Razão ou Coração

29 EpílogoOnde o Vento Sopra Livre


Dez anos haviam se passado desde que o sangue manchara os mármores de Londres. O Rei Charles e a Rainha Sabrina haviam governado com punho de ferro e coração justo, mas a alma deles nunca pertencera verdadeiramente aos corredores abafados de Whitehall.

​Por isso, quando o jovem Príncipe Edward completou dez anos, firme e audaz como o pai, eles tomaram uma decisão que chocou a corte, mas libertou seus corações: deixaram a regência nas mãos de um conselho leal, liderado por uma Camilly agora casada e madura, e voltaram para onde tudo começou.

​O Castelo de York não era mais a prisão gélida de outrora. As chaminés cuspiam fumaça acolhedora e as tapeçarias eram novas, mas o vento do norte ainda uivava com a mesma intensidade selvagem.

​Charles estava parado na muralha, observando o mar revolto. Ele não usava a armadura de Rei, apenas um casaco pesado de peles e o couro gasto que preferia nos dias de caça. Ele sentiu o perfume de sândalo e jasmim antes mesmo de ela falar.

​— Edward finalmente dormiu — Sabrina disse, aproximando-se e envolvendo a cintura do marido. — Ele diz que o som do mar em York é mais alto que os tambores de Londres.

​Charles sorriu, puxando-a para frente dele e envolvendo-a em seus braços, protegendo-a do frio.

​— Ele tem o sangue do norte, Sabrina. Ele sabe que a verdade mora no barulho das ondas, não nos sussurros da corte.

​As Sombras do Passado

​Eles olharam para o pátio abaixo. Virginia, que se tornara a governanta do castelo e encontrara paz na solidão digna do norte, caminhava com as chaves no cinto. Alexander e William eram agora apenas nomes em túmulos sem identificação, lições amargas que o reino aprendera a esquecer.

​— Você se arrepende? — Charles perguntou subitamente, virando-a para encarar seus olhos castanhos, que ainda brilhavam com a mesma inteligência perspicaz. — De ter deixado o trono para trás para vivermos aqui, no fim do mundo?

​Sabrina levou a mão ao rosto dele, traçando a cicatriz que ela mesma lhe causara anos atrás — a marca que se tornara o símbolo da cura deles.

​— O trono era uma necessidade, Charles. York é o nosso destino. Foi aqui que o Lobo aprendeu a amar e onde a Duquesa aprendeu a lutar. Eu não trocaria este vento por todas as joias da Coroa.

​O Fogo que Nunca se Apaga

​Eles desceram para os seus aposentos privados. A lareira estava acesa, as chamas altas e brilhantes. Charles serviu dois copos de vinho e sentaram-se no mesmo tapete de pele de urso onde, anos antes, haviam decidido ser aliados contra a morte e a mentira.

​Charles puxou Sabrina para o seu colo, e o silêncio entre eles não era mais de tensão, mas de uma paz conquistada a duras penas. Edward era a prova viva de que o futuro estava seguro; York era a prova de que o passado fora superado.

​— Lembras-te do que me disseste na primeira noite de inverno aqui? — Sabrina murmurou, encostando a cabeça no ombro dele. — Que as luzes nunca se apagavam de verdade em York?

​— E eu estava certo — Charles respondeu, beijando-lhe o topo da cabeça. — Porque a luz que acendemos naquela noite de gelo... nem a eternidade poderá apagar.

​Lá fora, a neve começou a cair silenciosamente sobre as torres de pedra. Dentro, o Lobo e a sua Rainha estavam finalmente em casa. A farsa terminara, a guerra cessara, e no coração do norte, o amor que nascera do ódio permaneceria tão eterno quanto as pedras do castelo.

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