Razão ou Coração
17 As Sombras de York
A subida para o norte foi marcada por um silêncio gélido que nem mesmo as mantas de pele de lobo conseguiam aquecer. A paisagem mudou drasticamente: as colinas verdes de Londres deram lugar a penhascos cinzentos, charnecas varridas pelo vento e uma neblina que parecia engolir a carruagem.
O Castelo de York não era uma residência de veraneio; era uma fortaleza de pedra bruta, cravada no topo de uma colina, com torres que vigiavam a fronteira como sentinelas cansadas. Quando a carruagem atravessou o portão de ferro, o som do metal rangendo ecoou como um lamento.
Charles desceu primeiro. Ele não ofereceu a mão para Sabrina desta vez. O confronto na estalagem deixara uma cicatriz invisível, mas profunda, entre os dois. Ele estava de pé no pátio de pedra, observando a construção com um olhar de quem reconhece uma velha cela.
Sabrina desceu logo atrás, sentindo o frio do norte cortar seu rosto. O castelo parecia desabitado, as janelas eram fendas escuras na pedra, e o cheiro de salitre e terra úmida estava em toda parte.
— Bem-vinda ao seu novo reino, Duquesa — Charles disse, a voz desprovida de qualquer emoção. — É tão vazio e gélido quanto a nossa união.
Antes que Sabrina pudesse responder, as grandes portas de carvalho do salão principal se abriram. Mas quem saiu de lá não foi um mordomo cerimonioso, mas uma mulher de meia-idade, vestida com um rigor excessivo, seguida por dois homens que não pareciam servos, mas soldados veteranos.
— Lorde Charles. Lady Sabrina — a mulher fez uma reverência mínima, seus olhos cinzentos escaneando o casal com uma curiosidade invasiva. — Sou a governanta, Sra. Halloway. O Rei William nos avisou que a sua chegada seria... apressada.
Charles estreitou os olhos. Ele reconhecia aquele tipo de olhar. Não era o olhar de uma serva, mas de uma vigia.
— O Rei William é sempre muito zeloso com o bem-estar da sua pupila, não é mesmo? — Charles comentou, caminhando em direção à Sra. Halloway, parando perto demais dela. — Diga-me, o Rei enviou você para cuidar da nossa casa ou para relatar cada vez que eu respirar para o sul?
A mulher não vacilou. — Eu sirvo à Coroa, Milorde. E a Coroa quer que York prospere.
Sabrina sentiu um calafrio que nada tinha a ver com o clima. Ela olhou para Charles e viu que ele também percebera: York não era um refúgio, era uma extensão da vigilância de William. Eles estavam em uma armadilha, e agora Sabrina carregava o segredo das cartas da Noruega. Se a Sra. Halloway descobrisse o que havia no fundo daquela bolsa, o destino de ambos estaria selado na forca.
No Interior do Castelo
O salão principal era imenso e sombrio. Uma lareira gigantesca rugia, mas o calor não chegava aos cantos escuros. Enquanto os servos carregavam os baús, Sabrina se aproximou de Charles, sussurrando para que apenas ele ouvisse:
— Precisamos queimar aquelas cartas. Agora.
Charles olhou para ela, surpreso com a urgência na voz da mulher que o julgara tão duramente horas antes.
— Achei que você estivesse esperando a primeira oportunidade para me entregar ao carrasco, Sabrina — ele sibilou de volta.
— Se você for enforcado por traição, eu serei executada por cumplicidade ou passarei o resto da vida em uma masmorra — ela retrucou, os olhos fixos na Sra. Halloway, que os observava de longe. — William enviou espiões, Charles. Ele não confia em você, e agora, por sua causa, ele também não confia em mim.
Charles sentiu uma pontada de algo que se assemelhava à culpa. Ele pegou o braço dela com firmeza, fingindo um gesto de carinho para quem estivesse assistindo.
— Sra. Halloway, minha esposa está exausta da viagem — Charles anunciou em voz alta. — Leve-nos aos nossos aposentos. E garanta que ninguém nos incomode até amanhã. O Duque e a Duquesa precisam de privacidade absoluta.
O "privacidade absoluta" soou como uma ordem e um aviso. Eles foram conduzidos para a torre mais alta. O quarto era vasto, com uma cama de dossel pesada e uma vista para o mar agitado. Assim que a governanta fechou a porta, Charles correu até a bolsa de couro.
Ele retirou as cartas e o medalhão. O fogo da lareira do quarto estalava. Ele olhou para as provas de sua traição e depois para Sabrina.
— Se eu queimar isso, não haverá volta — ele disse, a voz rouca. — Eu ficarei devendo aos noruegueses, e eles virão cobrar.
— Deixe que venham — Sabrina disse, aproximando-se do fogo. — Mas não deixe que William as veja. Pelo menos aqui, no frio, teremos uma chance de lutar.
Charles jogou os papéis nas brasas. Eles observaram juntos as chamas consumirem os segredos, a luz do fogo refletida nos olhos de ambos. Pela primeira vez, eles não eram apenas inimigos ou noivos forçados; eram cúmplices em um crime que poderia destruí-los.
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