eu passarei o resto dos meus dias tentando ser o Rei que você merece e o pai que Arthur precisa. Eu te amo, com cada batida deste coração que você trouxe de volta à vida.

​Selene sentiu o próprio coração transbordar. A armadura de Edward não estava apenas caída no chão do quarto; ela havia sido derretida pela verdade. Ela o abraçou, sentindo a respiração dele se acalmar contra o seu pescoço, selando ali, no silêncio da noite, uma promessa que nenhuma coroa poderia quebrar.