Ravena
1 Capítulo 1
Minha história começa no ano de 1105, em uma pequena cidade que viria a se chamar Portugal. Minha família governava aquela cidade já havia muitos anos, e, embora fosse contra a minha vontade, eu era a próxima a herdar o trono. Naquela época, não se era permitido que uma mulher governasse sozinha, sendo assim, eu teria que me casar; mas não seria um casamento romântico, seria um casamento arranjado com o filho de um governante vizinho.
-Um casamento arranjado? Nunca que eu vou aceitar tal coisa! — era o que eu dizia aos meus pais todos os dias, mas não tinha jeito, o que era decidido pelos meus pais, era lei, mesmo entre questões familiares.
O único com o qual eu conversava era meu irmão mais novo, Raphael, e ele também concordava que, um casamento arranjado, era uma péssima idéia.
Certa noite tive uma briga feia com meus pais, a ponto de desejar a morte de ambos. Nesta mesma noite, tive um sonho muito estranho. Sonhei que eu estava no meio de uma floresta e que, no chão, havia uma névoa rala; de traz de um arbusto saiu um homem. Apesar da aparência de um jovem de uns 24 anos, através de seus olhos, você sabia que sua idade era muito superior a isso. Este mesmo homem começou a andar em minha direção e a falar comigo:
-Conheço o ódio que está sentindo neste momento, e esse ódio aumenta ao saber que você não pode fazer nada, além de ver os acontecimentos de desdobrarem na sua frente. Vim lhe fazer uma proposta. Uma proposta que durará a eternidade se você aceitá-la. Irei lhe dar poderes o suficiente para poder acalmar toda esta sua raiva. O que me diz? Aceita minha oferta, princesa?
Minha resposta foi imediata:
-Aceito!
Na manhã seguinte, o barulho ao meu redor me acordou. Tentei abrir os olhos, mais eu simplesmente não conseguia, tentei me levantar, mas parecia que meu corpo pesava toneladas e que eu estava pregada à cama, sendo assim eu apenas escutava tudo o que acontecia ao meu redor, e, as únicas coisas que eu conseguia distinguir eram: choro e desespero, pelo o que eu estava ouvindo, alguém havia morrido. Consegui ouvir minha mãe chorando e passos apressados, que deduzi serem as empregadas pelo barulho dos sapatos. Conseguia sentir alguém segurando minha mão esquerda, mas este eu sabia que era meu irmão caçula. Senti, também, algo apertando forte meu pulso direito, quando essa mão que apertava o meu pulso soltou o mesmo, pude ouvir claramente minha mãe chorando mais forte e meu irmão apertando cada vez mais minha mão esquerda, só então percebi que a pessoa a qual eu achava estar morta e causando toda aquela confusão era eu. Os passos apressados pararam, e Raphael havia largado minha mão. Se não fosse pelos soluços de minha mãe, eu poderia jurar que estava sozinha no meu quarto. Senti duas pessoas me pegando pelos braços e pelas pernas, e me tirando de minha cama ainda deitada. Fui colocada em uma superfície dura, e depois parecia que comecei a levitar, tirando o fato de que algo em minhas costas me segurava. Depois de algum tempo, fui colocada novamente em uma superfície sólida, mais fria que a anterior, e ali fiquei um bom tempo, e foi quando ouvi vozes novamente:
-Coitada, tão nova, e já morta. Nem se casou ainda, se bem que para isso já estava velha.
-Pobre madame, estava desconsolada por ter perdido a única filha...
Antes que o segundo homem conseguisse terminar a frase, ouvi berros ao longe. Logo em seguida, ouvi passos, provavelmente, dos dois homens que estavam conversando.
-É Raphael, o menino não parou até agora. Não quer sair do lado da irmã.
-Também pudera. Era a única pessoa mais próxima de sua idade que ele tinha contato. Vou tentar levá-lo embora. O Governador já foi comprar o caixão, o enterro será hoje mesmo, e temos que trocar a roupa dela.
-Pois bem, vá, que eu começo a trocá-la. A roupa está naquela bolsa, certo?
E então, o silêncio veio novamente. Isso era agonizante! Eu não podia ver ou falar ou sequer me mover, apenas ouvir tudo ao meu redor. Eu me sentia um vegetal com ouvidos. Senti o homem tirando a minha camisola, e logo em seguida, colocando uma peça de roupa em mim que parecia um vestido e o fazia com alguma dificuldade. A porta se abriu e fechou novamente. Eu não podia dizer se o homem que havia me trocado tinha saído, ou o outro homem que tinha ido afastar Raphael havia voltado.
“Então, eu realmente havia sido dada como morta. Será que o ódio que meu pai sentia de mim era tanto que ele fez algo para me deixar nesse estado? Se é que havia um modo de ele fazer isso.”
Enquanto eu ficava ali, deitada, especulando, ouvi novamente a porta ser aberta, e som de muitos passos.
-Podem por ali ao lado, já vamos colocá-la dentro dele.
Ouvi um baque oco do meu lado. Acho que nunca havia ouvido aquele barulho antes, mas havia ouvido um parecido, só que em menor intensidade, quando era pequena e meu irmão derrubou um porta-jóias de madeira que eu havia acabado de ganhar de minha mãe no meu aniversário. Então pensei que seria o caixão que foi colocado do meu lado. A idéia de ser presa eternamente debaixo de toneladas de terra e com uma cruz em cima foi se tornando cada vez real e cada vez mais perto de acontecer. Comecei a me lembrar de tudo o que eu já havia passado, mas nenhuma memória agradável veio à minha mente, ao pensar nisso, percebi que eu nunca tinha tido uma vida; era apenas uma prisioneira das vontades de meu pai, e isso me trouxe uma tristeza imensa, tão grande que meus olhos começaram a lacrimejar, e eu senti uma gota correndo delicadamente pela lateral do meu rosto. As pessoas da sala que estavam conversando, pararam, e eu entendi que elas haviam visto a minha lágrima.
-Como pode isso acontecer!? O médico do Governador nos confirmou que ela estava morta! Como pode estar chorando?
-Provavelmente é coisa do Diabo. Vamos colocá-la logo no caixão e levá-la daqui, antes que ela faça mais alguma coisa, ou pior.
-E-Eu não vou encostar na morta que chora não, você faz isso Nogueira.
-Que coragem, ein, Mesquita. Isso porque esse é o nosso trabalho.
-Mas eu nunca vi um morto chorar. Não chego perto dela nem que o próprio rei venha e me obrigue!
-Está certo, está certo. Venha você então, ai a traz, e me ajude.
Novamente fui carregada, mas dessa vez por um período de tempo muito curto, e fui colocada dentro do caixão. Agora era tarde de mais, toda a minha vida que eu ainda não havia vivido tinha se esgotado com apenas alguns pregos e martelos. A cada batida que davam na madeira para lacrá-la, mais o desespero tomava conta de mim, e quando essas cessaram, eu preferiria que tivessem me matado. Com minhas mãos sobre meu colo, fui carregada dentro do caixão por subidas e descidas até que finalmente pararam. Ao longe, eu podia ouvir uma voz masculina falando algo que eu não consegui entender. Enquanto tentava entendê-lo, comecei a ouvir batidas na tampa do caixão, e alguns pedaços de pó sobre mim. Estavam finalmente me enterrando. Eu queria gritar, falar, me mexer ou apenas abrir os olhos, mas nada disso era possível, eu continuava paralisada, se era isso que eu estava. O tempo em que eu fiquei presa ali dentro parecia interminável, até que, finalmente, eu consegui abrir os olhos e me mexer. Quando abri os olhos, consegui ver nitidamente as tábuas de madeira me cercando.Via, inclusive, as farpas que estavam se soltando das tábuas, mas o fato de eu estar enxergando tão bem em um lugar sem luz alguma não chamou minha atenção, foram vozes e barulhos indistinguíveis que vinham da superfície. Eu juntei todo o ar possível em meus pulmões e comecei a urrar, na inútil esperança de conseguir ser ouvida. Os barulhos iam aumentando gradativamente. Uma dor horrível tomou conta de mim, tão forte que eu queria me contorcer, mas, no espaço em que eu estava, isso era impossível. Levei minhas mãos ao estomago, e o pressionei o mais forte possível, mas de nada adiantou. Subitamente, algo bate na tampa do caixão, e logo, uma luz fraca entrou pela lateral do mesmo. Senti um cheiro adocicado que nunca havia sentido antes, um cheiro intoxicante e que me fez salivar.
-Porcaria! Droga! Diabos!
-O que aconteceu, Elias?!
As vozes dos homens foram diminuindo, até que viraram apenas sussurros. Aquele cheiro amaciou um pouco minha dor, e eu pude voltar a me mexer. A tampa do caixão estava solta o suficiente para que eu conseguisse abri-la, e me sentei. Meus pensamentos estavam nublados, e meu estomago voltava a doer. Tentei me levantar, mas me desequilibrei e cai. Olhando ao meu redor enquanto sentada, percebi que estava cercada por objetos em ouro e prata. Logo, deduzi que meus ‘salvadores’ eram, na verdade, ladrões de túmulos. Algo ácido subiu pelo meu estomago, inundando minha boca, e depois vi todo o meu jantar aparentando uma pasta na minha frente. Tentei me levantar novamente me apoiando nas bordas do caixão, e ao fazê-lo, me cortei em um dos pregos.
-Ai! Mas... que diabos é isto?
Quando olhei para o meu dedo, a ferida já havia cicatrizado, e, por sobre ela, uma pequena porção de um líquido negro se destacava. Completando meu dedo, havia algo branco e pontudo que, ao virar minha mão, descobri ser minha unha.
“Como minha unha está grande! Como pode ter crescido tanto em apenas uma noite?”
Fiquei a observar minhas mãos, procurando por uma explicação, mas não a achei. Um barulho me fez olhar para cima novamente, e vi os dois homens que pretendiam roubar meus pertences.
-Ande logo, Silva, nós ainda temos um trabalho para fazer! Foi apenas um corte no dedo. Ande logo!
-Estou indo, estou indo... Mais que porcaria. Porque os caixões têm que ser fechados desse jeito?
-O que acha de ser para que nós não consigamos chegar perto dos objetos valiosos que os ricos colocam lá dentro?
-Faz sentido.
Minhas pernas ainda estavam fracas. Elas tremeram e eu cai sentada mais uma vez. Quando olhei para cima, vi a cabeça dos dois homens a me olhar. Um deles estava com o dedo indicador na boca, e eu diria que era Silva. Ele era magro com cabelo escuro e curto, os olhos aparentavam serem castanhos também, mais era difícil dizer, já que estava escuro e a única luz que existia, era a da lua. O outro homem, Elias, era ainda mais magro com cabelo castanho e na altura dos ombros, mas um tom mais claro que o de Silva, não pude dizer qual a cor de seus olhos, pois ele forçava a vista talvez para conseguir me ver. Eu fiquei apenas esperando eles dizerem alguma coisa ou fizessem alguma coisa, mas ambos estavam paralisados pela surpresa ou pelo medo.
-Boa noite. Eu sou Ravena Vampir, filha do Governador. Podem me levar de volta para o castelo?
-Nós sabemos quem você é, mas... Você não estava morta? Nós viemos ao enterro, não é Silva?
O homem de cabelo curto balançou a cabeça positivamente, sem tirar o dedo machucado da boca.
-Eu sei do ocorrido, mas acho que foi apenas um mal entendido, ou algo parecido. Por favor, podem me levar de volta para o castelo?
-Bom, acho que não temos mais nada mesmo para fazer aqui. Mas, queremos ser pagos pela escolta, se assim posso chamar.
-Pois bem, podem pegar o que está neste caixão, que isto irá ser o pagamento. Agora, me ajudem a sair daqui.
Elias esticou um braço para me ajudar, e eu segurei a mão dele. Quando Silva tirou o dedo da boca, o cheiro que eu havia sentido anteriormente me invadiu. Eu fechei os olhos e inalei profundamente aquele cheiro.
-Que cheiro será esse? Vocês conseguem senti-lo? Ele tem um aroma tão doce e sedutor, mas não sei o que é.
Como os homens não respondiam, eu abri os olhos para encará-los. Assim que olhei seus rostos, vi medo, receio e pode-se dizer até um pouco de terror. Elias soltou minha mão e se afastou, eu não entendia nada o que estava acontecendo.
-O que houve? – Perguntei, mas eles não responderam. Apenas foram se afastando, até que Silva tropeçou e caiu sentado. Ainda de dentro do meu caixão, eu pude ver o dedo machucado dele e localizei a fonte daquele aroma que era melhor do que tudo que eu já havia sentido. O sangue pingava lentamente da ponta do dedo do homem e eu acompanhava com os olhos esse movimento, hipnotizada. Eu me apoiei na borda da minha cova, e me impulsionei para fora, pulando mais alto do que o esperado. Elias, que ainda estava de pé, caiu sentado também. Eu pousei suavemente no chão tocando apenas o joelho esquerdo e a mão direita no mesmo. Levantei-me e fiquei a olhar o sangue pingado, ao mesmo tempo em que inclinava a cabeça tentando entender porque aquela cena com aquele aroma me dava tanto prazer. Uma brisa leve soprou em minha direção, e pude sentir um novo cheiro. Um cheiro doce, mas um pouco azedo, e que também era muito prazeroso de se sentir. Fui andando lentamente na direção de Silva e ele ia tentando cada vez mais se afastar de mim, até que o alcancei, e ele parou. Eu me agachei do seu lado, puxei sua mão para mim, e fiquei olhando o sangue surgindo, e a veia por sob ele, pulsando. Lentamente, levei o dedo machucado para minha boca, e o lambi, fechando os olhos. Aquele gosto, que antes sempre me foi amargo, parecido com ferrugem, agora me era maravilhoso, e viciante. Eu abri os olhos, e olhei em seu rosto. O medo era nítido em sua cara. Senti um impulso percorrer todo o meu corpo, como se fosse uma corrente elétrica, e me lancei sobre o pescoço de Silva. Eu não sabia como, mais meus dentes perfuraram-lhe a pele, e eu sugava seu sangue compulsivamente, e ele descia em fartura pela minha garganta e se alojava deliciosamente em meu estomago. Eu continuei a sugar-lhe o sangue de olhos fechados e ignorando o fato de ele estar se debatendo e gritando em baixo de mim. Quanto mais sangue eu sugava, mais ele deitava no chão, e eu ia deitando em cima dele, até que ficamos na horizontal, até que, por mais que eu sugasse, nenhum sangue saia dos furos feitos por mim em seu pescoço. Eu tirei minha boca dele ao mesmo tempo em que abria os olhos, me apoiando com a mão esquerda no chão, e parando ofegante. Aos poucos fui me sentando do lado do corpo de Silva, e, quando me sentei, olhei para cima, ainda aproveitando aquele momento completamente prazeroso que estava passando lentamente. Quando olhei para baixo, não havia sinal de Elias, e então fiquei em pé.
-Pelo visto o seu amigo fugiu, sabe-se lá do que. Pode me levar para o castelo, Silva.
Não houve resposta. Um choque passou pela minha mente, e eu percebi o que havia acontecido. Eu havia matado um homem. Ao olhar para baixo, vi apenas o corpo sem vida do ladrão de túmulos, todo esbranquiçado, exceto pelo pequeno traço escarlate que descia suavemente pelo seu pescoço. Comecei a olhar ao redor desesperadamente, talvez para pedir ajuda, ou simplesmente para saber se alguém havia visto o que eu tinha feito, mas eu estava sozinha. De repente, um barulho cortou o silêncio mórbido daquele momento. O barulho de palmas.
-Ora, ora. Parece que eu fiz a escolha certa em te transformar no que é agora. Espero que tenha gostado do presente. – O homem que eu vi em meu sonho apontou para o corpo estendido no chão — Sim, eu o fiz vir até aqui. É uma pena que aquele outro tenha fugido, mas ninguém há de acreditar nele. Afinal, você morreu, não é mesmo?
-Quem é você e o que quer dizer falando que eu morri?! Eu estou em pé e respirando! Não posso estar morta!
-Você está morta, e nada pode mudar isso! Principalmente porque você acabou de ‘assinar o seu contrato’, por assim dizer. Uma vez que tomou sangue humano, é impossível voltar atrás.
Enquanto falava, o homem foi se aproximando lentamente, e eu pude enxergá-lo com mais detalhes. Calçava sapatos pretos, de ponta quadrada, uma calça marrom, que aparentava ser de veludo, e uma camisa branca, simples, com mangas compridas e um babado na gola. Na mão, carregava um sobretudo preto por sobre o ombro direito. Tinha cabelos pretos, curtos e emaranhados, o que o dava uma aparência sexy e longe de suja ou esculachada. Seu rosto era fino comprido e tinha uma pele muito branca, que era realçada pelos seus olhos pretos e muito profundos e misteriosos.
-Meu nome não é importante, princesa, e não vai precisar dele para me chamar. Basta me ver em sua mente, que eu hei de aparecer. Você é a única de sua raça, mas vejo que, em breve, terá companhia. Há somente duas coisas que precisa saber. Primeiro, quando o sol nascer, será a última vez que ira vê-lo, pois sua pele é muito sensível, assim como sua visão, e, depois de hoje, nunca mais irá conseguir andar na luz do dia. Segundo, o sangue humano é fundamental para a sua existência, com o passar dos anos, matar vai se tornar normal para você. E com um último aviso, eu parto, cuidado com o que brilha, se antes isso lhe trazia segurança, agora traz a morte.
Quando o homem acabou de falar, ele simplesmente desapareceu, deixando para traz um rastro de fumaça. “O que ele quis dizer com isso? O que brilha e me traz segurança? Se esta é a última vez que eu hei de ver o sol, como devo passar esse dia? Se ele diz que eu morri, não devo aparecer para ninguém, pois isso seria estranho e desconfortável. No meu sonho ele disse que isso duraria a eternidade. Bom, acho melhor eu ir andando, antes que me vejam ao lado de um cadáver, se bem que não seria tão estranho, afinal, estou morta também, não é?”.
Eu comecei a andar lentamente em direção a lugar nenhum, sem perceber que havia alguém nas sombras me observando.
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