Razão ou Coração livro3 O Fantasma e o Espinho de
17 A Muralha de Gelo da Rainha
Edward avançou um passo, a mão estendida como se tentasse tocar um milagre, mas Selene foi mais rápida. Ela ergueu a mão, espalmando-a contra o peitoral da túnica dele, impedindo-o de diminuir a distância. O toque não foi de carinho; foi uma barreira.
— Não dê mais um passo, Edward — ela ordenou, e sua voz tinha um peso que fez os soldados na porta baterem as lanças no chão em sinal de respeito instintivo. — Você não tem o direito.
— Ele é meu filho, Selene! Meu sangue! — Edward exclamou, o desespero começando a transbordar. — Eu preciso vê-lo. Eu preciso...
— Você precisa de muitas coisas, mas a presença de Arthur não é algo que você possa exigir — ela o cortou, os olhos azuis faiscando sob a luz das tochas. — Você quer ver o seu herdeiro? Olhe ao seu redor primeiro. Olhe para este salão, para essas mulheres, para o estado deplorável em que você se encontra. Você cheira a vinho barato e a arrependimento tardio. Arthur nunca viu um homem bêbado. Ele nunca viu uma mulher ser tratada como objeto. Ele conhece a honra porque eu a ensinei. Se você entrar naquele quarto agora, ele verá apenas um estranho perigoso.
Edward olhou para as próprias mãos, trêmulas, e depois para a corte que o observava. A humilhação era completa. Selene estava exercendo a vingança mais refinada de todas: ela não o estava ferindo com lâminas, mas com a verdade da sua própria indignidade.
— O que você quer que eu faça? — ele perguntou, a voz quebrada, caindo de joelhos diante dela, ignorando os sussurros de choque de toda a nobreza. — Eu farei qualquer coisa. Eu destruirei este salão com minhas próprias mãos. Eu mandarei cada uma dessas pessoas embora. Apenas me deixe ser o pai dele.
— Você quer ser pai? Então comece sendo um Rei — Selene sentenciou, olhando-o de cima. — Limpe este palácio. Expulse a podridão que você convidou para entrar. Retome o seu posto, recupere a sua sobriedade e, acima de tudo, peça perdão à sua irmã e à sua mãe, a quem você tratou como lixo nesses últimos anos.
Ela se inclinou, sussurrando para que apenas ele ouvisse, com uma frieza que o fez estremecer.
— Arthur passará a noite sob a guarda de Sabrina e Alycia. Você não passará da porta daqueles aposentos. Você vai dormir sozinho, Edward, com o silêncio que você mesmo cultivou. E amanhã, quando o sol nascer, se eu vir o Rei de Ferro e não este libertino patético, talvez — e apenas talvez — eu permita que você saiba qual é a cor favorita do seu filho.
Selene deu as costas a ele, caminhando com a cabeça erguida em direção às escadas. Edward permaneceu ajoelhado no chão sujo de vinho, cercado pelos restos de sua decadência. O silêncio que caiu sobre o Grande Salão era absoluto. Ele olhou para a escadaria por onde ela desaparecera, sentindo a queimação de uma esperança que doía mais do que qualquer ferida de guerra.
Naquela noite, as luzes de festa em Whitehall foram apagadas. Edward não dormiu. Ele passou as horas seguintes expulsando, pessoalmente e aos gritos, cada cortesão parasita e cada amante de seus aposentos. Ele lavou o rosto com água gelada, sentindo cada nervo de seu corpo clamar pela presença do filho que ele nem sequer sabia o tom da voz. A vingança de Selene fora perfeita: ela lhe dera um motivo para viver, mas o proibira de tocá-lo até que ele provasse que merecia ser chamado de Tudor.
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