Razão ou Coração livro 2
6 O Sacrifício do Lobo e a Máscara da Razão
A biblioteca real estava mergulhada em uma penumbra fúnebre. O cheiro de pergaminho antigo e carvalho parecia sufocar Isabelle, que permanecia de pé, com as mãos trêmulas escondidas nas dobras de seu vestido de viagem. Diante dela, as duas figuras que moldaram o destino de York e Londres a observavam: Charles e Sabrina.
Charles tinha os braços cruzados, a expressão sombria de quem acabara de ver um acidente inevitável. Sabrina, por outro lado, mantinha uma calma analítica, embora o brilho em seus olhos denunciasse que o sofrimento do filho a atingira mais profundamente do que ela gostaria de admitir.
— Você foi impiedosa, Isabelle — começou Charles, sua voz ruidosa ecoando entre as estantes. — Eu vi homens serem torturados na guerra que demonstraram menos agonia do que Edward quando você terminou de falar. Você o destruiu.
Isabelle levantou o queixo, embora seus olhos estivessem vermelhos. O fogo de seus cabelos ruivos parecia a única coisa viva nela naquele momento.
— E o que os senhores preferiam? — Isabelle rebateu, a voz carregada de uma dor contida. — Que eu aceitasse o papel de amante? Que eu vivesse nas sombras, alimentando uma esperança que acabaria em uma guerra civil com a Rússia? Se eu não o fizesse odiar-me, ele nunca assinaria aquele tratado. Edward é um Tudor; ele só entende a linguagem da força e da rejeição. Agora, ele tem um motivo para ser o Rei que vocês criaram: um Rei que não tem nada a perder, exceto o seu reino.
O Relato de Sabrina
Sabrina deu um passo à frente, tocando o ombro de Isabelle. O toque era firme, quase um reconhecimento de que Isabelle aprendera bem demais as lições de sacrifício da Duquesa.
— Ele não saiu do quarto, Isabelle — sussurrou Sabrina. — Edward dispensou os criados e quebrou o espelho de cristal que pertencia ao meu avô. Ele proibiu que o nome "Isabelle" seja pronunciado dentro de Whitehall sob pena de traição. Ele está... morto por dentro. Ele assinou o contrato com Katherine Petrovic há uma hora, mas o fez sem olhar para o papel, com uma caneta que parecia pesar uma tonelada.
— Ele cumprirá o seu dever — Isabelle disse, fechando os olhos para não desabar. — É isso que importa, não é? Foi para isso que viemos de York.
— Sim — Charles interveio, aproximando-se das duas mulheres. — Ele cumprirá o dever. Mas você criou um monstro, menina. Um rei que governa sem coração é um rei perigoso. Ele mandou dobrar os impostos sobre os barões que apoiavam William e ordenou que a guarda real patrulhasse as ruas com baionetas caladas. Ele está transformando a dor dele em poder gélido.
O Selo do Destino
Isabelle caminhou até a janela, observando a carruagem do Conde de Richmond que aguardava no pátio, coberta pela névoa fria da madrugada londrina.
— É melhor um rei temido e seguro do que um rei apaixonado e deposto — Isabelle declarou, voltando-se para os soberanos com um olhar de despedida. — Digam a Alycia para não me odiar. Digam a ela que, em algum lugar de York, eu estarei rezando para que Edward encontre uma paz que eu não pude dar a ele.
Sabrina suspirou, entregando a Isabelle um pequeno envelope selado com cera negra.
— Este é o seu dote, pago pela coroa. Thomas de Richmond é um homem de bem; ele cuidará de você. Mas saiba, Isabelle... eu e Charles carregaremos o peso desse pecado conosco. Nós pedimos o sacrifício, mas foi você quem sangrou.
— Todos nós sangramos pela coroa, Duquesa — Isabelle respondeu, fazendo uma última e profunda vênia. — Alguns de nós apenas fazem isso em silêncio.
Sem olhar para trás, a jovem ruiva deixou a biblioteca. Charles e Sabrina ficaram em silêncio, ouvindo o som distante das rodas da carruagem batendo nas pedras do pátio. Eles haviam salvo o trono de Edward, mas sabiam que, naquela noite, haviam perdido o filho que conheciam para sempre.
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