Razão ou Coração livro3 O Fantasma e o Espinho de
11 O Cálice de Fel e a Coroa de Espinhos
O Grande Salão de Whitehall estava decorado com uma opulência que escondia a podridão moral que acabara de se consolidar no altar. O banquete de casamento era uma exibição de poder francês e resiliência inglesa, mas o Rei de Ferro parecia determinado a transformar a celebração numa tortura pública. Edward sentou-se no trono central, mas não se deu ao trabalho de trocar a armadura negra. Ele permanecia como um monumento de guerra no meio de uma festa, bebendo vinho com uma voracidade que preocupava até mesmo Charles.
Selene, sentada ao seu lado pela primeira vez como Rainha, tentava manter a dignidade. Ela recebia os cumprimentos dos nobres com um sorriso treinado, mas sentia o vácuo gelado que emanava do marido. Edward não lhe dirigiu uma única palavra durante todo o serviço de carnes e vinhos. Quando o Rei Luís se levantou para um brinde à "nova era de união", Edward nem sequer levantou sua taça, deixando o sogro segurando o metal no ar diante de toda a corte.
— Um brinde à união? — Edward finalmente falou, sua voz cortando a música dos menestréis como um chicote. — Digamos as coisas como elas são, Luís. Um brinde ao resgate de uma filha que você não sabia onde colocar e ao preço que eu tive que pagar para manter um fantasma fora da minha cama.
O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Luís sentou-se, o rosto vermelho de humilhação. Selene apertou os talheres com tanta força que seus nós dos dedos ficaram brancos. Ela percebeu que, se continuasse a ser apenas a receptora do desprezo de Edward, sua autoridade morreria antes da aurora.
— Já que o Rei está tão interessado em preços e pagamentos — Selene disse, levantando-se e projetando sua voz para que todos no salão pudessem ouvir —, eu gostaria de exercer meu primeiro ato como Rainha da Inglaterra. Um trono não é feito apenas de silêncio e mágoa, mas de justiça.
Edward inclinou a cabeça, os olhos verdes brilhando com uma curiosidade perigosa. — Justiça, Selene? Você mal aprendeu onde fica a cozinha deste palácio.
— Eu aprendi o suficiente para saber que uma união baseada em sacrifício de inocentes é amaldiçoada — ela rebateu, olhando para Camilly, que estava pálida ao lado de Jonas. — Como Rainha, e em virtude das leis de hospitalidade e proteção às damas da coroa, eu declaro nulo o compromisso de Camilly Tudor com o senhor Jonas de França. A Inglaterra não precisa vender suas filhas para garantir a paz com Versalhes enquanto eu portar esta coroa.
O salão explodiu em murmúrios. Jonas levantou-se, indignado, olhando para o Rei Luís em busca de apoio. Sabrina soltou um suspiro de choque, enquanto um brilho de esperança cruzou o rosto de Camilly.
Edward levantou-se lentamente, a armadura rangendo. Ele caminhou até Selene, parando tão perto que ela podia sentir o cheiro de vinho e fúria em seu hálito.
— Você ousa? — ele sibilou, a voz baixa e letal. — Você ousa desafiar um tratado que eu assinei com o seu próprio sangue?
— Eu sou a sua Rainha, Edward. Você mesmo disse isso diante de Deus — Selene sustentou o olhar, sem recuar um milímetro. — Se você quer que eu seja o seu erro, então eu serei o erro que corrigirá os seus crimes contra a sua própria família. Camilly não será a moeda de troca para a minha estadia aqui.
Edward olhou para a irmã, depois para a multidão que esperava sua reação. Ele estava encurralado. Desautorizar Selene agora, diante de todos, seria admitir que o casamento fora uma farsa completa, o que daria a Luís o motivo perfeito para a excomunhão que ameaçara. O Rei de Ferro sentiu o gosto amargo da derrota pelas mãos da mulher que ele possuíra na sombra da cripta.
— Que assim seja — Edward disse, as palavras saindo como se estivessem sendo arrancadas de seus pulmões. Ele virou-se para Jonas. — O noivado está desfeito. Saia da minha vista antes que eu decida que a sua cabeça é uma compensação melhor do que as terras do Norte.
Ele então se virou para Selene, os olhos prometendo uma vingança que o palácio nunca esqueceria.
— Você salvou a irmã, Rainha. Mas acabou de condenar a si mesma. O banquete acabou.
Edward saiu do salão, derrubando a cadeira real em seu rastro. Selene permaneceu de pé, triunfante, mas tremendo por dentro. Ela havia libertado Camilly, mas acabara de trancar a porta de sua própria prisão com sete chaves de ódio.
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