Razão ou Coração
9 Entre Paredes e Desejos
O silêncio que se seguiu ao baile era enganoso. Enquanto o palácio dormia sob o brilho da lua, as chamas acesas durante a dança ainda ardiam nos corredores da ala leste. Sabrina não conseguira dormir; ela ainda sentia a pressão dos dedos de Charles em sua cintura e o calor de seu hálito em seu pescoço.
Ela estava em seus aposentos, vestindo apenas uma camisola de seda branca e um robe leve, escovando os cabelos diante do espelho, quando ouviu um toque audacioso na porta. Não era o toque suave de uma dama de companhia.
Antes que ela pudesse autorizar, a porta se abriu. Charles entrou, fechando-a atrás de si com um baque surdo. Ele havia se livrado do gibão pesado; sua camisa estava aberta até o meio do peito e ele carregava uma garrafa de vinho quase vazia em uma das mãos.
— O que o senhor pensa que está fazendo? — Sabrina levantou-se num salto, a escova de prata ainda na mão como se fosse uma arma. — Saia daqui agora! Se o Rei souber que está nos meus aposentos a esta hora...
— O Rei ficaria encantado, Sabrina — Charles interrompeu, sua voz arrastada e rouca. Ele caminhou até o centro do quarto, observando-a sob a luz das velas. Sem a armadura do vestido carmesim, ela parecia menor, mais vulnerável, e terrivelmente mais perigosa para a sanidade dele. — Ele quer que nos tornemos "íntimos", lembra-se? Estou apenas sendo um súdito obediente.
— Você está bêbado — ela sibilou, tentando manter a voz baixa para não atrair guardas.
— O suficiente para ter coragem, mas não o suficiente para esquecer o jeito que você me olhou no salão — ele largou a garrafa sobre uma mesa e avançou para ela. — Você passou a noite inteira me provocando, Sabrina. Usando aquele vestido como se fosse um desafio. Pois bem, aqui estou. O Lobo veio buscar o que lhe foi prometido.
Sabrina recuou até que suas costas encontrassem a coluna da cama de dossel. Charles parou a centímetros dela, cercando-a com os braços, exatamente como fizera no observatório, mas agora o ambiente era confinado, privado e carregado de uma eletricidade proibida.
— Eu não prometi nada a você — ela disse, embora sua respiração estivesse falhando. — William prometeu. Se você quer algo, vá cobrar dele.
— Eu não quero nada dele — Charles sussurrou, inclinando o rosto para o pescoço dela, inspirando o perfume que o assombrara a noite toda. — Eu quero entender como uma boneca de porcelana pode ter tanto fogo nas veias. Eu quero saber se essa sua língua afiada também sabe ser doce.
Ele deslizou a mão pela lateral do rosto dela, os dedos ásperos contrastando com a seda da pele de Sabrina. Ela deveria ter gritado. Deveria ter batido nele. Mas o toque dele enviava ondas de calor que ela nunca experimentara, uma traição de seu próprio corpo que a deixava paralisada.
— Me solte, Charles — ela pediu, mas a ordem saiu como um suspiro.
— Diga que me odeia — ele provocou, o rosto a milímetros do dela. — Olhe nos meus olhos e diga que não sentiu nada quando eu a toquei na pista de dança. Diga que não quer saber como é o beijo do homem que você tanto despreza.
Sabrina reuniu as últimas forças de sua razão. Ela cravou os olhos nos dele, sustentando o olhar azul intenso que parecia devorar sua alma.
— Eu odeio o que você representa — ela disse, a voz trêmula mas firme. — Odeio o fato de você achar que pode me possuir apenas porque um papel diz que sou sua. Você pode ter meu futuro, Charles, mas nunca terá o meu coração.
Charles sorriu, um sorriso sombrio e predatório.
— O coração é um prêmio para os românticos, Sabrina. Eu me contento com muito menos.
Ele diminuiu a distância final. O beijo não foi suave; foi uma colisão de vontades, um campo de batalha transformado em contato físico. Havia o gosto do vinho, o fogo do ressentimento e uma fome que ambos tentavam esconder. Sabrina tentou resistir por um segundo, mas logo suas mãos, involuntariamente, subiram para os ombros dele, agarrando o tecido da camisa.
Era uma guerra, e naquele momento, ninguém estava vencendo.
Charles afastou-se bruscamente, a respiração pesada, os olhos nublados pelo desejo e pela confusão. Ele a olhou como se a visse pela primeira vez — não como uma pupila ou um troféu, mas como alguém que poderia, de fato, destruí-lo.
— Boa noite, futura Lady Tudor — ele disse, a voz falhando por um momento. — Tente não sonhar comigo. Seria uma pena se sua razão perdesse para o seu coração tão cedo na nossa história.
Ele se virou e saiu, deixando Sabrina desmoronar contra a coluna da cama, os lábios ainda ardendo e a certeza de que a maior batalha dela não seria contra o Rei ou contra a corte, mas contra o próprio sentimento que começava a florescer no meio do ódio.
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