Razão ou Coração livro 2

11 O Grito de York e o Sangue da Loba



​Alycia Tudor recuou até que suas costas encontrassem a pedra fria da parede do corredor. O embaixador Volkov avançava com uma calma aterrorizante, a mão estendida como uma garra pronta para tomar a prova do crime. A pequena taça de cristal, escondida sob o manto da princesa, parecia queimar contra sua pele. Ela sabia que, se entregasse aquele cálice, o destino de Edward estaria selado e Katherine governaria sobre o cadáver do irmão. Volkov sorriu, um gesto gélido que não alcançava seus olhos de serpente, e deu o passo final, cercando a jovem de dezesseis anos contra a escuridão.

​— Você é jovem demais para carregar segredos tão pesados, Alycia — murmurou Volkov, sua voz vibrando com uma ameaça velada. — Entregue o vidro e talvez eu convença a Rainha Katherine a deixá-la partir para um convento seguro, longe desta corte que não perdoa a insolência.

​Alycia olhou para os lados, mas o corredor estava deserto. O medo que sentia transformou-se subitamente na fúria hereditária dos Tudor. Em um movimento desesperado e ágil, ela não entregou a taça; em vez disso, arremessou-a com toda a sua força contra o chão de mármore entre ela e o embaixador. O som do cristal estilhaçando-se ecoou como um tiro pelas galerias de Whitehall. O líquido escuro e viscoso espalhou-se pelas pedras, exalando um odor adocicado e nauseante que confirmava suas piores suspeitas.

​— SOCORRO! TRAIÇÃO! — O grito de Alycia rasgou o silêncio da noite, agudo e poderoso, carregado com o desespero de quem via a própria vida por um fio. — GUARDA REAL! O REI ESTÁ SENDO ASSASSINADO!

​Volkov avançou sobre ela, a mão subindo para abafar sua voz, mas ele não contava com a vigilância das sombras. Antes que pudesse tocar a princesa, o som metálico de uma espada sendo desembainhada cortou o ar. Charles Tudor surgiu de uma alcova próxima, a figura imponente e o olhar de lobo brilhando sob a luz tênue das tochas. Atrás dele, Sabrina caminhava com uma adaga na mão, sua expressão sendo uma máscara de fúria contida. A guarda real, alertada pelo grito, surgiu das extremidades do corredor, cercando o embaixador russo antes que ele pudesse fugir.

​— Afaste-se da minha filha, Volkov — rugiu Charles, a ponta da lâmina encostando na garganta do embaixador. — Eu matei homens melhores que você por muito menos. Sabrina, veja o que há no chão.

​Sabrina inclinou-se sobre os estilhaços, molhando a ponta da adaga no líquido e levando-a ao nariz. Seu rosto empalideceu, transformando-se em uma expressão de ódio puro. Ela olhou para o marido e para a filha.

— Beladona russa. Estavam matando o meu filho diante dos nossos olhos, Charles. Katherine transformou o quarto real em um necrotério.

​Enquanto em Londres o castelo de cartas de Katherine começava a ruir sob o aço de Charles, em York, Isabelle Pierce atingia o seu próprio limite. Thomas de Richmond, enfurecido pelo silêncio e pelo asco da esposa, segurava-a pelos ombros, sacudindo-a com uma violência que fez a cabeça de Isabelle latejar.

— Você vai admitir! — gritava Richmond. — Você vai admitir que reza pela morte do Rei para que possa ser livre! Mas eu lhe garanto, Isabelle, se Edward morrer, você morrerá comigo neste castelo!

​Isabelle sentiu o gosto de sangue na boca, fruto de um lábio partido, mas seus olhos azuis brilhavam com uma luz que Richmond nunca vira. Ela percebeu que a sua passividade fora o que a aprisionara.

— O senhor pode me matar, Thomas — Isabelle cuspiu as palavras com um desdém que o fez vacilar. — Mas saiba que o meu silêncio é o que mantém a sua cabeça no pescoço. No momento em que eu abrir a boca e contar à Duquesa Sabrina como o senhor me trata, não restará pedra sobre pedra neste castelo de lama. Edward pode estar doente, mas a linhagem de York ainda tem dentes.

​Richmond levantou a mão para golpeá-la novamente, mas um estrondo nos portões do castelo o interrompeu. Um mensageiro de York, com as vestes encharcadas, gritava que a guarda real estava a caminho com ordens urgentes vindas diretamente da Rainha Mãe. Isabelle aproveitou o momento de distração e empurrou o marido com toda a sua força, correndo em direção à janela que dava para o pátio. Ela não via mais a carruagem de um conde, mas a possibilidade de liberdade. Se Edward estava morrendo em Londres, ela não passaria seus últimos momentos trancada no Norte. O jogo da razão chegara ao fim; agora, era apenas uma questão de sobrevivência e vingança.