Razão e Emoção
29 Capítulo 29 – Quase um fim
Notas iniciais
Maura virou de costas segurando um soluço e abraçando com força uma Jane atônita que não parava de repetir:
– Não, não pode ser...
ALGUMAS HORAS ANTES
Jane e Maura chegaram ao precinto no horário habitual, mas era evidente para todos os colegas que as duas estavam agindo de maneira estranha. Pensar se o plano para resgatar Emily daria certo as estava deixando totalmente avoadas:
– Rizzoli, você está me ouvindo?! – esbravejou Cavanaugh ao ver a morena com olhar perdido na sala dos detetives enquanto ele passava um comunicado geral.
– Sim, senhor. Desculpe. – respondeu ela nervosa se ajeitando na cadeira e percebendo que não fazia ideia sobre o que seu chefe havia falado nos últimos 15 minutos fazendo Frost e Korsak a encararem com ar preocupado.
No andar de baixo Susie também não se conteve ao notar sua chefe verificando pela milésima vez seu celular e visivelmente não conseguindo se concentrar para terminar a leitura de um relatório que a oriental precisava despachar:
– Dra. Isles está esperando algum telefonema importante?
– Hã? Ah, não sei Susie. – respondeu a loira sem graça, não achava que estava tão claro assim sua dispersão – Nunca se sabe quando vamos receber uma chamada importante não é mesmo? – deu um sorriso amarelo que a outra não retribuiu apenas levantou uma sobrancelha em tom desconfiado.
Assim que sua assistente saiu do escritório, Maura pegou novamente o celular só que dessa vez para digitar uma mensagem para Jane:
“Baby, alguma novidade?”
“Nada. E vc?”
“Também não... Estou preocupada, acha que devemos ligar para eles?”
“Não sei. Vamos dar mais algumas horas, emboscada é um coisa complicada, você sabe.”
“Tem razão. Acho que vou na lanchonete pegar um macchiato, quer ir comigo?”
Jane não teve tempo de responder porque seu celular e o da doutora tocaram ao mesmo tempo. Tinham uma nova cena do crime para investigar. O casal se encontrou no saguão do Departamento, e Jane fez questão de pegar um café para tomar no caminho. Se dirigiram ao balcão na lanchonete onde Angela ria conversando animadamente com um estranho.
– Oi, Ma! – cumprimentou Jane de maneira seca – Vê um café forte pra viagem pra mim, fazendo favor?
– Bom dia pra você também Jane. – respondeu a outra Rizzoli num tom azedo e depois encarando novamente o homem – Filhos, depois que crescem ficam assim, não é verdade? Nem para mostrar gratidão pelos anos todos que os criamos...
O homem abriu um sorriso simpático concordando. Jane franziu mais a testa enquanto Maura se pôs a sua frente com toda sua cordialidade:
– Bom dia, Senhor. Desculpe atrapalhar, é que estamos com pressa. E ela precisa muito tomar café forte de manhã...
– Está tudo bem, Dra. Isles, eu compreendo!
– Perdão, nos conhecemos? – perguntou a loira confusa ao ouvir o homem falar seu nome mesmo ela não usando nenhuma identificação.
– Ah, ainda não pessoalmente! – ele esticou a mão abrindo um sorriso maior – Sou Paolo Tozzi, ouvi a Angela falar tanto sobre você a Jane que é praticamente como se já nos conhecêssemos.
Angela sorriu de maneira carinhosa para a nora terminando de fazer o café de Jane que revirava os olhos para as duas.
– Bom, neste caso, é um prazer conhece-lo. – Maura apertou a mão do homem também sorrindo.
– E da onde você conhece minha mãe, Sr. Tozzi? – questionou Jane ainda com uma postura irritada.
– Do curso que fizemos neste fim de semana!
– Que curso? – disse de repente a voz de Korsak curioso aparecendo atrás de Jane juntamente com Frost que olhava sob seu ombro.
Jane de repente ficou vermelha num misto de vergonha e raiva, esticou o braço pegando o copo de café das mãos de sua mãe antes que ela pudesse responder qualquer coisa a seus colegas:
– Brigada do café, e vamos logo rapazes, chega de perder tempo aqui!
Korsak olhou confuso para Maura que tampava a boca para esconder um riso e apenas acenou com a cabeça para o outro não insistir, logo os 4 estavam se dirigindo à saída: os dois homens sem entender nada do que havia acabado de acontecer e as duas mulheres por um minuto conseguiram pensar em outra coisa que não fossem os agentes do FBI.
Chegaram rapidamente à cena do crime: numa rua atrás de um estádio de baiseball um torcedor foi encontrado com um corte profundo no crânio. Maura logo se abaixou e começou a verificar o corpo, Jane acompanhava avaliando as roupas do rapaz, enquanto Korsak e Frost andavam pelo perímetro coletando provas e conversando com transeuntes.
– Pela temperatura do corpo eu diria que está morto aproximadamente umas 9 horas.
– Não bate com o horário de saída do estádio. – comentou Korsak – Ele deve ter sido morto durante o jogo então.
– Ou se matou de desgosto, que merda de partida foi aquela ontem hein? – brincou Frost se aproximando fazendo Korsak rir – Aquele home run foi hilário, não foi, Rizzoli?
– Não vi o jogo ontem, Frost...
Os dois detetives arregalaram os olhos surpresos mas não comentaram nada, assim que Maura se afastou para liberar o corpo e Korsak foi orientar a patrulha da região Frost segurou discretamente o braço de Jane:
– Hei, o que está acontecendo, parceira? Você e a doutora estão agindo muito estranho ultimamente. – Jane não respondeu nada apenas fitou o rapaz a sua frente que resolveu continuar — Sabe, se precisar conversar eu estou aqui, cara! Não importa se talvez eu não vá conseguir te ajudar exatamente mas se ao menos pra ouvir ou sei lá.
A morena sorriu de maneira amigável. Na correria às vezes se esquecia de prestar atenção nos pequenos gestos. Ela, Frost e Korsak eram mais do que colegas de trabalho, eram uma família. O que a fez novamente se lembrar do pessoal do FBI e a Emily, se fosse ela em apuros, conseguia ver aqueles dois movendo montanhas para encontra-la. Deu um passo a frente e abraçou o amigo:
– Obrigada! Não quero conversar nada agora, mas obrigada por ser quem você é Frost! Não poderia desejar parceiro melhor!
O rapaz a princípio ficou assustado, Rizzoli não era dada a grandes demonstrações de afeto, ainda mais assim do nada, mas logo depois sorriu abraçando a morena de volta:
– Nem eu, Jane! Nem eu...
Se desfizeram do abraço ao ouvir a voz de Maura gritando alguns metros adiante o nome da namorada. Jane saiu correndo na direção da loira que respirava com dificuldade e apontava para o celular em sua mão tremendo:
– Garcia ligou, eles estão no Hospital Geral, a Emily...a Emily... eu não sei ela não soube me explicar mas é grave!
Jane olhou para o lado vendo Korsak e Frost que tinham vindo correndo também na direção das duas:
– Uma amiga nossa está no hospital, nós temos que ir lá! Avisa pro Cavanaugh que...
– Cala a boca e vai logo, Jane! Nós cuidamos de tudo aqui! – cortou Korsak de maneira firme – E se precisar de alguma coisa ligue!
A morena apertou o ombro do amigo com força depois saiu correndo para seu carro juntamente com Maura. Ambas foram quietas respirando pesado a curta viagem toda. Não sabiam o que esperar, apenas que não parecia ter sido um desfecho bom.
Chegaram ao saguão do hospital ofegantes e deram de cara com Reid, Morgan e Rossi todos vestidos com coletes do FBI, as armas frouxas nos coldres e olhares desesperados.
– O que aconteceu?? – foi logo disparando Jane
– Não deu tempo... – começou Reid com seu eterno olhar assustado fitando as duas mulheres – Doyle nos despistou com aquela pista da viagem de trem, era em outro lugar. Quando conseguimos chegar, a Emily já estava... – ele parou de falar tentando controlar um choro.
– Foi tudo muito rápido... – comentou Rossi encarando uma parede vazia a frente – Não pudemos fazer nada. Ele já havia pego ela e depois fugiu.
– Como ela está? Eu posso tentar entrar para vê-la! – disse Maura apreensiva
– Não acho que eles vão deixar, Doutora. – disse Reid – foi direto para a emergência, ela apanhou muito, deve ter sido torturada, não sabemos, e os médicos já foram obrigados a aceitar a presença do Hotch e JJ acompanhando.
– Ela ainda tinha sinais vitais quando a peguei, ela é forte, vai aguentar... – resmungou Morgan muito mais para si mesmo do que para as duas.
Jane olhou para todos sem saber o que fazer: Rossi estava sentado numa cadeira com o tronco a frente encarando o nada, Reid de pé numa parede roendo as unhas, Morgan andando de um lado para o outro sem parar, esfregando as mãos, Maura um pouco a sua frente tentando visualizar o caminho para UTI e os médicos e enfermeiras que entravam e saiam pelo corredor. Ninguém sabia o que esperar, até que algum tempo depois viram Hotchner e JJ vindo jogando fora máscaras de proteção. Os dois tinham um ar desolado, Hotch viu Jane e Maura paradas ali também e pousou o olhar por pequenos segundos em cada um daquele saguão depois baixou os ombros em tom de derrota fazendo um não com a cabeça. Reid de repente pareceu não saber como se respirar e JJ foi até ele o envolvendo num abraço. Os dois choravam copiosamente enquanto Rossi apertava os olhos dando um suspiro profundo, Morgan parou de andar se encostando numa parede e escorregando devagar nela até cair sentado no chão levando as mãos à cabeça. Maura virou de costas segurando um soluço e abraçando com força uma Jane atônita que não parava de repetir:
– Não, não pode ser...
Após longos minutos de silêncio em que a única coisa que se ouvia eram os diferentes tons de choro e suspiros dos presentes no local, Rossi se manifestou encarando Hotch num tom triste:
– Temos que comunicar os pais dela. — parou pegando seu celular do bolso que tocava – É a Garcia. Não quero contar por telefone, sabe como ela é emotiva.
– Tem razão. Volte com o pessoal na frente para contar pra ela e iniciar os preparos do funeral. Vou ficar aqui até prepararem o corpo para ser levado para Washigton.
– Não quer que eu fique aqui com você?
– Não precisa, Rossi. Obrigado mas eu prefiro ficar sozinho agora. Com ela.
O homem mais velho acenou com a cabeça depois se levantou indo em direção Morgan e esticando a mão para ajudar o rapaz a se levantar do chão:
– Você não podia fazer nada, garoto! Nenhum de nós pode...Vem, vamos pra casa agora! – se dirigiu a Reid e JJ falando o mesmo, depois saiu andando até a grande porta do saguão com as mãos sobre as costas dos colegas mais novos.
Parou olhando para trás e acenou para Jane e Maura que agora havia virado para os agentes mas não soltava Jane que tinha os olhos marejados e a testa franzida. Rossi sussurrou um “obrigado por tudo” depois sumiu pela saída andando devagar. Hotchner caminhou na direção das duas agentes de Boston com passos firmes. Diferente de todas as vezes que as duas falaram com aquele homem esta era a primeira que sua voz não saia fria e sim distante:
– Repito as palavras dele: Obrigado por tudo. Enviaremos os detalhes do funeral, imagino que ambas façam questão de estarem lá.
– Com certeza. – respondeu Maura com uma voz fraca. – Acho que não há muito mais que possamos oferecer agora, agente, mas se precisar de mais alguma coisa, qualquer coisa, estamos aqui.
– Como achar o filho da puta que fez isso!! – completou Jane com a voz rouca e determinada.
Hotchner levantou os lábios numa tentativa mal sucedida de sorriso, depois suspirou apertando a mão das duas:
– Eu sei. O mesmo vale para vocês. E não se preocupe Detetive, acharemos esse filho da puta! Agora se me derem licença...
O agente virou de costas e foi caminhando com a cabeça abaixada de volta ao corredor de emergência a fim de falar com os médicos sobre quais medidas deveriam ser tomadas dali pra frente. Jane e Maura se olharam com tristeza, depois deram as mãos e foram para o carro de Jane estacionado na porta. A morena ligou para o precinto dizendo sem detalhes que uma amiga havia falecido. Cavaunagh deu folga para ela e Maura pelo tempo que as duas julgassem necessário juntamente com um recado de “meus pêsames”. Foram para a casa de Maura em silêncio, sentaram no sofá tirando os sapatos de maneira totalmente automática e ficaram encarando a tela preta da TV. Jane esticou um braço fazendo Maura se aconchegar em seu ombro. A loira fazia carinho na perna de Jane:
– Você acha que podia ter sido diferente? Talvez se tivéssemos bolado uma outra estratégia e...
– Você não faz suposições, por favor não comece agora, ok? – cortou Jane falando baixinho – Tem coisas que não temos controle, e a merda da vida é ter que aprender a aceitar isso.
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